Em 1935, o governo da Austrália enfrentava uma praga nos canaviais de Queensland: besouros que destruíam as raízes da cana. A solução parecia brilhante. Importaram do Havaí cerca de cem sapos-cururus, conhecidos por comer insetos, e os soltaram nas plantações. O resultado foi um desastre ecológico. Os sapos quase não comeram os besouros, mas se multiplicaram sem controle. Venenosos, mataram animais nativos que tentavam comê-los. Hoje existem milhões deles espalhados por boa parte do país, e a Austrália gasta até hoje tentando conter o remédio que ela mesma escolheu.
Juízes 21 é a história de um povo que tentou consertar uma tragédia com as próprias mãos, e cada remédio produziu uma ferida nova.
O capítulo anterior terminou em sangue. Israel venceu Benjamim, mas, no fervor da vingança, destruiu as cidades da tribo, e apenas seiscentos homens sobreviveram na penha de Rimom. Agora a poeira baixou. As tribos olham para o que fizeram e percebem o tamanho do estrago: uma das doze tribos de Israel está à beira da extinção. E, para piorar, em Mispa eles haviam feito um juramento solene: “Nenhum de nós dará sua filha por mulher a Benjamim” (v. 1). Sem mulheres, Benjamim desapareceria em uma geração.
O que fazer? Este capítulo mostra o que eles fizeram. E o texto termina com uma frase que é, ao mesmo tempo, diagnóstico e profecia: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto”.
O capítulo se desenvolve em quatro cenas.
O lamento em Betel (vv. 1-7). O povo sobe a Betel, chora alto diante de Deus até a tarde e pergunta: “Ó SENHOR, Deus de Israel, por que sucedeu isto em Israel, que hoje falte em Israel uma tribo?” (v. 3). No dia seguinte, edificam um altar e oferecem holocaustos e ofertas pacíficas (v. 4). O texto diz que “os filhos de Israel tiveram compaixão de Benjamim, seu irmão” (v. 6). Mas há algo estranho na pergunta deles. Perguntam “por que sucedeu isto”, como se a tragédia tivesse caído do céu, quando foram eles mesmos que passaram as cidades de Benjamim a fio de espada (20.48). E, ao contrário do capítulo 20, quando Deus respondeu três vezes, aqui não há nenhuma resposta divina registrada. Eles perguntam, mas não esperam. Em todo o capítulo 21, Deus não fala uma única vez.
A solução de Jabes-Gileade (vv. 8-15). Israel lembra de um segundo juramento: quem não subisse a Mispa seria morto (v. 5). Descobrem que ninguém de Jabes-Gileade compareceu (vv. 8-9). Então enviam doze mil homens com ordem de destruir a cidade inteira, homens, mulheres e crianças, poupando apenas as moças virgens (vv. 10-11). Encontram quatrocentas e as levam ao arraial em Siló (v. 12). Oferecem paz aos benjamitas na penha de Rimom e lhes entregam as moças, “porém não lhes bastaram” (v. 14). O versículo 15 diz que o povo se compadeceu de Benjamim, “porquanto o SENHOR tinha aberto brecha nas tribos de Israel”. Note: eles atribuem a Deus a brecha que eles próprios abriram.
A solução de Siló (vv. 16-23). Ainda faltam duzentas mulheres. Os anciãos inventam outro plano. Haveria em Siló a festa anual do SENHOR (v. 19). Os benjamitas deveriam se esconder nas vinhas e, quando as moças saíssem para dançar, cada um arrebataria uma para si (vv. 20-21). E se os pais reclamassem? A resposta já estava pronta: como eles não deram as filhas, mas elas foram tomadas, ninguém teria quebrado o juramento (v. 22). Os benjamitas fizeram assim, voltaram à sua herança e reedificaram as cidades (v. 23).
A dispersão e o refrão final (vv. 24-25). “Então, os filhos de Israel se retiraram dali, cada um para a sua tribo e para a sua família” (v. 24). E o livro se fecha com a frase que já tinha aparecido em 17.6: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (v. 25).
O leitor atento percebe a ironia terrível. Toda esta tragédia começou no capítulo 19 com uma mulher abusada e morta em Gibeá. Termina no capítulo 21 com centenas de mulheres tomadas à força, além das mulheres e crianças mortas em Jabes-Gileade. Israel foi à guerra para vingar a violência contra uma mulher e encerrou a história institucionalizando a violência contra seiscentas.
