sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Mais de 1.800 soldados do Exército dos EUA se entregam a Jesus



A cada semana, aumenta o número de soldados das Forças Armadas do Missouri que aceitam Jesus.

A cada semana, mais soldados do Exército dos EUA se rendem a Jesus. (Foto: Facebook/Jose Rondon)


A cada semana, mais soldados do Exército dos EUA se rendem a Jesus. (Foto: Facebook/Jose Rondon)

Um avivamento está acontecendo na base do Exército dos Estados Unidos em Fort Leonard Wood, no Missouri. De acordo com o capelão Jose Rondon, mais de 1.800 soldados aceitaram Jesus Cristo desde março deste ano.
“Desde 11 de março de 2018, vimos 1.839 soldados se entregando a Cristo. Deus está fazendo um trabalho inacreditável através das forças armadas em Fort Leonard Wood”, disse Rondon no Facebook, destacando que só no último domingo (12), 380 oficiais aceitaram Jesus.
O capelão acredita que agir intencionalmente e pregar o Evangelho tem sido fundamental para as conversões. “Ser intencional não significa apenas pregar a Palavra de Cristo na capela, mas ser sensível ao Espírito Santo para compartilhar a mensagem de reconciliação quando o tempo se encaixar”, disse Jose ao site Baptist Press.
O major-general aposentado Doug Carver, diretor de capelania do Conselho de Missões da América do Norte, observa que homens e mulheres nas forças armadas estão com fome de Deus.

A cada semana, mais soldados do Exército dos EUA se rendem a Jesus. (Foto: Facebook/Jose Rondon)
“Nossas tropas, que estão cada vez mais famintas por verdade e relevância em suas vidas, estão encontrando uma fé que funciona, através de um relacionamento pessoal com o Senhor Jesus Cristo”, disse Carver. “O despertamento espiritual em Fort Leonard Wood indica que um grande movimento de Deus está acontecendo dentro das Forças Armadas hoje”.
Enquanto isso, Jose acredita que o número recorde de salvação é uma resposta de oração. “O Senhor é bom e deseja não somente nos reconciliar através de sua morte e ressurreição, mas também que o mundo inteiro saiba que Ele está fazendo grandes coisas nas forças armadas”, afirma.
“Ele continuará fazendo grandes coisas, em nós e através de nós, para a Sua glória em nossa sociedade tão necessitada de Cristo”, Jose acrescenta.
FONTE: GUIAME

O OFÍCIO DO MAGISTRADO CIVIL, A QUEM INCUMBE O GOVERNO DO POVO, É DE VOCAÇÃO DIVINA

Série Política Reformada

No que respeita à função dos magistrados, não só é aprovada e aceitável ao Senhor, mas também ele a honrou com títulos mui eminentes, além de no-la recomendar com cumulada dignidade. Para lembrar apenas uns poucos títulos: o fato de que são chamados deuses todos quantos exercem a função de magistrados, não deve levar ninguém a pensar que nessa designação reside leve importância, pois com ela significa que possuem um mandato de Deus, que foram providos de divina autoridade e representam inteiramente a pessoa de Deus, cujas vezes de certo modo desempenham. Isso não contém nenhuma cavilação de minha parte, mas é interpretação de Cristo. “Se a Escritura”, diz ele, “chamou deuses àqueles a quem sobreveio a Palavra de Deus [1Jo 10.35]; que é isso, senão que por Deus lhes foi conferida a incumbência de o servirem em seu ofício, e que a seus juízes, a quem constituíam em cada cidade de Judá, como diziam Moisés e Josafá, para que exercessem o juízo, não segundo o homem, mas segundo Deus [Dt 1.16, 17; 2Cr 19.6]? Com o mesmo propósito é o que a Sabedoria de Deus afirma pela boca de Salomão: que é obra sua “que reinam os reis e os conselheiros decretam coisas justas, que os príncipes exercem o principado e todos os juízes da terra” [Pv 8.15, 16]. Ora, isto vale exatamente como se fosse dito que não provém de humana perversidade que nas mãos de reis e outras autoridades esteja, na terra, o arbítrio de todas as coisas, mas pela divina providência e santa ordenação de Deus, a quem assim pareceu bem regular as atividades dos homens, uma vez que ele está presente com eles e também preside em sua formulação das leis e no exercício da eqüidade dos juízos.

     Também ensina isso abertamente quando enumera governos entre os dons de Deus, os quais, variadamente distribuídos segundo a diversidade da graça, devem ser aplicados pelos servos de Cristo à edificação da Igreja [Rm 12.8]. Pois, ainda que o Apóstolo esteja aí falando propriamente de um senado de homens sérios que na Igreja primitiva foram constituídos para presidir à disciplina pública a ser conformada, ofício que na Epístola aos Coríntios [1Co 12.28] Paulo chama kubernh,seij [kyb$rn@seis – governos], visto que, no entanto, vemos recair ao mesmo fim o alvo do poder civil, sem dúvida ele está nos recomendando todo gênero de governo justo. Muito mais claramente, porém, Paulo o assevera onde elabora discussão justa desta matéria. Ora, ensina também que a potestade é uma ordenação de Deus, e que não há qualquer poder que não seja ordenado por Deus [Rm 13.1, 2]; pelo contrário, os próprios príncipes são ministros de Deus, para louvor aos que agem bem e como vingadores com ira aos maus [Rm 13.3, 4]. Além do mais, acrescentam-se aqui os exemplos de santos dos quais uns exerceram reinados, como Davi, Josias, Ezequias; outros satrapias, como José e Daniel; outros governos civis, em um povo livre, como Moisés, Josué e os Juízes, cujas funções o Senhor declarou que foram por ele aprovadas.

     Portanto, a ninguém mais deve ser duvidoso que a potestade civil seja vocação não só santa e legítima diante de Deus, mas até a mais sagrada e a mais honrosa de todas em toda a vida dos mortais.

Por João Calvino
Institutas Vol IV, Capítulo XX

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O Cristão e a Política: Da Administração



Série Política Reformada

1. DA NECESSIDADE E IMPORTÂNCIA DE FOCALIZAR-SE O PODER CIVIL E SUA RELAÇÃO COM O PODER ESPIRITUAL

Com efeito, uma vez que já previamente declaramos o duplo governo no homem e dentre esses um que foi posto na alma, ou no homem interior, e que visa à vida eterna, o que discorremos em outro lugar com suficiente amplitude, é chegado aqui o lugar onde dissertaremos um pouco acerca também do outro, a saber, o que diz respeito apenas ao estabelecimento da justiça civil e a justiça exterior dos costumes. Ora, ainda que o teor desta consideração pareça ser em natureza distinto da doutrina espiritual da fé, o qual me propuz haver de tratar, contudo o andamento da matéria mostrará que com razão tenho que enfrentá-la, mais ainda, sou impelido pela necessidade a fazer isso, especialmente porque, de uma parte, homens dementes e bárbaros tentam furiosamente subverter esta ordem divinamente estabelecida; de outra, porém, os aduladores dos príncipes, exaltando-lhes desmedidamente o poder, não duvidam opô-la ao domínio do próprio Deus. A menos que se resista a um e outro desses dois males, a integridade da fé perecerá. Acrescenta-se a isto que nos é coisa muito útil para permanecer no temor de Deus saber quão imensa é sua benignidade nesta parte ao prover tão bem o gênero humano, a fim de que com isso nos sintamos mais estimulados a servi-lo para dar testemunho de que não lhe somos ingrato.

     De princípio, antes que entremos na própria matéria, deve-se levar em conta aquela distinção por nós anteriormente estabelecida, de sorte que, a um tempo, não misturemos imprudentemente, o que comumente sucede a muitos, estas duas coisas que têm natureza inteiramente diversa. Porque, quando ouvem que no evangelho se promete uma liberdade que, segundo se diz, não reconhece a nenhum rei e a nenhum magistrado, antes, pelo contrário, visa somente a Cristo, não podem compreender qual é o fruto de sua liberdade enquanto vêem alguma autoridade sobre eles. Por isso, julgam que nada pode estar a salvo, a menos que o mundo inteiro adote uma nova forma, na qual não existam juízes, nem leis, nem magistrados, nem outras coisas semelhantes com que estimam que sua liberdade é cortada.

