Série 1 Samuel
Texto 1 Samuel 17.1–58
Irmãos, Golias fala e os homens de Israel recuam. A cena se repete até o dia em que Davi chega ao acampamento levando alimento para os irmãos. Ele ouve o mesmo desafio que todos os outros ouviram e faz uma pergunta que muda a conversa. Quem é aquele homem para afrontar os exércitos do Deus vivo?
Antes de lançar uma pedra, Davi já deu ao conflito o seu sentido. Israel pertence ao Senhor, e o desafio do filisteu atinge o nome daquele que chamou esse povo. É por isso que a história nos convida a olhar para Deus quando uma ameaça começa a determinar tudo o que conseguimos esperar.
No capítulo anterior, Samuel ungiu Davi, e o Espírito do Senhor veio sobre ele. O jovem voltou a ser encontrado junto às ovelhas e foi chamado para servir a Saul. Em 1 Samuel 17, o rei ainda governa, os filisteus ameaçam Israel, e Davi chega ao vale de Elá a pedido de Jessé.
Golias propõe um combate entre dois representantes, cujo resultado afetaria os dois povos. O jovem ungido aceita o desafio. Em sua resposta ao filisteu, explica que a vitória dará a conhecer o Deus de Israel e mostrará de onde vem o livramento.
Porque a batalha pertence ao Senhor, enfrentemos a ameaça com fé no Deus vivo, usemos os meios que ele nos dá e reconheçamos nele a fonte do livramento.
Acompanhemos o que Davi ouviu no acampamento, o que recordou diante de Saul e o que declarou ao enfrentar Golias.
1 Enxerguemos o desafio à luz do Deus vivo
Exposição de 1 Samuel 17.1–30
Os filisteus se reúnem para a guerra. Saul e os homens de Israel também se juntam. Os exércitos ocupam lados opostos, separados pelo vale. Da fileira dos filisteus sai Golias, um guerreiro de Gate. O narrador demora na descrição de sua estatura, da armadura de bronze e da lança. Antes de ouvir o homem falar, o leitor já entende por que sua presença pesa sobre o acampamento.
Golias manda que os israelitas escolham um homem para lutar com ele. Se o israelita vencer, os filisteus servirão a Israel. Se Golias vencer, Israel servirá aos filisteus. A proposta põe o destino de muitos nas mãos de um representante. Todos os que ouvem o desafio precisam pensar no que acontecerá com seu povo se o homem enviado cair.
O versículo 11 reúne Saul e os israelitas na mesma reação de espanto e medo. A estatura de Saul já havia chamado atenção quando ele foi apresentado ao povo em 1 Samuel 10.23. Agora, o medo alcança até quem tinha a responsabilidade de comandar o povo. O homem que saiu das fileiras inimigas pode fazer sua proposta e voltar a repeti-la.
O desafio se repete pela manhã e pela tarde, durante quarenta dias. Pensem no efeito de ouvir a mesma ameaça ao começar e ao terminar o dia. A fala de Golias passa a marcar o ritmo da espera. Israel continua reunido para lutar, mas a cada nova aparição do filisteu a mesma pergunta permanece sem resposta. Quem irá ao encontro dele?
Há momentos em que também repetimos uma dificuldade tantas vezes que ela ocupa toda a conversa. Sabemos dizer o que pode dar errado, quem talvez se oponha e o que poderíamos perder. Podemos levar tudo isso ao Senhor em oração, com a mesma franqueza com que falamos do problema entre nós. Diante dele, o temor ganha palavras, e podemos pedir sabedoria para a responsabilidade que temos hoje.
Uma congregação com poucos voluntários, por exemplo, precisa conhecer seus limites. Ainda assim, pode olhar para as pessoas que chegam e decidir quem as receberá no próximo domingo. Às vezes, o primeiro gesto de coragem é bem pequeno. O que o torna possível é a confiança de que Deus permanece com seu povo quando as forças são poucas.
