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terça-feira, 11 de agosto de 2026

A FIDELIDADE DE DEUS NOS DETALHES DA HERANÇA

 


Texto: Josué 15.20–63

Texto-chave: “Esta é a herança da tribo dos filhos de Judá, segundo as suas famílias.” (Josué 15.20)

CONTEXTUALIZAÇÃO

Josué 15.20–63 é uma passagem que muitos leitores têm a tentação de percorrer rapidamente. São dezenas de nomes de cidades, regiões e localidades. Contudo, essa lista não é um apêndice sem importância. Para Israel, cada nome significava que Deus estava transformando uma promessa antiga em uma herança concreta.

Ao mesmo tempo, o versículo 63 termina o capítulo com uma nota preocupante: os jebuseus permaneceram em Jerusalém. Assim, o texto une duas realidades: a fidelidade absoluta de Deus e a responsabilidade ainda incompleta do Seu povo.

INTRODUÇÃO

Irmãos, há partes da Bíblia que nos emocionam imediatamente.

Quando lemos o Salmo 23:

“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará”,

nosso coração é tocado.

Quando ouvimos João 3.16, somos conduzidos diretamente ao amor de Deus.

Quando lemos Romanos 8, encontramos promessas que fortalecem nossa alma.

Mas então chegamos a textos como Josué 15.20–63.

E o que encontramos?

Nomes.

Muitos nomes.

Cabzeel. Éder. Jagur. Ziclague. En-Gedi. Zanoa. Queila. Maressa. Hebrom. Quiriate-Arba. E dezenas de outras localidades.

Alguém poderia perguntar:

“Pastor, o que Deus quer ensinar à Igreja por meio de uma lista de cidades antigas?” A resposta é: muito mais do que imaginamos. Porque aquilo que para nós é apenas uma lista era, para Israel, a documentação da fidelidade de Deus.

Imagine uma família da tribo de Judá ouvindo o nome de sua cidade.

Quando aquele nome era pronunciado, não era simplesmente geografia.

Era herança. Era promessa cumprida. Era Deus dizendo:

“Eu não esqueci aquilo que prometi.” Séculos antes, Deus havia chamado Abraão e declarado:

“Darei à tua descendência esta terra.” (Gênesis 12.7)

Abraão morreu sem ver o cumprimento pleno. Isaque morreu. Jacó morreu. José morreu. Israel passou séculos no Egito. Depois vieram quarenta anos no deserto.

Mas Deus não esqueceu.

Agora, em Josué 15, cada cidade registrada é como uma assinatura divina debaixo da promessa feita aos patriarcas. Deus cumpre Sua Palavra.

Mas existe algo ainda mais profundo. O capítulo termina dizendo:

“Não puderam, porém, os filhos de Judá expulsar os jebuseus que habitavam em Jerusalém.” (v.63)

Portanto, o texto termina com um contraste:

  • De um lado: Deus cumprindo fielmente Sua promessa.
  • Do outro: Israel ainda deixando uma tarefa incompleta.

E é justamente nessa tensão que encontramos a mensagem deste texto para nós.

Josué 15 apresenta a distribuição da herança de Judá.

  • Nos versículos 1–12, são descritos os limites territoriais.
  • Nos versículos 13–19, encontramos a narrativa de Calebe, Otniel e Acsa.
  • Agora, nos versículos 20–63, o texto apresenta as cidades pertencentes à tribo de Judá.

A lista é organizada geograficamente, abrangendo cidades:

  1. No Neguebe, ao sul;
  2. Na Sefelá, a região das planícies e colinas;
  3. Nas montanhas;
  4. No deserto de Judá.

Isso mostra que a herança de Judá era extensa e diversificada.

Mas o texto não termina simplesmente com a lista. O versículo 63 registra que os jebuseus ainda permaneciam em Jerusalém. Essa observação prepara o leitor para problemas posteriores.

Portanto, temos diante de nós um texto sobre: promessa, herança, providência, responsabilidade e perseverança.

A fidelidade de Deus manifesta-se até nos detalhes de Suas promessas, mas aqueles que recebem Sua herança são chamados a desfrutá-la com gratidão, responsabilidade e perseverante obediência.

Josué 15.20–63 nos apresenta três grandes verdades sobre a fidelidade de Deus e nossa responsabilidade diante da herança que Ele nos concede.

I – DEUS CUMPRE SUAS PROMESSAS NOS MÍNIMOS DETALHES (Js 15.20–62)

O versículo 20 introduz toda a lista:

“Esta é a herança da tribo dos filhos de Judá, segundo as suas famílias.” Observe a palavra: “herança”.

Não era simplesmente território conquistado; era herança recebida.

Isso significa que por trás da geografia havia teologia. Por trás das cidades havia promessa. Por trás das fronteiras havia fidelidade.

1. Nenhuma promessa de Deus é esquecida

Quando Deus chamou Abraão, prometeu uma terra à sua descendência. Décadas transformaram-se em séculos. Mas Deus continuou lembrando-se de Sua aliança.

Nós frequentemente interpretamos demora como esquecimento. Deus não.

“Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada.” (2Pedro 3.9)

O relógio de Deus não funciona segundo nossa ansiedade. Ele trabalha conforme Sua perfeita sabedoria. Aquilo que parece atraso para nós pode ser preparação dentro da providência divina.

2. Deus não é fiel apenas nas grandes coisas

Observe quantos detalhes aparecem no texto. Não temos apenas: “Judá recebeu uma terra.” Temos cidades específicas, limites específicos, regiões específicas e famílias específicas.

Isso nos mostra que a providência de Deus não trabalha apenas em escala nacional. O Senhor governa também os detalhes.

“Até os cabelos todos da cabeça estão contados.” (Mateus 10.30)

João Calvino, ao tratar da providência, insiste que nada acontece fortuitamente fora do governo paternal de Deus. Essa doutrina não deveria tornar-nos fatalistas; deveria tornar-nos confiantes. 

O Deus que governa a história também conhece nossa casa, nossa família, nosso trabalho, nossas lágrimas e nossas necessidades.

3. O que parece apenas um nome pode carregar uma história de graça

Nós lemos “Cabzeel”, “Ziclague”, “Hebrom”, “En-Gedi”. Mas imagine alguém pertencente àquela região ouvindo sua própria cidade: “Esse lugar é nosso porque Deus foi fiel.” 

