Deuteronômio 2.26-37
O livro de Deuteronômio, como bem sabemos, não
se constitui como uma mera repetição mecânica de ordenanças jurídicas, mas sim
como uma calorosa, profunda e vibrantíssima renovação teológica do pacto com a
nova geração que emergiu do deserto. A antiga geração, marcada pelo pecado
trágico da incredulidade e pela murmuração em Cades-Barneia, havia tombado e
sido sepultada nas areias áridas do julgamento divino. Agora, os seus filhos
estão postados estrategicamente às margens do Jordão. Atrás deles repousa o memorial
da disciplina do Senhor; diante deles, ergue-se o desafio da conquista da Terra
Prometida.
No trecho que hoje nos serve de fundamentação
exegética, Deuteronômio 2.26-37, deparamo-nos com o relato histórico e
teológico do confronto entre Israel e Seom, o altivo rei de Hesbom. Este
episódio não deve ser lido como uma simples crônica de guerra do Antigo Oriente
Médio, mas como uma teofania histórica, onde o Senhor Deus dos Exércitos
desnuda o Seu braço forte para demonstrar ao Seu povo que a vitória pactual é
um ato monergístico de Sua graça soberana, o qual, contudo, exige a cooperação
obediente e corajosa de Seus servos. O coração do homem natural vacila diante
das hostes inimigas, mas o coração regenerado descansa no decreto divino.
Muitos cristãos em nossos dias vivem
paralisados em suas jornadas espirituais, amedrontados pelas fortalezas do
secularismo, da decadência moral da cultura e pelas oposições malignas que se
levantam contra a verdade de Deus. Olham para o mundo e enxergam apenas reis de
Hesbom intransigentes e exércitos imbatíveis. Esquecem-se, todavia, de que os
corações dos governantes estão nas mãos daquele que governa as estrelas e que
os decretos da providência já selaram a vitória da Igreja. A mensagem que
reverbera das planícies de Moabe para a nossa comunidade hoje é clara e
urgente: Não há fortaleza humana que subsista diante do cumprimento do pacto
decretado por Deus na eternidade.
Para penetrarmos na rica densidade teológica
desta passagem, faz-se estritamente necessário contextualizarmos as coordenadas
históricas e geográficas fornecidas pelo texto sagrado. Israel está contornando
as fronteiras das nações vizinhas. O Senhor, em Sua fidelidade pactual e
respeito às Suas próprias linhas decretivas, ordenara que o povo não
hostilizasse os filhos de Esaú (Edom) e os filhos de Ló (Moabe e Amom), pois o
Senhor não lhes daria a terra dessas nações por herança. Israel, portanto,
marchou em pacífica obediência, comprando mantimentos e água dessas populações.
Contudo, ao chegar às fronteiras de Hesbom, o
cenário altera-se de forma dramática. Moisés envia mensageiros a Seom, rei de
Hesbom, do deserto de Quedemote, com palavras de paz (v. 26). Geograficamente,
Hesbom controlava uma rota comercial vital e estratégica. A proposta de Moisés
era clara e justa: permissão de trânsito pela estrada real, sem desvios para
campos ou vinhas, pagando o valor devido por toda comida e água consumidas (vv.
27-28), exatamente como fora feito com os edomitas e moabitas.
Entretanto, o versículo 30 nos introduz ao
cerne teológico e exegético de toda a narrativa: “Mas Seom, rei de Hesbom,
não nos quis deixar passar por sua terra...”. Por que tamanha obstinação
que, humanamente falando, pareceria uma insanidade diplomática? O texto bíblico
arranca o veil das causas secundárias e nos revela a Causa Primária: “...porquanto
o Senhor, teu Deus, endurecera o seu espírito e fizera obstinado o seu coração,
para o entregar na tua mão, como hoje se vê”. Aqui a Escritura nos coloca
face a face com o mistério insondável da soberania de Deus agindo sobre a
vontade humana.
