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quinta-feira, 16 de abril de 2026

A Vida de Martinho Lutero

 

Martinho Lutero


Por Orlando Boyer

No cárcere, sentenciado pelo Papa a ser queimado vivo, João Huss disse: “Podem matar um ganso (na sua língua, ‘huss’ é ganso ), mas daqui a cem anos, Deus suscitará um cisne que não poderão queimar” .

Enquanto caía a neve, e o vento frio uivava como fera em redor da casa, nasceu esse “cisne”, em Eisbelen, Alemanha. No dia seguinte, o recém-nascido era batizado na Igreja de São Pedro e São Paulo. Sendo dia de São Martinho, recebeu o nome de Martinho Lutero.

Cento e dois anos depois de João Huss expirar na fogueira, o “cisne” afixou, na porta da Igreja em Wittenberg, as suas noventa e cinco teses contra as indulgências, ato que gerou a Grande Reforma.

Para dar o valor devido à obra de Martinho Lutero, é necessário notar algo das trevas e confusão dos tempos em que nasceu.

Calcula-se que, pelo menos, um milhão de albigenses foram mortos na França, a fim de cumprir a ordem do Papa, para que esses “hereges” fossem cruelmente exterminados. Wiclif, “a Estrela da Alva da Reforma”, traduzira a Bíblia para a língua inglesa. João Huss, discípulo de Wiclif, morrera na fogueira, na Boêmia, cantando hinos, nas chamas, até o último suspiro. Jerônimo de Praga, companheiro de Huss e também erudito, sofrera o mesmo suplício, pedindo ao Senhor que perdoasse seus pecados. João Wessália, notável pregador de Erfurt, fora preso por ensinar que a salvação é pela graça; seu frágil corpo fora metido entre ferros, onde morreu quatro anos antes do nascimento de Lutero. Na Itália, quinze anos depois de Lutero nascer, Savonarola, homem dedicado a Deus e fiel pregador da Palavra, foi enforcado e seu corpo reduzido a cinzas, por ordem da Igreja Romana.

Em tempos assim, nasceu Martinho Lutero. Como muitos dos demais célebres entre os homens, era de família pobre.

Os pais de Martinho, para vestir, alimentar e educar seus sete filhos, esforçaram-se incansavelmente. O pai trabalhava nas minas de cobre; a mãe, além do serviço doméstico, trazia lenha nas costas, da floresta.

O pai de Martinho, satisfeitíssimo pelos trabalhos escolares do filho, na vila onde morava, mandou-o, aos treze anos, para a escola franciscana na cidade de Magdeburgo.

Para conseguir a sua subsistência em Magdeburgo, Martinho era obrigado a esmolar pelas ruas, cantando canções de porta em porta. Seus pais, achando que em Eisenach passaria melhor, mandaram-no para estudar nessa cidade, onde moravam parentes de sua mãe. Porém esses parentes não o auxiliaram, e o moço continuou a mendigar o pão.

Quando estava a ponto de abandonar os estudos, para trabalhar com as mãos, certa senhora de recursos, D. Úrsola Cota, atraída por suas orações na igreja e comovida pela humilde maneira de receber quaisquer restos de comida, na porta, acolheu-o entre a família. Pela primeira vez Lutero sentira fartura. Mais tarde, ele referia-se à cidade de Eisenach como a “cidade bem amada”. Quando Lutero se tornou famoso, um dos filhos da família Cota cursava em Wittenberg, onde Lutero o recebeu na sua casa.

Logo depois, os pais de Martinho alcançaram certa abastança. O pai alugou um forno para fundição de cobre e depois passou a possuir mais dois. Foi eleito vereador na sua cidade e começou a fazer planos para educar seus filhos.

Aos dezoito anos, Martinho ansiava estudar numa universidade. Seu pai, reconhecendo a idoneidade do filho, enviou-o a Erfurt, o centro intelectual do país, onde cursavam mais de mil estudantes. O moço estudou com tanto afinco que, no fim do terceiro semestre, obteve o grau de bacharel de filosofia. Com a idade de vinte e um anos, alcançou o segundo grau acadêmico e o de doutor em filosofia. Os estudantes, professores e autoridades prestaram-lhe significativa homenagem.

Seu pai, desejoso de que seu filho se formasse em direito e se tornasse célebre, comprou-lhe a caríssima obra: “Corpus Juris”. Mas a alma de Lutero suspirava por Deus, acima de todas as coisas. Vários acontecimentos influenciaram-no a entrar na vida monástica, passo que entristeceu profundamente seu pai e horrorizou seus companheiros de universidade.

Durante o ano de noviciato, antes de Lutero ser feito monge, os seus amigos fizeram de tudo para dissuadi-lo de confirmar esse passo. Os companheiros, que convidara para cearem com ele, quando anunciou a sua intenção de ser monge, ficaram no portão do convento dois dias, esperando que ele voltasse. Seu pai, vendo que seus rogos eram inúteis e que todos os seus anelantes planos acerca do filho iam fracassar, quase enlouqueceu.

Quão grande, porém, era sua ilusão. Depois de procurar crucificar a carne pelos jejuns prolongados, pelas privações mais severas, e com vigílias sem conta, achou que, embora encarcerado em sua cela, tinha ainda de lutar contra os maus pensamentos. A sua alma clamava: “Dá-me santidade ou morro por toda a eternidade; leva-me ao rio de água pura e não a estes mananciais de águas poluídas; traze-me as águas da vida que saem do trono de Deus!”;

Certo dia Lutero achou, na biblioteca do convento, uma velha Bíblia latina, presa à mesa por uma cadeia. Achara, enfim, um tesouro infinitamente maior que todos os tesouros literários do convento. Ficou tão embevecido que, durante semanas inteiras, deixou de repetir as orações diurnas da ordem. Então, despertado pelas vozes da sua consciência, arrependeu-se da sua negligência : era tanto o remorso, que não podia dormir. Apressou-se a reparar o seu erro: fê-lo com tanto anseio que não se lembrava mais de alimentar-se. Nessa altura, o vigário geral da ordem agostiana, Staupitz, visitou o convento. Era homem de grande discernimento, e devoção enraizada; compreendeu logo o problema do jovem monge; ofereceu-lhe uma Bíblia na qual Lutero leu que o “justo viverá da fé. Por quanto tempo tinha ele anelado : “Oh ! se Deus me desse um livro destes só para mim!” – e agora o possuía !

Na leitura da Bíblia achou grande consolação, mas a obra não poderia completar-se em um só dia. Ficou mais determinado do que nunca a alcançar paz para a sua alma, na vida monástica, jejuando e passando noites a fio sem dormir. Gravemente enfermo, exclamou : “Os meus pecados ! Os meus pecados !”. Apesar da sua vida ter sido livre de manchas, como ele afirmava e outros testificavam, sentia sua culpa perante Deus, até que um velho monge lhe lembrou uma palavra do Credo: “Creio na remissão dos pecados”. Viu então que Deus não somente perdoara os pecados de Daniel e de Simão Pedro, mas também os seus. Pouco tempo depois destes acontecimentos, Lutero foi ordenado padre.

Depois de completar vinte e cinco anos de idade, Lutero foi nomeado para a cadeira de filosofia em Wittenberg, para onde se mudou para viver no convento da sua ordem. Porém a sua alma anelava pela Palavra de Deus, e pelo conhecimento de Cristo. No meio das ocupações de professorado, dedicou-se ao estudo das Escrituras, e no primeiro ano conquistou o grau de “baccalaureus ad biblia”. Sua alma ardia com o fogo dos céus; de todas as partes acorriam multidões para ouvir os seus discursos, os quais fluíam abundantemente e vivamente do seu coração, sobre as maravilhosas verdades reveladas nas Escrituras.

Um dos pontos mais iluminantes da biografia de Lutero é a sua visita a Roma. Surgiu uma disputa renhida entre sete conventos dos agostianos e decidiram deixar os pontos de dissidências para o Papa resolver. Lutero sendo o homem mais hábil, mais eloqüente e altamente apreciado e respeitado por todos que o conheciam, foi escolhido para representar seu convento em Roma. Fez a viagem a pé, acompanhado de outro monge. Em Roma, visitou os vários santuários e os lugares de peregrinação. Numa certa ocasião, subindo a Santa Escada de joelhos, desejando a indulgência que o chefe da igreja prometia por esse ato, ressoaram nos seus ouvidos como voz de trovão, as palavras de Deus: “O justo viverá da fé”. Lutero ergueu-se e saiu envergonhado.