Quando o povo de Deus tenta reparar as ruínas do pecado com sua própria sabedoria, sem buscar a vontade do Senhor, multiplica o pecado que queria remediar; a única esperança está no Rei que Deus dá ao seu povo.
Vejamos três verdades que este último capítulo de Juízes deixa diante de nós.
I. LÁGRIMAS QUE NÃO ESPERAM A RESPOSTA DE DEUS (vv. 1-7)
O começo do capítulo parece espiritual. Há choro, há altar, há holocaustos, há ofertas pacíficas. Quem olhasse de fora diria que Israel estava em avivamento. Mas, quando lemos com atenção, percebemos que as lágrimas de Betel são lágrimas de lamento, não de arrependimento.
Primeiro, porque a pergunta está mal formulada. “Por que sucedeu isto em Israel?” É a pergunta de quem se vê como vítima dos acontecimentos. Não há confissão: “Pecamos, excedemos a medida, derramamos sangue que não nos mandaste derramar”. Há apenas a dor pelo resultado. Muitas vezes choramos pelas consequências do pecado, mas não pelo pecado em si.
Segundo, porque eles perguntam e não esperam. No capítulo 20, quando Israel consultou o Senhor, ele respondeu: “Judá subirá primeiro”, “Subi contra ele”, “Amanhã eu vo-lo entregarei”. No capítulo 21 há altar, mas não há consulta. Há holocausto, mas não há Palavra. O culto continuou, mas a escuta acabou. E logo depois do altar, o versículo 5 mostra as tribos se reunindo para resolver o problema por conta própria.
Terceiro, porque estavam presos a um voto precipitado. Em Mispa, no calor da indignação, juraram não dar suas filhas a Benjamim. Foi um juramento feito antes de pensar, como o de Jefté, poucos capítulos antes (11.30-31), que também terminou em tragédia. A Escritura adverte: “Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus” (Ec 5.2).
A Confissão de Fé de Westminster, ao tratar dos juramentos (cap. 22, seção 4), ensina que um juramento não pode obrigar ninguém a pecar; mas, naquilo que não é pecado, uma vez feito, obriga ao cumprimento, ainda que em prejuízo próprio. Israel inverteu tudo. Tratou como sagrado um juramento que levava à extinção de um irmão e, para não quebrá-lo na letra, estava disposto a quebrar a Lei de Deus em quase tudo mais.
João Calvino abre as Institutas afirmando que quase toda a soma da nossa sabedoria consiste em duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos (I.1.1). Israel em Betel não tinha nenhum dos dois. Não conhecia a Deus o bastante para esperar a sua resposta, nem conhecia a si mesmo o bastante para confessar a própria culpa.
Aplicação. Quantas vezes as nossas orações são como a de Betel: muito choro, muita intensidade, e nenhuma disposição de ouvir. Levamos a Deus o problema, mas já com a solução pronta no bolso. Irmão, a oração que agrada a Deus não é apenas a que fala com emoção, mas a que espera com submissão. E examine também as suas palavras precipitadas. Promessas feitas no calor da raiva, juramentos feitos para provar um ponto, palavras ditas no conflito familiar que agora você defende só por orgulho. Um voto que conduz ao pecado deve ser abandonado com arrependimento, não cumprido com teimosia.
II. REMÉDIOS HUMANOS QUE MULTIPLICAM O PECADO (vv. 8-23)
Agora vemos a sabedoria humana em ação, e ela é assustadora.
Para remediar a destruição de uma tribo, Israel destrói uma cidade. Jabes-Gileade não compareceu a Mispa. Talvez por omissão, talvez por discordância, o texto não diz. Mas a sentença é a mesma aplicada aos cananeus: destruição total, inclusive de mulheres e crianças. E o motivo real fica claro no versículo 11: eles precisavam das moças virgens. A guerra santa virou pretexto para conseguir esposas. A linguagem da justiça foi usada para cobrir um interesse.
Como não bastou, inventaram uma segunda solução, e ela é ainda mais grave por causa do lugar escolhido. Siló era onde estava o tabernáculo. A festa era “a festa do SENHOR” (v. 19). As moças que saíam para dançar estavam celebrando a Deus. E foi justamente ali, no ambiente do culto, que os anciãos de Israel organizaram um rapto. O lugar da adoração virou lugar de emboscada.