O texto hebraico utiliza os termos hiqshah
(endurecer) e 'immets (tornar obstinado, infundir uma coragem temerária
e cega). Deus não introduziu malícia em um coração puro, mas judicialmente
retirou Seus freios de graça comum, entregando Seom à sua própria arrogância e
soberba depravada, transformando o seu julgamento em um instrumento de
libertação e triunfo para o Israel do pacto. O resultado foi o confronto em
Jaza, onde Seom e todo o seu exército foram cabalmente derrotados por Israel
(vv. 32-33). Desde Aroer, às margens do ribeiro de Arnom, até Gileade, nenhuma cidade
foi alta demais ou fortificada demais para o povo de Deus, pois, como conclui
solenemente o versículo 36, “o Senhor, nosso Deus, tudo nos entregou”.
A proposição teológica que emana
irremediavelmente desta exposição bíblica e que deve governar a mente e o
coração da Igreja de Cristo pode ser assim sintetizada:
O avanço vitorioso do povo de Deus sobre os
obstáculos e oposições deste mundo é infalivelmente garantido pelo decreto
soberano do Senhor, o qual atua na história dobrando a soberba dos ímpios e
capacitando Seus filhos para uma obediência corajosa e integral.
Ao nos debruçarmos sobre este painel da
providência e do triunfo pactual de Israel, somos conduzidos pelo Espírito
Santo a discernir três movimentos sagrados que elucidam como a soberania
de Deus e a responsabilidade humana cooperam perfeitamente na marcha da Igreja
rumo à consumação das promessas eternas.
1. A
Realidade das Causas Segundas e a Primazia do Decreto Divino (vv. 26-30)
O primeiro ponto que salta aos nossos olhos
neste texto é a harmonia teológica entre as ações humanas e os decretos eternos
de Deus. Moisés age com extrema prudência, justiça e diplomacia. Ele envia
embaixadores com palavras de paz (v. 26). Não há da parte de Israel uma
provocação belicosa e injustificada. Aos olhos de qualquer historiador secular
que analisasse aquele evento, a recusa de Seom, rei de Hesbom, seria creditada
à sua soberba geopolítica, ao seu medo de uma invasão ou ao seu orgulho monárquico.
Essas são as chamadas causas segundas — as motivações históricas, psicológicas
e circunstanciais.
Todavia, a teologia reformada nos ensina a não
sermos míopes espirituais. Por trás das cortinas da história humana, opera a
Causa Primária: o decreto infalível do Senhor. O versículo 30 afirma
categoricamente que o Senhor endureceu o espírito de Seom e tornou obstinado o
seu coração. Deus, em Sua soberania executiva, governa inclusive as inclinações
pecaminosas dos governantes e dos inimigos de Sua Igreja para cumprir os Seus
propósitos santos e redentores. A obstinação de Seom não foi um acidente que pegou
Deus de surpresa; foi o próprio instrumento do juízo de Deus contra os amorreus
e de bênção para o Seu povo eleito.
"Deus, desde toda a eternidade, pelo
muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e
imutavelmente tudo quanto acontece; porém, de modo que nem Deus é o autor do
pecado, nem é feita violência à vontade da criatura, nem é tirada a liberdade
ou contingência das causas segundas, antes passadas estabelecidas." — Confissão
de Fé de Westminster, Cap. III, Seção I
Portanto, meus irmãos, quando olhamos para as
autoridades deste mundo, para os impérios que se levantam contra a sã doutrina,
ou para os decretos humanos que tentam calar a voz do Evangelho, não devemos
nos desesperar. Eles não possuem um milímetro de poder independente. Suas
decisões, suas leis e suas arrogâncias estão sob o absoluto controle daquele
que remove reis e estabelece reis de acordo com o Seu conselho eterno.
2. A
Certeza da Vitória Concedida e a Exigência de Tomar Posse (vv. 31-35)
O segundo movimento deste texto nos coloca
diante da maravilhosa e aparente tensão bíblica entre a soberania divina e a
responsabilidade humana. No versículo 31, o Senhor fala a Moisés de modo
impressionante: “Eis aqui comecei a entregar-te Seom e a sua terra; começa,
pois, a possuí-la, para que herdes a sua terra” . Notem a beleza teológica
desta estrutura: Deus afirma que já começou a entregar (a soberania
garantiu o resultado), mas ordena a Moisés: começa, pois, a possuí-la (a
responsabilidade exige a ação).