Depois da corrupção generalizada que viu em Roma, a sua alma aderiu à Bíblia mais do que nunca. Ao chegar novamente ao convento, o vigário insistiu em que desse os passos necessários para obter o título de doutor, com o qual teria o direito de pregar. Lutero, porém, reconhecendo a grande responsabilidade perante Deus e não querendo ceder, disse: “Não é de pouca importância que o homem fale em lugar de Deus….Ah ! Sr. Dr., fazendo isto, me tirais a vida; não resistirei mais que três meses”. O vigário geral respondeu-lhe : “Seja assim, em nome de Deus, pois o Senhor Deus também necessita nos céus de homens dedicados e hábeis”.

O coração de Lutero, elevado à dignidade de doutor em teologia, abrasava-se ainda mais do desejo de conhecer as Sagradas Escrituras e foi nomeado pregador da cidade de Wittenberg.

Acerca da grande transformação da sua vida, nesse tempo, ele mesmo escreve: “Apesar de viver irrepreensivelmente, como monge, a consciência perturbada me mostrava que era pecador perante Deus. Assim odiava a um Deus justo, que castiga os pecadores…Senti-me ferido de consciência, revoltado intimamente, contudo voltava sempre para o mesmo versículo ( Rm 1: 17 ), porque queria saber o que Paulo ensinava. Contudo, depois de meditar sobre esse ponto durante muitos dias e noites, Deus, na sua graça, me mostrou a palavra : ‘ O justo viverá da fé ‘. Vi então que a justiça de Deus, nessa passagem, é a justiça que o homem piedoso recebe de Deus pela fé, como dádiva”.

A alma de Lutero dessa forma saiu da escravidão; ele mesmo escreveu assim: “Então me achei recém-nascido e no Paraíso. Todas as escrituras tinham para mim outro aspecto; perscrutava-as para ver tudo o que ensinavam sobre a ‘ justiça de Deus ‘ . Antes, estas palavras eram-me detestáveis; agora as recebo com o mais intenso amor. A passagem me servia como a porta do Paraíso”.

Depois dessa experiência, pregava diariamente; em certas ocasiões, pregava até três vezes ao dia, conforme ele mesmo conta: “O que o pasto é para o rebanho, a casa para o homem, o ninho para o passarinho, a penha para a cabra montês, o arroio para o peixe, a Bíblia é para as almas fiéis”. A luz do Evangelho, por fim, tomara o lugar das trevas e a alma de Lutero abrasava por conduzir os seus ouvintes ao Cordeiro de Deus, que tira todo o pecado.

Lutero levou o povo a considerar a verdadeira religião, não como uma mera profissão, ou sistema de doutrinas, mas como vida em Deus. A oração não era mais um exercício sem sentido, mas o contato do coração com Deus que cuida de nós com um amor indizível. Nos seus sermões, Deus revelou o seu próprio coração a milhares de ouvintes, por meio do coração de Lutero.

A fama do jovem monge espalhou-se até longe. Entretanto, sem o reconhecer, enquanto trabalhava incansavelmente para a igreja, já havia deixado o rumo liberal que ela seguia em doutrinas e práticas.

“Em outubro de 1517, Lutero afixou a porta da Igreja do Castelo em Wittenberg, as suas 95 teses, o teor das quais é que Cristo requer o arrependimento e a tristeza pelo pecado e não a penitência”. Lutero afixou as teses ou proposições para um debate público, na porta da Igreja, como era costume nesse tempo. Mas as teses, escritas em latim, foram logo traduzidas em alemão, holandês e espanhol. Antes de decorrido um mês, para a surpresa de Lutero, já estavam na Itália, fazendo estremecer os alicerces do velho edifício de Roma. Foi desse ato de afixar as 95 teses na Igreja de Wittenberg, que nasceu a Reforma Protestante, isto é, que tomou forma o grande movimento de almas que em todo o mundo ansiavam voltar para a fonte pura, a Palavra de Deus. Contudo Lutero não atacara a Igreja Romana, mas antes, pensou fazer defesa do Papa contra os vendedores de indulgências.

Em agosto de 1518, Lutero foi chamado a Roma para responder a uma denúncia de heresia. Contudo, o eleitor Frederico não consentiu que fosse levado para fora do país; assim Lutero foi intimado a apresentar-se em Augsburgo. “Eles te queimarão vivo”, insistiram seus amigos. Lutero, porém, respondeu resolutamente: “Se Deus sustenta a causa, ela será sustentada”.

A ordem do núncio do Papa em Augsburgo foi: “Retrata-se ou não voltará daqui”. Contudo Lutero conseguiu fugir, passando por uma pequena cancela no muro da cidade, na escuridão da noite. Ao chegar de novo em Wittenberg, um ano depois de afixar as teses, era o homem mais popular em toda a Alemanha. Não havia jornais nesse tempo, mas fluíam da pena de Lutero respostas a todos os seus críticos para serem publicadas em folhetos. O que escreveu dessa forma, hoje seriam cem volumes.

Quando a bula de excomunhão, enviada pelo Papa, chegou em Wittenberg, Lutero respondeu com um tratado dirigido ao Papa Leão X, exortando-o, no nome do Senhor, a que se arrependesse. A bula do Papa foi queimada fora do muro da cidade de Wittenberg, perante grande ajuntamento do povo.

Porém, o imperador Carlos V, que ia convocar sua primeira Dieta na cidade de Worms, queria que Lutero comparecesse para responder, pessoalmente, aos seus acusadores. Os amigos de Lutero insistiram em que recusasse ir. “Não fora João Huss entregue a Roma para ser queimado, apesar da garantia de vida por parte do imperador?!”. Mas em resposta a todos que se esforçavam por dissuadi-lo de comparecer perante seus terríveis inimigos, Lutero, fiel a chamada de Deus, respondeu : “Ainda que haja em Worms, tantos demônios como quantas sejam as telhas nos telhados, confiando em Deus, eu aí entrarei”. Depois de dar ordens acerca do trabalho, no caso de ele não voltar, partiu.

Na sua viagem para Worms, o povo afluía em massa para ver o grande homem que teve coragem de desafiar a autoridade do Papa. Em Mora, pregou ao ar livre, porque as igrejas não mais comportavam as multidões que queriam ouvir seus sermões. Ao avistar as torres das igrejas de Worms, levantou-se na carroça em que viajava e cantou o seu hino, o mais famoso da Reforma: ” Ein Feste Berg “, isto é : “Castelo forte é o nosso Deus”. Ao entrar, por fim, na cidade, estava acompanhado de uma multidão de povo muito maior do que fora ao encontro de Carlos V . No dia seguinte foi levado perante o imperador, ao lado do qual se achavam o delegado do Papa, seis eleitores do império, vinte e cinco duques, oito margraves, trinta cardeais e bispos, sete embaixadores, os deputados de dez cidades e grande número de príncipes, condes e barões.

Sabendo que tinha de comparecer perante uma das mais imponentes assembléias de autoridades religiosas e civis de todos os tempos, Lutero passou a noite anterior de vigília. Prostrado com o rosto em terra, lutando com Deus, chorando e suplicando.

Quando, na assembléia, o núncio do Papa exigiu de Lutero, perante a augusta assembléia, que se retratasse, ele respondeu : “Se não me refutardes pelo testemunho das Escrituras, ou por argumentos – desde que não creio somente nos papas e nos concílios, por ser evidente que já muitas vezes se enganaram e se contradisseram uns aos outros – a minha consciência tem de ficar submissa à Palavra de Deus. Não posso retratar-me, nem me retratarei de qualquer coisa, pois não é justo nem seguro agir contra a consciência. Deus me ajude ! Amém”.

Apesar de os papistas não conseguirem influenciar o imperador a violar o salvo-conduto, para que pudesse queimar na fogueira o assim chamado “herege”, Lutero teve de enfrentar outro grave problema. O edito de excomunhão entraria imediatamente em vigor; Lutero por causa da excomunhão, era criminoso e, ao findar o prazo do seu salvo-conduto, devia ser entregue ao imperador; todos os seus livros deviam ser apreendidos e queimados; o ato de ajudá-lo em qualquer maneira era crime capital.