Há acontecimentos em nossa vida que talvez pareçam pequenos para outras pessoas, mas nós sabemos o que significam: uma porta aberta, uma oração respondida, uma conversão, uma reconciliação, uma provisão inesperada, um filho restaurado, uma igreja preservada. 

Para outros pode ser apenas um acontecimento; para nós é uma lembrança: “O Senhor foi fiel.”

4. Devemos aprender a registrar a fidelidade de Deus

A Bíblia está cheia de memoriais. Israel ergue pedras, constrói altares, celebra festas e conta histórias aos filhos. Por quê? Porque temos facilidade para esquecer.

“Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueces de nem um só de seus benefícios.” (Salmo 103.2)

Uma das disciplinas espirituais mais importantes é aprender a lembrar.

Ilustração:

George Müller ficou conhecido por registrar cuidadosamente respostas às suas orações durante seu ministério com órfãos em Bristol. 

Os registros não serviam para exaltar Müller; serviam para testemunhar: “Deus respondeu. Deus sustentou. Deus proveu.” Josué 15 funciona de maneira semelhante. Cada cidade é um memorial escrito: Deus cumpriu Sua promessa.

Aplicações 

  • Não despreze os detalhes da providência.
  • Aprenda a contar às próximas gerações aquilo que Deus fez.
  • Não transforme demora em incredulidade. Quando uma promessa bíblica parecer distante, lembre-se: Deus não esquece.
  • Mantenha memoriais espirituais da graça recebida.

II – A HERANÇA RECEBIDA DEVE SER ADMINISTRADA PARA A GLÓRIA DE DEUS (Js 15.20–62)

Há outra verdade presente nessa longa lista. As cidades não foram dadas a Judá apenas para serem admiradas; deveriam ser habitadas, cultivadas, protegidas e administradas. A herança trazia responsabilidade.

Esse princípio atravessa toda a Bíblia:

“O que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel.” (1Coríntios 4.2)

1. Toda bênção é também uma responsabilidade

Deus lhe deu uma família? Administre-a para Sua glória. Deu recursos? Use-os para Sua glória. Deu conhecimento? Use-o para servir. Deu influência? Use-a para edificar. Deu dons? Coloque-os à disposição do Corpo de Cristo.

O grande erro é pensar: “Deus me deu isto para mim.” A perspectiva bíblica pergunta: “Por que Deus colocou isto em minhas mãos?”

2. Deus concede diferentes porções

As cidades de Judá não eram iguais. Algumas ficavam nas montanhas, outras no deserto, outras em regiões agrícolas, e outras em posições estratégicas. Mas todas faziam parte da mesma herança.

Da mesma forma, Deus não entrega a todos os cristãos exatamente as mesmas responsabilidades.

“Temos diferentes dons segundo a graça que nos foi dada.” (Romanos 12.6)

O problema começa quando deixamos de cuidar de nossa porção porque estamos olhando para a porção do outro. 

Comparação produz inveja, ingratidão, competição e desânimo. Contentamento produz fidelidade.

3. Fidelidade importa mais que visibilidade

Algumas cidades da lista tornaram-se famosas; outras são quase desconhecidas para nós. Mas todas estão registradas.

No Reino de Deus existem ministérios conhecidos e serviços que quase ninguém vê. Existem púlpitos, mas existem também salas de oração. 

Existem pregadores, mas existem também pessoas que chegam cedo para abrir a igreja. Existem missionários conhecidos, mas existem mantenedores anônimos. Existem grandes responsabilidades públicas e pequenos atos de fidelidade que somente Deus conhece.

Nada disso é esquecido pelo Senhor.

“Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome.” (Hebreus 6.10)

4. A pergunta final não será sobre tamanho, mas fidelidade

Jesus não disse ao servo da parábola: “Servo famoso e influente.” Disse:

“Muito bem, servo bom e fiel.” (Mateus 25.21)

Essa deve ser nossa ambição: não necessariamente ser grande aos olhos dos homens, mas ser fiel diante de Deus.

Ilustração:

Em uma grande construção, algumas pedras ficam na fachada e são admiradas por todos. Outras permanecem escondidas nos fundamentos. 

Mas retire as pedras do fundamento e toda a estrutura fica comprometida. Assim é a Igreja. Nem todo serviço será visível, mas todo serviço fiel possui valor diante de Deus.

Aplicações 

  • Pare de medir seu chamado pela visibilidade.
  • Administre fielmente sua “cidade”: sua casa, seu ministério, seu tempo, seus recursos e seus dons.
  • Não inveje a porção de outra pessoa.
  • Lembre-se: Deus não pedirá contas daquilo que entregou ao outro; pedirá contas daquilo que confiou a você.

III – UMA HERANÇA RECEBIDA NÃO JUSTIFICA UMA OBEDIÊNCIA INCOMPLETA (Js 15.63)

Depois de uma longa lista de cidades, o capítulo termina de maneira surpreendente:

“Não puderam, porém, os filhos de Judá expulsar os jebuseus que habitavam em Jerusalém; assim, habitam os jebuseus com os filhos de Judá em Jerusalém até ao dia de hoje.” Aqui surge uma nota de tensão: Deus foi fiel, mas a tarefa de Judá permaneceu incompleta.

1. Vitórias anteriores não justificam acomodação presente

Judá havia recebido muito e conquistado muito. Mas ainda havia algo a fazer.

Nunca devemos permitir que as vitórias de ontem se tornem desculpa para a acomodação de hoje. Paulo, mesmo depois de décadas de ministério, declarou:

“Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtained a perfeição; mas prossigo...” (Filipenses 3.12)

O cristão maduro nunca diz “Já cheguei”; ele continua avançando.

2. Pecados tolerados podem tornar-se problemas prolongados

Os jebuseus permaneceram, e mais tarde Jerusalém continuaria sendo um ponto de conflito até o período de Davi.

O princípio espiritual é claro: aquilo que toleramos hoje pode tornar-se uma batalha amanhã. 

John Owen formulou a conhecida advertência: “Esteja matando o pecado, ou ele estará matando você.” Não fazemos alianças com o pecado, não o domesticamos e não o mantemos como hóspede; pela graça e pelo Espírito, mortificamos o pecado.