     Mas quem sabe discernir entre o corpo e a alma, entre esta vida presente e transitória, e aquela vida futura e eterna, não terá dificuldade em entender que o reino espiritual de Cristo e a ordem civil são coisas muitíssimo distintas entre si. E visto ser uma loucura judaica buscar e incluir o reino de Cristo sob os elementos deste mundo, nós, refletindo melhor ser um fruto espiritual o que a Escritura claramente ensina, fruto que se colhe do benefício de Cristo, nos lembramos ainda mais de conter dentro de seus limites toda esta liberdade que nele nos é prometida e oferecida. Ora, por que é que o próprio Apóstolo, que ordena que nos postemos firmes, não nos sujeitando ao jugo da servidão [Gl 5.1], em outro lugar veda que os servos estejam anciosos quanto a seu estado [1Co 7.21], senão porque a liberdade espiritual pode persistir muito bem lado a lado com a sujeição política? Além disso, neste sentido devem ser tomadas estas afirmações suas: “No reino de Deus não há judeu nem grego, nem macho nem fêmea, nem servo nem livre” [Gl 3.28]; de igual modo: “Não há judeu nem grego, nem incircuncisão nem circuncisão, bárbaro, cita, servo, livre; pelo contrário, Cristo é tudo em todos” [Cl 3.11]. Afirmações com as quais significa que não importa em que condição estejas entre os homens, sob as leis de que país vivas, uma vez que o reino de Cristo está mui longe de se situar nessas coisas.

2. O REINO DE DEUS E O GOVERNO CIVIL, EMBORA DISTINTOS EM NATUREZA E FUNÇÃO, NÃO SE EXCLUEM MUTUAMENTE, NEM SÃO INCOMPATÍVEIS ENTRE SI

     Apesar disso, esta distinção não serve para que tenhamos a ordem social como uma coisa imunda e que não é pertinente aos cristãos. É verdade que os espíritos utópicos e fanáticos, que não buscam senão uma licença desenfreada, falam dessa maneira atualmente e afirmam que, posto que já morremos em Cristo para os elementos deste mundo e já fomos trasladados ao reino de Deus entre os habitantes do céu, é coisa ignóbil e vil para nós e indigna de nossa excelência nos ocuparmos dessas preocupações imundas e profanas concernentes aos negócios deste mundo, dos quais os cristãos devem afastar-se o máximo possível. A que propósito, dizem eles, servem leis sem juízos e tribunais? Todavia, que o homem cristão tem a ver com os próprios juízos? Com efeito, se não é lícito matar, a que nos servem leis e juízos?      Mas, como há pouco chamamos a atenção dizendo que este gênero de governo é distinto daquele reino espiritual e interior de Cristo, devemos também saber que de forma alguma é contrário a ele. Ora, este reino espiritual começa justamente aqui na terra em nós uma certa prelibação do reino celeste, e de certo modo auspicia nesta vida mortal e passageira a bem-aventurança imortal e incorruptível. Mas o objetivo do governo temporal é manter e conservar o culto divino externo, a doutrina e religião em sua pureza, o estado da Igreja em sua integridade, levar-nos a viver com toda justiça, segundo o exige a convivência dos homens durante todo o tempo que vivermos entre eles, instruir-nos numa justiça social, fomentar a harmonia mútua, manter e conservar a paz e tranqüilidade comuns, coisas essas que reconheço serem supérfluas, se o reino de Deus, como ora se acha entre nós, extingue a presente vida.

     Se, pelo contrário, for a vontade de Deus que, enquanto aspiramos à verdadeira piedade, peregrinemos sobre a terra, enquanto suspiramos por nossa verdadeira pátria; e se, além do mais, tais auxílios nos forem necessários para nossa jornada, aqueles que querem privar aos homens delas, os querem impedir que sejam homens. Ora, a respeito do que alegam, que deve haver na Igreja de Deus tal perfeição que façam as vezes de quantas leis demandem, tal imaginação é uma insensatez, pois jamais poderá existir tal perfeição em qualquer sociedade humana. Pois, como tão grande é a insolência dos réprobos, tão contumaz sua impiedade, que mal se deixa coibir pela extrema severidade das leis, que esperamos que eles façam, se vêem sua improbidade patentear-se em impune desbragamento, os quais nem pela força se deixam compelir para que não procedam mal?

3. NATUREZA E FUNÇÃO DO GOVERNO CIVIL, MESMO EM REFERÊNCIA À RELIGIÃO, E SUA TRÍPLICE ORDEM DE ELEMENTOS A CONSIDERAR-SE: MAGISTRADOS, LEIS E POVO
Mas, quando for mais oportuno falaremos da operação do governo civil em seu devido lugar. Agora queremos que seja entendido apenas isto: é desumana barbárie cogitar que esta ordem seja exterminada, cuja necessidade não é menor entre os homens do que a do pão, da água, do sol e do ar; e sua dignidade, certamente, é até muito mais eminente. Pois atenta não apenas para aquilo que todos os homens respiram, comem, bebem e sejam mantidos confortáveis, ainda que certamente abranja a todas estas coisas, enquanto provê que vivam juntos; insisto, contudo, que se deve atentar não só para isso, mas também que a idolatria, os sacrilégios contra o nome de Deus, as blasfêmias contra sua verdade e outras ofensas da religião não emerjam publicamente e se espalhem entre o povo, para que não se perturbe o sossego público; que cada um possua o que é propriamente seu; que os homens mantenham entre si transações justas; que se cultive honestidade e modéstia entre eles; enfim, que entre os cristãos subsista a expressão pública da religião, seja a humanidade firmemente estabelecida entre os homens.

     Ninguém se perturbe crendo que estou agora a atribuir ao governo dos homens o cuidado de corretamente estabelecer-se a religião, que acima pareço haver posto além do arbítrio de homens, visto que, aqui em nada diferente do que disse antes, estou permitindo ao homens que elaborem a seu arbítrio leis quanto à religião e ao culto de Deus, quando aprovo uma ordem civil que faça com que a verdadeira religião, que está contida na lei de Deus, não seja abertamente e por sacrilégios públicos impunemente violada e conspurcada. Mas, ajudados pela própria perspicuidade da disposição, os leitores compreenderão melhor qual é o consenso de toda a matéria da administração política, se examinarmos suas partes, separada e minuciosamente. De fato suas partes são três: o magistrado, que é o defensor e guardião das leis; as leis, segundo as quais ele governa; o povo, que é regido pelas leis e obedece ao magistrado. Vejamos, pois, em primeiro lugar, quanto à própria função do magistrado, se porventura seja vocação legítima e aprovada por Deus, de que natureza é o ofício, quão grande é o poder; em seguida, de que leis um governo cristão deva ser constituído; então, finalmente, que benefício resulte das leis ao povo, que se deva obediência ao magistrado.

Por João Calvino
Institutas, Volume IV – Capítulo XX

William Wilberforce: um modelo de vida pública


Série Política Reformada
Por Pedro Paulo Valente
“O Deus todo-poderoso tem colocado sobre mim dois grandes objetivos: a supressão do comércio escravocrata e a reforma dos costumes”.
William Wilberforce
“E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos”.
Gálatas 6.9

O “maldito comércio de escravos”

No século 18, a Inglaterra detinha o monopólio do comércio de escravos negros. Os meios de transporte eram os mais cruéis imagináveis. Boa parte da população inglesa tirava proveito desse comércio, e o povo, de maneira geral, aceitava a escravidão. Havia aqueles que enriqueciam e, por isso, defendiam com veemência o escravagismo. Mas Deus graciosamente ergueu uma geração de políticos cristãos para lutar contra o que William Carey chamou de “maldito comércio de escravos”.

