
Lembro de um dia em que tive de parar a aula no seminário teológico em que eu lecionava porque uma aluna pentecostal se referiu à igreja presbiteriana como “sorveteriana”, querendo dizer que era espiritualmente fria. Decidi interromper a lição para conversar com a turma sobre o mal que esse tipo de pensamento representa para o Corpo de Cristo. De lá para cá, infelizmente, esse tipo de atitude absurda permanece um hábito entre nós, cristãos. Pior: tem proliferado. Canso de ver membros de igrejas cessacionistas fazendo piadas infelizes com os pentecostais, por exemplo, por causa dos “labaxúrias” (como alguns se referem, de modo jocoso, à crença na atualidade do dom de variedade de línguas), e de ver pentecostais atacando quem não crê no que creem, com igual falta de amor fraterno.

Você poderia dizer: “Ah, Zágari, essa discussão é antiga, para que voltar a isso?”. Minha resposta seria: enquanto o problema persistir, devemos perseverar na pregação do evangelho que não segrega irmãos devido à cor de sua pele teológica. No dia em que o problema acabar, paramos de denunciar o problema e de chamar os que cometem esse pecado ao arrependimento.
Quem tem esse hábito deplorável de atacar irmãos em Cristo que cultuam ou creem de modo diferente de si em aspectos periféricos da fé incorre em um grave perigo: mandar para o inferno dos hereges quem Deus não mandou. Quem sou eu para afirmar que fulano é salvo mas beltrano não é se confessa Cristo como Salvador, concorda com todo o credo apostólico, mas erra em um ou outro ponto secundário da fé? Seria eu petulante e arrogante a esse ponto? Será que os arraigados defensores da “sã doutrina” são capazes de afirmar que não cometem absolutamente nenhum erro em suas crenças? Seriam inerrantes? Porém, se tropeçam em um só ponto da lei, não estariam no mesmo barco que quem tropeça em outro ponto?

Assisti na Internet à pregação de um pastor em que ele dizia que uma pessoa realmente salva por Deus acabaria migrando para uma igreja que seguia a linha teológica em que ele cria. Fiquei chocado, pois, em outras palavras, ele estava dizendo que nenhum ser humano que não seguia a sua linha denominacional era salvo. Logo, atribuía ao diabo aquilo que Deus fez. Afirmou, nas entrelinhas, que o sangue de Cristo não foi derramado por milhares por quem ele de fato derramou. Fico pensando como Deus vê isso…
Recebi um texto em que o autor dizia que os pentecostais são “blasfemadores do Espírito Santo”. Quase chorei ao ler isso, pois essa pessoa cria que milhões de indivíduos por quem Deus morreu na cruz na verdade vão para o inferno – simplesmente porque creem na atualidade dos dons, algo que não é nem de longe um ponto central da fé. Talvez essa pessoa não perceba, mas, ao fazer isso, anulou a obra da graça na vida de absolutamente todos os cristãos pentecostais (detalhe: eu disse cristãos). Ao acusar unanimemente os pentecostais de blasfemadores, ela mandou milhões de eleitos do Senhor para o inferno – sem direito a perdão. O mesmo vale para os pentecostais que criticam o que chamam de “frieza espiritual” dos membros de igrejas históricas e litúrgicas – onde há tanta devoção sincera a Deus e tantos corações profundamente derramados ao Senhor! Afinal, diametralmente, não crer na atualidade dos dons não faz de ninguém menos cristão.
Enquanto isso, o diabo ri, se divertindo com os cristãos que, em defesa da “sã doutrina”, falam e agem completamente fora da sã doutrina.

Minha oração é que tenhamos mais temor e amor e menos arrogância teológica. Crer em uma verdade não nos dá o direito de atacar pessoas, como Paulo fazia em sua defesa errada de uma doutrina não tão sã assim. Queiram ou não, o amor ainda é o cerne do evangelho – inclusive o amor por quem cremos estar errado. Lembra do amor pelos inimigos? Oro que todo aquele que, virulentamente ou sarcasticamente, espanca verbalmente quem pertence a Cristo venha a compreender que não se pode lutar contra o erro… errando. Como me ensinou minha mãe desde criança, “um erro não justifica o outro”.
Precisamos agir em prol do que cremos ser a verdade, sempre. Sempre. Sempre. Defender a verdade não é o problema. Apologética é indispensável. O problema é o modo como fazemos isso – especialmente com outros cristãos que cremos estar errando. Se nos consideramos cristãos, nossas armas têm de ser a paz, a mansidão e o cuidado com aqueles de quem discordamos. Afinal, qual é nosso objetivo? Qual é o seu objetivo? Arrebentar com tudo? Mandar quem cremos estar errados para o inferno? Amar a Deus sem amar o próximo, o que a Bíblia afirma ser impossível? Ou conduzir quem erra, com paciência e mansidão, a enxergar seu erro e a abraçar o acerto? Se nossa finalidade é a restauração, devemos focar não em atacar, mas em usar bons argumentos para, com mansidão, abrir os olhos de quem está errado.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari < facebook.com/mauriciozagariescritor >
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