O capítulo 12 de Êxodo, nos versículos de 1 a 28, marca o nascimento espiritual e civil de Israel. Antes mesmo da saída física do Egito, Deus estabelece um novo calendário, ordenando que aquele mês fosse o "primeiro dos meses". Este gesto simbólico indicava que a vida sob a escravidão pertencia ao passado morto; a contagem do tempo agora seria pautada pela liberdade e pela relação direta com o Criador. Era o início de uma nova era, onde a identidade de um povo não seria mais definida pelo chicote do feitor, mas pela palavra do Senhor.
As instruções para a escolha do cordeiro revelavam a seriedade do momento. Cada família, ou grupo de famílias pequenas, deveria selecionar um animal sem defeito, macho de um ano. A perfeição exigida do animal antecipava a pureza necessária para um sacrifício que substituiria a vida dos primogênitos. O cordeiro não era apenas uma refeição; era um escudo vivo. Ao ser guardado do décimo ao décimo quarto dia, o animal tornava-se familiar à casa, tornando o ato do sacrifício ainda mais pessoal e consciente para cada israelita.
O ápice do ritual residia na aplicação do sangue. Os israelitas foram instruídos a tomar um molho de hissopo e tingir os batentes e a verga das portas com o sangue do cordeiro sacrificado. Esse sinal externo era a manifestação pública de uma fé interna. Para Deus, o sangue era o critério de distinção: onde houvesse a marca, o "destruidor" passaria por cima. O livramento não dependia do mérito moral dos moradores da casa, mas da obediência estrita ao sinal da aliança estabelecida naquela noite terrível e gloriosa.
A ceia pascal, composta por carne assada, pães ázimos e ervas amargas, carregava uma pedagogia profunda. O pão sem fermento simbolizava a pureza e a pressa da partida, enquanto as ervas amargas traziam à memória o sofrimento da servidão. Comer a Páscoa era, simultaneamente, um ato de lembrança da dor passada e de celebração da esperança futura. Aquela refeição nutria o corpo para a jornada que começaria em poucas horas, unindo a comunidade em torno de uma mesa de redenção.
A postura recomendada para o povo durante o banquete sublinhava a urgência da libertação. Eles deveriam comer com os lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão — prontos para marchar a qualquer instante. Essa "liturgia da prontidão" ensinava que a salvação divina exige uma resposta ativa do ser humano. A fé não era passiva; ela se manifestava na prontidão para abandonar as estruturas conhecidas do Egito e caminhar em direção ao desconhecido deserto, confiando apenas na nuvem e na coluna de fogo rumo à terra prometida.
Além do evento imediato, Moisés estabeleceu a Páscoa como um memorial perpétuo para as futuras gerações. O texto enfatiza o papel da família na transmissão da fé, instruindo os pais a explicarem o significado do rito quando seus filhos perguntassem: "Que rito é este?". A história da libertação não deveria se perder no tempo, mas ser reatualizada a cada ano. A Páscoa tornava-se, assim, a espinha dorsal da memória coletiva de Israel, garantindo que nenhum descendente esquecesse que o Senhor os tirou com mão forte da casa da servidão.
Por fim, a resposta do povo ao receber tais instruções foi de profunda reverência. O texto relata que os israelitas se inclinaram e adoraram, executando fielmente o que fora ordenado. Essa obediência foi o prelúdio necessário para o milagre que se seguiu à meia-noite. Ao seguirem o protocolo divino, os filhos de Israel transformaram suas casas em santuários de proteção. O que começou com uma instrução detalhada no deserto culminou no colapso do poder faraônico, provando que a verdadeira libertação começa com a escuta e o temor ao Senhor.

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