Vida – Preciosa Graça

É surpreendente que nenhum grande reformador da história ocidental seja tão pouco conhecido como William Wilberforce. Ele nasceu numa família nobre da Inglaterra, na cidade portuária de Hull, em Yorkshire, em 24 de agosto de 1759. Naquela época, como hoje, a aristocracia vivia em meio a contradições: nela se encontravam alguns dos grandes benfeitores da nação e alguns de seus maiores corruptores. Wilberforce era fruto dessas ambiguidades.

Após estudar em uma escola em Pocklington, foi aceito em 1776 no St. John’s College, na Universidade de Cambridge, onde decidiu dedicar-se à carreira política, tendo sido eleito representante de seu povoado aos 21 anos de idade. Além de repartir o dinheiro que possuía, mandou fazer um grande churrasco para todo o vilarejo, o que lhe valeu um bom número de votantes. Aos 24 anos, já era um político famoso por sua eloquência e acabou por ser eleito representante de Yorkshire, o maior e mais importante condado da Inglaterra, chegando a Londres cheio de popularidade.

Em 1784, ainda aos 24 anos de idade, partiu para uma viagem a Nice, na França, que traria grande transformação em seu caráter. Levou consigo a mãe, Elizabeth, a irmã Sally, uma amiga dela e Isaac Milner, seu antigo professor primário, e que veio a se tornar presidente do Queen’s College, na Universidade de Cambridge. Na bagagem de Milner, Wilberforce viu uma cópia do livro de Philip Doddridge – mais conhecido por ter escrito o famoso hino “Oh! Happy Day” [Oh! Dia Feliz!] -, The Rise and Progress of Religion in the Soul [O começo e o progresso da religião na alma]. Ele perguntou para seu amigo o que era aquilo e recebeu a resposta: “Um dos melhores livros já escritos”. Os dois concordaram em lê-lo juntos na jornada.

A leitura desse livro e das Escrituras, acompanhada de conversas com Milner, levaram o jovem político à conversão. Ele declarou em seu diário, em fins de outubro daquele ano:

Assim que me compenetrei com seriedade, a profunda culpa e tenebrosa ingratidão de minha vida pregressa vieram sobre mim com toda sua força, condenei-me por ter perdido tempo precioso, oportunidades e talentos […]. Não foi tanto o temor da punição que me afetou, mas um senso de minha grande pecaminosidade por ter negligenciado por tanto tempo as misericórdias indescritíveis de meu Deus e Senhor. Eu me encho de tristeza. Duvido que algum ser humano tenha sofrido tanto quanto eu sofri naqueles meses.

Wilberforce começou um programa que durou toda sua vida, de separar os domingos e um intervalo a cada manhã para se dedicar à oração e às leituras espirituais.

Uma longa e dura luta

Já de volta a Londres, a vida de Wilberforce tomou novos rumos. Ele considerou suas opções, inclusive o ministério cristão, mas foi convencido por John Newton que Deus o queria permanecendo na política, em vez de entrar para o ministério. “Espera e crê que o Senhor te levantou para o bem da nação”, escreveu Newton.

Depois de muito pensar e orar, Wilberforce concluiu que Newton estava certo. Deus o chamara para defender a liberdade dos oprimidos como parlamentar. “Minha caminhada é de vida pública. Meu negócio está no mundo, e é necessário que eu me misture nas assembleias dos homens ou deixe o cargo que a Providência parece ter-me imposto”, escreveu em seu diário, em 1788.

Outro que o influenciou fortemente foi John Wesley. Newton e Wesley tinham, além de uma fé vibrante no evangelho, uma forte convicção de que não havia maior pecado pesando sobre as costas do Império Britânico do que o terrível e abominável tráfico de escravos, que Wesley batizara de “execrável vileza”.

Bruce Shelley diz que os ingleses entraram nesse comércio em 1562, quando Sir John Hawkins pegou uma carga de escravos em Serra Leoa e a vendeu em São Domingos. Então, depois que a monarquia foi restaurada em 1660, o rei Carlos II deu uma concessão especial para uma companhia que levava três mil escravos por ano para as Índias Orientais. A partir daí, o comércio cresceu e atingiu enormes proporções. Em 1770, os navios ingleses transportavam mais da metade dos cem mil escravos vindos da África Oriental. Muitos ingleses consideravam o tráfico de escravos inseparavelmente ligado ao comércio e à segurança nacional da Grã-Bretanha.

John Wesley escreveu sua última carta a Wilberforce, em 24 de fevereiro de 1791, seis dias antes de morrer, encorajando-o a executar o plano da abolição da escravatura. Um parágrafo dessa carta diz o seguinte: “Oh! Não vos desanimeis de fazer o bem. Ide avante, em nome de Deus, e na força do seu poder, até que desapareça a escravidão americana, a mais vil que o sol já iluminou”.

Foi por conta dessas influências que Wilberforce decidiu dedicar toda a força de sua juventude e todo o talento que tinha a um único objetivo que consumiria toda sua vida: a abolição do tráfico negreiro. Algum tempo depois, num domingo, 28 de outubro de 1787, ele escreveu em seu diário as palavras que se tornaram famosas: “O Deus todo-poderoso tem colocado sobre mim dois grandes objetivos: a supressão do comércio escravocrata e a reforma dos costumes”.

Uma fonte de estímulo nessa luta foi sua participação ativa no chamado Grupo de Clapham (Clapham Sect), constituído de pessoas ricas cujas residências ficavam em Clapham, um elegante bairro localizado a 8 quilômetros de Londres, que apoiava muitos líderes leigos na busca de uma reforma social, liderados por um humilde ministro anglicano, John Venn. Como destacam Clouse, Pierard & Yamauchi, o Grupo de Clapham foi, de longe, a mais importante expressão anglicana na esfera da ação social. Esse grupo de leigos geralmente se reunia para estudar a Bíblia, orar e dialogar na biblioteca oval de Henry Thornton, um rico banqueiro que todo ano doava grande parte de seus rendimentos para a filantropia.

Outros que participavam do grupo eram: Charles Grant, presidente da Companhia das Índias Orientais; James Stephens, cujo filho, chefe do Departamento Colonial, auxiliou bastante os missionários nas colônias; John Shore, Lorde Teignmouth, governador-geral da Índia e primeiro presidente da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira; Zachary Macauley, editor do Observador Cristão; Thomas Clarkson, famoso líder abolicionista; a educadora Hannah More, além de outros líderes evangélicos. Dentre várias atividades, eles ajudaram a fundar a colônia de Serra Leoa, onde escravos libertos poderiam viver livres.

Clouse, Pierard & Yamauchi dizem: Este grupo uniu-se numa intimidade e solidariedade incríveis, quase como uma grande família. Eles se visitavam e moravam um na casa do outro, tanto em Clapham, como na própria Londres e no campo. Ficaram conhecidos como ‘os Santos’ por causa de seu fervor religioso e desejo de estabelecer a retidão no país. Vários comentaristas observaram que eles planejavam e trabalhavam com um comitê que estava sempre reunido em ‘conselhos de gabinete’ em suas residências pata discutir o que precisava ser consertado e estratégias que poderiam usar para alcançar seus objetivos.

Neste grupo, discutiam os erros e as injustiças de seu país, e as batalhas que teriam de travar para estabelecer a justiça.