3. Obediência parcial continua sendo obediência incompleta

Podemos obedecer em muitas áreas e manter uma pequena “Jerusalém jebusita” no coração.

Podemos ser fiéis no culto e negligentes em casa; fiéis na doutrina e indulgentes com o orgulho; fiéis no ministério e descuidados na vida devocional; fiéis externamente e alimentando pecados secretos.

Davi orou:

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração.” (Salmo 139.23)

Essa deveria ser nossa oração: “Senhor, existe alguma área ainda não submetida ao Teu governo?”

4. Precisamos de um Conquistador maior

Aqui o texto nos conduz a Cristo. Judá não completou plenamente sua conquista, e Josué não proporcionou o descanso definitivo. Mas Jesus veio. Ele pertence à tribo de Judá. Apocalipse O chama:

“O Leão da tribo de Judá.” (Apocalipse 5.5)

Ele enfrentou os inimigos que jamais conseguiríamos vencer: o pecado, a culpa, Satanás e a morte. Na cruz, parecia derrotado, mas ressuscitou.

“Tragada foi a morte pela vitória.” (1Coríntios 15.54)

A esperança cristã não está em nossa capacidade de concluir perfeitamente a conquista. Está naquele que declarou:

“Está consumado.” (João 19.30)

Aplicações Práticas:

À luz de toda a passagem, precisamos perguntar:

  • Onde preciso reconhecer novamente a fidelidade de Deus?
  • O que Deus colocou sob minha responsabilidade?
  • Existe alguma área de obediência incompleta em minha vida? Que pecado tenho tolerado?
  • Estou vivendo das vitórias do passado ou avançando em santificação?
  • Minha confiança está em minha capacidade ou na vitória de Cristo?

CONCLUSÃO

Josué 15.20–63 começa com uma herança e termina com uma batalha ainda não concluída. 

Entre esses dois pontos existem dezenas de cidades, e cada nome proclama: Deus foi fiel. - Cabzeel: Deus foi fiel. - Ziclague: Deus foi fiel. - Hebrom: Deus foi fiel. - En-Gedi: Deus foi fiel. 

Mas quando chegamos ao versículo 63, ouvimos outra mensagem: Ainda existe trabalho a fazer. E talvez essa seja uma excelente descrição da vida cristã:

  • Quando olhamos para trás: Quanta fidelidade de Deus!
  • Quando olhamos para dentro: Quanto ainda precisa ser transformado!
  • Quando olhamos para frente: Quanto ainda temos para avançar!
  • E quando olhamos para Cristo: Quanta esperança!

Irmãos, Deus foi fiel ontem, Deus é fiel hoje, e Deus continuará fiel amanhã.

A pergunta é: Como responderemos à Sua fidelidade? Com acomodação ou com obediência?

Com ingratidão ou com adoração?

Com tolerância ao pecado ou com santificação?

Que possamos dizer:

“Senhor, tudo o que tenho veio de Ti. Ajuda-me a administrar fielmente minha herança e não permitir que nenhuma área da minha vida permaneça deliberadamente fora do Teu governo.” 

Porque, no fim, nossa esperança não repousa na perfeição da nossa fidelidade; repousa na perfeição da fidelidade de Cristo. Ele é o verdadeiro Leão da tribo de Judá.

 Ele venceu, Ele reina, e Ele completará Sua obra em nós. Chegará o dia em que não haverá mais território ocupado pelo inimigo, não haverá pecado, não haverá morte e não haverá maldição. Cristo fará novas todas as coisas.

Até esse dia:

  • Lembremo-nos da fidelidade de Deus;
  • Administremos com fidelidade aquilo que Ele nos confiou;
  • Não toleremos áreas de desobediência;
  • E continuemos avançando, olhando firmemente para Jesus.

“Fiel é o que vos chama, o qual também o fará.” (1Tessalonicenses 5.24)

Soli Deo Gloria. Amém.

Pr. Eli Vieira Filho

 

QUANDO A HERANÇA EXIGE FÉ, CORAGEM E INICIATIVA


 Texto: Josué 15.1–19

Texto-chave: “Então Calebe disse: A quem ferir Quiriate-Sefer e a tomar, lhe darei minha filha Acsa por mulher.” — Josué 15.16

Existem promessas de Deus que recebemos pela graça, mas cuja posse prática exige fé, coragem e obediência.

Josué 15 começa descrevendo os limites territoriais da tribo de Judá. À primeira vista, o capítulo parece apenas uma longa lista geográfica. Mas, no meio dessa descrição, o Espírito Santo destaca uma pequena narrativa familiar: Calebe, Otniel e Acsa.

É como se, no meio de mapas, fronteiras e cidades, Deus dissesse:

“Agora quero mostrar a vocês como a herança é realmente desfrutada.”

Calebe havia recebido Hebrom. But a herança ainda exigia enfrentamento. Ainda havia cidades a conquistar. Ainda havia inimigos a remover. Ainda havia decisões a tomar. A bênção estava prometida, mas não significava passividade.

Essa é uma verdade muito importante para a vida cristã.

  • A graça não produz acomodação.
  • A promessa não cancela responsabilidade.
  • A providência não elimina iniciativa.

Deus concede, e o povo avança. Deus promete, e o crente obedece. Deus abre portas, e nós atravessamos.

Martyn Lloyd-Jones observou, em essência, que a fé verdadeira nunca é mera contemplação; ela se manifesta numa vida que responde à Palavra de Deus com ação.

Josué 15.1–19 nos mostra exatamente isso:

  1. Calebe confia.
  2. Otniel age.
  3. Acsa pede.

E Deus, por meio dessas decisões, manifesta Sua fidelidade.

O capítulo 15 trata da herança da tribo de Judá. Os primeiros versículos descrevem os limites territoriais da tribo. Depois, nos versículos 13–19, a narrativa se concentra em Calebe.

Ele recebe Hebrom como herança pessoal, conforme a promessa do Senhor. Mas havia ainda cidades fortificadas e povos a serem removidos. 

Calebe toma posse de sua região. Expulsa os filhos de Anaque. Depois volta sua atenção para Quiriate-Sefer, também chamada Debir.

Então propõe:

“A quem ferir Quiriate-Sefer e a tomar, lhe darei minha filha Acsa por mulher.” (v.16)

Otniel aceita o desafio. Conquista a cidade. Recebe Acsa por esposa. Depois Acsa pede ao pai uma bênção adicional:

“Dá-me também fontes de águas.” (v.19)

Calebe lhe concede as fontes superiores e as fontes inferiores.