Mas para Deus é fácil cuidar dos seus filhos. Lutero, regressando a Wittenberg, foi repentinamente rodeado num bosque por um bando de cavaleiros mascarados que, depois de despedirem as pessoas que o acompanhavam, conduziram-no, alta noite, ao castelo de Wartburgo, perto de Eisenach. Isto foi um estratagema do príncipe de Saxônia para salvar Lutero dos inimigos que planejavam assassiná-lo antes de chegar a casa. No castelo, Lutero passou muitos meses disfarçado; tomou o nome de cavaleiro Jorge e o mundo o considerava morto. Contudo, no seu retiro, livre dos inimigos, foi-lhe concedido a liberdade de escrever, e o mundo logo soube, pela grande quantidade de literatura, que essa obra saía da sua pena e que, de fato, Lutero vivia. O reformador conhecia bem o hebraico e o grego e em três meses tinha vertido todo o Novo Testamento para o alemão – em poucos meses mais a obra estava impressa e nas mãos do povo. Cem mil exemplares foram vendidos, em quarenta anos, além das cinqüenta e duas edições impressas em outras cidades. Era circulação imensa para aquele tempo, mas Lutero não aceitou um centavo de direitos. A maior obra de toda a sua vida, sem dúvida, fora de dar ao povo alemão a Bíblia na sua própria língua – depois de voltar a Wittenberg. O seu êxito em traduzir as Sagradas Escrituras para o uso dos mais humildes, verifica-se no fato de que, depois de quatro séculos, sua tradução permanece como a principal.

Depois de abandonar o hábito de monge, Lutero resolveu deixar por completo a vida monástica, casando-se com Catarina von Bora, freira que também saíra do claustro, por ver que tal vida é contra a vontade de Deus. O vulto de Lutero sentado ao lume, com a esposa e seis filhos que amava ternamente, inspira os homens mais que o grande herói ao apresentar-se perante o legado em Augsburgo.

Nas suas meditações sobre as Escrituras, muitas vezes se esquecia das refeições. Ao escrever o comentário sobre o Salmo 23, passou três dias no quarto comendo somente pão e sal. Quando a esposa chamou um serralheiro e quebraram a fechadura, acharam-no escrevendo, mergulhado em pensamentos e esquecido de tudo em redor.

É difícil concebermos a magnitude das coisas que devemos atualmente a Martinho Lutero. O grande passo que deu para que o povo ficasse livre para servir a Deus, como Ele mesmo ensina, está além da nossa compreensão. Era grande músico e escreveu alguns dos hinos mais espirituais cantados atualmente. Compilou o primeiro hinário e inaugurou o costume de todos os assistentes aos cultos cantarem juntos. Insistiu em que não somente os do sexo masculino, mas também os do feminino fossem instruídos, tornando-se, assim, o pai das escolas públicas. Antes dele, o sermão nos cultos era de pouca importância. Mas Lutero fez do sermão a parte principal do culto. Ele mesmo servia de exemplo para acentuar esse costume: era pregador de grande porte. Considerava-se como sendo nada; a mensagem saía-lhe do íntimo do coração: o povo sentia a presença de Deus. Em Zwiekau pregou a um auditório de 25 mil pessoas na praça pública.

Calcula-se que escreveu 180 volumes na língua materna e quase um número igual no latim. Apesar de sofre de várias doenças, sempre se esforçava dizendo: “Se eu morrer na cama será uma vergonha para o Papa”.

Os homens geralmente querem atribuir o grande êxito de Lutero à sua extraordinária inteligência e aos seus destacados dons. O fato é que Lutero também tinha o costume de orar horas a fio. Dizia que se não passasse duas horas de manhã orando, recearia que Satanás ganhasse a vitória sobre ele durante o dia. Certo biógrafo seu escreveu : “O tempo que ele passa em oração, produz o tempo para tudo que faz. O tempo que passa com a Palavra vivificante enche o coração até transbordar em sermões, correspondência e ensinamentos”.

Encontra-se o seguinte na História da Igreja Cristã, por Souer, Vol, 3, pág. 406 : “Martinho Lutero profetizava, evangelizava, falava línguas e interpretava; revestido de todos os dons do Espírito”. [Nota do site: Esta informação não é verdadeira. Não há nada, seja em seus escritos ou biografias confiáveis, que possa sequer supor isso. Pelo contrário, em seus escritos encontramos frases como esta: “Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, nem sonhos nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida quanto para a que há de vir”].

Nos seus sessenta e dois anos pregou seu último sermão sobre o texto: “Ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”. No mesmo dia escreveu para a sua querida Catarina : “Lança o teu cuidado sobre o Senhor, e Ele te susterá. Amém”. Isso foi na última carta que escreveu. Vivia sempre esperando que o Papa conseguisse executar a repetida ameaça de queimá-lo vivo. Contudo não era essa a vontade de Deus : Cristo o chamou enquanto sofria dum ataque do coração, em Eisleben, cidade onde nascera .

São estas as últimas palavras de Lutero : “Vou render o espírito”. Então louvou a Deus em alta voz : “Oh! meu Pai celeste! meu Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, em quem creio e a quem preguei e confessei, amei e louvei! Oh! meu querido Senhor Jesus Cristo, encomendo-te a minha pobre alma. Oh! meu Pai celeste! em breve tenho de deixar este corpo, mas sei que ficarei eternamente contigo e que ninguém me pode arrebatar das tuas mãos”. Então, depois de recitar João 3:16 três vezes, repetiu as palavras: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito, pois tu me resgataste, Deus fiel”. Assim fechou os olhos e adormeceu.

Um imenso cortejo de crentes que o amavam ardentemente, com cinqüenta cavaleiros à frente, saiu de Eisleben para Wittenberg; passando pela porta da cidade onde o reformador queimara a bula de excomunhão, entrou pelas portas da Igreja onde, há vinte e nove anos, afixara suas 95 teses. No culto fúnebre, Bugenhangen, o pastor, e Melancton, inseparável companheiro de Lutero, discursaram. Depois abriram a sepultura, preparada ao lado do púlpito, e ali depositaram o corpo.

Quatorze anos depois, o corpo de Melancton achou descanso do outro lado do púlpito. Em redor dos dois, jazem os restos mortais de mais de noventa mestres da universidade.

As portas da Igreja do Castelo, destruídas pelo fogo no bombardeio de Wittenberg em 1760, foram substituídas por portas de bronze em 1812, nas quais estão gravadas as 95 teses. Contudo, este homem que perseverou em oração, deixou gravadas, não no metal que perece, mas em centenas de milhões de almas imortais, a Palavra de Deus que dará fruto para toda a eternidade

Fonte: Heróis da Fé, Editora CPAD.


A confecção dos elementos que definiam os limites de acesso no Tabernáculo

Meditações em Êxodo

 O texto de Êxodo 36:35-38 detalha a confecção dos elementos que definiam os limites de acesso e os níveis de santidade no Tabernáculo: o véu interno e o reposteiro da entrada. Enquanto as tábuas formavam a carcaça rígida, estas peças de tecido representavam a transição entre o mundo exterior e a glória de Deus. A construção destes itens revela que a jornada para a presença divina é marcada por ordem, beleza artística e uma profunda reverência ao sagrado.

No primeiro parágrafo, observamos a criação do véu do Lugar Santíssimo, feito de linho fino retorcido e fios de azul, púrpura e carmesim, com querubins bordados com maestria. Este véu não era uma simples cortina, mas uma barreira visual e espiritual que separava o Lugar Santo do Lugar Santíssimo, onde repousava a Arca. Para a Igreja, ele simboliza a inacessibilidade de Deus devido ao pecado, lembrando que a glória plena do Criador é protegida pela Sua santidade e guardada por seres celestiais.

O segundo ponto destaca a sustentação do véu, que era pendurado em quatro colunas de madeira de acácia revestidas de ouro, sobre quatro bases de prata. A combinação do ouro (divindade) com a prata (redenção) reforça que o acesso ao Pai é estabelecido sobre fundamentos divinos e redentores. Essas colunas sustentavam o peso de uma separação que, séculos depois, seria removida na morte de Cristo, quando o véu se rasgou de alto a baixo, abrindo o caminho para todos os que creem em Jesus.

No terceiro parágrafo, descreve-se o reposteiro (ou cortina) da entrada da tenda. Embora utilizasse as mesmas cores nobres e o linho fino, o texto o descreve como "obra de bordador". Esta era a primeira porta de entrada para o serviço sacerdotal, simbolizando o início da caminhada de consagração. Ela ensina que há um processo de aproximação: antes de contemplar os mistérios do Lugar Santíssimo, o servo deve passar pela porta do serviço diário e da dedicação fiel no santuário.

