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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Quando o Pecado Destrói a Dignidade Humana

 


Texto Base: Juízes 19:1–30

Quando uma sociedade rejeita o governo de Deus, a hospitalidade transforma-se em violência, seres humanos são reduzidos a objetos descartáveis e a comunidade inteira é chamada a despertar para sua responsabilidade moral e espiritual.

Juízes 19 é um dos capítulos mais sombrios, incômodos e perturbadores de toda a Bíblia. Não há nele heróis exemplares, frases inspiradoras de efeito ou um final feliz imediato. Encontramos uma sequência dolorosa de desordem familiar, covardia, abuso, violência sexual, assassinato e profunda insensibilidade.

Diante de um relato tão estarrecedor, a pergunta inevitável surge: “Por que a Palavra de Deus preservou uma história tão terrível?”

A resposta é que as Escrituras Sagradas não maqueiam a realidade do pecado. A Bíblia não é uma peça propagandística criada para apresentar seus personagens de forma idealizada. Ela expõe com honestidade crua o abismo ao qual a humanidade chega quando rejeita o senhorio de Deus. O texto não narra a violência para promovê-la ou instigar curiosidade sensacionalista; ele a expõe para que sintamos indignação santa e horror diante da degradação produzida pelo pecado. Juízes 19 não normaliza o abuso — denúncia uma sociedade cuja consciência moral ruiu.

Esta mensagem exige sensibilidade pastoral. Entre os ouvintes, podem existir pessoas que já sofreram violência doméstica, abuso, humilhação ou abandono — marcas profundas que talvez nunca tenham sido compartilhadas. Por isso, a abordagem deste texto deve fugir do sensacionalismo e da frieza. A vítima desta narrativa jamais deve ser responsabilizada pelo crime sofrido; nada em sua conduta justifica a atrocidade perpetrada contra ela. A responsabilidade pertence integralmente aos agressores e àqueles que, tendo o dever de protegê-la, preferiram entregá-la à violência.

Juízes 19 marca o fundo do poço da história de Israel. O povo libertado do Egito começou a reproduzir dentro de suas próprias vilas a brutalidade das nações ímpias. A Terra Prometida, destinada a ser um modelo de justiça da aliança, tornou-se cenário de um crime comparável ao de Sodoma.

O capítulo abre com a seguinte chave de leitura:

“Aconteceu, naqueles dias, em que não havia rei em Israel...” (Jz 19:1a)

E o livro encerra selando esse diagnóstico:

“Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto aos seus olhos.” (Jz 21:25)

O problema essencial não era meramente político, mas espiritual. O Senhor deveria ser o Rei soberano sobre o povo, contudo, cada indivíduo havia erigido suas próprias vontades como autoridade suprema. E quando cada um faz o que bem entende, os mais fortes exercem tirania e os mais vulneráveis pagam a conta.

Juízes 19 inicia a seção final do livro (capítulos 19 a 21), uma unidade narrativa que descreve o crime em Gibeá, a comoção das tribos, a guerra civil contra a tribo de Benjamim e as decisões trágicas tomadas para reparar os estragos da guerra.

  1. O Cenário e os Personagens: Um levita morador da região montanhosa de Efraim possuía uma concubina natural de Belém de Judá. A condição de concubina no mundo antigo referia-se a uma união reconhecida, porém de status social e proteção jurídica inferiores aos de uma esposa plena, o que já a colocava em uma posição de vulnerabilidade.
  2. O Afastamento e a Busca: A mulher deixou o levita e retornou à casa paterna em Belém, lá permanecendo por quatro meses. O levita foi ao seu encontro para "falar-lhe ao coração" e trazê-la de volta. O pai da jovem o acolheu com abundante hospitalidade, postergando a partida por vários dias entre banquetes.
  3. A Escolha do Abrigo: Quando finalmente partiram, já ao entardecer, o servo sugeriu pernoitar em Jebus (futura Jerusalém). O levita recusou por ser uma cidade de estrangeiros, preferindo buscar abrigo em Gibeá, uma cidade da tribo de Benjamim. Ele supunha estar seguro entre seus irmãos de aliança.
  4. A Hostilidade de Gibeá: Chegando à praça de Gibeá, nenhum habitante local ofereceu acolhimento ao grupo. Apenas um homem idoso, também estrangeiro vindo de Efraim e morador de Gibeá, os convidou para sua casa.
  5. O Crime de Gibeá: Durante a noite, homens perversos da cidade cercaram a casa exigindo o levita para abusarem dele. Em uma tentativa distorcida de proteção ao hóspede, o anfitrião ofereceu sua filha virgem e a concubina do levita. Por fim, o próprio levita empurrou a concubina para fora. Ela foi abusada e violentada a noite toda, sendo abandonada ao amanhecer na porta da casa.
  6. A Insensibilidade e a Convocação: Pela manhã, ao encontrar a mulher caída no limiar da porta, o levita disse-lhe com frieza: "Levanta-te, e vamos". Sem resposta, ele a colocou sobre um jumento, viajou para casa e dividiu o corpo dela em doze partes, enviando-as a todo o território de Israel. O choque nacional foi imediato: "Nunca tal se fez, nem se viu..." (v. 30).

Juízes 19 revela que, quando o governo de Deus é rejeitado, a indiferença pavimenta o caminho para a violência, os vulneráveis são sacrificados em favor do conforto dos detentores de poder, e até a indignação moral torna-se hipócrita se não nascer do arrependimento pessoal.

Examinemos três solenes verdades sobre a degradação humana e a nossa necessidade urgente de nos submetermos ao reinado justo de Deus.

1. A REJEIÇÃO DO GOVERNO DE DEUS COMEÇA DESTRUINDO A FIDELIDADE NOS RELACIONAMENTOS (v. 1–21)

“Aconteceu, naqueles dias, em que não havia rei em Israel, que houve um homem levita, peregrino nos lados da região montanhosa de Efraim...” (Jz 19:1)

1.1. A ausência do reinado divino expõe a ilusão da autonomia

A repetição do diagnóstico "não havia rei em Israel" não é apenas um anseio por um monarca humano, mas a denúncia de uma falha espiritual. Israel possuía a Lei, o tabernáculo, o sacerdócio e a memória da libertação do Egito; no entanto, vivia sob a regência do ego.

Privilégios religiosos não garantem fidelidade moral. O pecado começa quando a mente humana declara autossuficiência: "Eu decido o que é certo para mim; meus desejos são minha lei." Essa falsa liberdade invariavelmente deságua em desordem e ruína interpessoal.