Essa pequena narrativa mostra três movimentos:

  • Calebe confia e transmite fé.
  • Otniel responde com coragem.
  • Acsa demonstra iniciativa e sabedoria.

A herança recebida da graça de Deus deve ser desfrutada com fé, coragem e iniciativa responsável.

Josué 15.1–19 apresenta três marcas de quem deseja viver plenamente aquilo que Deus lhe confiou.

I – A FÉ VERDADEIRA NÃO SE ACOMODA DIANTE DOS DESAFIOS (Js 15.13–16)

Calebe já era um homem idoso, mas não estava aposentado da fé. Ele havia recebido Hebrom; ainda assim, havia trabalho pela frente. 

O texto diz que ele expulsou dali os três filhos de Anaque. Depois voltou-se para Quiriate-Sefer.

Isso mostra algo importante: a herança não eliminou a batalha. Calebe possuía a promessa, mas ainda precisava agir.

1. A fé não nega os obstáculos

Calebe não fingia que os inimigos não existiam. Ele sabia que havia resistência e que a cidade precisava ser tomada. 

A fé bíblica nunca é ilusão: ela vê o problema, mas o vê à luz da fidelidade de Deus. João Calvino insistia que a fé verdadeira não fecha os olhos para as dificuldades; ela aprende a vencê-las apoiada na Palavra.

2. A fé transmite coragem para a próxima geração

Calebe não concentra toda a missão em si mesmo. Ele envolve outros. Isso é maturidade. Um líder espiritual saudável não pensa apenas: “Como eu posso vencer?”, mas sim: “Quem estou preparando para continuar?” Otniel entra na história porque Calebe abre espaço para uma nova geração agir. Precisamos transmitir:

  • Convicções;
  • Coragem;
  • Responsabilidades;
  • Oportunidades.

Paulo fez isso com Timóteo. Moisés fez com Josué. Agora Calebe faz com Otniel.

3. A herança exige movimento

Calebe diz: “A quem ferir Quiriate-Sefer e a tomar...” Observe o verbo: tomar. Havia uma cidade real, um desafio concreto e uma responsabilidade objetiva. 

Muitas vezes queremos viver as promessas de Deus sem qualquer custo de obediência. Mas a fé não é passiva. Tiago afirma:

“A fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.” (Tg 2.17)

ILUSTRAÇÃO

Em muitas expedições de montanha, o topo já está visível antes da última subida. Mas vê-lo não significa tê-lo conquistado: ainda é necessário caminhar. 

Assim acontece na vida cristã. A promessa está diante de nós, mas a obediência precisa percorrer o caminho.

APLICAÇÕES

  1. Não confunda promessa com passividade.
  2. Enfrente os desafios que Deus colocou diante de você.
  3. Transmita fé e responsabilidade à próxima geração.
  4. Não viva apenas das vitórias do passado.
  5. Pergunte qual “Quiriate-Sefer” Deus ainda quer que você enfrente.

II – A CORAGEM DA FÉ TRANSFORMA OPORTUNIDADES EM CONQUISTAS (Js 15.17)

O texto diz:

“Tomou-a Otniel, filho de Quenaz, irmão de Calebe...”

É uma frase curta, mas contém um enorme significado. Otniel ouviu o desafio e respondeu.

1. Otniel não apenas admirou a coragem de Calebe: ele a imitou

Isso é discipulado verdadeiro. A nova geração não foi chamada apenas para celebrar os heróis da anterior; foi chamada para continuar a obra. 

Otniel não diz apenas: “Que homem extraordinário é Calebe”; ele demonstra: “Quero servir ao mesmo Deus.” Essa é a melhor homenagem que uma geração pode prestar à anterior.

2. Coragem não é ausência de medo

A Bíblia nunca apresenta coragem como mero traço de personalidade forte. A coragem bíblica nasce da confiança no Senhor. Otniel enfrentaria uma cidade fortificada, mas respondeu com ação. 

Mais tarde, no livro de Juízes, ele seria usado por Deus como o primeiro libertador de Israel. Esse episódio funciona como uma preparação para seu ministério futuro. Deus frequentemente usa pequenos atos de fidelidade para preparar grandes responsabilidades.

3. Deus usa desafios para formar Seus servos

Quiriate-Sefer não era apenas uma cidade; era também uma escola. Otniel aprende:

  • Iniciativa;
  • Liderança;
  • Combate;
  • Responsabilidade.

Mais tarde, essas mesmas qualidades seriam vitais. É assim que Deus trabalha: as batalhas de hoje frequentemente nos preparam para as responsabilidades de amanhã. 

John Newton observou, em essência, que Deus forma Seus servos por meio das próprias providências que inicialmente parecem apenas dificuldades.

APLICAÇÕES 

  1. Não despreze pequenos desafios.
  2. Permita que Deus use dificuldades para amadurecer você.
  3. Imite exemplos piedosos, não apenas os admire.
  4. Coragem cresce quando obedecemos.
  5. Responda às oportunidades de Deus com prontidão.

III – UMA FÉ MADURA SABE PEDIR COM SABEDORIA (Js 15.18–19)

Depois da conquista, surge Acsa. Ela recebe uma porção de terra, mas percebe uma necessidade: o terreno precisava de água. Então pede ao pai:

“Dá-me uma bênção... dá-me também fontes de águas.” (v.19)

Calebe responde concedendo:

“As fontes superiores e as fontes inferiores.”

Essa cena é belíssima. Acsa não demonstra ganância; demonstra sabedoria. Ela entende que a terra sem água seria limitada. Sua iniciativa completa aquilo que já havia recebido.

1. Receber uma herança não elimina a necessidade de discernimento

Acsa não despreza a terra nem se contenta superficialmente. Ela percebe aquilo que falta. Essa é uma marca de maturidade. 

Pessoas maduras perguntam: “Como posso usar melhor aquilo que Deus me deu?” Não é ingratidão; é responsabilidade.