Enquanto o exército escuta Golias, Jessé precisa de notícias dos filhos que estão na guerra. A ordem que dá em casa levará Davi ao lugar onde o desafio vem sendo repetido.
Davi escuta a afronta no acampamento
Os versículos 12 a 15 apresentam a família de Davi. Os três irmãos mais velhos seguiram Saul para a guerra. Davi ia e voltava do serviço de Saul para cuidar das ovelhas de seu pai. É nessa rotina que Jessé lhe pede que leve alimento aos irmãos, entregue queijos ao comandante e traga notícias de como eles estão.
Davi se levanta cedo e deixa o rebanho com um guarda. No acampamento, entrega o que trouxe aos cuidados de quem guarda a bagagem. Esses detalhes mostram um rapaz que cumpre a tarefa recebida. Ao procurar os irmãos para saber se estão bem, ele ouve Golias falar. A responsabilidade que tinha em casa o pôs diante da necessidade que Israel enfrentava.
Os soldados falam da recompensa oferecida pelo rei. Haveria riqueza, casamento com a filha de Saul e isenção de encargos para a família do vencedor. Davi pergunta pela recompensa e pela afronta que precisa ser removida. No versículo 26, sua pergunta identifica o povo ameaçado como os exércitos do Deus vivo. Golias desafiou um exército que tem história e aliança com o Senhor.
Eliabe ouve a conversa e se ira. Acusa o irmão de orgulho e de querer ver a batalha. O leitor já sabe por que Davi veio e com quem deixou as ovelhas. Davi responde brevemente e volta a fazer sua pergunta a outro homem. A necessidade do povo continua diante dele mesmo depois de ouvir uma acusação de alguém de sua própria casa.
Ao pregar sobre Davi, Charles Spurgeon disse, em tradução livre, que desejava que os jovens “aspirassem a uma vida corajosa para o Deus de Israel”. Uma vida assim pode começar quando um jovem presta atenção ao que está acontecendo ao seu redor e se dispõe a agir com lealdade ao Senhor, mesmo que alguém próximo desconfie de suas intenções.
Pensem numa roda de conversa em que todos riem à custa de alguém. O cristão que conhece o valor daquela pessoa pode interromper a humilhação com uma palavra serena. Se ouvir uma acusação por ter falado, pode examinar sua conduta e continuar disposto a proteger quem foi ferido. É uma forma concreta de agir em público sob a autoridade do Deus vivo.
As palavras de Davi são comunicadas a Saul. Diante do rei, ele precisará explicar por que está disposto a ir ao encontro do filisteu e de onde vem a confiança com que fala.
2 Recordemos a fidelidade de Deus ao nos preparar para agir
Exposição de 1 Samuel 17.31–40
Diante de Saul, Davi pede que ninguém desanime por causa do filisteu. Ele se dispõe a lutar. O rei apresenta uma objeção compreensível. Davi é jovem, e o adversário tem experiência de guerra desde a mocidade. O que Davi diz a seguir revela o que aprendeu longe das fileiras do exército.
Quando um leão ou um urso levava uma ovelha, Davi ia atrás e procurava recuperá-la. Tinha enfrentado perigo enquanto cuidava do rebanho que o pai lhe confiara. Ao lembrar essas ocasiões, atribui ao Senhor o livramento. O Deus que o sustentou nas tarefas do campo é aquele de quem espera auxílio diante de Golias.
Faz diferença lembrar de um acontecimento dessa maneira. Davi conhece a força que precisou empregar para defender o rebanho e reconhece de quem recebeu o socorro. Quando recordamos uma oração atendida, uma pessoa que nos ajudou ou a graça recebida para suportar um tempo difícil, podemos trazer essa lembrança para a oração que fazemos hoje.
Em abril de 1836, George Müller registrou em seu diário que a casa de acolhimento em Bristol já estava aberta e recebia dezessete crianças. Ele e seus cooperadores separaram um dia para orar e agradecer. No mesmo relato, aparecem doações tão concretas quanto pratos e alimentos. Müller desejava que o cuidado daquelas crianças tornasse conhecida a fidelidade de Deus. Sua confiança tinha lugar nas orações e nas responsabilidades de cada dia.