1.2. A fragilidade das palavras sem compromisso

O levita viajou a Belém para "falar ao coração" da concubina (v. 3) — uma expressão de afeto e reconciliação. Contudo, o desenrolar da narrativa revela a distância entre seu discurso e seu caráter. Palavras carinhosas não têm valor quando desacompanhadas de proteção, responsabilidade e capacidade de sacrifício. O amor bíblico se prova na hora em que agir corretamente custa a própria pele.

1.3. O contraste entre a acolhida e a indiferença

Enquanto em Belém o pai da jovem demonstrou generosa hospitalidade, em Gibeá o grupo ficou abandonado na praça pública (v. 15). No mundo bíblico, acolher o viajante era um dever sagrado e de sobrevivência (Dt 10:19). Quando uma comunidade perde a memória da graça que recebeu de Deus, fecha as portas da compaixão para o próximo. A indiferença da praça foi o primeiro sintoma da podridão moral de Gibeá.

1.4. Rótulos religiosos não garantem segurança

O levita evitou pernoitar em Jebus por ser cidade de pagãos, preferindo Gibeá por pertencer a Israel (v. 12). Ele presumiu que a identidade institucional e religiosa de Benjamim lhe traria segurança. No entanto, o povo da aliança estava agindo de forma pior que os pagãos. Uma comunidade eclesiástica não é segura apenas por exibir uma boa placa, uma tradição histórica ou uma confissão ortotóxica; ela só é segura se viver em submissão prática ao Senhor.

Ilustração: Durante a Segunda Guerra Mundial, a família ten Boom acolheu e escondeu dezenas de judeus perseguidos em sua casa na Holanda. O pai, Casper ten Boom, afirmava que a porta de sua casa estaria sempre aberta para proteger a vida humana ameaçada, independentemente dos riscos. A verdadeira hospitalidade cristã não é mero entretenimento social; é assumir responsabilidade pela proteção e cuidado dos vulneráveis, mesmo com custo pessoal.

Aplicações Práticas do Ponto 1:

  • Submeta seus relacionamentos familiares e pessoais ao ensino direto das Escrituras, e não à conveniência do momento.
  • Não confunda declarações de afeto com amor verdadeiro; o amor genuíno exige fidelidade e sacrifício.
  • Combata os primeiros sinais de indiferença em seu coração e em sua comunidade local.
  • Avalie sua igreja local não por suas declarações nominais, mas pelo compromisso prático com a justiça e a proteção dos necessitados.

2. QUANDO O PECADO DOMINA UMA COMUNIDADE, OS VULNERÁVEIS SÃO SACRIFICADOS PARA PROTEGER OS PODEROSOS (v. 22–28)

“Estando eles alegrando o seu coração, eis que os homens daquela cidade, homens filhos de Belial, cercaram a casa, batendo à porta; e falaram ao velho, dono da casa, dizendo: Traze fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos.” (Jz 19:22)

2.1. O espelho de Sodoma dentro de Israel

A cena de Gibeá espelha intencionalmente o relato de Sodoma em Gênesis 19. Uma cidade da herança de Israel passou a reproduzir exatamente a mesma perversidade do mundo ímpio. Quando o povo de Deus se amolda à cultura ao seu redor, sua culpa torna-se ainda maior por ter pecado contra a luz da revelação divina.

2.2. A violência como instrumento de dominação

O desejo dos homens de Gibeá não era apenas paixão desordenada, mas a imposição de poder e humilhação através da violência sexual. A Bíblia nos ensina a nunca tratar abusos ou violações como meras "fraquezas passageiras". São ofensas graves contra seres humanos criados à imagem de Deus. A igreja deve rejeitar categoricamente qualquer tentativa de silenciar vítimas, culpar os fragilizados ou proteger a imagem pública de agressores e instituições.

2.3. A falácia de combater um pecado cometendo outro

O anfitrião idoso tentou conter a multidão oferecendo sua própria filha e a concubina do levita (v. 24). Sob a justificativa de proteger o hóspede, cometeu a atrocidade de oferecer inocentes ao sacrifício. Jamais se combate um pecado cometendo outro pecado. Não se preserva a paz familiar, a reputação de um ministério ou a estabilidade de uma liderança encobrindo crimes ou sacrificando os fracos.

2.4. A coisificação da vida humana

As mulheres foram tratadas como moedas de troca. O pecado desumaniza: ele transforma pessoas criadas à imagem de Deus em objetos de consumo, exploração ou escudo para a conveniência dos mais fortes. Herman Bavinck afirmava que o valor inerente do ser humano não deriva de sua utilidade social ou força, mas do fato inegociável de ter sido feito por Deus e para Deus.

2.5. A covardia travestida de religiosidade

O levita — um homem vocacionado para o serviço do culto — tomou a concubina e a empurrou para fora, para a multidão feroz (v. 25). Ele preservou a própria integridade ao custo da destruição de quem ele deveria proteger. Cargo religioso sem transformação de caráter é perfeitamente capaz de produzir atos de extrema crueldade e covardia.

2.6. A voz do sofrimento diante do silêncio de Deus

A mulher permaneceu estendida no limiar da porta até o raiar do dia, com as mãos na soleira (v. 26). A porta que deveria ser refúgio permaneceu trancada. Embora seu nome não conste no texto e os homens a tenham abandonado, o Salmo 10:14 lembra que Deus vê o sofrimento, considera a dor e toma a causa do indefeso em suas mãos.

Ilustração: O parlamentar britânico William Wilberforce lutou por décadas na Câmara dos Comuns contra o tráfico negreiro e a escravidão. Movido por sua fé cristã, Wilberforce recusou-se a aceitar que seres humanos fossem reduzidos a mercadorias e propriedades. Ele compreendeu que a fé verdadeira exige a denúncia das estruturas que desumanizam o próximo e o empenho ativo na defesa dos vulneráveis.

Aplicações Práticas do Ponto 2:

  • Trate cada ser humano — independentemente de sua condição social ou vulnerabilidade — como portador da imagem e semelhança de Deus.
  • Jamais transfira a culpa de uma violência para a vítima; a responsabilidade moral e legal é integralmente do agressor.
  • Não busque resolver conflitos ou proteger estruturas espirituais por meio do encobrimento ou da mentira.
  • Promova em sua igreja local ambientes de prestação de contas, transparência e cooperação irrestrita com as autoridades civis diante de crimes e abusos.

3. A INDIGNAÇÃO DIANTE DO PECADO SÓ É JUSTA QUANDO COMEÇA COM VERDADE E ARREPENDIMENTO (v. 29–30)

“Chegando, pois, à sua casa, tomou de um cutelo, e pegou na sua concubina, e a despedaçou por seus ossos em doze partes; e enviou-as por todos os termos de Israel.” (Jz 19:29)

3.1. A insensibilidade do coração cauterizado

Ao ver a mulher caída à porta pela manhã, o levita não proferiu uma única palavra de consolo ou lamento; apenas ordenou com frieza: "Levanta-te, e vamos" (v. 28). A prática do egoísmo cauteriza a consciência humana. Alguém pode dominar o vocabulário da teologia e da liturgia e, ao mesmo tempo, possuir um coração completamente insensível à dor do próximo (1Co 13:2).