2. É legítimo pedir bênçãos a Deus

Acsa pede ao pai. Jesus também ensina Seus discípulos a pedir ao Pai celestial:

“Pedi, e dar-se-vos-á.” (Mt 7.7)

Tiago escreve:

“Nada tendes, porque não pedis.” (Tg 4.2)

A oração não é uma tentativa de manipular a Deus; é expressão de dependência. Acsa reconhece que precisa de algo que não pode produzir sozinha. Essa é a essência da oração.

3. O pai concede abundantemente

Calebe não dá apenas uma fonte; ele concede as fontes superiores e as fontes inferiores. A generosidade do pai humano lembra a generosidade do nosso Pai celestial. Paulo afirma:

“Aquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos...” (Ef 3.20)

Deus não é avarento: Ele é Pai. Matthew Henry comenta, em essência, que bons pais se alegram em conceder aquilo que realmente beneficia seus filhos.

4. Cristo é a fonte definitiva

Toda a Bíblia aponta para algo maior. Acsa precisava de água para viver na terra; nós precisamos da água viva. Jesus declarou:

“Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede.” (Jo 4.14)

A maior bênção não é apenas receber “fontes superiores e inferiores”. É receber Cristo. Ele é a fonte. Ele é a vida. Ele é a herança.

ILUSTRAÇÃO

Em regiões áridas, possuir terra sem água pouco significa. A água determina vida, cultivo e futuro. Acsa compreendeu isso. 

Muitas pessoas possuem muitas coisas, mas continuam espiritualmente secas. Têm recursos, posição e oportunidades, mas falta-lhes a Fonte. Cristo é essa Fonte.

APLICAÇÕES 

  1. Aprenda a pedir com sabedoria.
  2. Transforme bênçãos recebidas em responsabilidade.
  3. Não tenha vergonha de depender de Deus.
  4. Busque não apenas recursos, mas a presença do Senhor.
  5. Faça de Cristo sua fonte inesgotável.

CONCLUSÃO

Josué 15.1–19 parece ser apenas um capítulo sobre fronteiras. Mas, no meio da geografia, Deus revela uma família vivendo pela fé:

  • Calebe confia.
  • Otniel avança.
  • Acsa pede.

Três pessoas. Três atitudes. Um mesmo Deus.

  • Calebe nos ensina: A promessa não produz acomodação.
  • Otniel nos ensina: A coragem precisa transformar oportunidade em ação.
  • Acsa nos ensina: A maturidade sabe pedir aquilo que é necessário para frutificar.

E tudo isso aponta para Cristo. Porque a verdadeira herança não é apenas uma terra: é o próprio Senhor. A verdadeira coragem não nasce apenas de personalidade: nasce da presença de Cristo. A verdadeira fonte não está apenas na água: é Cristo.

Jesus declarou:

“Se alguém tem sede, venha a mim e beba.” (Jo 7.37)

Portanto, irmãos, não vivamos uma fé passiva. Há cidades a conquistar, desafios a enfrentar, responsabilidades a assumir e fontes a pedir. Mas façamos tudo olhando para Cristo, porque Ele é aquele que:

  • Garante nossa herança;
  • Fortalece nossa coragem;
  • Sustenta nossa obediência; e
  • Satisfaz nossa alma.

Que possamos viver como Calebe, Otniel e Acsa: com fé para receber, coragem para avançar e sabedoria para pedir.

“Tudo posso naquele que me fortalece.” (Fp 4.13)

Soli Deo Gloria. Amém.

Pr. Eli Vieira Filho

 

CALEBE: UMA FÉ QUE PERSEVERA ATÉ O FIM

 


Texto: Josué 14.6–15

Texto-chave:  “Estou forte ainda hoje como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força naquele dia, tal ainda agora para o combate, tanto para sair a ele como para voltar. Agora, pois, dá-me este monte de que o SENHOR falou naquele dia.”  Josué 14.11–12


Há pessoas que começam muito bem, mas terminam mal. Começam entusiasmadas, mas depois desanimam.

Começam cheias de convicções, mas com o passar dos anos fazem concessões.

Começam servindo ao Senhor com alegria, mas as decepções, as lutas, o sofrimento e o próprio tempo vão lentamente apagando o fervor espiritual.

Por isso, talvez uma das coisas mais difíceis da vida cristã não seja simplesmente começar bem, mas terminar bem.

Josué 14 apresenta um homem que começou bem e terminou bem.

Seu nome é Calebe.

Quando aparece diante de Josué, ele tem oitenta e cinco anos.

Quarenta e cinco anos haviam passado desde o episódio dos espias em Cades-Barneia.

Quarenta e cinco anos!

Calebe havia esperado quase meio século pelo cumprimento de uma promessa.

Ele atravessou o deserto. Viu uma geração inteira morrer.

Atravessou o Jordão. Participou das guerras de Canaã.

Viu Jericó cair.

Viu Ai ser conquistada.

Viu reis serem derrotados.

Agora, aos oitenta e cinco anos, chega o momento de receber sua herança.

Seria natural esperar que Calebe dissesse:

“Josué, já fiz minha parte.”“Já lutei bastante.”“Agora quero uma região tranquila.”“Dê-me uma terra onde eu possa descansar.” Mas não.

Calebe olha para uma das regiões mais difíceis de Canaã e diz:

“Agora, pois, dá-me este monte.” (v.12) E existe algo ainda mais impressionante.

Naquele monte havia gigantes. Os anaquins ainda estavam ali.

As cidades eram grandes e fortificadas.Mesmo assim, Calebe queria aquela montanha.

Por quê? Porque sua confiança não estava em sua própria força.

Ele declara:

“O SENHOR será comigo, para os desapossar, como prometeu.” (v.12) Aqui está o segredo de Calebe.

Ele não possuía fé em sua fé.

Possuía fé no Deus que havia prometido.

Calebe nos ensina que a verdadeira fé não é apenas aquela que começa entusiasmada.

É aquela que persevera até o fim.

Paulo poderia dizer, séculos depois:

“Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.” (2Tm 4.7) Esse deveria ser o desejo de todo cristão.

Não apenas começar com Cristo, mas terminar com Cristo.

Não apenas servir quando somos jovens, mas permanecer fiéis quando os cabelos embranquecem.

Não apenas acreditar quando a promessa é feita, mas continuar acreditando quando décadas se passam e ela ainda não se cumpriu.

Josué 14.6–15 nos leva de volta a um acontecimento ocorrido aproximadamente quarenta e cinco anos antes.