O quarto parágrafo foca nas cinco colunas do reposteiro e seus ganchos de ouro. Diferente do véu interno, cujas bases eram de prata, as bases desta entrada externa eram de bronze. Na tipologia bíblica, o bronze está associado ao julgamento e à purificação. Esse detalhe técnico indica que o homem, ao se aproximar da habitação divina, encontrava primeiro o bronze, lembrando-nos de que a entrada na presença de Deus exige que o pecado seja tratado e que a justiça divina seja satisfeita antes da comunhão.

Por fim, concluímos que Êxodo 36:35-38 nos apresenta o Tabernáculo como um ambiente de acessos fundamentados e ordenados. A excelência do trabalho nestas cortinas e colunas mostra que Deus habita na beleza, mas também no limite do respeito sagrado. Para o cristão atual, essas estruturas são um memorial de que a nossa entrada na presença de Deus foi conquistada por bases sólidas e que o serviço ao Senhor deve ser feito com a mesma precisão e reverência que os artesãos dedicaram a cada gancho e coluna do santuário.

Pr. Eli Vieira

A estrutura de sustentação do Tabernáculo



 O texto de Êxodo 36:20-34 descreve a montagem da estrutura de sustentação do Tabernáculo, focando nas tábuas de madeira de acácia e em suas bases de prata. Esta etapa da construção revela que, embora as cortinas trouxessem a beleza espiritual, eram as tábuas que conferiam a estabilidade necessária para que o santuário permanecesse firme em meio às variações do deserto, simbolizando a força e a integridade que devem sustentar a presença de Deus.

No primeiro parágrafo, destaca-se o uso da madeira de acácia, uma matéria-prima conhecida por sua durabilidade e resistência à decomposição. As tábuas eram colocadas verticalmente, cada uma com medidas precisas, representando a retidão que se espera daqueles que compõem a estrutura viva da obra de Deus. Para a Igreja, isso ensina que a base do serviço cristão deve ser feita de materiais "incorruptíveis" — um caráter provado e uma ética inabalável que não se degradam com o tempo ou com as circunstâncias externas.

O segundo ponto aborda a estabilidade das bases de prata. Cada tábua possuía dois encaixes que se fixavam em duas bases de prata, totalizando uma fundação sólida e preciosa. A prata, na tipologia bíblica, frequentemente aponta para a redenção. Assim, a lição aqui é que qualquer estrutura espiritual só pode permanecer de pé se estiver fundamentada no preço pago pela redenção. Sem uma base teológica e espiritual sólida, a beleza das "cortinas" não teria onde se apoiar, reforçando a importância dos fundamentos da fé.

No terceiro parágrafo, observamos o papel das travessas de madeira. Cinco travessas de cada lado uniam as tábuas, passando por argolas de ouro, garantindo que a estrutura não se separasse. A travessa central, que passava pelo meio das tábuas de uma extremidade à outra, era o elo definitivo de coesão. Isso simboliza a unidade do Corpo de Cristo: são os laços de amor e o Espírito Santo que "atravessam" os indivíduos, unindo diferentes "tábuas" em uma única parede impenetrável contra o mal.

O quarto parágrafo descreve o revestimento de ouro que cobria tanto as tábuas quanto as travessas. O que era madeira rústica por dentro tornava-se glorioso por fora através do metal mais precioso. Esse detalhe ensina que o serviço ao Senhor deve ser revestido de Sua glória e santidade. A humanidade da madeira (nossas limitações) é ocultada pela excelência do ouro divino quando nos submetemos ao processo de consagração, transformando o comum em algo digno de habitar com o Criador.

Por fim, concluímos que Êxodo 36:20-34 nos apresenta o Tabernáculo como um monumento à solidez e à conexão. A estrutura não era composta por uma peça única, mas por muitas partes individuais perfeitamente ajustadas e unidas por travessas e bases. Para a comunidade de fé, o desafio é ser como essas tábuas: retas em caráter, fundamentadas na redenção e firmemente ligadas aos irmãos, formando uma estrutura inabalável onde a Glória de Deus possa, de fato, repousar e habitar.

Pr. Eli Vieira

A confecção das coberturas do Tabernáculo



 O texto de Êxodo 36:8-19 detalha a confecção das coberturas do Tabernáculo, revelando que a proteção da presença divina era composta por camadas sobrepostas, cada uma com materiais e significados distintos. Esta etapa da construção demonstra que a habitação de Deus exige tanto beleza estética quanto resistência prática, unindo o artístico ao funcional sob um rigoroso padrão de obediência ao modelo celestial.

No primeiro parágrafo, observamos a criação da camada interna, feita de dez cortinas de linho fino retorcido, azul, púrpura e carmesim, com querubins artisticamente bordados. Esta era a parte visível por dentro do santuário, representando a pureza e a glória do céu. Para a Igreja, isso simboliza a vida interior do cristão e a liturgia espiritual: aquilo que está mais próximo de Deus deve ser marcado pela excelência, pela beleza e pela consciência da companhia angélica.

O segundo ponto destaca a unidade na estrutura. As cortinas eram ligadas umas às outras por meio de laçadas de azul e colchetes de ouro, formando um só pavilhão. Esta engenharia têxtil ensina que, no Reino de Deus, a força reside na conexão. Nenhuma cortina cumpria sua função isoladamente; era a união perfeita de partes individuais que criava um ambiente propício para a habitação do Senhor, refletindo a necessidade de unidade e harmonia entre os membros do corpo de Cristo.

No terceiro parágrafo, descreve-se a camada de proteção externa, feita de cortinas de pelos de cabra para servir de tenda sobre o Tabernáculo. Diferente do linho multicolorido, esta camada era mais rústica e resistente, projetada para suportar o rigor do deserto. Isso nos lembra que a fé e a Igreja precisam de uma estrutura capaz de resistir às pressões do mundo exterior, mantendo a integridade do que é sagrado mesmo diante das intempéries e provações da vida.

O quarto parágrafo aborda as coberturas adicionais de peles de carneiro tintas de vermelho e peles de animais marinhos (ou peles finas) que ficavam por cima de tudo. Enquanto a beleza do linho e dos querubins estava escondida no interior, o que se via por fora era uma proteção robusta e discreta. Este detalhe aponta para a humildade do serviço e a proteção vicária; muitas vezes, o que sustenta e guarda a santidade de uma obra não é o brilho externo, mas o sacrifício e a resistência das camadas que absorvem o impacto do ambiente.

Por fim, concluímos que Êxodo 36:8-19 nos ensina sobre a multidimensionalidade do serviço a Deus. A construção das cortinas não foi apenas um trabalho de tecelagem, mas um exercício de precisão e simbolismo. Quando dedicamos nossos talentos para "tecer" a comunidade de fé, devemos buscar esse equilíbrio: ser belos e santos no íntimo, unidos uns aos outros por laços de amor, e resilientes o suficiente para proteger a presença de Deus em nós diante de qualquer adversidade.

Pr. Eli Vieira

A transição da Generosidade para a Execução



 O texto de Êxodo 36:2-7 apresenta um dos momentos mais fascinantes da organização ministerial de Israel: a transição da generosidade para a execução. Moisés convoca Bezalel, Aoliabe e todos os homens sábios de coração a quem o Senhor dera habilidade, especificando que o chamado era para aqueles cujo "coração os movia". Este trecho revela que a obra de Deus não avança apenas por decreto, mas pela união de corações voluntários e mãos capacitadas.

No primeiro parágrafo, observamos a ativação da liderança operativa. Moisés não centraliza a execução, mas delega a responsabilidade aos especialistas. Isso nos ensina que a liderança saudável sabe identificar talentos e dar espaço para que os vocacionados exerçam seu papel. No século XXI, a Igreja floresce quando seus líderes não sufocam o corpo, mas criam oportunidades para que cada membro "cuja mente o estimula" possa colocar seu dom técnico a serviço do Reino.

O segundo ponto destaca a disponibilidade dos recursos. Os artesãos receberam de Moisés todas as ofertas trazidas pelos filhos de Israel. É crucial notar que a obra começou com o "caixa cheio". A saúde financeira e material de um projeto eclesiástico depende dessa confiança mútua: o povo entrega os recursos à liderança, e a liderança os entrega imediatamente aos executores. A sinergia entre doadores e realizadores é o que mantém o dinamismo da missão.