Os membros do Grupo de Clapham demonstraram a diferença que um grupo de cristãos pode fazer. Eles elaboraram 12 marcas que nortearam seu esforço pela reforma social na Inglaterra do século 19:

1. Estabeleça objetivos claros e específicos.
2. Pesquise cuidadosamente para produzir uma proposta realista e irrefutável.
3. Construa uma comunidade comprometida que apoie uns aos outros. A batalha não pode ser vencida sozinha.
4. Não aceite retiradas como uma derrota final.
5. Comprometa-se a lutar de forma contínua, mesmo que a luta demore décadas.
6. Mantenha o foco nas questões; não permita que os ataques malignos de oponentes o distraiam ou provoquem resposta similar.
7. Demonstre empatia com a posição do oponente, de forma que diálogo significativo aconteça.
8. Aceite ganhos parciais quando tudo o que é desejado não puder ser obtido de uma só vez.
9. Cultive e apóie suas bases populares quando outros, que estiverem no poder, se opuserem a seus projetos.
10. Transcenda à mentalidade simplista e direcione-se às questões maiores, principalmente as que envolvem questões éticas!
11. Trabalhe através de canais reconhecidos, sem lançar mão de táticas sujas ou violentas.
12. Prossiga com senso de missão e convicção de que Deus o guiará providencialmente se estiver verdadeiramente a seu serviço.

Em 1797, Wilberforce publicou um livro intitulado Practical View of Real Christianity [Panorama prático do cristianismo verdadeiro], amplamente lido e ainda publicado, que evidenciava o interesse evangélico na redenção como a única força regeneradora, na justificação pela graça por meio da fé e na leitura da Escritura em dependência ao Espírito Santo, ou seja, numa piedade prática que redundasse em serviço relevante para a sociedade. Nessa obra, ele disse sobre o cristianismo verdadeiro:

“Eu compreendo que a marca prática e essencial dos verdadeiros cristãos é a seguinte: que os pecadores arrependidos, confiando na promessa de serem aceitos [por Deus], mediante o Redentor, têm renunciado e abjurado todos os outros senhores, e têm de maneira integral se devotado a Deus. Agora, seu propósito determinado é se dedicar integralmente ao justo serviço do legítimo Soberano. Eles não mais pertencem a si mesmos: todas as faculdades físicas e mentais, sua herança, sua essência, sua autoridade, seu tempo, sua influência, tudo o que desconsideram como sendo seus […] devem ser consagrados em honra a Deus e empregados a seu serviço.”

E sobre o poder e o direito:

“Eu devo confessar […] que minhas próprias [e sólidas] esperanças pelo bem-estar do meu país não depende de seus navios e exércitos, nem da sabedoria de seus governantes, ou ainda do espírito de seu povo, mas sim da [capacidade de] persuasão de todos aqueles que amam e obedecem ao evangelho de Cristo.”

No tempo de Deus

Wilberforce e seus amigos do Grupo de Clapham também ajudaram a fundar escolas cristãs para os pobres, a reformar as prisões, a combater a pornografia, a realizar missões cristãs no estrangeiro e a batalhar pela liberdade religiosa. Mas Wilberforce acabou por se tornar mais conhecido por seu compromisso incansável pela abolição de escravidão e do comércio de escravos.

Sua luta começou por volta de 1787 – ele já era parlamentar desde 1780. Haviam pedido a Wilberforce que propusesse a abolição do comércio de escravos, embora quase todos os ingleses achassem a escravidão necessária, ainda que desagradável, e que a ruína econômica certamente viria ao acabar com a escravidão. Apenas uns poucos achavam o comércio de escravos errado. A pesquisa de Wilberforce o pressionou até conclusões dolorosamente claras. “Tão enorme, tão terrível, tão irremediável aparentou a maldade desse comércio que minha mente ficou inteiramente decidida em favor da abolição”, disse ele à Casa dos Comuns: “Sejam quais forem as consequências, deste momento em diante estou resolvido que não descansarei até efetuar sua abolição.” Wilberforce falou primeiramente sobre o comércio de escravos na Casa de Câmara dos Comuns em 1788, num discurso de três horas e meia, que concluiu dizendo: “Senhor, quando nós pensamos na eternidade e em suas futuras consequências sobre toda conduta humana, se existe esta vida, o que esta fará a qualquer homem que contradisser as ordens de sua consciência e os princípios da justiça e da lei de Deus!”. Sua luta custou-lhe dezoito anos de trabalho incansável.

Os feitos de Wilberforce foram realizados em meio a tremendos desafios. Ele era um homem de constituição fraca e com uma fé desprezada. Quanto à tarefa, enquanto a prática da escravatura era quase universalmente aceita, o comércio de escravos era tão importante para a economia do Império Britânico quanto é a indústria de armamentos para os Estados Unidos hoje. Quanto à sua oposição, incluía poderosos interesses mercantis e coloniais e personalidades como o famoso Almirante Horacio Nelson e a maior parte da família real. E quanto à sua perseverança, Wilberforce continuou incansavelmente, anos a fio, antes de alcançar seu alvo. Sempre desprezado, ele foi duas vezes assaltado e surrado. Certa vez, um amigo lhe escreveu, dizendo-lhe que, do jeito que as coisas andavam, “eu espero ouvir dizer que foste carbonizado por algum dono de fazenda das Índias Ocidentais, feito churrasco por mercadores africanos e comido por capitães da Guiné, mas não desanime – eu escreverei o seu epitáfio!”.

O comércio de escravos foi finalmente abolido em 25 de março de 1806. Quando a lei foi aprovada, todo o Parlamento se pôs de pé e aplaudiu Wilberforce por vários minutos, enquanto ele, já desgastado pelos anos, chorava com o rosto entre as mãos.

Ele continuou a campanha contra a escravidão em todos os territórios britânicos, e o voto crucial da famosa Lei de Emancipação chegou quatro dias antes de sua morte, em 29 de julho de 1833.

Por conta da decisão parlamentar, poderosa como era e não querendo ser lesada em seus interesses, a Grã-Bretanha declarou ao mundo que nem ela nem ninguém mais poderia traficar escravos. Além disso, tornou-se a guardiã dos mares. Logo, Portugal e Bélgica, as duas nações rivais, tiveram também de parar com o tráfico, por força do poderio naval inglês.

Um ano depois da morte de Wilberforce, em julho de 1834, 800 mil escravos, principalmente na Índia Ocidental britânica, foram libertos. Em pouco tempo, a maior parte dos países ocidentais aboliria a escravidão em definitivo.

Uma vida de fé coerente

A vida de William Wilberforce é uma inspiração para todo cristão. A sua conversão genuína e o desdobramento desta fé no seu cotidiano o levou a uma decisão importante, entre ser pastor ou usar seus talentos e dons para promover profundas mudanças estruturais na sociedade britânica para a glória de Deus.

Wilberforce viveu de forma coerente com suas convicções e consciência, sempre as submetendo ao crivo da Palavra de Deus. Ele rompeu com o pensamento perverso de sua geração sobre a escravidão e lutou em prol da justiça e a promoção do reino de Deus. Com perseverança e ligado a Cristo, William mostrou que não há espaço para conformismo e omissão na vida cristã, nos lembrando das palavras do apóstolo Paulo: “E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” (Gl 6:9) e insistiu novamente aos cristão de Tessalônica: “irmãos, nunca se cansem de fazer o bem” (II Ts 3:13).

Material consultado
• CLOUSE, Robert; PIERARD, Richard; YAMAUCHI, Edwin. Dois reinos: a igreja e a cultura interagindo ao longo dos séculos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 413-20.
• GUINNESS, Os. O chamado. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 35-43. KERR NETO, Guilherme. O inglês que acabou com o tráfico negreiro.
• Ultimato, n.º 245, mar./1997, p. 28.
• NOIL, Mark. Momentos decisivos na história do cristianismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 256-81.
• SHAW, Mark. Lições de mestre: 10 insights para a edificação da igreja local. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p. 203-24.
• SHELLEY, Bruce L. História do cristianismo ao alcance de todos. São Paulo: Shedd, 2004, p. 407-16.
• WESTPHAL, Euler. A ética social na teologia de John Wesley. Vox Scripturae, 7/2, dez./1997, p. 83-97.

Nota
Aula organizada a partir do artigo “William Wilberforce: “Todos vós sois um em Cristo Jesus”” de direitos autorais de RENAS – Rede Evangélica Nacional de Ação Social.
Copyright © 2005-2011. Conteúdo publicado originalmente no blog UPAPO ED.