3.2. A denúncia da barbárie e a exposição do pecado

O ato macabro de esquartejar o corpo e enviar os pedaços às doze tribos serviu para arrancar Israel da sua apatia. O pecado que era tolerado e mantido sob panos quentes em Gibeá tornou-se uma crise nacional imensurável. O que uma comunidade tolera no silêncio eventualmente transbordará em ruína pública.

3.3. O perigo da indignação seletiva e sem autoexame

Quando o levita relatou o fato à nação nos capítulos seguintes, omitiu sua própria covardia e o fato de que ele mesmo havia entregue a mulher aos agressores. Ele apresentou-se como vítima pura. É perfeitamente possível denunciar o pecado alheio com veemência para encobrir a própria culpa. Jesus nos alertou contra a hipocrisia de apontar o cisco no olho do irmão enquanto ignoramos a trave no nosso próprio olho (Mt 7:3).

3.4. Ponderar, considerar e falar

O relato encerra-se com o apelo do povo diante do horror:

“Considerai isto vossas mentes, tomai conselho e falai.” (Jz 19:30b)

Diante do mal e da degradação, a resposta do povo de Deus deve seguir esses passos:

  1. Ponderar: Recusar a banalização do mal e parar para reconhecer a gravidade do pecado.
  2. Considerar: Investigar os fatos com imparcialidade, discernindo as causas profundas e a própria omissão.
  3. Falar: Quebrar o silêncio cúmplice e posicionar-se com coragem em favor da verdade e da justiça.

Ilustração: Após a Segunda Guerra Mundial, os Julgamentos de Nuremberg deixaram claro que a mera alegação de "cumprir ordens" não isentava a responsabilidade moral de quem participou das atrocidades. A história provou que a grande tragédia não começou nos campos de extermínio, mas anos antes, no silêncio da sociedade, na normalização do preconceito e na apatia das instituições que deixaram de reprimir o mal em suas origens.

Aplicações Práticas do Ponto 3:

  • Não utilize a indignação contra o erro dos outros como cortina de fumaça para esconder suas próprias falhas.
  • Exercite o autoexame constante antes de emitir julgamentos severos sobre a comunidade ao seu redor.
  • Não permaneça omisso ou silencioso quando a justiça e a proteção do próximo exigirem sua voz.
  • Busque a verdadeira sabedoria cristã que equilibra justiça sem crueldade e misericórdia sem permissividade (Mq 6:8).

CONCLUSÃO

Juízes 19 nos apresenta um quadro desolador de uma sociedade sem Rei, onde o ser humano é degradado, a hospitalidade é destruída e a justiça é terrivelmente distorcida.

Contudo, a escuridão deste capítulo aponta, por contraste, para a nossa necessidade desesperada de um Rei perfeito. Israel descobriu mais tarde que nem mesmo os seus melhores reis humanos — como Davi ou Salomão — podiam salvar o coração humano da corrupção do pecado.

Precisávamos de um Rei superior.

Séculos depois, outro viajante veio a este mundo. Jesus Cristo, o verdadeiro Rei, deixou as glórias celestiais e veio para os seus, mas os seus não o receberam; não houve lugar para ele na hospedaria. Em vez de sacrificar os vulneráveis para salvar a si mesmo — como fez o levita e o anfitrião de Gibeá —, Jesus entregou o seu próprio corpo voluntariamente na cruz para salvar os indefesos, os despedaçados e os pecadores.

Na cruz, Cristo suportou a violência, a vergonha e a rejeição para restaurar a dignidade humana perdida e nos reconciliar com Deus. Sob o seu reinado, o egoísmo é destronado, o fraco encontra abrigo, o ferido recebe cura e a justiça triunfa.

Se você hoje se encontra ferido pela violência ou pela insensibilidade deste mundo, saiba que há um Rei que vê a sua dor, acolhe o seu clamor e oferece refúgio verdadeiro. E para todos nós, o chamado de Juízes 19 é claro: curvemo-nos hoje ao reinado de Cristo, abandonemos a ilusão de fazer o que é certo aos nossos próprios olhos e vivamos como uma comunidade que pratica a justiça, ama a misericórdia e anda humildemente com o seu Deus.

APLICAÇÕES GERAIS

  1. Para a vida pessoal: Abandone a busca pela autonomia moral. Entregue o controle de suas decisões, desejos e relacionamentos ao senhorio absoluto de Jesus Cristo.
  2. Para a família: Cultive um lar fundamentado na proteção mútua, no respeito à dignidade de cada membro e no amor sacrificial, rejeitando toda forma de violência, aspereza ou manipulação.
  3. Para a igreja: Comprometa-se em fazer da comunidade local um refúgio seguro para os fracos e aflitos, onde a verdade é dita com coragem, os abusos são confrontados sem corporativismo e o Evangelho de restauração é anunciado com poder.
Pr. Eli Vieira Filho

 

QUANDO CADA UM CRIA SUA PRÓPRIA RELIGIÃO

 


Texto Bíblico: Juízes 18.1–31

Amados irmãos, existem momentos em que uma sociedade mantém a aparência de religião, mas perde completamente o temor de Deus. As pessoas continuam falando sobre bênção, sacerdócio, culto e prosperidade; contudo, já não perguntam seriamente: “O que Deus ordenou em sua Palavra?”

Juízes 18 descreve exatamente esse cenário. O capítulo não apresenta um povo declaradamente ateu. Mica possuía uma casa de deuses. O levita exercia uma função religiosa. Os homens da tribo de Dã pediram orientação espiritual. Antes de partir para a guerra, desejaram ouvir uma palavra de bênção. Depois de conquistar Laís, estabeleceram um lugar de culto.

Havia linguagem religiosa, objetos religiosos, um sacerdote e cerimônias. O que não havia era submissão à vontade revelada de Deus.

Essa é uma das formas mais perigosas de apostasia. A pessoa não abandona necessariamente toda a religião; ela modifica a religião para que sirva aos seus próprios interesses. Em vez de ser transformada pela verdade, transforma a verdade em algo que confirme suas decisões.

Juízes 18 mostra pessoas que desejavam:

  • A bênção sem obediência;
  • Orientação sem arrependimento;
  • Conquista sem justiça;
  • Sacerdócio sem chamado legítimo;
  • Culto sem a Palavra;
  • Religião sem o Deus verdadeiro.