Em Números 13 e 14, Moisés enviou doze homens para espiar Canaã.

Eles observaram a terra durante quarenta dias.

Ao retornarem, todos concordaram em uma coisa: a terra era excelente.

Mas dez espias concentraram sua atenção nos obstáculos.

Disseram:

“O povo, porém, que habita nessa terra é poderoso, e as cidades, mui grandes e fortificadas; também vimos ali os filhos de Anaque.” (Nm 13.28) Josué e Calebe enxergaram exatamente os mesmos gigantes.

Viram exatamente as mesmas muralhas.

Conheciam exatamente os mesmos riscos.

A diferença não estava nos olhos; estava no coração.

Os dez espias compararam Israel com os gigantes.

Calebe comparou os gigantes com Deus.

Por isso declarou:

“Eia! Subamos e possuamos a terra, porque, certamente, prevaleceremos contra ela.” (Nm 13.30) O povo, entretanto, acreditou no relatório incrédulo dos dez espias.

Como consequência, aquela geração morreu no deserto.

Mas Deus fez uma promessa a Calebe:

“Porém o meu servo Calebe, visto que nele houve outro espírito, e perseverou em seguir-me, eu o farei entrar na terra que espiou.” (Nm 14.24) Agora, quarenta e cinco anos depois, essa promessa está prestes a cumprir-se.

Josué 14 é, portanto, uma história sobre fé, promessa, perseverança e fidelidade divina.

A fé verdadeira persevera até o fim porque não repousa nas circunstâncias, na força humana ou na passagem do tempo, mas na fidelidade imutável do Deus que promete.

Na experiência de Calebe encontramos três características fundamentais de uma fé que persevera até o fim.

I – A FÉ QUE PERSEVERA GUARDA A PALAVRA DE DEUS NO CORAÇÃO

(Josué 14.6–9)

Calebe começa sua conversa com Josué dizendo:

“Tu sabes o que o SENHOR falou a Moisés, homem de Deus, em Cades-Barneia, a respeito de mim e de ti.” (v.6) Observe cuidadosamente suas primeiras palavras: “Tu sabes o que o SENHOR falou.” Quarenta e cinco anos se passaram, mas Calebe não esqueceu. A promessa continuava viva em seu coração.

Ele não começa falando sobre suas realizações. Começa falando sobre aquilo que Deus havia dito.

Esse é o primeiro segredo de sua perseverança: Calebe viveu durante quarenta e cinco anos sustentado por uma Palavra de Deus.

1. A fé verdadeira nasce da Palavra

A fé bíblica não é pensamento positivo, não é otimismo e não é acreditar que tudo terminará exatamente como desejamos.

A fé bíblica repousa naquilo que Deus revelou.

Paulo afirma:

“E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17) Calebe não inventou uma promessa; Deus havia falado, por isso ele podia esperar.

A fé não diz: “Tenho certeza porque sinto.” A fé diz: “Tenho certeza porque Deus falou.” João Calvino enfatiza repetidamente que a fé precisa estar fundamentada na Palavra de Deus; separada da Palavra, transforma-se em mera presunção humana.

2. A fé pode enxergar dificuldades sem negar a realidade

Calebe relembra:

“Tinha eu quarenta anos quando Moisés, servo do SENHOR, me enviou de Cades-Barneia para espiar a terra.” (v.7) Calebe viu os gigantes, viu as muralhas e viu as cidades fortificadas. Sua fé não o tornou cego para a realidade.

Esse ponto é vital: fé bíblica não significa fingir que os problemas não existem, não significa negar um diagnóstico difícil, não significa ignorar uma crise ou agir como se a dor não doesse.

Fé significa olhar para a realidade sem retirar Deus da equação.

Os dez espias disseram: “Há gigantes.” Calebe também sabia disso, mas acrescentou: “Há um Deus maior que os gigantes.” 

3. A incredulidade olha para os obstáculos; a fé olha para Deus Calebe continua:

“Meus irmãos que subiram comigo desesperaram o povo; eu, porém, perseverei em seguir o SENHOR, meu Deus.” (v.8) Aqui encontramos o grande contraste. Os dez espias influenciaram negativamente toda uma geração. Eles viram as circunstâncias e esqueceram a promessa; Calebe viu as circunstâncias através da promessa.

A incredulidade pergunta: “Como conseguiremos?” A fé pergunta: “O que Deus disse?” A incredulidade mede Deus pelo tamanho do problema. A fé mede o problema pela grandeza de Deus.

4. Calebe seguiu inteiramente ao Senhor

Uma expressão aparece repetidamente na história de Calebe:

“Perseverei em seguir o SENHOR, meu Deus.” Essa ideia aparece nos versículos 8, 9 e 14. Não é repetição acidental; é a chave para compreender o caráter de Calebe.

Ele não seguiu parcialmente, não seguiu apenas quando era conveniente e não seguiu apenas enquanto era jovem. Ele seguiu o Senhor inteiramente.

Matthew Henry observa, em essência, que Calebe não apenas começou a seguir o Senhor, mas continuou seguindo-O quando a maioria abandonou o caminho. Essa é a verdadeira perseverança.

ILUSTRAÇÃO

George Müller dirigiu orfanatos em Bristol, na Inglaterra, e tornou-se conhecido por sua vida de oração. Ao longo de décadas, registrou milhares de respostas às suas orações.

Algumas respostas vieram rapidamente; outras demoraram anos. Müller relatou ter orado pela conversão de determinados amigos durante décadas sem abandonar a intercessão.

Seu princípio era simples: se aquilo pelo que orava estava de acordo com a vontade revelada de Deus, continuaria buscando ao Senhor sem transformar a demora em prova de que Deus havia deixado de ser fiel.

Essa é a atitude de Calebe. Quarenta e cinco anos não apagaram aquilo que Deus havia dito.

APLICAÇÕES 

  1. Construa sua fé sobre a Palavra, não sobre seus sentimentos: Sentimentos mudam, circunstâncias mudam, mas a Palavra de Deus permanece para sempre.
  2. Não interprete a fidelidade de Deus pela velocidade das respostas: Demora não significa esquecimento ou recusa divina.
  3. Guarde as promessas bíblicas no coração: Nos dias de tempestade e escuridão, aquilo que sustentará sua alma não será o entusiasmo passageiro, mas a verdade eterna.
  4. Tome cuidado com vozes que alimentam a incredulidade: Dez homens desanimaram uma geração inteira; cerque-se de pessoas que o impulsionem a confiar no Senhor.
  5. Decida seguir ao Senhor inteiramente: Não entregue a Deus apenas algumas áreas reservadas da vida. Calebe perseverou porque seu coração pertencia por inteiro ao Senhor.