• Pedro Paulo Valente é obreiro de jovens na Igreja Presbiteriana de Viçosa.

Fonte: Ultimatoonline

CALVINO E A RESISTÊNCIA AO ESTADO

Série Política Reformada

É preciso buscar uma explanação da teoria calviniana de resistência ao Estado. O objetivo é compreender a teoria calviniana da resistência à autoridade por meio de representantes denominados magistrados populares ou inferiores.

Uma nova onda de discussões doutrinárias a respeito do direito de resistência ao tirano veio logo depois da Reforma. Calvino, diferentemente de Lutero, permite a resistência por parte dos órgãos do Estado aos quais foram estabelecidos limites.404

Um dos problemas de interpretar o pensamento de Calvino nesta questão política, surge ao relacionar suas diversas afirmações e escritos que exigem obediência ao Estado e a Lei, e ao mesmo tempo em que a resistência ao governo tirano é para o cristão, somente um direito, mas também um dever de resistir. Cabe aqui a pergunta: Calvino estava seguro do que, de fato, queria dizer? Calvino ensinou a obediência ou a desobediência civil? Vamos, pois, tentar responder a estas questões.

 Calvino ao orientar sujeição, obediência, respeito e honra aos principados, se referiu aos magistrados que fazem jus aos títulos a eles conferidos. Mas alertou para a existência de príncipes indolentes, gananciosos, injustos, tiranos, assassinos e criminosos.405 Ainda assim, eles devem ser considerados com as mesmas honrarias e reverencias que seriam concedidas a um excelente rei. Calvino embasou sua tese com uma enxurrada de textos bíblicos.

Desta forma, mesmo que injusta, imoral ou anti-religiosa, a autoridade civil deve ser respeitada em sua função legítima. Calvino acreditava que Deus pode se servir de magistrados indignos e injustos para, soberana e providencialmente, cumprir a sua boa vontade na história.406 No entanto, bem à frente diz: “mas existe uma exceção a essa obediência (…)”.407

 Qual exceção?

Se eles nos ordenarem qualquer coisa contrária a vontade de Deus, nada deve significar para nós […] e neste caso devemos ignorar todas essa dignidade que os magistrados possuem.

E citando o exemplo da desobediência de Daniel, preconizou:

Estamos submetidos aqueles que foram colocados sobre nós, mas apenas por ele. 408

Aqui o pensamento de Calvino parece ambíguo. Ao mesmo tempo em que preconizou sujeição às autoridades, não importa como tenham chegado a seus cargos, ele também sugeriu uma teoria de resistência. É exatamente por esta ambiguidade que Skinner409 o chama de ‘mestre da ambiguidade’, pois, embora não haja dúvidas de que Calvino endossou uma teoria da não-resistência, na prática introduz várias exceções em sua argumentação.

Calvino assim asseverou:

Ao cidadão comum não assiste o direito de atentar contra a majestade dos reis; os magistrados, porém, que constituídos são para defender os direitos do povo, podem e devem resistir aos abusos dos soberanos.410

Para Calvino a resistência ao governo injusto é, pois, para o cristão, não apenas um direito, mas um dever.

[…] não os proíbo de agirem conforme seu dever de resistir à licenciosidade e a ira dos reis; pelo contrário, se forem coniventes com a violência sem limites contra o povo infeliz, eu afirmaria que tal omissão se constitui numa grave traição. Porque maliciosamente como traidores de seu país estão a perder a liberdade de seu povo, para cuja defesa e amparo devem saber que têm sido colocados por ordem divina como tutores e defensores.411

Com essa exceção, teria o pensamento calviniano se revestido de um potencial revolucionário? Ainda há outras questões. De fato, em Calvino, esse destaque para o verdadeiro papel dos magistrados do povo era um pormenor ou uma exceção em seus escritos. Poderia esse pormenor constituir-se no viés pelo qual o potencial revolucionário calviniano influenciou outros calvinistas?

Como uma hipótese que se formula para responder a essas questões, a resposta que se busca obter aponta nessa direção. Pois, com base em seus escritos e na repercussão que tiveram esse pormenor e esse destaque dado por Calvino ao papel dos magistrados do povo foi inovador. E essa foi sua contribuição para o desenvolvimento da teoria da resistência. Embora um mero detalhe, até mesmo uma pequena exceção, nisso encontrava-se a colaboração de Calvino para o desenvolvimento de uma teoria de resistência à autoridade iníqua ou ao tirano.

Foi também a partir da premissa da soberania de Deus que Calvino chegou ao seu ensino sobre a desobediência civil. Se é por causa de sua origem divina, que as autoridades civis têm o direito à obediência de todos os homens em geral e dos cristãos em particular, também é por ser de origem divina que, para Calvino, o poder político é limitado em sua função e em seu fim.

 Comentando Romanos 13.4, ele afirmou:

Os magistrados podem aprender disto a natureza de sua vocação. A sua administração não deve ser feita em função de si próprios, mas visando ao bem público. Nem têm eles poderes ilimitados, senão que sua autoridade se restringe ao bem-estar de seus súditos. Em resumo são responsáveis diante de Deus e dos homens pelo exercício de sua magistratura. Uma vez que foram escolhidos e delegados por Deus mesmo, é diante deste que são responsáveis. 412

Desta forma, somente Deus possui autoridade auto-gerada. A autoridade dos magistrados é delegada por Deus, a quem devem prestar contas. Por isto, a obediência devida às autoridades civis é limitada, sobretudo, pela obediência que o homem deve a Deus.

Calvino encerrou as Institutas com estas palavras:

Mas, na obediência que temos ensinado ser devida aos superiores, deve haver sempre uma exceção, ou antes, uma regra que se deve observar acima de todas as coisas: é que tal obediência não nos afaste da obediência Àquele sob cuja vontade é razoável que se contenham todos os editos dos reis, e que à sua ordenação cedam todos os mandamentos, e que à sua majestade humilhada seja e rebaixada toda a sua altaneira. E, para dizer a verdade, que perversidade seria, a fim de contentar os homens, provocar a indignação daquele por amor de quem obedecemos aos homens?  Devemos estar sujeitos aos homens que têm preeminência sobre nós, não, entretanto, de outra forma senão em Deus.    Se, porventura, os homens ordenam algo que contraria a Deus, de nenhum valor nos deve isto ser. 413

Para Calvino, o dever de submissão às autoridades civis não é ilimitado. Contra os governos injustos é preciso agir pelos meios legais que estão na mão do povo. Por isso, ele entendia que é necessário dar ao povo mecanismos legais para a derrubada de seu governo.  Assim a desobediência civil ao governo injusto, naquilo que ele tem de injusto.  A obediência às ordens injustas da autoridade civil, contrárias à vontade de Deus, é um crime contra o próprio Deus.  Mas a desobediência civil não se justifica senão àquela ordem injusta em particular, naquele ponto específico que o governo tem de injusto, e não ao governo como um todo. O governo injusto retém sua autoridade em tudo que exige de seus governados e que não contrarie sua obediência a Deus.

Calvino ensinou também que Deus pode, ocasionalmente, suscitar “salvadores providenciais”, de dentro ou de fora da própria nação, quando a desordem alimentada pelo governo é maior que a injustiça da revolução. Neste caso, a revolução é, de maneira excepcional, justificada. Obviamente, isto é, para Calvino, uma exceção e não uma regra que justifique toda e qualquer revolução.

Portanto, o que se pode concluir é que a tese de Calvino era a das obrigações e responsabilidades mútuas, divinamente ordenadas entre magistrados e cidadãos.

Nesta questão, Calvino se posicionou contra um duplo perigo: o da rebelião do povo contra o governo e o do abuso do poder do governo contra o povo. Ele rejeitou ambos os extremos. Para ele a falta de governo conduziria à anarquia e ao caos, e o absolutismo monárquico se oporia à verdadeira religião, elevando-se acima do trono do Deus soberano. Assim no pensamento de Calvino o autoritarismo é condenável, ao mesmo tempo em que o princípio de autoridade é desejável.