E observe a engenharia moral do versículo 22. Os anciãos já tinham o argumento pronto para os pais: “Vós não lhas destes; por isso, não sois culpados”. Juridicamente, ninguém quebrou o juramento. Moralmente, tudo foi quebrado. Cumpriram a letra e pisaram no espírito. É exatamente o que Jesus denunciou nos fariseus, que, com a tradição do “corbã”, encontravam uma brecha legal para não honrar pai e mãe, “invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição” (Mc 7.11-13).
Este é um dos traços mais perigosos da religião sem Palavra: ela não deixa de ser religiosa, ela se torna habilidosa. Aprende a justificar tudo. Usa versículos, juramentos, festas e altares, mas o centro já não é a vontade de Deus. É a solução que nós achamos melhor.
Lembre-se dos sapos de Queensland. Cada solução humana gerou um problema novo. Para corrigir o excesso contra Benjamim, Israel cometeu um excesso contra Jabes-Gileade. Para completar o que faltou em Jabes, cometeu violência em Siló. O pecado é assim: quem tenta consertá-lo com mais pecado apenas o espalha.
Mas há uma surpresa da providência aqui. Anos depois, um benjamita de Gibeá chamado Saul se tornaria rei, e a primeira grande vitória do seu reinado seria justamente libertar Jabes-Gileade dos amonitas (1Sm 11). E quando Saul morreu, foram os homens de Jabes-Gileade que, arriscando a vida, resgataram o seu corpo do muro de Bete-Seã para lhe dar sepultura (1Sm 31.11-13). Muitos intérpretes enxergam nesse vínculo um laço de sangue que nasceu exatamente em Juízes 21, já que os benjamitas tomaram mulheres de Jabes. Deus não aprova o que Israel fez. Mas Deus é capaz de tecer, mesmo dos fios mais escuros da história humana, laços que servem aos seus propósitos.
Aplicação. Desconfie das soluções que exigem que você contorne a Palavra de Deus. Quando você se pegar dizendo “tecnicamente não estou errado”, “a Bíblia não proíbe exatamente isso”, “não foi bem uma mentira”, pare. Esse é o raciocínio dos anciãos de Siló. Pense também nas soluções que temos aplicado em casa e na igreja: resolver um conflito criando outro, encobrir um erro com outro erro, salvar as aparências sacrificando pessoas. E guarde o lugar da adoração. Que a casa de Deus nunca se torne o lugar onde as pessoas são usadas, manipuladas ou feridas para resolver os problemas de alguém.
III. UM POVO SEM REI PRECISA DO REI QUE DEUS DÁ (vv. 24-25)
O livro de Juízes termina sem herói, sem vitória e sem cântico. Termina com uma dispersão: “cada um para a sua tribo e para a sua família” (v. 24). Cada um volta para casa. O povo que se reuniu “como um só homem” no início do capítulo 20 agora se espalha, cada um para o seu canto. E então vem a sentença final: “não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto”.
Este refrão não é apenas uma nota histórica. É o diagnóstico de todo o livro. O problema de Israel não era falta de religião: havia altar, levitas, festa, arca e sacerdote. Não era falta de força militar: havia quatrocentos mil soldados. O problema era a falta de um governo legítimo debaixo de Deus. Cada um se tornou a medida do certo e do errado. E quando cada um é rei de si mesmo, o resultado é Gibeá, é guerra civil, é Jabes-Gileade, é Siló.
O livro, portanto, termina com uma pergunta não respondida: quem será o rei? E o restante da Bíblia vai respondendo aos poucos. Saul, o benjamita, mostrará que um rei segundo o desejo do povo não é suficiente. Davi, o rei segundo o coração de Deus, apontará para algo maior, mas também cairá. E a promessa feita a Davi encontrará seu cumprimento em seu Filho, Jesus Cristo, o Rei que não faz o que acha mais reto, mas faz sempre a vontade do Pai (Jo 8.29).