A narrativa continua a história iniciada em Juízes 17. Mica havia furtado dinheiro de sua mãe, devolvido parte dele, construído um santuário particular, fabricado imagens e contratado um levita para ser seu sacerdote. No final daquele capítulo, Mica declarou:

“Sei, agora, que o Senhor me fará bem, porquanto tenho um levita por sacerdote” (Jz 17.13).

Mica imaginava que possuir símbolos religiosos garantiria a bênção de Deus. No capítulo 18, porém, aquilo que ele acreditava controlar seria roubado por homens mais poderosos.

O capítulo nos ensina que uma religião inventada pelo homem não pode salvar, proteger ou oferecer segurança. Ídolos precisam ser carregados, sacerdotes mercenários podem ser comprados e estruturas religiosas construídas sobre a desobediência finalmente conduzem à ruína.

Juízes 18 está inserido na parte final do livro, na qual o autor apresenta exemplos da profunda desordem espiritual, moral e social de Israel.

O capítulo começa com uma frase que funciona como diagnóstico:

“Naqueles dias, não havia rei em Israel” (v. 1).

Essa declaração não significa apenas que Israel não possuía um monarca humano. A questão mais profunda é que o povo havia rejeitado o governo do Senhor. Deus era o verdadeiro Rei de Israel, mas cada pessoa vivia segundo seus próprios critérios.

A tribo de Dã ainda procurava um território onde pudesse estabelecer-se. De acordo com Josué 19.40–48, ela já havia recebido uma herança na Terra Prometida. Entretanto, não conseguira expulsar os habitantes daquela região. Em vez de confiar em Deus e cumprir sua responsabilidade, os danitas procuraram uma área mais fácil de conquistar.

Cinco homens foram enviados para examinar a terra. Durante a viagem, chegaram à casa de Mica e reconheceram a voz do jovem levita. Pediram que ele consultasse a Deus sobre o sucesso da missão. O levita lhes ofereceu uma resposta favorável, embora o texto não apresente nenhuma evidência de que o Senhor realmente houvesse falado.

Os espias chegaram a Laís e encontraram uma população tranquila, isolada e militarmente vulnerável. Retornaram aos seus irmãos e recomendaram o ataque. Seiscentos homens armados partiram para conquistar a cidade.

Ao passarem novamente pela casa de Mica, os cinco espias informaram que ali havia uma estola sacerdotal, ídolos do lar, uma imagem de escultura e uma imagem de fundição. Os danitas roubaram os objetos e convenceram o levita a tornar-se sacerdote de toda a tribo.

Quando Mica tentou recuperar seus deuses, percebeu que não possuía força para enfrentar os danitas e voltou para casa. Os invasores seguiram até Laís, atacaram uma população desprevenida, queimaram a cidade e reconstruíram-na com o nome de Dã.

Finalmente, estabeleceram a imagem de escultura e instituíram um sistema religioso próprio. O capítulo termina revelando que aquela idolatria permaneceu durante muitas gerações.

Não se trata, portanto, apenas da história da mudança territorial de uma tribo. É o retrato de uma apostasia que avança em estágios:

  1. Começa em uma casa;
  2. Conquista um sacerdote;
  3. É adotada por um grupo;
  4. Torna-se religião de uma tribo;
  5. Permanece como legado para as gerações seguintes

Juízes 18 nos ensina que, quando abandonamos a autoridade da Palavra de Deus, passamos a interpretar oportunidades como direção divina, usamos a religião para justificar nossos interesses e transmitimos nossa idolatria às gerações seguintes.

Observemos, nesta narrativa, três manifestações da decadência espiritual de um povo que desejava a bênção de Deus sem se submeter ao governo de Deus.

1. QUANDO ABANDONAMOS A PALAVRA DE DEUS, PASSAMOS A CHAMAR CONVENIÊNCIA DE DIREÇÃO DIVINA

“Naqueles dias, não havia rei em Israel; e, naqueles dias, a tribo dos danitas buscava para si herança em que habitar” (Jz 18.1).

1.1. Os danitas já haviam recebido uma herança

À primeira vista, poderíamos imaginar que os danitas ainda esperavam que Deus lhes desse uma terra. Entretanto, o livro de Josué mostra que uma região já lhes havia sido designada. O problema não era falta de promessa, mas dificuldade para apropriar-se da herança recebida.

Juízes 1.34 declara:

“Os amorreus arredaram os filhos de Dã até às montanhas e não os deixavam descer ao vale.”

Os danitas enfrentavam forte resistência. Para possuir a terra designada, precisariam confiar no Senhor, lutar com perseverança e obedecer às instruções da aliança. Em vez disso, começaram a procurar outra região. Eles não perguntaram: “Como podemos obedecer àquilo que Deus já ordenou?”. Perguntaram, na prática: “Onde poderemos obter sucesso com menos resistência?”

Existe uma grande diferença entre buscar a direção do Senhor e procurar uma justificativa religiosa para aquilo que já decidimos fazer. Muitas vezes, conhecemos a vontade revelada de Deus, mas ela parece difícil. Então buscamos uma alternativa mais confortável:

  • Sabemos que devemos perdoar, mas procuramos justificativas para alimentar ressentimento;
  • Sabemos que devemos viver em pureza, mas tentamos redefinir o pecado;
  • Sabemos que devemos agir com honestidade, mas chamamos a desonestidade de estratégia;
  • Sabemos que devemos perseverar, mas abandonamos nossa responsabilidade quando surgem dificuldades;
  • Sabemos que devemos reconciliar-nos, mas preferimos procurar outro ambiente;
  • Sabemos que devemos obedecer, mas buscamos alguém que confirme nossa preferência.

A vontade de Deus não se torna errada apenas porque é difícil.

1.2. Eles procuraram uma conquista mais fácil

Os cinco espias chegaram a Laís e observaram:

“Viram que o povo que havia nela estava seguro, segundo o costume dos sidônios, em paz e confiado; não havia autoridade que, por qualquer coisa, os molestasse naquela terra” (v. 7).

Laís parecia o alvo ideal. A população vivia isolada, não possuía alianças militares próximas e não esperava um ataque. Os espias não destacaram o chamado de Deus, uma ordem divina ou um propósito santo. Destacaram a vulnerabilidade da cidade.

A oportunidade mais fácil nem sempre é a vontade de Deus. Uma porta aberta pode ser:

  • Uma oportunidade providencial;
  • Uma tentação;
  • Um teste de caráter;
  • Uma ocasião para explorar alguém vulnerável.