A doutrina política de Calvino, calcada no conceito teológico da soberania divina, preconizou que as sociedades calvinistas não mais deveriam se submeter a reis e autoridades tirânicas, fossem elas políticas, religiosas ou de qualquer espécie.

Ao cidadão comum não assiste o direito de atentar contra a majestade dos reis; os magistrados, porém, que constituídos são para defender os direitos do povo, podem e devem resistir aos abusos dos soberanos.414

Geralmente não se dá atenção à declaração de ‘grande alcance’415 que Calvino fez no final de suas Institutas. No entanto, é inegável desenvolvimento das teorias de resistência e da própria concepção da esfera política que encontramos nos discípulos de Calvino se deve a cosmovisão subjacente à sua teologia, cujas implicações o próprio reformador talvez não tivesse consciência, mas que no campo da política, viabilizou o envolvimento maciço dos calvinistas com a resistência política, e a reorganização do Estado. 416

Na França, por exemplo, temos uma obra bastante popular entre os huguenotes perseguidos, atribuída a Theodoro de Beza (1519-1605), discípulo e sucessor de Calvino em Genebra, que pressupõe responder a questões como: Até que limite será legítimo resistir ao príncipe que oprime ou destrói o Estado, e a quem caberá a resistência? 417

Parte do Capítulo 3- A TEOLOGIA POLÍTICA (3.4  A TEORIA DA RESISTÊNCIA AO ESTADO), da dissertação A TEOLOGIA POLÍTICA DE JOÃO CALVINO (1509-1564) NA INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ (1536), de EBER DA CUNHA MENDES


Notas de Referências
401  REID, op. cit., p. 57-58, nota 38.
402  CALVINO, Juan. Institución de la religión cristiana. 2v. Traducida y publicada por Cipriano de Valera en 1597 por Luiz de Usoz y Rio en 1858. Nueva edicion revisada en 1967. Paises Bajos: Fundacion Editorial de Literatura Reformada, 1967, p. 847.
403  Ibidem, p. 847.
404  HERBERT, Marcuse. Estado Democrático e Estado Autoritário. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1969, p. 168.
405  CALVINO, 1995, p. 124,125, nota 335.
406  Ibidem, p. 125.
407  Ibidem, p. 126.
408  Ibidem, p. 137.
409  Skinner levanta a seguinte questão: na versão original de 1536 das Institutas esta posição é mais        dramática e estratégica que reapareceu inalterada nas outras edições subseqüentes da obra. No        entanto, na edição definitiva de 1559, Calvino apresenta mudanças de idéia. Ainda assim, até o        final de sua vida, a postura política de Calvino permaneceu mais coerente com o ensino Paulino        da não-resistência.
  1. 468,469, nota 81.
410  CALVINO, IV v., op. cit., p. 483, nota 60.
411  CALVINO, 2v., p. 1193, nota 402.
412  CALVINO, op. cit., nota 171.
413 CALVINO, 2v, op. cit., p. 1193, nota 402.
414  CALVINO, IV v., op. cit., p. 483, nota 60.
415  HERBERT, op. cit., p. 168, nota 404. Para o autor, a teoria de resistência é o calvinismo. No        capítulo 5 o autor aborda sobre os limites da desobediência justificável.
416  Para Skinner, temos boas razões para considerar a análise de Calvino como uma importante        contribuição para a construção das idéias políticas em meados do século XVI. SKINNER, op. cit.,          p. 507, nota 81.
417  CAVALCANTI, op. cit., p. 119, nota 396.

UM TEMPO DE CONVULSÃO POLÍTICA E SOCIAL



Abraham Kuyper: “A minha glória não darei a outrem”

Série Política Reformada

Mesmo despontando hoje como uma grande força política, por causa de seu crescimento, os evangélicos brasileiros continuam nutrindo aversão à política. Principalmente por esta estar associada a homens corruptos, cristãos de campanha, mentiras eleitoreiras, apostasia, satisfação de interesses pessoais, que deixam o eleitor desconfiado das reais motivações que levam determinado candidato a lutar tanto por tal cargo. Unido a isto, temos uma fé afastada dos negócios do mundo, e então temos os destinos da sociedade entregue a incrédulos. Precisamos de um evangelho integral, que tenha uma palavra de juízo e graça para todas as esferas da vida humana, manifestando o Reino de Deus em nosso mundo. Um homem que é um modelo como um evangélico envolvido na política é Abraham Kuyper, e, segundo D.M. Lloyd-Jones, a obra deste homem “se ergue como um grande monumento à única oposição verdadeira a toda a idéia que está por trás da Revolução Francesa.”

A Revolução Francesa, ocorrida no final do século XVIII, criou sua própria religião, chamada a princípio de “Culto à Razão” e depois “Culto ao Ser Supremo”. Seus líderes achavam que a ciência e a razão inaugurariam uma nova era, tendo então uma política fortemente anti-cristã. Tudo que era cristão foi abolido. O homem se tornou o centro, não Deus. Não somente em questões ligadas ao Estado, como também em questões de religião. Criou-se um novo calendário e novas cerimônias ocuparam o lugar das antigas datas religiosas, e cultuava-se simultaneamente Jesus, Sócrates, Rousseau e Voltaire. O lema francês desta época era “Nem Deus nem mestre”, e mais tarde, por onde os exércitos de Napoleão Bonaparte passaram, deixaram esta idéia como legado. A vizinha Holanda, anteriormente uma fortaleza da fé bíblica, também foi influenciada por estes acontecimentos. Seu recém-coroado rei, o autoritário William I, buscou controlar a Igreja Reformada Holandesa, enfraquecendo sua doutrina, por meio do favorecimento da teologia liberal (tendo como princípio a negação de tudo que aparentasse ser miraculoso, como a inspiração e inerrância bíblica, a divindade de Cristo e sua ressurreição) que começava a chegar nas faculdades de Teologia.

SUA PEREGRINAÇÃO ESPIRITUAL

Abraham Kuyper nasceu no meio desta convulsão, na Holanda, em 1837, em Maassluis, filho de um ministro da Igreja Reformada Holandesa. Fez seu curso superior na Universidade de Leiden, onde recebeu seu grau de Doutor em Teologia em 1862. Quando estudante, absorveu muitas idéias antibíblicas adotadas por seus professores liberais. Em 1871 ainda lembrava, diante dos alunos da Universidade Livre, sua petulância espiritual, causa de seus deslizes passados: “Em Leiden eu me achava entre os que aplaudiram calorosa e ruidosamente quando nosso professor manifestou sua ruptura total com a fé na ressurreição de Cristo”, acrescentando porém: “Hoje a minha alma treme por causa de desonra que outrora infligi a meu Salvador”. Ele também escreveu mais tarde: “No mundo acadêmico eu não tinha defesa contra os poderes da negação teológica. Fui roubado da fé da minha infância. Era inconverso, arrogante e aberto a dúvidas.” A despeito disto, ele foi ordenado pastor de uma congregação em Beesd, um povoado de Gelderland, onde permaneceu por quatro anos. Durante seu pastorado em Beesd, Kuyper ministrou a pessoas que permaneceram fiéis a Cristo, algumas das quais possuíam um notável conhecimento das Escrituras. Kuyper disse mais tarde: “Quando sai da universidade e fui para lá {Beesd}, meu coração estava vazio.” Mas não permaneceu vazio, pois os membros de sua congregação oraram pelo seu pastor e assistiram à sua conversão. Uma jovem camponesa, Pietje Baltus, fazia objeções à pregação de Kuyper, e a sua influência alterou a vida dele para sempre. Esta jovem testemunhou a seu pastor sobre a graça de Deus em sua vida. Estimulou-o a estudar as confissões de fé reformadas, e expôs para seu pastor a Palavra de Deus. Ele se converteu, e depois testificou que ela e outros em Beesd foram os meios que Deus usou para levá-lo a Cristo. No estudo dos escritos dos reformadores ele conseguiu fortes argumentos bíblicos para fazer frente à influência da teologia liberal de sua época.