No terceiro parágrafo, surge um detalhe inspirador: a constância da generosidade. O texto relata que o povo continuava a trazer ofertas voluntárias "cada manhã". Isso demonstra que a paixão pela obra de Deus era um fogo renovado diariamente, não um entusiasmo passageiro. Para a Igreja moderna, este é o segredo da sustentabilidade: uma comunidade que não precisa de pressões externas para ofertar, mas que vê no amanhecer de cada dia uma nova chance de investir na eternidade.

A quarta lição vem da integridade técnica e ética. Os mestres de obra, vendo que o volume de doações superava a necessidade, pararam seu trabalho para avisar Moisés. Em um mundo marcado pela ganância, esses artesãos deram um exemplo de honestidade radical. Eles não buscaram acumular excedentes ou criar "sobras" injustificadas. A transparência na gestão dos recursos é o alicerce da credibilidade de qualquer igreja que pretenda ser relevante e frutífera na atualidade.

O quinto parágrafo foca no comando da interrupção. Moisés, ao receber o relatório, ordenou que se suspendessem as ofertas, pois o material era "suficiente e sobrava". Este ato de Moisés revela uma liderança focada e ética, que respeita o patrimônio do povo. O objetivo de uma igreja saudável não é o acúmulo infinito de bens, mas a realização fiel do propósito para o qual os recursos foram levantados. Saber dizer "basta" é uma prova de maturidade institucional dos servos de Deus.

No sexto parágrafo, podemos refletir sobre o conceito de abundância gerada pela obediência. Quando o coração do povo está alinhado com a vontade de Deus, a escassez desaparece. O Tabernáculo foi construído em um deserto, um lugar de carência, mas o projeto transbordou recursos. Isso prova que a providência de Deus se manifesta através da generosidade da própria comunidade. Quando nos movemos por amor e não por obrigação, os recursos humanos e materiais deixam de ser um limite e tornam-se um testemunho do favor divino para com o seu povo.

Por fim, concluímos que Êxodo 36:2-7 é um memorial da eficiência e integridade. A construção da habitação de Deus foi marcada pela ausência de desperdício e pelo excesso de disposição do povo do Senhor. Para a Igreja do século XXI, o desafio é o mesmo: cultivar uma cultura onde os líderes são transparentes, os obreiros são honestos e os membros são tão apaixonados pela visão que sua generosidade precisa ser contida. Ao seguirmos esse modelo, edificamos um santuário espiritual onde a presença de Deus é a única medida de sucesso.

Pr. Eli Vieira

A construção do Tabernáculo: Resultado da sinergia Técnica e Espiritual



 A construção do Tabernáculo, detalhada em Êxodo 35:10 a 36:1, permanece como um dos maiores exemplos bíblicos de como a obra de Deus se concretiza através da união indissociável entre a competência humana e a consagração divina. O relato revela que a habitação do Senhor entre os homens não foi erguida apenas por milagres suspensos no ar, mas por meio de uma sinergia técnica e espiritual, onde o "saber fazer" foi santificado pelo "querer servir".

No primeiro parágrafo, observamos a convocação dos "sábios de coração". Moisés não chamou apenas entusiastas, mas indivíduos que possuíam perícia técnica em diversas artes. Isso estabelece que a espiritualidade não anula a necessidade de competência; pelo contrário, a sinergia ocorre quando o talento natural é reconhecido como um dom de Deus e colocado à disposição do Seu projeto. No contexto atual, a Igreja floresce quando profissionais dedicam sua excelência técnica — da gestão à tecnologia — como uma oferta de adoração.

O segundo ponto desta sinergia reside na precisão organizacional. O texto descreve uma lista exaustiva de componentes: colunas, bases, coberturas e utensílios. Essa minúcia técnica reflete o caráter de um Deus de ordem. A construção do Tabernáculo ensina que a visão espiritual precisa de uma estrutura técnica robusta para se sustentar. Sem a técnica, a visão se dissipa em desorganização; sem a espiritualidade, a estrutura torna-se um monumento vazio. É o equilíbrio entre o rigor do planejamento e a unção divina que gera resultados duradouros para a glória de Deus.

No terceiro parágrafo, destaca-se a figura de Bezalel e Aoliabe, líderes artesãos que foram "enchidos do Espírito de Deus". O texto deixa claro que o Espírito Santo não lhes deu apenas sentimentos, mas "habilidade, inteligência e conhecimento em todo artifício". Isso redefine nossa visão sobre o mover de Deus: o Espírito também atua no intelecto e nas mãos de quem projeta e constrói. A sinergia espiritual ocorre quando o técnico permite que a sabedoria divina guie sua criatividade para fins eternos.

Um aspecto fundamental dessa sinergia foi a mobilização coletiva e inclusiva. O relato enfatiza que "homens e mulheres" contribuíram conforme suas habilidades, como as mulheres que fiavam tecidos preciosos. A força do projeto não residia em um único gênio, mas na soma de múltiplos saberes santificados. Quando a Igreja do século XXI integra diferentes gerações e talentos em um esforço conjunto, ela replica esse modelo bíblico onde a diversidade técnica fortalece a unidade espiritual.

O quinto parágrafo aborda o combustível dessa sinergia: o espírito voluntário. O texto repete que a contribuição vinha de quem tinha o "coração movido". A técnica, por mais refinada que seja, torna-se fria se não for impulsionada por uma motivação espiritual autêntica. A obediência invisível do povo transformou bens materiais em ferramentas de culto. Essa disposição interna garantiu que a execução técnica não fosse um peso, mas uma expressão de alegria e gratidão pela libertação recebida.

No sexto parágrafo, vemos a convergência final entre o material e o divino. O Tabernáculo era uma estrutura física tangível, mas sua essência era totalmente espiritual. Ao final do processo, a excelência dos materiais e a precisão da engenharia israelita serviram como o receptáculo para a glória de Deus. Isso nos ensina que Deus honra o esforço humano feito com integridade, preenchendo com Sua presença aquilo que o homem constrói com fidelidade, rigor técnico e profunda competência.

Por fim, concluímos que Êxodo 35 e 36 redefinem o conceito de "obra sagrada". Ela não se limita ao que acontece no altar, mas abrange tudo o que é feito com mãos hábeis e corações consagrados. A construção do Tabernáculo prova que a Igreja alcança sua plenitude quando opera nessa sinergia: sendo tecnicamente excelente e espiritualmente profunda. Ao unirmos nossa melhor técnica à nossa mais sincera devoção, edificamos uma comunidade que é, ao mesmo tempo, relevante para o mundo e fiel ao modelo celestial.

Pr. Eli Vieira

A construção do Tabernáculo, resultado visível de uma obediência invisível



 O texto de Êxodo 35:10-29 descreve um momento de mobilização extraordinária, onde o projeto divino do Tabernáculo sai do plano das ideias e começa a tomar forma pelas mãos do povo. Este trecho revela que a obra de Deus é realizada por meio da sinergia entre a habilidade técnica e a disposição espiritual daqueles que creem nas promessas de Deus.

No primeiro parágrafo, observamos o chamado aos "sábios de coração". Moisés convoca todos os que possuem habilidades artísticas e artesanais para que venham e façam tudo o que o Senhor ordenou. Isso nos ensina que o talento humano não é um fim em si mesmo, mas um recurso confiado pelo Criador para a expansão do Seu Reino. No século XXI, a Igreja continua a crescer quando profissionais de diversas áreas — design, engenharia, gestão e artes — dedicam sua "sabedoria de coração" ao serviço sagrado.

O segundo parágrafo detalha a complexidade da estrutura a ser montada: tábuas, travessas, colunas, bases e coberturas. A minúcia dessa descrição aponta para a importância da organização e do detalhamento na obra de Deus. Nada foi deixado ao acaso. Para o crescimento da Igreja moderna, este princípio reforça que a espiritualidade não dispensa o planejamento e a execução zelosa; cada pequena engrenagem ministerial contribui para a sustentação do todo.

No terceiro parágrafo, o texto destaca os objetos de adoração, como a Arca da Aliança, a mesa dos pães e o altar do incenso. Esses elementos eram o coração do Tabernáculo, simbolizando a presença, o sustento e as orações do povo. A lição aqui é que toda atividade prática da Igreja deve convergir para o centro da adoração. O serviço sem um foco devocional torna-se ativismo vazio, mas, quando centrado em Cristo, torna-se um ato de culto contínuo.