A existência de uma oportunidade não constitui, por si só, autorização divina. José teve oportunidade de deitar-se com a esposa de Potifar, mas fugiu. Davi teve oportunidade de matar Saul na caverna, mas recusou-se. Jesus poderia transformar pedras em pães, mas não utilizou seu poder fora da vontade do Pai. Precisamos avaliar as oportunidades à luz das Escrituras, e não interpretar as Escrituras à luz das oportunidades.

1.3. Eles procuraram confirmação religiosa para um plano já desejado

Ao encontrarem o levita na casa de Mica, os espias disseram:

“Consulta a Deus, para que saibamos se prosperará o caminho que levamos” (v. 5).

A pergunta parecia piedosa, mas estava sendo dirigida a um sacerdote ilegítimo, em um santuário idólatra, cercado por objetos proibidos pela Lei de Deus. Não havia como buscar corretamente a vontade de Deus utilizando meios que contradiziam a vontade já revelada de Deus.

O levita respondeu:

“Ide em paz; o caminho que levais está sob as vistas do Senhor” (v. 6).

Era exatamente o que desejavam ouvir. O texto não afirma que o Senhor falou. Não apresenta revelação divina, sonho ou palavra profética. O levita simplesmente ofereceu uma mensagem favorável.

Falsos sistemas religiosos prosperam porque oferecem aprovação sem arrependimento. Dizem às pessoas: “Continue no caminho que escolheu”; “Deus aprova todos os seus desejos”; “Se existe oportunidade, é porque Deus abriu a porta”. Entretanto, sucesso não é sinônimo de aprovação divina.

1.4. Eles transformaram prosperidade em critério de verdade

Os espias retornaram e disseram:

“Levantai-vos, e subamos contra eles; porque examinamos a terra, e eis que é muito boa. Estareis ainda quietos? Não sejais preguiçosos em irdes para possuir a terra” (v. 9).

A terra era boa. A cidade era vulnerável. O caminho parecia aberto. A vitória parecia provável. Tudo indicava sucesso. Contudo, nem toda vitória é bênção. Resultados visíveis não substituem fidelidade bíblica.

Na tradição reformada, um princípio essencial é que a consciência deve ser governada pela Palavra de Deus. A Confissão de Fé de Westminster ensina que somente Deus é Senhor da consciência e a deixou livre de doutrinas e mandamentos humanos contrários à sua Palavra. Quando a Palavra deixa de ser o padrão, sucesso, emoção, popularidade e conveniência passam a funcionar como revelação.

Ilustração

Em 1912, o Titanic iniciou sua primeira viagem cercado de confiança. Era apresentado como uma extraordinária realização da engenharia. A aparência de segurança levou muitos a ignorar ou minimizar riscos. Quando o navio recebeu alertas sobre gelo, continuou avançando em alta velocidade. Possuir recursos, tecnologia e uma rota aparentemente favorável não eliminava a realidade do perigo.

Da mesma maneira, uma decisão pode parecer segura, vantajosa e promissora, mas ainda estar avançando em direção ao desastre espiritual. Não basta perguntar se o caminho é rápido ou lucrativo. Precisamos perguntar se ele é verdadeiro, justo e obediente a Deus.

Aplicações práticas do primeiro ponto

  1. Não abandone uma responsabilidade apenas porque ela se tornou difícil.
  2. Dificuldade não significa necessariamente que Deus fechou a porta.
  3. Não confunda oportunidade com autorização.
  4. Avalie toda ocasião pela Palavra de Deus.
  5. Não procure conselheiros apenas para confirmar suas decisões; procure pessoas que tenham coragem de confrontá-lo biblicamente.
  6. Não transforme resultados em prova de fidelidade; é possível obter sucesso temporário por meios pecaminosos.
  7. Obedeça ao que Deus já revelou — não precisamos de uma nova orientação para desobedecer a uma ordem clara.
  8. Examine seus motivos: você deseja conhecer a vontade de Deus ou apenas receber a aprovação divina para sua própria vontade?

2.QUANDO A RELIGIÃO SE TORNA INSTRUMENTO DE INTERESSES PESSOAIS, TUDO PASSA A TER UM PREÇO

“Entrando eles na casa de Mica, tomaram a imagem de escultura, a estola sacerdotal, os ídolos do lar e a imagem de fundição” (Jz 18.18).

2.1. Os objetos religiosos de Mica não conseguiram proteger a própria casa

Mica imaginava que possuía segurança espiritual porque tinha uma casa de deuses, uma estola sacerdotal, ídolos do lar e um levita particular. Todavia, quando chegaram homens mais fortes, seus deuses foram levados. A ironia é profunda: Mica precisou correr atrás dos deuses que deveriam protegê-lo.

Um deus que precisa ser protegido não pode ser nosso protetor. O profeta Isaías apresenta ironia semelhante em Isaías 44.14–17: o homem fabrica um ídolo da mesma madeira usada para aquecer-se e diz: “Livra-me, porque tu és o meu deus”. Também construímos falsos deuses (dinheiro, carreira, reputação, poder). No dia da crise, os ídolos revelam sua impotência.

2.2. O sacerdote foi atraído por uma proposta maior

Os danitas perguntaram ao levita:

“Que é melhor: seres sacerdote da casa de um só homem ou seres sacerdote de uma tribo e de uma família em Israel?” (v. 19).

A proposta era sedutora. Seu público aumentaria, sua influência cresceria e sua posição se tornaria mais importante. O texto acrescenta: “Então, se alegrou o coração do sacerdote” (v. 20).

Ele não perguntou se aquilo era correto perante Deus; apenas comparou o tamanho das oportunidades. Quando o ministério se transforma em projeto de promoção pessoal, a pessoa mede a vontade de Deus pelo tamanho do palco. Ele era um mercenário. Jesus fez distinção entre o bom pastor e o mercenário em João 10.12: o verdadeiro pastor ama as ovelhas, enquanto o mercenário ama o que recebe delas.

2.3. A ambição espiritual pode esconder-se atrás da linguagem ministerial

O levita provavelmente poderia justificar sua escolha alegando que alcançaria mais pessoas e ampliaria sua influência. Entretanto, crescimento de influência não é necessariamente crescimento de fidelidade.

João Calvino escreveu que o coração humano é uma “fábrica perpétua de ídolos”. Isso significa que podemos transformar até mesmo coisas santas — ministério, doutrina, liderança e serviço — em instrumentos de exaltação pessoal.

2.4. Os danitas desejavam possuir uma religião controlável

Eles não destruíram os ídolos; apropriaram-se deles. Desejavam um sistema religioso que acompanhasse seus projetos e legitimasse suas conquistas. A verdadeira adoração coloca o pecador diante de um Deus santo, que possui autoridade para ordenar e corrigir; a religião fabricada coloca um deus manejável nas mãos do adorador.