A soberania de Deus e a certeza de Seus
decretos nunca geraram passividade, letargia ou fatalismo no coração de um
crente bíblico. Pelo contrário, a soberania de Deus é o combustível mais
poderoso para a audácia santa! Israel não marchou para Jaza (v. 32) para testar
se Deus seria fiel; eles marcharam para a batalha porque tinham a certeza
absoluta de que Deus já havia decretado a vitória. A promessa divina não anula
a espada de Israel; ela capacita e garante que a espada não será empunhada em
vão.
"A soberania de Deus não é um convite à
indolência, mas sim o fundamento inabalável da nossa esperança e o chamado mais
urgente para o trabalho diligente. Nós pregagem, lutamos e trabalhamos porque
sabemos que o nosso trabalho não é vão no Senhor, visto que Ele determinou os
fins e também os meios." — João Calvino, Institutas da Religião
Cristã
O versículo 34 nos mostra que Israel feriu a
Seom e destruiu todas as suas cidades, homens, mulheres e crianças, não
deixando sobrevivente algum. No contexto da teocracia israelita, tratava-se da
execução do herem — o juízo anatematizado de Deus contra a iniquidade
dos amorreus que havia chegado ao seu cúmulo (cf. Gn 15.16). Israel agiu como o
instrumento histórico do tribunal divino, tomando posse da herança por meio de
uma obediência radical e sem concessões.
3. A
Insuficiência das Barreiras Humanas Diante da Eficácia do Pacto (vv. 36-37)
O terceiro e último ponto desta divisão nos
conduz ao ápice do louvor e do reconhecimento da graça de Deus. Moisés faz um
resumo geográfico da conquista nos versículos 36 e 37: “Desde Aroer, que
está à borda do ribeiro de Arnom, e a cidade que está no ribeiro, até Gileade,
nenhuma cidade houve alta demais para nós...”. Imaginem o impacto dessas
palavras no coração daquela nova geração. Quarenta anos antes, seus pais haviam
chorado e retrocedido porque os espias disseram que as cidades de Canaã eram
grandes e fortificadas até os céus (Dt 1.28). O medo havia criado barreiras
intransponíveis na mente da geração da incredulidade.
Contudo, quando a fé se apoia no pacto do
Senhor, as muralhas mais altas desabam e as fortalezas mais robustas se tornam
cinzas. O texto nos revela o segredo dessa eficácia inabalável: “o Senhor,
nosso Deus, tudo nos entregou”. Nenhuma cidade foi alta demais (sagabh
- inacessível, inexpugnável) porque o Deus Altíssimo operava à frente do Seu
povo. As barreiras humanas tornam-se ridículas quando confrontadas com o
decreto do Todo-Poderoso.
Notem, todavia, a precisão da obediência
descrita no versículo 37: “Somente à terra dos filhos de Amom não
chegastes...”. Israel demonstrou maturidade espiritual tanto para avançar
contra Hesbom quanto para conter-se diante de Amom. A fé verdadeira obedece
tanto aos mandamentos de ação quanto aos mandamentos de restrição. O avanço do
povo do pacto é governado estritamente pela Palavra de Deus, não pela ganância,
pela soberba ou pelo capricho humano. O mesmo poder que esmaga Hesbom protege
Amom, porque ambos os movimentos cumprem a vontade soberana do Senhor.
Aplicações
Como esta solene exposição histórica e
teológica do século XV a.C. edifica, corrige e direciona a vida da nossa igreja
na presente dispensação da graça?
1. Descanse na Soberania Divina Diante de um
Mundo Hostil: Muitas vezes, meus irmãos, somos tentados a
olhar para o avanço da impiedade, para os decretos de governantes ímpios e para
as hostilidades institucionais contra a Igreja de Cristo com desespero e
pânico. O texto de hoje cura a nossa alma dessa miopia espiritual. Seom, rei de
Hesbom, parecia um obstáculo intransponível, mas ele estava apenas cumprindo o
roteiro do decreto de Deus para o seu próprio juízo e para o triunfo de Israel.
O Senhor continua no trono. Não há um único governante, magistrado ou ideólogo
neste mundo que possa mover um dedo contra a Igreja eleita sem que isso coopere
para o cumprimento dos propósitos eternos do Altíssimo. Descanse no governo
soberano do Deus da Aliança.