O quarto parágrafo aborda a mobilização coletiva. O texto relata que "toda a congregação dos filhos de Israel saiu da presença de Moisés" para buscar o que era necessário. Há um dinamismo e uma prontidão na resposta do povo. Uma igreja frutífera é aquela onde os membros não são meros espectadores, mas agentes ativos que saem da "presença da liderança" motivados a colocar as mãos à obra em seus respectivos contextos.

No quinto parágrafo, vemos a participação inclusiva de homens e mulheres. O relato enfatiza que "vieram homens e mulheres", trazendo suas joias, tecidos e habilidades, como a fiação realizada pelas mulheres sábias. Esta inclusão demonstra que, no Reino de Deus, não há espaço para a passividade baseada em gênero ou status social. Todos possuem uma contribuição vital, e a unidade na diversidade é o que confere beleza e força à construção do santuário espiritual.

O sexto parágrafo foca na origem da oferta: o espírito voluntário. O texto repete várias vezes que as pessoas ofertaram porque seu "coração as moveu" e seu "espírito as impeliu". Essa é a essência do crescimento saudável — uma generosidade que não nasce da pressão externa, mas de uma transformação interna. Quando o povo de Deus entende o privilégio de participar da Sua obra, os recursos fluem naturalmente, e a escassez dá lugar à abundância necessária para cumprir a missão.

Por fim, o sétimo parágrafo conclui que Êxodo 35:10-29 é um memorial da fidelidade prática. A construção do Tabernáculo foi o resultado visível de uma obediência invisível. Para a Igreja do século XXI, o desafio é o mesmo: permitir que a nossa fé se materialize em ações concretas. Quando unimos nossos talentos, recursos e corações voluntários, edificamos não apenas paredes, mas uma comunidade viva onde a Glória de Deus pode repousar e ser manifestada ao mundo.

Adoração Prática no servir a Deus



 A passagem de Êxodo 35:4-9 nos apresenta um dos momentos mais sublimes da organização do povo de Israel: a convocação para a construção do Tabernáculo através da oferta voluntária. Diferente de um tributo obrigatório, Moisés enfatiza que a contribuição deveria vir de quem tivesse o "coração disposto". Isso estabelece que a verdadeira adoração prática começa na motivação interna, revelando que Deus não busca apenas recursos, mas a entrega sincera da vontade humana como o alicerce de qualquer serviço prestado ao Seu Reino.

No segundo parágrafo, observamos a diversidade de elementos solicitados: ouro, prata, tecidos finos, peles e especiarias. Essa lista detalhada nos ensina que a adoração prática no servir se manifesta de múltiplas formas. No contexto da igreja contemporânea, isso significa que o serviço a Deus não é restrito ao púlpito; ele se expressa através da tecnologia, das artes, da administração, do cuidado social e da hospitalidade. Cada "material" — ou talento — tem o seu lugar específico na edificação da comunidade.

O terceiro ponto fundamental é o desprendimento material como ato de culto. Para que os israelitas entregassem ouro e pedras preciosas no meio de um deserto, eles precisavam confiar plenamente na providência divina para o futuro. A adoração prática, portanto, exige que rompamos com a idolatria da segurança financeira e do conforto pessoal. Servir a Deus com nossos bens é uma declaração tangível de que reconhecemos o Senhor como o verdadeiro dono de tudo o que possuímos, transformando o ato de ofertar em um momento de profunda espiritualidade.

Adiante, vemos a importância da preparação e da excelência. O texto menciona o azeite para a iluminação e as especiarias para o óleo da unção, itens que exigiam purificação e preparo cuidadoso. Isso nos alerta que o serviço a Deus não deve ser feito de qualquer maneira ou com o que nos sobra de tempo e energia. A adoração prática no servir exige dedicação e esmero, refletindo o caráter de um Deus que é zeloso e excelente em todas as Suas obras, inspirando-nos a entregar o nosso melhor em cada tarefa eclesiástica.

Em um quinto parágrafo, destaca-se o aspecto da unidade no propósito. Embora as ofertas fossem individuais e variadas, o objetivo era coletivo: a construção de um lugar onde a Glória de Deus pudesse habitar entre os homens. A adoração prática nos ensina a subordinar nossos interesses particulares a uma visão maior. Quando a Igreja trabalha em conjunto, harmonizando diferentes recursos e dons para um fim comum, ela se torna um testemunho vivo da presença de Deus na sociedade, manifestando o Evangelho de forma visível e impactante.

Por fim, concluímos que o relato de Moisés em Êxodo 35 define a adoração como algo que vai muito além de cânticos e ritos litúrgicos. A adoração prática é o amor em movimento, traduzido em doação, serviço e obediência. Uma igreja saudável e frutífera no século XXI é aquela que compreende este princípio: somos chamados para ser participantes ativos da obra de Deus. Ao oferecermos nossos recursos e talentos com alegria, transformamos o nosso cotidiano em um santuário de serviço que glorifica ao Pai e abençoa ao próximo.

Pr. Eli Vieira

Prioridades e Obediência



 Baseado na passagem de Êxodo 35.1-3, que relata o momento em que Moisés convoca a congregação de Israel para reiterar a ordem do descanso sabático antes de iniciar a construção do Tabernáculo, podemos extrair lições fundamentais sobre prioridades e obediência.

No primeiro parágrafo, observamos a importância da convocação comunitária. Moisés reúne toda a congregação, demonstrando que as instruções divinas não eram apenas para a liderança, mas para todo o corpo social de Israel. O texto destaca que o crescimento e a obra de Deus começam com a unidade do povo em torno da Sua Palavra, estabelecendo que ninguém está isento das responsabilidades espirituais perante o Criador.

O segundo parágrafo revela a precedência do ser sobre o fazer. Antes de detalhar as complexas instruções para a construção do Tabernáculo, Deus exige o repouso. No século XXI, onde o ativismo e a produtividade incessante são idolatrados, este trecho nos lembra que a nossa maior obra para Deus nunca deve atropelar o nosso tempo de adoração e descanso Nele. O Tabernáculo era importante, mas a obediência ao Senhor do sábado era ainda mais importante.

No terceiro parágrafo, o texto enfatiza a santidade do tempo. Ao declarar que o sétimo dia seria "santo para vós, o sábado do repouso solene ao Senhor", a Bíblia estabelece uma fronteira entre o comum e o sagrado. Este princípio ensina que a saúde da Igreja e do indivíduo depende da capacidade de consagrar ritmos de vida que reconheçam a soberania de Deus sobre o tempo, combatendo a ansiedade de que tudo depende apenas do esforço humano.

O quarto parágrafo aborda a severidade e a seriedade da lei divina através da proibição de acender fogo em qualquer habitação no dia de sábado. Esse detalhe prático visava impedir que até as tarefas domésticas mais básicas se tornassem uma distração do foco espiritual. Para o contexto moderno, isso simboliza a necessidade de desconexão total das preocupações seculares para que haja uma verdadeira conexão com Deus, protegendo o espaço da comunhão com o Senhor.

Por fim, o quinto parágrafo conclui que a obediência a esses princípios é o que gera frutificação sustentável. Ao iniciar o projeto do Tabernáculo com o descanso, Israel aprendia que a obra de Deus deve ser feita no ritmo de Deus. Uma igreja saudável no século XXI é aquela que compreende que o trabalho para o Reino só é eficaz quando nasce de um lugar de descanso espiritual e submissão total à vontade revelada nas Escrituras.

Pr. Eli Vieira

quarta-feira, 15 de abril de 2026

ANTÔNIO GUEIROS:O EVANGELIZADOR DOS SERTÕES (1870-1951)

 

Antônio de Carvalho Silva Gueiros, 1950

“O Evangelizador dos Sertões”
Foto:  livro “A História da Família
 Gueiros”  de David Gueiros Vieira.

Neste momento eu convido você para conhecer a biografia do pastor Antônio Gueiros, um dos maiores plantadores de igrejas da nossa região.

Na década de 1880, encontrava-se Francisco de Carvalho Silva Gueiros e família em Garanhuns-PE, onde fora sub-empreiteiro da construção  do último trecho

da Ferrovia Sul de Pernambuco, no trecho Recife-Garanhuns. Ao termino da construção da referida ferrovia, rodeado de parentes ricos e poderosos,  Francisco Gueiros e Filhos, viviam, no entanto, muito modestamente em Garanhuns, como donos de hospedaria e operadores de uma mercearia.