R. C. Sproul insistia que o problema básico da humanidade é que não sabemos quem Deus é e não compreendemos quem somos diante dele. Quando perdemos a visão da santidade de Deus, tratamos o culto como entretenimento, o ministério como carreira e a bênção como direito.

2.5. Mica descobriu a fragilidade da religião que havia construído

Quando perseguiu os danitas, Mica ouviu: “Que tens, que convocaste esta gente?” (v. 23). Ele respondeu:

“Os meus deuses, que eu fiz, me tomastes, juntamente com o sacerdote, e vos fostes; que mais me resta?” (v. 24).

Essa é uma das declarações mais tristes de Juízes: “Os meus deuses, que eu fiz”. Mica reconhece que fabricou seus deuses, mas lamenta: “Que mais me resta?”. Tudo aquilo que ocupa o lugar de Deus em nosso coração terá poder para destruir-nos quando for retirado. Somente quem possui Deus como tesouro supremo pode perder coisas importantes sem perder o fundamento da esperança (Hc 3.17–18).

2.6. A religião sem verdade submete-se à força

Os danitas ameaçaram Mica (v. 25), e ele avaliou a força dos adversários e voltou para casa. A questão não foi decidida pela verdade, mas pelo poder. Onde a Palavra de Deus deixa de ser a autoridade, o poder ocupa seu lugar. A igreja de Cristo não pode determinar a verdade por maioria, força ou popularidade.

Ilustração

No século XVI, Martinho Lutero foi pressionado a retirar seus escritos diante das autoridades reunidas na Dieta de Worms. Ele não possuía exército nem estrutura política comparável àqueles que o confrontavam. Sua defesa estava ligada à autoridade das Escrituras e à necessidade de não agir contra uma consciência cativa à Palavra de Deus. A força institucional podia ameaçá-lo, mas não podia transformar erro em verdade.

Aplicações práticas do segundo ponto

  1. Examine aquilo que poderia fazê-lo dizer: “Que mais me resta?” (a resposta revela o ídolo central de seu coração).
  2. Não trate o ministério como carreira de promoção pessoal; o chamado cristão é servir.
  3. Não meça a vontade de Deus apenas pelo tamanho da oportunidade.
  4. Não use símbolos religiosos como amuletos; Bíblia aberta e participação em cerimônias não substituem fé e obediência.
  5. Não permita que dinheiro e poder controlem a verdade.
  6. Rejeite uma religião que nunca confronta seus desejos; o Deus verdadeiro consola, mas também corrige e santifica.
  7. Lembre-se de que somente Cristo é o Bom Pastor.

3.QUANDO UMA GERAÇÃO INSTITUCIONALIZA A IDOLATRIA, AS GERAÇÕES SEGUINTES COLHEM SUAS CONSEQUÊNCIAS

“Os filhos de Dã levantaram para si aquela imagem de escultura” (Jz 18.30).

3.1. A conquista de Laís foi marcada por violência contra os vulneráveis

Os danitas atacaram uma população que vivia “em paz e confiada” (v. 27). Escolheram Laís justamente por sua vulnerabilidade. Quando o temor de Deus desaparece, a fraqueza do próximo deixa de despertar compaixão e passa a ser vista como oportunidade de exploração. Uma sociedade pode celebrar suas conquistas enquanto Deus ouve o clamor de suas vítimas.

3.2. Eles chamaram a cidade pelo nome de seu antepassado

Reconstruíram a cidade e a chamaram Dã (v. 29). O novo nome conferia identidade e legitimidade à conquista. Por trás da narrativa de progresso estavam o abandono da herança, a exploração dos vulneráveis, o roubo e a idolatria. A pergunta mais importante não é: “O que construímos?”, mas: “De que maneira construímos e para a glória de quem?”

3.3. A idolatria doméstica tornou-se institucional

A imagem começou na casa de Mica, foi roubada pelos danitas e acabou colocada no centro religioso da tribo:

Todo pecado possui potencial comunitário. Uma geração faz concessões; a próxima transforma as concessões em convicções.

3.4. Um descendente de Moisés tornou-se sacerdote da idolatria

Juízes 18.30 identifica o sacerdote como Jônatas, filho de Gérson, filho de Moisés. Moisés havia recebido a Lei; seu descendente ajudava a violá-la. Isso mostra que herança espiritual não é automaticamente transmitida pelo sangue. Pais piedosos não podem converter seus filhos; cada geração precisa conhecer, amar e obedecer ao Senhor (Sl 78.7).

3.5. O culto falso coexistiu com o verdadeiro tabernáculo

O capítulo termina registrando que a imagem de escultura estabelecida pelos danitas esteve ali “por todo o tempo em que a casa de Deus esteve em Siló” (v. 31). O culto falso em Dã existiu paralelamente ao culto ordenado em Siló. A presença do tabernáculo não impediu a apostasia em Dã. A existência de igrejas fieis não garante a fidelidade de todo o povo.

Ilustração

Anos mais tarde, no período dos reis, quando Jeroboão dividiu o reino de Israel, ele estabeleceu dois centros de culto com bezerros de ouro para impedir que o povo subisse a Jerusalém. Onde ele colocou um dos bezerros de ouro? Em Dã (1 Reis 12.28–30). A semente plantada nos dias dos juízes frutificou séculos depois. O pecado de uma geração pode tornar-se a estrutura de apostasia da geração seguinte.

Aplicações práticas do terceiro ponto

  1. Entenda a gravidade de suas escolhas: suas decisões espirituais influenciam seus filhos e sua comunidade.
  2. Não confie em herança espiritual familiar: a salvação é pessoal e exige fé individual em Cristo.
  3. Transmita ativamente a verdade às próximas gerações.
  4. Cuidado com o sincretismo: a existência da verdade não impede que o erro se instale ao lado dela se não houver vigilância.
  5. Vigie contra o primeiro passo do pecado antes que ele se torne cultura e tradição.

PERSPECTIVA REFORMADA

  • João Calvino: Ensina que a mente humana é uma constante fábrica de ídolos (fabrica idolorum). Quando o homem não é governado pela revelação de Deus, ele inevitavelmente cria uma religião adaptada à sua própria carne.
  • Princípio Regulador do Culto: Como enfatizado na tradição reformada, Deus somente deve ser adorado da maneira que Ele próprio ordenou em Sua Palavra. Adicionar elementos inventados pelo homem, como fez Mica e a tribo de Dã, é uma afronta à soberania de Deus.
  • Confissão de Fé de Westminster (Cap. XXI): Afirma que “o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo”, não devendo ser adorado segundo as imaginações ou invenções dos homens.