2. Abandone a Passividade Fatalista e Marche
em Obediência: A teologia reformada jamais endossou a
inércia ou a negligência humana. O fato de Deus ter decretado a vitória sobre
Seom não fez com que Israel ficasse acampado esperando que as muralhas de
Hesbom caíssem por gravidade espiritual. Eles precisaram afiar as espadas,
marchar até Jaza e enfrentar o exército inimigo no campo de batalha. Qual tem
sido a sua postura diante dos desafios que Deus colocou à sua frente? Na
santificação pessoal contra pecados de estimação, na evangelização de seus
familiares, no discipulado de seus filhos na aliança ou no serviço na igreja
local? Pare de usar a soberania de Deus como desculpa para a sua preguiça
espiritual! Se Deus prometeu que estaria conosco, levante-se do comodismo,
comece a possuir a terra, lute com as armas da graça e avance na certeza de que
a vitória é garantida pelo Senhor.
3. Reconheça a Insuficiência das Muralhas
deste Século: O que tem parecido "alto demais" ou
"fortificado demais" para você hoje? Talvez o coração endurecido de
um cônjuge, a apostasia aparente de um filho, um diagnóstico de enfermidade
devastadora ou uma crise financeira sufocante. A incredulidade diz: "as
cidades são altas demais, não podemos vencer". A fé pactual olha para
o ribeiro de Arnom até Gileade e confessa: "Nenhuma cidade houve alta
demais para nós, porque o Senhor, nosso Deus, tudo nos entregou". Erga
os seus olhos acima das muralhas terrenas. O Deus que esmagou a Hesbom é o
mesmo Deus que sustenta a sua vida hoje. Cristo Jesus, o nosso Capitão, já
desarmou os principados e potestades na cruz, triunfando sobre eles
publicamente. Não tema as barreiras deste século; elas já foram julgadas pelo
tribunal do Calvário.
Conclusão
Meus amados e remidos irmãos, a narrativa
bíblica de Deuteronômio 2.26-37 deságua de forma gloriosa e perfeita na pessoa
e na obra de nosso Senhor Jesus Cristo. Moisés estendeu as mãos e viu as hostes
inimigas caírem porque o Deus do Pacto operava a favor de Israel. Mas séculos
mais tarde, o próprio Filho de Deus encarnou e marchou não contra um rei
geográfico como Seom de Hesbom, mas marchou decisivamente em direção ao Monte
Calvário para enfrentar e aniquilar os maiores e mais terríveis inimigos da nossa
alma: o pecado, a morte, a condenação da Lei e o próprio Diabo.
Na cruz do Calvário, parecia aos olhos do
mundo e das causas segundas que o Sinédrio e o Império Romano haviam triunfado.
Parecia que o coração obstinado de Pilatos e de Caifás havia sufocado a
esperança do Reino. Contudo, a teologia do pacto nos revela que ali se cumpria
o determinado conselho e presciência de Deus (At 2.23). Naquela cruz, Jesus
Cristo desmantelou todas as fortalezas espirituais e inexpugnáveis que nos
separavam do Pai. Nenhuma barreira de culpa foi alta demais para o Seu sangue
expiatório; nenhuma sepultura foi forte demais para reter o Seu corpo glorioso
ao terceiro dia.
"O fim principal do homem é glorificar a
Deus e desfrutá-lo para sempre." — Catecismo Maior de Westminster, Pergunta
1
Nós não glorificamos a Deus quando
retrocedemos tomados pelo medo diante dos Seus inimigos. Nós O glorificamos
quando, alicerçados na vitória definitiva e monergística de Cristo na cruz,
arrumamos as nossas malas espirituais, cingimos os lombos da nossa mente,
empunhamos a espada da Palavra e marchamos com ousadia em direção à Pátria
Celestial, sabendo que as portas do inferno jamais prevalecerão contra a Igreja
marchante do Deus Vivo.
Que o Senhor da Aliança, que operou
eficazmente nas planícies de Hesbom, opere de forma soberana e irresistível no
recesso do seu coração hoje, arrancando toda incredulidade, quebrando todo
orgulho e infundindo uma fé inabalável para o Seu louvor e glória eterna.
Soli Deo Gloria. Amém.
Pr. Eli Vieira