Esta mercearia em função da liberação dos escravos, em 1888, ficara sem mão – de – obra. A família assim destituída de seus bens de seus “bens” pela Lei Áurea, entrou em crise econômica. Dai em diante, as dificuldades financeiras eram tantas, que Jerônimo Gueiros, em seus poemas, sempre se referia à sua mãe como uma “pobrezinha”. Essa condição de “pobreza” do casal Francisco Gueiros e Rita Francisca Barbosa, vivendo entre parentes ricos e poderosos, marcou profundamente os dois filhos mais novos, Antônio e Jerônimo Gueiros.

Em consequência da Lei Áurea, os dois filhos mais jovens da família – Antônio e Jerônimo – tiveram de pessoalmente assumir o trabalho manual da marcenaria. Tal atividade era algo aviltante para moços brancos, cuja família se orgulhava  de ser descendente de “dama de corte portuguesa” e de “nobre holandês”. Essa obrigação de trabalhar com as mãos, ocorria em uma época e em sociedade de mentalidade ainda escravagista, na qual, até meados do século passado – na década de 1940 – os homens de classe média – média e média – baixa, símile aos mandarins chineses, ainda deixavam crescer as unhas dos dedos mindinhos, afim de demonstrar à sociedade em geral que não eram operários, ou que não trabalhavam com as mãos, tal era o horror que as pessoas tinham a esse tipo de trabalho, tido como “vergonhoso”.

Mais ainda, na marcenaria o trabalho era pesadíssimo, e os jovens rapazes não estavam acostumados ao mesmo. As ferramentas eram primitivas: serrotes de mão para serrar toras de madeiras e simples plainas para preparar as tábuas. A madeira era toda de lei: pau-ferro, maçaranduba, angelim e outras mais. O trabalho de tão pesado, deixava os braços dos rapazes doloridos ao ponto que eles  mal se aguentavam no final do dia. O Reverendo Antônio Gueiros com lágrimas nos olhos contava aos filhos que aquele fora o trabalho mais árduo que jamais fizera em toda sua vida.

Em 1903, a escola teológica de Martinho de Oliveira – que morrera naquele mesmo ano – passara a ser chamado Seminário Evangélico de Garanhuns. Dr. George Henderlite foi seu primeiro e, por uns tempos, seu único professor. Em 1908, tendo o reverendo Antônio Gueiros terminado seus estudos naquele seminário – e já com 36 anos de idade, casado com três filhos – foi enviado pelo presbitério do Norte, cuja jurisdição ia do Amazonas à Bahia, para a cidade de Belém do Pará.

Belém do Pará  ainda no auge do período da produção da borracha era então um importante centro de exportação daquele produto, mas já começa a declinar, com início da queda do preço da borracha no mercado internacional. A estadia do reverendo Antônio Gueiros no Pará, no entanto, foi para ele um dos mais difíceis períodos de sua vida.

A cidade de Belém, apesar de sua opulência, era um antro de pestilência: cheio de malária, febre amarela e hanseníase. No tanto o que mais amedrontava o reverendo Antônio Gueiros a hanseníase, prevalecente em toda Amazônia, e muito comum em Belém do Pará. Vários dos membros da igreja Presbiteriana local sofriam daquela enfermidade, bem como uma das vizinhas do pastor, pessoas essas que tinham o hábito de fazer festinha com os filhos dele. Apesar de o médico norueguês Gerhard Arnuer Hansen  ter descoberto, em 1874, o bacilo que causa esta enfermidade, eram ainda totalmente desconhecidos da medicina de então, a etiologia da mesma, e a maneira como ela se propagava, ou mesmo como poderia ser curada, ou arresta.

Para o pastor Antônio Gueiros, que jamais vira o mal de Hansen em Pernambuco, o terror que sentia, de que os filhos viessem a ser infectados por ele, levaram-no a pedir – e até mesmo a implorar – que o presbitério o devolvesse a seu Estado. Voltou a Garanhuns, em 1914, convencido erroneamente de que sua filha Noemi, sua filha mais velha, que aparecera com manchas na pele, fora infectada pela hanseníase. Por essa razão, durante anos a fio, referindo-se à filha em suas orações nos cultos domésticos, ainda implorava: “Senhor, cura tua servazinha”.

Logo que regressara para Garanhuns, o reverendo Antônio Gueiros foi eleito pastor da Igreja Presbiteriana local, e indicado como missionário para o sertão. Começou então sua longa carreira de evangelizador, que durou até 1947, quando foi jubilado. Seu campo de trabalho estendia-se  a 300 quilômetros, mais ou menos, chegando ao sul até as cachoeiras de Paulo Afonso, e oeste triunfo e Serra Talhada.

Em suas longas ausências, era substituído no púlpito da Igreja de Garanhuns pelos missionários norte-americanos Dr. George Henderlite, Dr. William Thompson, Dr. George Taylor, Reverendo William Neville, e outros mais, professores do Seminário Presbiteriano de Garanhuns e do Colégio Quinze de Novembro.

Não havia estradas carroçáveis no sertão, nem transporte público de qualquer espécie. Havia apenas “trilhas de boi”, que passavam “como túneis dentro da floresta”, na região da serra, e como tênues veredas, entre os cactos e as plantas xerofílicas nas caatingas do sertão. Cada viagem, feita a cavalo, ou em lombo de mula, era uma aventura.

Lembro-me ainda, dos meus dias de criança, das preparações que se faziam em casa para  suas longas viagens. Minha avô Maria de Nazarerth Duarte Furtado, conhecida como “Maroca”, passava toda uma manhã, ou tarde, no preparo de um farnel, típicos dos sertanejos nordestinos daquela época. Este consistia de um saco de “paçoca salgada”, e outro de “paçoca doce”. A primeira era feita de litros e litros de farinha de farinha de mandioca torrada, batida no pilão, com muita carne de sol assada e desfiada, até que se tornava uma massa fina. A paçoca doce era feita também de litros de farinha de mandioca, batida no pilão  com açúcar preto, e castanha de caju ou amendoim. Essas “paçocas” eram colocadas em sacos de aniagem, amarrados na sela do cavalo. Essa seria sua alimentação, nas três refeições do dia, durante toda a viagem.

Levava ainda um saco de frutas da estação – limão, laranja, ou  romã – como fonte de vitamina C,  para prevenir a pelagra. Transportava ainda duas cabaças bem grandes, cheias de água mineral, das fontes de água mineral de Garanhuns, cabaças essas que eram igualmente amarradas uma à outra com uma corda, e penduradas em frente à sela do cavalo. Quase sempre trazia também uma sacola cheia de folhas secas de laranja, de limão, ou de “capim-santo”, para fazer chá com as águas barrentas do sertão, quando acabava a água limpa que  levava. Enchia os bolsos de confeitos e balinhas, e depois de um culto doméstico e uma oração, seguia viagem.

Residia em sítio nas encostas de um dos morros de Garanhuns, de modo que  o caminho que o levava ao sertão ficava do outro lado do vale. Nós, as crianças, ficávamos então no alpendre da casa esperando até ele despontar na estrada subindo o alto da Boa Vista, a caminho do sertão, lugar este que ele  jocosamente chamava de “caixa-prego”. Era sempre um dia grande de tristeza para todos, pois ele era o maior amigo que tínhamos na vida.

No sertão, hospedava-se em casa dos crentes, em geral gente muito pobre, de modo que o farnel às vezes tinha que ser dividido com os próprios hospedeiros, especialmente em épocas de seca. Seu filho Israel Gueiros contava de algumas viagens que fizera, acompanhando o pai, quando descobrira que as balinhas levadas por ele era para serem distribuídas com as criancinhas sertanejas. Estas o esperavam a beirada estrada, com as mãozinhas estendidas gritando: “ Benção seu Tonho”. Ele respondia com o “Deus te abençoe” de sempre, e colocava uma balinha na mão de cada uma, quase todas elas completamente nuas, tal era a pobreza dos sertanejos daquela época.

Sua generosidade com os sertanejos era legendária, e até folclórica. Frequentemente voltava para casa sem as roupas que levava nas viagens, por tê-las doado a algum necessitado. Seus filhos certa vez lhe deram, como presente de Natal, um terno de casimira inglesa, muito bom,  a única roupa decente que possuía para subir ao púlpito. No entanto, logo em seguida foi visto tirando-o do corpo, para doá-lo a um sertanejo crente, que ia à capital avistar-se com o governador, e não tinha roupa adequada para ocasião, ia muito além do farnel que levava. Descobrira desde cedo que aquelas paragens, abandonadas pelos governos federal e estadual, eram carentes em tudo: faltava médicos, dentistas, fotógrafos e até mesmo barbeiros. Essas eram atividades que ele podia exercer, mesmo sem estar profissionalmente habilitado, pois a alternativa era de deixar aquelas pessoas à mingua desses serviços. Assim aprendera a arrancar dentes, a fazer obturações simples, a fazer primeiros curativos, a encanar pernas e braços, a tirar retratos e a cortar cabelos.