CRISTO: O NOSSO VERDADEIRO E SUPERIOR SUMO SACERDOTE E REI

O contraste entre a religião decadente de Juízes 18 e o Evangelho de Jesus Cristo é glorioso:

  • O levita de Dã era um sacerdote mercenário que buscava vantagem e promoção pessoal; Jesus Cristo é o verdadeiro Sumo Sacerdote que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos (Mc 10.45).
  • Os deuses de Mica eram ídolos fabricados que foram roubados e precisavam ser carregados; Jesus é o Deus Vivo que nos carrega em Seus braços e promete que nada nem ninguém pode nos arrebatar de Suas mãos (Jo 10.28).
  • A tribo de Dã buscava um reino terreno mediante a destruição e exploração dos fracos; Cristo estabeleceu um Reino eterno de justiça e paz, morrendo pelos fracos e desamparados.
  • Os danitas queriam um Deus manipulável; Jesus nos chama a tomar a nossa cruz, negar a nós mesmos e segui-lo em total submissão ao Seu Senhorio.

CONCLUSÃO

Juízes 18 nos mostra o retrato trágico de uma religião sem Deus, de um sacerdócio sem chamado e de um povo sem rei. Quando abandonamos a Palavra do Senhor, transformamos a conveniência em direção divina, os nossos interesses no nosso deus e o nosso pecado num legado de ruína para os nossos filhos.

Não viva uma religião fabricada pelas suas próprias preferências. Não busque a bênção de Deus enquanto rejeita a Sua Palavra. Não siga sacerdotes mercenários nem confie em ídolos que podem ser roubados.

Volte-se para as Escrituras Sagradas. Submeta o seu coração, a sua família e os seus planos ao Senhorio absoluto de Jesus Cristo, o nosso Rei e verdadeiro Libertador.

“Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que parecia bem aos seus olhos.” (Juízes 21.25)

Frase Final: Quando recusamos o governo do Deus Vivo, tornamo-nos escravos dos deuses que nós mesmos fabricamos; mas quando nos submetemos a Cristo, encontramos a verdadeira liberdade, a perfeita proteção e a vida eterna.

Pr. Eli Vieira Filho

Mais de 100 mil pessoas adoram nas ruas de Buenos Aires: “Geração aberta para Deus”

 

Uma multidão se reuniu no centro de Buenos Aires para adorar. (Foto: Instagram/gustavo_rodri23/Instagram/victoriamachuca53_).

O evento “Experiencia Gospel 2026” contou com apresentações de cantores, bandas e grupos de dança no centro da capital da Argentina.

Mesmo sob chuva, mais de 100 mil pessoas se reuniram nas ruas de Buenos Aires, na Argentina, para adorar e proclamar Jesus.

O evento “Experiencia Gospel 2026” atraiu uma multidão no centro da capital para participar, gratuitamente, de diversas ações culturais cristãs.

Com 29 palcos montados nas avenidas do centro, o encontro contou com apresentações de cantores, bandas, corais, grupos de coreografias e danças que louvaram ao Senhor através da arte.

“Nosso maior desejo era que Deus se tornasse visível, que Sua presença tocasse corações e que Jesus fosse o centro de tudo. Que cada canção e cada palavra pudessem semear algo eterno naqueles que estavam lá”, afirmou o cantor Gustavo Rodriguez, em publicação no Instagram.

O público, grande parte adolescentes e jovens, pode percorrer todos os espaços em um tour, com atividades para todas as idades. 

Os participantes cantaram junto com grupos de louvor nas ruas e exibiram cartazes evangelísticos.

“Como foi lindo viver essa ‘Experiencia’. A presença de Deus esteve em todos os momentos. Como é bom ver essa geração abrir seu coração para Deus, conhecer seu amor e permitir que ele trabalhe em suas vidas. Que esse fogo nunca se apague pela sua presença!”, declarou uma jovem que participou do evento.

O encerramento da “Experiência Gospel” aconteceu no palco principal na praça Plaza de Maio, onde milhares de pessoas se uniram em duas horas de adoração a Jesus.

Guiados por líderes cristãos, a multidão também realizou um momento de intercessão por Buenos Aires e pela Argentina.

A celebração contou com mais de 3 mil pessoas atuando em diferentes equipes. Centenas de igrejas de diversas cidades da Argentina também marcaram presença no evento.



Fonte: Guiame

Alemanha identifica 358 casamentos infantis, incluindo meninas de 11 anos

 Levantamento na Alemanha identificou centenas de casamentos envolvendo menores de idade. (Foto ilustrativa: Andrea Piacquadio / Pexels)

O levantamento revela que, entre os casos identificados, estão meninas de apenas 11 e 12 anos casadas com adolescentes e homens adultos.

Um levantamento oficial revelou que o estado de Baden-Württemberg, no sudoeste da Alemanha, registrou 358 casos de casamentos envolvendo menores de idade desde 2012. Desse total, apenas oito uniões foram anuladas por decisão judicial definitiva.

Os dados, divulgados na terça-feira (13) pela imprensa alemã e internacional, mostram que entre os casos identificados estão meninas de apenas 11 e 12 anos casadas com adolescentes e homens adultos.

As informações foram obtidas por meio de uma resposta do Ministério do Interior de Baden-Württemberg a um requerimento parlamentar apresentado pelos deputados Nikolaos Boutakoglou e Emely Knorr, do partido Alternativa para a Alemanha (AfD).

Segundo o levantamento, os outros 350 procedimentos foram encerrados por diferentes razões, sem que houvesse uma decisão judicial definitiva de anulação do casamento.

Meninas de até 11 anos estão entre os casos

Entre os registros mais graves está o de uma menina iraquiana de apenas 11 anos que havia se casado com um adolescente de 17 anos. A união foi anulada pela Justiça alemã em 2020.

Em outro caso, registrado em 2022, uma menina síria de 12 anos estava casada com um homem de 28 anos. Já em 2023, as autoridades identificaram uma menina afegã, também de 12 anos, casada com um homem de 21 anos.

O levantamento também menciona uma adolescente afegã de 14 anos que havia se casado com um homem de 30 anos. Nesse caso, o casamento foi anulado judicialmente em 2018.

Os registros dizem respeito a casamentos celebrados fora da Alemanha e posteriormente identificados pelas autoridades estaduais. Portanto, não se trata de 358 cerimônias realizadas legalmente em território alemão.

Desde 2017, a Alemanha conta com uma legislação específica de combate ao casamento infantil.

Em 2024, o Bundestag (Parlamento Federal alemão) aprovou novas regras para ampliar a proteção de menores envolvidos em casamentos celebrados no exterior.