Em 1870, Abraham Kuyper mudou-se para Amsterdã, para se tornar pastor da famosa Nieuwekerk. Aquela cidade fora um baluarte da teologia liberal, mas multidões, que apreciavam o calor e paixão de sua ortodoxia vinham ouvir as pregações de Kuyper. Ele falou de seu sonho para a igreja holandesa: “A igreja que eu quero é reformada e democrática, livre e independente, e também totalmente organizada no ensino doutrinário, no culto formal e no ministério pastoral.” Ele exortava os cristãos a adotarem o princípio da “purificação e desenvolvimento contínuos. A Igreja Reformada está sempre reformando-se diante de Deus.” Por esta época, ele já era um dos líderes da ala ortodoxa da Igreja Reformada Holandesa. Ele trabalhou para ter uma igreja livre do controle do Estado, que poderia reformar-se e assim recuperar seu estado anterior. Para Kuyper, os cristãos de todas as épocas precisam ser constantemente vigilantes para preservarem a pureza da igreja de Cristo, pois “Satanás se opõe a Deus e, no desespero de sua impotência, imita tudo o que Deus faz, para ver se consegue destruir o Reino de Deus com os próprios instrumentos de Deus.”

Tendo um grande interesse na pureza da igreja visível, Kuyper seguia os reformadores, vendo a pregação da Palavra e a correta administração das ordenanças como as marcas da igreja verdadeira. Embora nenhum grupo cristão mantenha perfeitamente estas marcas, as falsas igrejas descartam a Palavra de Deus, pervertem o uso das ordenanças e opõem-se aos que amam a verdade, e em seu entender, a separação de tal igreja é necessária quando ela impede que seus membros obedeçam a Deus. Ele afirmou: “Satanás cria uma igreja para o Anticristo subvertendo as igrejas cristãs existentes”. James E. McGoldrick, professor de História no Coderville College, EUA, resume o pensamento de Kuyper sobre este assunto da seguinte forma: “Você não deve retirar o seu amor da sua igreja só porque ela está doente ou incapacitada, o fato de estar enferma clama por sua maior compaixão. Somente quando estiver morta e deixar de ser a sua igreja, e quando os gases venenosos da falsa igreja ameaçarem matá-lo, fuja do seu toque e retire dela o seu amor.”Como Kuyper mesmo disse: “Ninguém deve deixar a sua igreja a menos que tenha certeza de que ela se tornou a sinagoga de Satanás.” A degeneração da Igreja Reformada começou com indiferença doutrinária, descambando para a heresia e mau testemunho de seus membros. Como não ocorreram as mudanças que Kuyper e seus amigos queriam — antes, seus adversários se tornaram mais intransigentes — cerca de duzentas congregações (170.000 crentes!) formaram “A Igreja dos Tristes” (por causa da tristeza de terem de retirar-se de suas igrejas) em 1886. Ele escreveu muitos livros e artigos sobre teologia, filosofia, política, arte e questões sociais, nos quais procurava expressar um conceito cristão do mundo e da vida.

SEU ENVOLVIMENTO NA EDUCAÇÃO

Em seus esforços para reformar a igreja, Kuyper entendeu que a educação teológica era da maior importância, e a Universidade Livre de Amsterdã foi a resposta ao liberalismo que havia infectado as faculdades da Igreja Reformada. Quando a Universidade Livre iniciou suas atividades em 1880, Abraham Kuyper declarou em seu discurso inaugural: “Não existe sequer um centímetro de nossa natureza humana do qual Cristo, que é soberano de tudo, não proclame ‘Meu!’” Ele afirmou ainda que o cristão “não pensa por um só momento em se limitar à teologia e à contemplação, deixando as outras ciências como personagens inferiores, nas mãos dos não-crentes”, pelo contrário, “considerando isso como seu tema para conhecer Deus em todos os seus trabalhos, está consciente de ter sido chamado para penetrar com toda a energia do seu intelecto nas questões terrestres, tanto quanto nas questões celestiais”. Seu sermão estava baseado em Isaías 48.11: “A minha glória não darei a outrem”, indicando que quando nos omitimos na esfera educacional, deixando que Satanás proclame as suas filosofias abertamente e sem contestação, enquanto passivamente assistimos seus avanços em todas as esferas, estamos fazendo justamente o que Deus expressa não permitir: deixamos que sua glória seja dada a outrem! Esta Universidade foi fundada como o meio principal de promover uma reforma da igreja e da sociedade, alcançando “a restauração da verdade e da santidade no lugar do erro e do pecado.” Por acreditar que toda verdade vem de Deus, e que cada centímetro da criação pertence a Cristo, ele não apenas estabeleceu uma escola de teologia, mas uma universidade na qual todo o currículo, todas as artes e ciências eram parte de uma cosmovisão bíblica. Kuyper ensinou ali teologia, homilética, hebraico e literatura.

SUA VISÃO POLÍTICA

Sua crescente preocupação acerca das questões sociais e políticas da Holanda lançou-o na vida política. Em 1874 foi eleito ao parlamento como representante do recém-formado Partido Anti-Revolucionário, que foi o primeiro partido político moderno da Holanda. Para se candidatar, afastou-se do ministério. Em 1900, o partido Anti-Revolucionário chegou ao poder, e Kuyper se tornou primeiro-ministro. Seus alvos políticos abrangiam a extensão do voto, o reconhecimento do Estado sobre o direito dos cristãos de conduzirem suas próprias escolas e uma legislação social que ajudasse a proteger o povo trabalhador. Em 1905, após uma amarga campanha eleitoral, perdeu seu mandato, mas continuou a exercer sua influência política como redator de um jornal político. O objetivo deste diário era “elucidar todos os fatos concernentes ao problema social…, abrir os olhos do povo para um governo que, de um lado, provoca uma revolução que em seguida sufocará com sangue e, de outro lado, causa condições sociais tão anormais que boa parte da população mal consegue sobreviver.” Ele escreveu neste jornal até pouco antes de sua morte, em 1920. Kuyper disse: “O medo da política… não é cristão e não é ético”. Apesar de ter perdido as duas primeiras eleições que participou, não desistiu. “Conosco, o que importa não é a influência que temos agora, mas a que teremos daqui a cinqüenta anos… Quantos da próxima geração serão seguidores dos nossos princípios?” Sua teoria social e política da soberania de Deus sobre todas as esferas da vida humana é uma tentativa de limitar o poder de um Estado totalitário. Em seu pensamento, cada esfera da vida humana (Família, Igreja, Estado) tem sua própria área de responsabilidade, que é derivada diretamente de Deus, e as pessoas dentro de cada esfera, são responsáveis apenas perante Deus. Este princípio foi um baluarte contra toda forma de totalitarismo. Ele entendia, então, que a função do Estado era preservar na sociedade a justiça de Deus, como revelada em sua Palavra.

SUA VISÃO SOCIAL

Neste tempo, quando pensamos em ação social, podemos aprender do pensamento de Kuyper nesta área. Em 1871, deixou clara a compreensão de sua tarefa: “Lutar contra um mal social isolado ou resgatar os indivíduos, embora excelente, é muito diferente de agarrar o problema sócio-econômico em si com o sagrado entusiasmo da fé”, reconhecendo que os interesses comerciais, e não apenas os governamentais, podem oprimir os pobres. Falando no Parlamento, em 1874, defendeu a elaboração de um código de Leis que protegessem o trabalhador, numa época em que tais códigos não existiam. Em seguida, tirou do bolso um Novo Testamento e leu o texto de Tiago 5.1–11. Em meio à reação escandalizada, disse: “Se eu mesmo tivesse falado essas palavras, que lhes parecem radicais e revolucionárias, vocês poderiam se opor. Mas foram escritas por um apóstolo do Senhor. Como pode, pois, alguém confessar a Cristo e não defender o trabalhador quando reclama?” Em outra ocasião, afirmou: “Quando ricos e pobres se opõem uns aos outros, [Jesus] nunca fica do lado dos ricos, mas sempre do lado dos pobres… Ele se colocava invariavelmente contra os poderosos e aqueles que viviam luxuosamente, e a favor dos que sofriam e eram oprimidos.” André Bielér, professor de Ciências Econômicas da Universidade de Genebra, Suíça, diz: “É certo que o Evangelho não deixa de encorajar à paciência aqueles que sofrem injustiças ou que são oprimidos… Mas ter-se-á uma idéia muito falsa da doutrina evangélica se pensar que a paciência e a caridade cristãs sejam sinônimos de passividade diante da desordem social, de complacência para com a injustiça ou de indiferença diante da tirania. Muito pelo contrário. A luta contra toda forma de opressão, seja política, econômica ou social, é uma das exigências da Reforma, e decorre diretamente de sua teologia e de sua concepção do homem.”