O Breve Catecismo de Westminster pergunta como Cristo exerce o ofício de rei, e responde que ele o faz sujeitando-nos a si mesmo, governando-nos e defendendo-nos, e restringindo e vencendo todos os seus e os nossos inimigos (pergunta 26). Era exatamente disso que Israel precisava em Juízes 21: alguém que os sujeitasse, os governasse, os defendesse e restringisse o mal dentro e fora deles.
Abraham Kuyper, o teólogo e estadista reformado holandês, disse no discurso de inauguração da Universidade Livre de Amsterdã, em 1880, que não há um centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: “É meu!”. O oposto de Juízes 21.25 não é apenas ter um governo; é reconhecer que cada área da vida, a família, a igreja, as palavras, os votos, as decisões, pertence ao Rei.
E há graça mesmo nesta última página. Benjamim não desapareceu. Os seiscentos sobreviveram, as cidades foram reedificadas (v. 23). Deus preservou a tribo da qual viria, muito tempo depois, o apóstolo Paulo (Rm 11.1; Fp 3.5). O homem quase apagou uma tribo; Deus guardou dela um instrumento para levar o evangelho às nações. O pecado tem a última palavra em Juízes 21.25, mas não tem a última palavra na história da redenção.
Aplicação. A pergunta que este texto faz a cada um de nós é simples e decisiva: quem é o rei da sua vida? Você pode estar na igreja, ter altar, ter culto, ter família religiosa, e ainda assim viver como se não houvesse rei, decidindo tudo pelo que acha mais reto. A cultura do nosso tempo é Juízes 21.25 em versão moderna: “siga o seu coração”, “a sua verdade”, “faça o que te faz feliz”. O evangelho responde: há um Rei, e o seu governo não é tirania, é salvação.
Aplicações práticas
Este capítulo pede de nós respostas concretas.
Leve a Deus não apenas as suas lágrimas, mas também os seus ouvidos. Antes de agir sobre uma decisão importante desta semana, abra a Palavra, ore e esteja disposto a ouvir algo diferente do que você já planejou.
Reveja suas palavras precipitadas. Se você fez uma promessa no calor da ira que agora o leva a ferir alguém ou a desobedecer a Deus, arrependa-se dela. Não cumpra um voto pecaminoso por orgulho.
Recuse as brechas. Quando perceber que está buscando o “tecnicamente permitido” para fazer o que, no fundo, sabe que desagrada a Deus, reconheça ali o espírito dos anciãos de Siló.
Proteja as pessoas vulneráveis. Juízes 19–21 é uma história em que mulheres pagaram o preço das decisões dos homens. A igreja de Cristo deve ser o lugar onde os mais frágeis estão mais seguros, e nunca o lugar onde são usados para resolver problemas alheios.
Coroe a Cristo em cada área. Família, finanças, relacionamentos, ministério, palavras: escolha uma área em que você tem sido o seu próprio rei e entregue-a, conscientemente, ao governo de Jesus.
Conclusão
Chegamos ao fim do livro de Juízes. Começamos com Otniel, Eúde, Débora, Gideão, Sansão. Terminamos com Gibeá, com uma guerra civil, com Jabes-Gileade destruída, com moças arrebatadas numa festa do Senhor. O livro desce como uma escada em espiral, cada vez mais para baixo, até o último degrau: “cada um fazia o que achava mais reto”.
Mas a Bíblia não termina em Juízes. Logo depois vem Rute, uma pequena história que se passa “nos dias em que julgavam os juízes” (Rt 1.1) e que termina com um nome: Davi (Rt 4.22). No meio da escuridão do período dos juízes, Deus já estava preparando a linhagem do rei. E dessa linhagem viria aquele que é Rei dos reis.
A resposta para o caos de Juízes 21 não é mais esforço humano, mais engenhosidade, mais soluções criativas. É um Rei. E esse Rei já veio. Ele não arrebatou ninguém à força; ele se entregou. Não destruiu cidades para salvar uma tribo; deu a própria vida para salvar um povo de todas as tribos. Não buscou uma brecha na Lei; cumpriu a Lei inteira em nosso lugar.
Onde não há rei, cada um faz o que acha mais reto, e o resultado é ruína. Onde Cristo reina, há perdão, há restauração e há paz.
Que o Senhor nos livre de viver como se não houvesse rei, e que nos faça um povo que se curva, de bom grado, diante do Rei que nos amou.
Pr. Eli Vieira Filho