Apesar dessas medidas, segundo a Euronews, centenas de casos foram encerrados sem anulação judicial, levantando questionamentos sobre a efetividade da proteção oferecida pelo Estado.

Apenas oito casamentos foram anulados

De acordo com o governo estadual, os demais procedimentos foram encerrados por motivos diversos, incluindo a chegada do menor à maioridade, a morte de um dos cônjuges, a decisão de não solicitar a anulação ou circunstâncias relacionadas a outro casamento realizado no exterior.

Isso não significa que todos os 350 casamentos continuem em vigor. Entretanto, os dados também não permitem determinar se todas as crianças e adolescentes envolvidos receberam proteção adequada.

A legislação alemã estabelece 18 anos como idade mínima para o casamento, e o reconhecimento de uniões celebradas no exterior envolvendo menores está sujeito às regras e decisões judiciais do país.

Crianças também enfrentam risco de casamento forçado

Além dos registros de casamentos infantis, outro levantamento aponta situações de vulnerabilidade envolvendo meninas e adolescentes.

Em 2025, o centro de aconselhamento YASEMIN, financiado pelo governo estadual de Baden-Württemberg, realizou 271 atendimentos.

Em 80 deles, foram identificadas situações de risco de casamento forçado. Entre as pessoas ameaçadas, 33 eram menores de idade, incluindo quatro crianças com menos de 12 anos.

Esses dados se referem a atendimentos relacionados ao risco de casamento forçado e não representam novos casos confirmados de casamento infantil. Por isso, não devem ser somados aos 358 registros do levantamento estadual.

As informações reacendem o debate sobre a proteção de crianças e adolescentes contra casamentos precoces e forçados, especialmente em situações nas quais uniões celebradas no exterior precisam ser avaliadas pelas autoridades alemãs.



Fonte: Guiame, com informações da Euronews e Welt

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Pastores são desconvidados de evento na Alemanha por pregar contra homossexualidade

 

Os pastores Martin e Millicent Sedra. (Foto: Reprodução/Instagram/Martin Sedra)

Martin e Millicent Sedra foram desconvidados de um festival cristão na Alemanha após críticas às suas pregações sobre homossexualidade e feminismo.

Os pastores australianos Martin e Millicent Sedra foram desconvidados de um evento na Alemanha após críticas à forma como abordam a homossexualidade e o feminismo em suas pregações baseadas na Bíblia. 

O casal estava entre os pregadores convidados do festival cristão “Heaven Now x Fire”, organizado pela equipe da “Noite do Espírito Santo”. 

O anúncio do cancelamento foi feito nas redes sociais poucos dias antes do início do evento, que estava previsto para 3 de outubro. A programação foi remarcada para os dias 7 a 10 de outubro, no Gospel Forum Stuttgart, sem a participação dos pastores. 

A decisão ocorreu após um vídeo publicado no Instagram por Amos Koch, que se identifica como “ex-evangélico carismático” e já pregou no Gospel Forum, igreja responsável pelo festival. 

Ele criticou as declarações de Martin e Millicent sobre homossexualidade e feminismo, alegando que suas pregações representam uma “teologia hostil à humanidade”. 

Criticados por declarações bíblicas 

Entre os pontos criticados por Koch estão trechos de pregações em que Martin e Millicent citam a Bíblia e condenam a homossexualidade como pecado, além de se posicionarem contra tendências sociais. 

O casal também foi criticado por sua ligação com o movimento MAGA (Make America Great Again, “Tornar a América Grande Novamente”), associado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. 

Martin e Millicent Sedra já participaram de eventos organizados pela Turning Point USA, organização fundada por Charlie Kirk. 

Após a polêmica, Markus Wenz, presidente do evento “Noite do Espírito Santo”, afirmou que os organizadores levaram as críticas a sério e conversaram com o casal antes de tomar uma decisão.

"Teologicamente, somos próximos em muitos aspectos. Mas a forma como as pessoas foram tratadas não condiz com a cultura que queremos cultivar em nosso evento", disse ele à agência de notícias Idea. 

O pronunciamento dos pastores 

Após o cancelamento, Martin e Millicent Sedra se pronunciaram nas redes sociais e afirmaram que foram alvo de uma campanha para impedir suas pregações na Europa.

“Cancelados na Alemanha e desconvidados de um evento. Após termos nossa pregação na Alemanha agendada e divulgarmos nossa agenda de pregações pela Europa na internet, a comunidade LGBT e os ‘cristãos’ favoráveis ​​à causa gay em toda a Alemanha ficaram furiosos com a nossa chegada e fizeram da missão deles cancelar nossa turnê de pregações pela Europa”, compartilhou o casal.

Segundo os pastores, veículos de comunicação e influenciadores ligados à comunidade LGBT na Alemanha criticaram suas posições sobre homossexualidade, papéis de gênero e islamismo. 

“Nos chamaram de ‘pregadores radicais’ por pregarmos sobre ‘abandonar o pecado’ e o ‘inferno’. As manchetes nos chamavam de ‘homofóbicos’ e ‘islamofóbicos’. Esses grandes veículos de mídia e influenciadores LGBT pressionavam a Alemanha a não nos permitir pregar em plataforma alguma”, disseram eles.

E continuaram: “Infelizmente, após muita pressão da comunidade LGBT e de cristãos favoráveis ​​à causa gay, fomos contatados pelos organizadores da conferência e desconvidados do evento. Sempre soubemos que nossa decisão de pregar a verdade com ousadia resultaria em oposição, ódio, rejeição e cancelamento”.

Em seguida, Martin e Millicent questionaram a postura da Alemanha diante de pregadores que defendem princípios bíblicos e citaram os reformadores cristãos Dietrich Bonhoeffer e Martinho Lutero como exemplos de pessoas que permaneceram firmes em suas convicções.

“O que aconteceu com a Alemanha? A Alemanha deu reformadores ao mundo, mas agora luta contra a reforma. Onde estão os Dietrich Bonhoeffers que se recusarão a deixar o espírito da época ditar no que a Igreja tem permissão para crer, pregar e proclamar?”, disseram eles.

“Onde estão os Martinhos Luteros que permanecerão firmes, irão se recusar a se curvar e escolherão a convicção em vez do conforto? Onde estão os reformadores e avivalistas que se levantarão na Europa? A Europa não precisa de mais pastores "descolados" e da moda. A Europa precisa de mais pastores ousados ​​e corajosos”, acrescentaram.

Por fim, os pastores citaram uma frase de Dietrich Bonhoeffer e pediram que a Igreja se unisse a eles em oração pela Europa: "O silêncio diante do mal é, em si, um mal. Não falar é falar. Não agir é agir".



Fonte: Guiame, com informações de PRO Medienmagazin

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