O CRISTÃO NUMA ÉPOCA REVOLUCIONÁRIA

Devemos ter mais cristãos se candidatando à política. Agora, qual o perfil do candidato cristão? Precisamos cada vez menos de pessoas despreparadas, amadoras, ingênuas ou desonestas, que são eleitas por um voto corporativista, para representar os interesses de uma igreja particular, para fazer favores, conseguir emprego, telha, terreno ou tijolo para a congregação. Temos que ter, isto sim, mais pessoas preparadas, que tenham uma formação bíblica sólida e abrangente, que possam ir aos centros de decisão (sejam eles simples associações comunitárias, sindicatos, partidos políticos, assembléias legislativas ou palácios do governo) representando o Senhor da glória, para expansão de Seu reino, e para o bem comum da sociedade, sendo “sal da terra” e “luz do mundo”. Como Abraham Kuyper, precisamos de cristãos que tenham o desejo de termos uma igreja forte, ortodoxa e disciplinada e uma sociedade justa. Que tenham o lema de Kuyper: “Estimar a Deus como tudo, e todos os outros como nada.”

Por Rev. Franklin Ferreira

HERMAN DOOYEWEERD, PIONEIRO DA FILOSOFIA CALVINÍSTICA E REFORMACIONAL


“O filósofo mais profundo, inovador e penetrante desde Kant”, conforme o filósofo Dr. Giorgio Delvecchio.

Série Política Reformada
HERMAN DOOYEWEERD: UMA BREVE APRESENTAÇÃO
BIOGRÁFICA

Herman Dooyeweerd nasceu em Amsterdã, na Holanda, no dia 7 de outubro de 1894, oriundo de uma família cujo cristianismo havia sido revigorado pelo movimento Doleantie liderado por Abraham Kuyper. Esse movimento resultou na criação da Igreja Reformada Livre e na Universidade Livre de Amsterdã, materializando assim os anseios de Abraham Kuyper em ver tanto a igreja como as instituições de ensino e o Estado exercendo os seus poderes e obedecendo a seus limites dentro daquilo que ele mesmo cunhou de “esfera de soberania”.

A família de Dooyeweerd tinha um vínculo muito forte com o movimento neocalvinista, o que o levou a crescer e a se desenvolver imerso
nessa tradição. Seu pai era um ardoroso seguidor de Kuyper,21 inclusive tendo tomado parte com ele no Doleantie, sendo um assíduo leitor de De Heraut, um periódico escrito e publicado por Kuyper que refletia os anseios do partido anti-revolucionário e a reivindicação dos valores cristãos na vida política, econômica e social da Holanda.

O jovem Dooyeweerd desde muito cedo foi atraído pela música e pelas
artes, tornando-se um “pianista completo”. Ele dominava muito bem as línguas clássicas e a literatura, além de possuir profundo conhecimento histórico, sendo este fator um elemento facilitador na sua futura incursão acadêmica.

Além disso, era “homem de fé simples e profunda”.23 H. Evan Runner, um de seus ex-alunos norte-americanos, professor do Calvin Theological Seminary durante anos, declarou que os alunos que estiveram sob a influência acadêmica direta de Dooyeweerd não somente aprenderam a fazer filosofia, mas também, através do seu exemplo, aprenderam a ser cristãos…. O que é que o meu cristianismo tem haver com a política? com as artes, etc? 

Conheça um pouco este pensador file:///C:/Users/pasto/Desktop/Pr.%20Eli/dooyeweerd-apresentacao-panoramica_fabiano-almeida.pdf

Aborto, o Grito Silencioso dos que não Nasceram

Por Hernandes Dias Lopes

A questão do aborto esteve no topo da lista das grandes discussões políticas em nossa nação. Este é um assunto solene, que merece nossa maior atenção. Não devemos ser frívolos em sua análise. O aborto sempre foi e ainda é assunto de debates entre juristas e legisladores; é tema da ética cristã que exige um posicionamento da igreja. Algumas ponderações precisam ser feitas no trato dessa matéria: Quando começa a vida? Quem tem o direito de decidir sobre a interrupção da vida? Em que circunstâncias um aborto pode ser justificado? O que a Palavra de Deus tem a dizer sobre o assunto? Não queremos, neste artigo, discutir aqueles casos de exceção, onde a medicina e a ética cristã precisam fazer uma escolha entre a vida da mãe ou do nascituro. Queremos, sim, alertar para a prática indiscriminada e irresponsável do aborto, fruto muitas vezes, de uma conduta imoral.

Embora seja ainda matéria de discussão, é consenso geral que a vida começa com a fecundação. A ciência apresenta o fato de que a vida humana inicia com a fecundação e termina com a morte. Desde a concepção, todos os componentes da vida já estão potencialmente presentes para o seu pleno desenvolvimento. É desse óvulo fertilizado que se desenvolve o ser humano pleno, corpo e alma. Na perspectiva bíblica, Deus é o autor da vida e ele mesmo é quem forma o nosso interior e nos tece no ventre da nossa mãe. É Deus quem nos forma de maneira assombrosamente maravilhosa. O salmista diz: “Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.15,16). A Bíblia fala do ser antes do nascer. Davi diz: “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5). Jó descreve sua existência pré-natal afirmando: “Porventura não me vazaste como leite e não me coalhaste como queijo? De pele e carne me vestiste, e de ossos e tendões me entreteceste” (Jó 10.10). Fica claro na perspectiva da Escritura, que a vida começa na concepção.

A lei de Deus é enfaticamente clara: “Não matarás” (Ex 20.13). Deus é o autor da vida e só ele tem autoridade para tirá-la (1Sm 2.6). A decisão acerca do aborto não pode ser apenas uma discussão restrita à mãe e ao seu médico. O direito à vida é um direito sagrado e deve ser amplamente discutido, sobretudo, à luz da ética cristã. O aborto é a eliminação de uma vida. É um assassinato. E o mais grave: um assassinato com requintes de crueldade. O aborto é matar um ser indefeso, incapaz de proteger-se. É tirar uma vida que não tem sequer o direito de erguer a voz e clamar por socorro. Ah! Se os milhões de crianças que não chegaram a nascer pudessem gritar aos ouvidos do mundo, ficaríamos estarrecidos diante dessa barbárie. Ficamos chocados com o Holocausto, onde seis milhões de judeus foram mortos nos campos de concentração e nos paredões de fuzilamento. O aborto, entretanto não é menos perverso. O ventre materno em vez de ser um refúgio da vida, torna-se o corredor da morte; em vez de ser o berço da proteção, torna-se o patíbulo da tortura; em vez de ser o reduto mais sagrado do direito à vida, torna-se a arena mais perigosa da morte. O aborto é um crime com vários agravantes, pois não raro, a criança em formação é envenenada, esquartejada e, sugada do ventre como uma verruga pestilenta e indesejável. Oh, que Deus tenha misericórdia da nossa sociedade! Que Deus tenha piedade daqueles que legislam! Que Deus tenha compaixão daqueles que favorecem ou praticam tamanha crueldade!
Foto de Defendendo O Evangelho.

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