II – A FÉ QUE PERSEVERA NÃO ENVELHECE COM O PASSAR DOS ANOS

(Josué 14.10–11)

Agora chegamos a uma das declarações mais impressionantes do texto. Calebe diz:

“Eis, agora, o SENHOR me conservou em vida, como prometeu; quarenta e cinco anos há desde que o SENHOR falou esta palavra a Moisés...” (v.10) Depois acrescenta:

“Estou forte ainda hoje como no dia em que Moisés me enviou.” (v.11) Calebe tem oitenta e cinco anos, mas observe novamente onde ele coloca a ênfase: “O SENHOR me conservou em vida.” Ele não atribui sua longevidade à genética, nem à disciplina, nem à própria força; ele reconhece a soberana providência de Deus.

1. Calebe interpretava sua vida pela providência

Quarenta e cinco anos haviam transcorrido. Durante esse período ele enfrentou o deserto, enterrou companheiros, viu uma geração inteira desaparecer, participou de guerras sangrentas e experimentou perdas.

Mas chegou aos oitenta e cinco anos dizendo: “O Senhor me conservou.” Que bela maneira de interpretar nossa história! Quando olhamos para trás, não deveríamos dizer apenas “Eu consegui chegar até aqui”, mas sim: “Até aqui o Senhor me sustentou.” Como Samuel, levantamos nossa pedra de ajuda e declaramos:

“Até aqui nos ajudou o SENHOR.” (1Sm 7.12) ### 2. A idade pode mudar nossas forças, mas não precisa diminuir nossa fidelidade É necessário interpretar corretamente o versículo 11. 

Calebe recebeu uma preservação extraordinária de vigor para a tarefa que Deus ainda tinha para ele. O texto não promete que todo crente de oitenta e cinco anos terá a força física de um jovem de quarenta.

A Bíblia reconhece com realismo as limitações da idade. Contudo, existe uma força que não precisa diminuir: a força da fé.

Paulo escreve:

“Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia.” (2Co 4.16) O corpo envelhece, mas a fé pode amadurecer. Os passos ficam mais lentos, mas a comunhão torna-se mais profunda. A capacidade física diminui, mas a sabedoria espiritual pode aumentar exponencialmente.

3. Não existe aposentadoria da fidelidade cristã

Há aposentadoria profissional, pode haver transição ministerial e há tarefas que uma nova geração precisa assumir.

Mas ninguém jamais se aposenta de: amar a Deus, orar, testemunhar, aconselhar, servir, buscar a santidade e encorajar a próxima geração. 

Calebe tem oitenta e cinco anos e ainda está olhando para frente. Não vive apenas contando histórias saudosistas do passado; ele ainda possui um monte diante de si!

O cristão maduro não vive somente dizendo: “Veja o que Deus fez no passado”, mas também pergunta: “Senhor, o que ainda queres fazer por meu intermédio hoje?”  

Quando João Calvino chegou aos últimos anos de sua vida, sua saúde estava profundamente debilitada. Mesmo sofrendo de diversas dores físicas e doenças crônicas, continuou pregando, ensinando e escrevendo enquanto suas forças permitiam.

Seus amigos tentaram convencê-lo a diminuir o ritmo e descansar, mas Calvino respondeu perguntando se queriam que o Senhor o encontrasse ocioso quando voltasse. Consciente de que seu tempo era curto, desejava continuar servindo enquanto Deus lhe desse condições.

A lição central é esta: enquanto Deus concede vida, a fidelidade continua sendo o nosso elevado chamado.

APLICAÇÕES 

  1. Não use a idade como desculpa para abandonar a missão: Talvez a forma do seu serviço mude, mas o chamado à fidelidade jamais muda.
  2. Pessoas mais velhas são indispensáveis à Igreja: A Igreja de Cristo necessita desesperadamente de sua experiência, oração, sabedoria e testemunho firme.
  3. Prepare a próxima geração: A maturidade cristã não acumula bagagem espiritual apenas para si; transmite-a com amor aos mais jovens.
  4. Não viva apenas das experiências de ontem: O Deus de ontem é o Deus de hoje; pergunte qual é a missão que Ele lhe confia no presente.
  5. Agradeça pela preservação providencial do Senhor: Cada novo amanhecer é uma oportunidade concedida por Deus para glorificá-Lo na terra.

III – A FÉ QUE PERSEVERA ENFRENTA NOVOS DESAFIOS CONFIANDO NA PRESENÇA DE DEUS

(Josué 14.12–15)

Chegamos ao clímax do texto. Calebe declara:

“Agora, pois, dá-me este monte de que o SENHOR falou naquele dia.” (v.12) Que pedido extraordinário! Ele não pede uma planície confortável, nem escolhe o território aparentemente mais fácil. Ele pede Hebrom.

E Hebrom possuía um enorme desafio: “Pois naquele dia ouviste que lá estavam os anaquins e grandes e fortes cidades.” Os gigantes ainda estavam lá. Quarenta e cinco anos antes, eles estavam lá; agora continuam lá. Mas Calebe também continua crendo!

1. A fé madura não procura necessariamente o caminho mais fácil

Existe uma ideia equivocada de que caminhar com Deus significa evitar todo tipo de dificuldade. Calebe demonstra o oposto: ele deseja justamente a região mais desafiadora, não porque amasse o perigo, mas porque aquela região fazia parte da promessa divina.

A pergunta do cristão maduro não é: “Onde será mais fácil?”, mas sim: “O que Deus prometeu?” Às vezes, a soberana vontade de Deus nos conduzirá a lugares difíceis, missões arriscadas, conversas delicadas e decisões custosas. Mas lembre-se: dificuldade jamais significa ausência de Deus.

2. Calebe sabia que os gigantes ainda existiam

Sua fé não era ingênua ou cega. Ele afirma claramente: “Lá estavam os anaquins e grandes e fortes cidades.” Ele conhece perfeitamente a dimensão do desafio.