Saul permite que Davi vá e põe nele sua armadura. Davi experimenta andar, percebe a dificuldade e tira o equipamento que nunca usara. Ele toma o cajado, escolhe cinco pedras lisas do ribeiro, guarda-as no alforje e segue com a funda. Os recursos que leva são conhecidos de um pastor e adequados à maneira como decidiu enfrentar o adversário.
A confiança no Senhor orienta também a escolha dos meios. Antes de uma conversa difícil, podemos orar, ouvir um conselho e preparar as palavras que precisamos dizer. Quem começa a ensinar pode estudar com cuidado e pedir ajuda a alguém mais experiente. A preparação faz parte da responsabilidade que recebemos de Deus.
Davi avança com o que tem em mãos. Golias repara no rapaz e no cajado que ele carrega. Os dois começam a falar antes de trocar golpes.
3 Reconheçamos que o livramento vem do Senhor
Exposição de 1 Samuel 17.41–58
Golias se aproxima com seu escudeiro à frente. Quando vê Davi, despreza sua juventude. Amaldiçoa o rapaz pelos seus deuses e ameaça entregar seu corpo às aves e aos animais do campo. O desprezo que havia dirigido a Israel se concentra agora no homem que saiu para enfrentá-lo.
Davi responde que vem em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel a quem Golias afrontou. Ele está ali como servo do Senhor. Suas palavras dão a entender a quem pertence o povo que representa e quem receberá a glória pelo que acontecerá naquele dia.
Nos versículos 46 e 47, Davi declara que toda a terra saberá que há Deus em Israel. Os que estão reunidos no vale verão que o Senhor é quem salva. O próprio povo de Deus precisa aprender a reconhecer o poder de quem o livra. Davi declara que “do Senhor é a guerra”. A confiança com que fala repousa no poder daquele em cujo nome veio.
Quando o filisteu avança, Davi corre para encontrá-lo. Tira uma pedra do alforje, lança-a com a funda e atinge a testa de Golias. O gigante cai com o rosto em terra. Davi toma a espada do próprio filisteu e completa a derrota do campeão. Quando os filisteus o veem morto, fogem.
O versículo 50 resume como Davi prevaleceu, com a funda e a pedra. Ele usou um instrumento concreto, e o resultado confirmou o que havia declarado sobre o Senhor. A força de Golias, a proteção da armadura e a experiência de combate haviam dominado a atenção do acampamento. Deus serviu-se dos recursos de um pastor para fazer Israel conhecer sua salvação.
Pensem em como contamos o que aconteceu depois de um tempo difícil. É justo lembrar o esforço de quem trabalhou e o auxílio de quem chegou na hora certa. Podemos agradecer ao Senhor pelas forças que recebemos e por essas pessoas que estiveram ao nosso lado. Foi assim que Davi contou a história do rebanho a Saul, reconhecendo o livramento do Senhor em meio à própria ação.
O propósito anunciado no vale também orienta o que dizemos depois de receber socorro. Se o Senhor nos sustentou, há gente que precisa ouvir de que maneira essa ajuda chegou. Podemos contar o que aconteceu com a sobriedade de quem se lembra tanto da dificuldade como do cuidado recebido.
O povo participa do livramento
Os homens de Israel e de Judá se levantam e perseguem os filisteus. Depois da perseguição, voltam ao acampamento inimigo e recolhem os despojos. Aquele exército que recuava ao ouvir Golias agora avança porque o campeão que o ameaçava foi derrotado. A vitória do representante mudou a situação de todos os que estavam atrás dele.
O versículo 54 registra o destino dos troféus. A cabeça de Golias é levada a Jerusalém, e suas armas ficam na tenda de Davi. Em seguida, a narrativa retoma a pergunta que Saul fez a Abner quando viu o rapaz sair para o combate. O rei queria saber de quem Davi era filho.