Sua equipagem, em vista dessas atividades, era acrescida de uma maleta de  instrumentos médicos e dentários; levava também tesouras, pentes e navalhas, e uma enorme “câmara obscura” alemã, marca Agfa, dessas que ainda hoje se vêem nas mãos dos fotógrafos ditos “lambe-lambe”, nos subúrbios das grandes  cidades. Em casa, montara um quarto escuro, com todos os equipamentos necessário para revelar as chapas que trazia do sertão. Deixou caixas e caixas de chapas de vidro, das fotografias tiradas pelo sertão a fora durante 30 anos de viagens; um acervo documental de valor histórico inestimável. Infelizmente, um de seus herdeiros, não compreendendo seu valor, destruiu essas chapas, utilizando o vidro para fins domésticos.

Ao chegar nas pequenas vilas e cidades do sertão, montava uma cadeira ou caixão alto, na feira, ou em algum lugar público, no qual sentavam seus clientes e “pacientes”. Então lhes cortava os cabelos, arrancava-lhes os dentes, fazia-lhes os curativos que fossem necessários e ainda os fotografava, se assim pediam. Enquanto isso lhes ia pregando o evangelho, e distribuindo folhetos de propaganda evangélica, e trechos da Bíblia.

Essas viagens não eram totalmente livre de perigos. Aquela era uma época de cangaceiro “Lampião” e seu bando, que era apenas um dos muitos bandoleiros que pululavam pelas caatingas. No entanto, nunca nada lhe aconteceu. Contava o Dr. Othoniel Gueiros, amigo de Audálio Tenório, prefeito de Águas Belas e “coiteiro” de Lampião, ter este afirmado que Lampião e seu bando muitas vezes viram o pastor Antônio Gueiros cavalgando pelas veredas do sertão. Quando algum cangaceiro dizia “lá vai o bode velho!, Lampião replicava: “deixem ele passar não bulam com ele, que é um homem de Deus, e amigo do meu amigo Audálio, que é meu coiteiro”. Por essa razão afirmava Audálio, Antônio Gueiros nunca teve de se encontrar com Lampião, face a face, pois este o evita e protegia. Lampião, como se sabe, era um homem devoto e muito religioso. Audálio Tenório era primo afastado dos Gueiros, pelo lado dos cardosos de Águas Belas.

Apenas uma vez o pastor Antônio Gueiros chegou bem perto de ser morto. Esta foi quando o vigário da cidade de Bom Conselho decidira livrar-se do pastor protestante incômodo, contratando assassinos profissionais para matá-lo, quando da sua próxima ida aquela localidade. Sem saber de nada, o reverendo Antônio programou uma viagem para Bom Conselho. Porém, ao chegar no alto da Boa Vista, ainda em Garanhuns, seu cavalo manso de estimação, que andara com ele várias vezes por todo sertão, empacou e recusou-se a continuar a viagem. Como não er pessoa de fazer violências, nem mesmo a um animal, virou a rédea do cavalo e voltou para casa. Algumas horas depois – a galope – chegava um dos presbíteros da Igreja de Bom Conselho. Vinha avisá-lo para não ir aquela cidade naquele dia, pois o vigário contratara cangaceiros para mata-lo, pessoas essas  que o mensageiro encontrara, em uma tocaia, a poucos quilômetros da cidade de Garanhuns

Como a famosa mula de Balaão bíblico aquela alimária havia pressentido algum perigo, ou Deus mesmo mandara que ela parasse. Dai em diante, o animal foi chamado de “cavalo santo”, pelas crianças. Era um animal que tinha viajado tantas vezes pelas várias localidades do sertão, que, as vezes, o reverendo Antônio Gueiros, de tão cansado, dormia na sela, e o animal seguia caminho, levando-o para ao próximo pouso, mesmo sem ser conduzido.

Após 1935, as atividades missionárias do reverendo Antônio Gueiros finalmente tiveram de parar. Naquele ano, durante a chamada Intentona Comunista, como será visto abaixo, então, então visitando o Seminário Presbiteriano do Norte, ele foi ferido a bala numa perna, resultando na perda daquele membro. Hoje se sabe ter sido um tiro dado por um dos revolucionários, entrincheirados em uma fábrica ao lado do Seminário. Sua perna gangrenou, ele esteve a beira da morte, naquela época sem penicilina ou antibiótico de qualquer tipo. Depois disso, enfermou do coração, falava-se que fora em consequência da gangrena. Ainda tentou viajar mais uma vez a cavalo pelos sertões, porém, aos 64 anos de idade, e por razões de saúde, foi obrigado a pôr de lado aquela atividade missionária, sem, no entanto, ter tomado providências para que seu campo fosse ocupado por outros Para esse fim, criou uma sociedade missionária, patrocinada pela Igreja Presbiteriana de Garanhuns, que enviou cinco pastores para cobrir todo o campo que ele vinha evangelizando sozinho.

Depois disso, contentava-se a passar os dias caminhando pelo sítio, podando árvores e limpando o mato, sempre seguido de uma velha cachorra loba, chamada “Cratera”, que o adorava. Em 1936, ao final de suas atividades como missionário, deixou pelo menos 62 igrejas e congregações, fundadas ou pastoreadas por ele, que são abaixo indicadas:

No Estado do Pará; Belém, Soure, Bragança e Campo Experimental.

Em Pernambuco: Garanhuns, Inhumas, Gilead, Cachoeira Dantas, Palmeirina, São João, Angelim, Burgos, Tiririca, Catonho, São Pedro, Neves, Fama, Brejão, Brejinho, Maçaranduba, Poço Comprido, Freixeiras de Santa Quitéria, Genipapeiro, Correntes, Lajedo, Entupido, Águas Belas, Buique, Salobro, Jupi, Bom Conselho, Serrinha, São Bento e Cachoeirinha.

Em Alagoas – Mata – Grande, Cana Brava, Bananeiras, Olho dÀgua de Areias, Lagoa Funda, Monte Alegre, São Serafim, Ponto-Alegre, Santa Clara, Rio Branco, Mocambo, Barracão, Baixa Seca, Capiá, Pão de Açúcar, Maravilha, Itapicuru, Cacimba, Pé de Serra de São Pedro, Prata, Barro, Mandaçaia, Piabas, Gatos, Capoeira e Vinte Cinco.

Teve também sob sua jurisdição de Gameleira e Quipapá, em Pernambuco e a igreja de Quebrangulo em Alagoas. Consta que também viajou por uns tempos  pelos lados da Serra do Teixeira, no sertão da Paraíba, porém dessas viagens não temos nenhuma documentação escrita. A única notícia que temos das mesmas vêem de sua filha mais velha, a professora Noêmi Gueiros Vieira, então jovem demais para conhecer ou lembrar dos detalhes dessas peregrinações paraibanas.

Após o acidente em 1935, continuou ainda como pastor da Igreja de Garanhuns, até 1947, quando foi jubilado e eleito seu pastor emérito. Faleceu subitamente, em casa no ano de 1951. Na ocasião de sua morte, a cachorra “Cratera”, sua constante companheira por tantos anos, deitou-se debaixo da cama do falecido e uivou até que levaram o corpo para o enterro. Depois disso, o animal permaneceu debaixo da cama, recusando água e comida, em pouco tempo, ela também morreria.

Amado por todos da igreja, e muito respeitado por toda a cidade, o enterro do reverendo Antônio Gueiros foi seguido pela maioria da população de Garanhuns. Sua morte foi lamentada também pelas comunidades católicas e espírita da cidade que, à sua maneira, deram demonstrações de pesar pela mesma. Consta que ao correr a notícia do seu falecimento, os sinos da catedral e de todos os outros templos católicos na cidade passaram a soar o repique fúnebre, só silenciando quando seu corpo foi baixado à cova. Uma singela porém comovente honraria, feita pelo bispo católico local, a esse pastor protestante.

Artigo extraído do Livro A História da Família Gueiros, capítulo XII,  de David Gueiros Vieira

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