Mas logo em seguida declara:

“Porventura, o SENHOR será comigo, para os desapossar, como prometeu.” Aqui está o coração pulsante do texto! Calebe não afirma “Eu consigo porque sou forte”, mas afirma “O Senhor estará comigo”.

Essa é a diferença crucial entre a autoconfiança e a fé genuína: a autoconfiança diz “Eu sou capaz”; a fé bíblica declara “Meu Deus é absolutamente fiel”.

3. A presença de Deus é maior que qualquer gigante

Os gigantes que aterrorizaram todo o povo de Israel quarenta e cinco anos antes agora serão enfrentados por um velho de oitenta e cinco anos. Que santa ironia!

O problema de Israel em Cades-Barneia nunca foi o tamanho dos gigantes; o problema sempre foi o tamanho insignificante que Deus ocupava na visão do povo.

Calebe enxergava com os olhos da fé: os gigantes eram grandes, mas Deus era infinitamente maior.

Essa verdade percorre toda a Escritura: Davi diante de Golias, Elias diante dos profetas de Baal, Daniel na cova dos leões, os três jovens na fornalha ardente, Paulo diante do Império Romano e a Igreja diante das portas do inferno.

A vitória do povo de Deus jamais depende da ausência de gigantes; depende da presença do Senhor.

4. Deus honra uma vida de perseverança

O versículo 13 afirma:

“Josué o abençoou e deu a Calebe, filho de Jefoné, Hebrom em herança.” E o versículo 14 explica:

“Portanto, Hebrom passou a ser de Calebe... porquanto perseverara em seguir o SENHOR, Deus de Israel.” O texto retorna à sua grande tese: por que Calebe recebeu Hebrom? Porque Deus cumpriu fielmente Sua promessa a um homem cuja fé perseverou.

Isso não significa que Calebe mereceu a graça por seus méritos; a própria promessa original era fruto da graça imerecida, e sua capacidade de perseverar foi sustentada pela fidelidade de Deus.

A graça que salva é a mesma graça que produz fidelidade e perseverança. Como ensina a teologia reformada: Deus preserva os Seus, e os Seus perseveram na fé. 

APLICAÇÕES 

  1. Identifique os gigantes que têm intimidado sua fé: Não negue a existência deles, mas jamais os torne maiores do que o Deus Todo-Poderoso.
  2. Pare de pedir apenas caminhos fáceis e isentos de dor: Peça a Deus graça e coragem para caminhar altivamente pelo caminho que Ele determinar.
  3. Não confunda fé com autoconfiança: A declaração central de Calebe não é “eu sou forte”, mas sim: “O Senhor será comigo.” 4. Continue crendo mesmo quando o cumprimento da promessa demorar: Quarenta e cinco anos no deserto não invalidaram nem um milímetro da Palavra de Deus.
  4. Termine bem sua jornada: Mais importante do que uma grande e barulhenta arrancada espiritual é uma longa e constante fidelidade sustentada pela graça divina.

CONCLUSÃO

Quando encontramos Calebe pela primeira vez, ele tem quarenta anos. Quando o encontramos em Josué 14, ele está com oitenta e cinco. Entre esses dois momentos existem quarenta e cinco longos anos de espera, deserto e guerras.

Mas existe algo glorioso que jamais mudou: seu coração continuou seguindo inteiramente ao Senhor.

Aos quarenta anos, Calebe dizia: “Podemos subir e possuir a terra.” Aos oitenta e cinco, ele declara: “Dá-me este monte.” Que testemunho avassalador!

Ele não permitiu que a amargura do deserto matasse sua fé;

não permitiu que a incredulidade dos outros contaminasse seu coração;

não permitiu que a demora da promessa anulasse sua esperança;

e não permitiu que a velhice produzisse acomodação espiritual.

Calebe permaneceu firme. Entretanto, ao olharmos para Calebe, devemos enxergar Além dele. Calebe aponta diretamente para Alguém infinitamente maior. Nenhum de nós consegue perseverar de forma perfeita. 

Nossa esperança definitiva não está em tentarmos ser tão fortes quanto Calebe, mas está em Jesus Cristo, que foi perfeitamente fiel até a morte e morte de cruz.

  • Calebe seguiu inteiramente ao Senhor; Cristo obedeceu perfeitamente ao Pai em tudo.
  • Calebe enfrentou gigantes em Canaã; Cristo enfrentou e derrotou o pecado, Satanás e a própria morte na cruz.
  • Calebe conquistou uma montanha terrena em Hebrom; Cristo conquistou para nós uma herança eterna e incorruptível nos céus.
  • Calebe recebeu uma cidade temporária; Cristo nos conduz à Cidade Celestial, cujo arquiteto e edificador é o próprio Deus.

É o próprio Cristo glorificado quem garante e sustenta a nossa perseverança até o fim. Como Jesus categoricamente declarou:

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.” (Jo 10.27–28) Portanto, meus amados irmãos, não importa apenas como começamos a caminhada da fé. 

O que realmente importa é como terminaremos. Que, depois de décadas de lutas, possamos continuar dizendo: “O Senhor é fiel!” 

Quando os cabelos embranquecerem e o corpo cansar: “O Senhor é fiel!” Quando as forças físicas diminuírem: “O Senhor é fiel!” 

Quando gigantes ainda se levantarem no caminho: “O Senhor é fiel!” 

E quando as promessas parecerem demoradas aos nossos olhos: “O Senhor é fiel!” 

E quando chegarmos ao final da nossa carreira nesta terra, que possamos proclamar com o apóstolo Paulo:

“Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.” (2Tm 4.7) A grande pergunta com a qual encerramos este sermão, portanto, não é apenas: Como você começou sua vida com Deus? 

A pergunta solene é: Como você pretende terminar? Que Deus nos conceda a mesma graça concedida a Calebe: uma fé que se alimenta da Palavra, uma fé que atravessa intocada os anos e as crises, e uma fé que continua enfrentando gigantes porque sabe que o Senhor Soberano permanece conosco.

Que a nossa oração diária seja:

“Senhor, conserva-me fiel até o fim. E enquanto houver um monte desafiador diante de mim, dá-me graça e poder para continuar avançando, unicamente para a Tua glória.” Soli Deo Gloria. Amém!

Pr. Eli Vieira Filho

 

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