No capítulo anterior, Davi já havia sido chamado para servir na corte. Aqui, a pergunta diz respeito à sua família, mencionada também na promessa de recompensa do versículo 25. Quando Abner leva o jovem à presença de Saul, ele se identifica como filho de Jessé, de Belém. O capítulo termina voltando à casa da qual o Senhor havia escolhido um rei.
A certeza de Davi diz respeito àquele combate. Em nossa vida, a confiança que sustenta a obediência se apoia no que Deus nos promete. Nas Institutas, João Calvino descreve a fé, em tradução livre, como um “conhecimento firme e seguro do favor de Deus para conosco”, fundado na promessa gratuita em Cristo. Essa confiança nos permite cumprir nossa responsabilidade mesmo quando o resultado imediato continua incerto.
Hebreus 11.32–38 inclui Davi entre as testemunhas da fé. Naquele mesmo trecho, algumas pessoas conquistam reinos, enquanto outras sofrem e morrem. A esperança da ressurreição dá futuro aos que pertencem ao Senhor em ambas as situações. Podemos pedir que ele nos livre de uma dificuldade e continuar confiando nele enquanto esperamos sua resposta.
Irmãos, isso se torna importante quando ouvimos o testemunho de quem saiu de uma crise e pensamos em alguém que ainda está nela. A igreja pode celebrar um livramento e permanecer ao lado de quem continua sofrendo. Às vezes, esse cuidado toma a forma de voltar na semana seguinte para ouvir como a pessoa passou e orar com ela.
A alegria de Israel no fim do combate nasceu de um livramento recebido. A vitória de Davi em favor de seu povo nos ajuda a compreender a obra do Rei que Deus nos deu em Jesus Cristo.
Aplicações práticas
Leve seu temor ao Senhor. Diga em oração o que você receia perder ou enfrentar. Depois, identifique uma responsabilidade que já está ao seu alcance. Peça a alguém de confiança que ore com você enquanto dá esse passo.
Recorde o socorro que já recebeu. Lembre-se de uma ocasião concreta em que o Senhor o sustentou e agradeça pelas pessoas e pelos recursos que ele usou. Considere como aquela experiência pode ajudá-lo a se preparar para a tarefa de hoje.
Dê testemunho do cuidado de Deus. Ao contar o resultado de um trabalho, reconheça quem contribuiu para ele. Conte também o que aprendeu sobre o Senhor durante a dificuldade. Sua gratidão pode encorajar alguém que ainda espera auxílio.
Conclusão
Davi saiu das fileiras e enfrentou Golias em favor de Israel. Na história que Deus continua a conduzir, Jesus vem da descendência de Davi como o Salvador prometido, conforme Atos 13.22–23. Ele representa seu povo diante de inimigos que alcançam a todos nós, o pecado e a morte.
Cristo entregou a vida por nossos pecados e ressuscitou. Hebreus 2.14–15 ensina que, por meio de sua morte, ele venceu aquele que tinha o poder da morte e libertou os que viviam escravizados pelo medo de morrer. Recebemos esse livramento pela fé. A esperança do povo de Deus está na obra que o próprio Rei realizou em seu favor.
Por isso, irmãos, podemos dizer com Paulo que damos graças a Deus pela vitória que ele nos dá por meio de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Coríntios 15.57). Quando a ameaça parecer grande, lembremos a quem pertencemos. Podemos pedir socorro, agir com os meios que recebemos e descansar na certeza de que o Senhor ressuscitado guarda os seus.
Que Deus nos dê coragem para obedecer hoje e gratidão para reconhecer o seu cuidado. Amém.
Pregador Pr. Eli Vieira
Referências Bíblia, 1 Samuel 17.1–58. C. H. Spurgeon, The Lion and the Bear, tradução livre. João Calvino, Institutas da Religião Cristã, III.2.7, tradução livre. George Müller, A Narrative of Some of the Lord’s Dealings with George Müller, parte 1, registro de 21 de abril de 1836.

