O texto de Gênesis 35.1-15 apresenta um dos momentos mais profundos de transformação na Bíblia: o retorno de Jacó a Betel. Após um período de grandes crises familiares e inseguranças, Deus o convoca para voltar ao lugar do primeiro encontro. Esse convite representa o início de uma nova vida, fundamentada não mais na astúcia humana ou na fuga, mas em uma caminhada de obediência e renovação espiritual.
O primeiro passo para essa nova existência foi a purificação. Jacó ordenou que sua família lançasse fora todos os deuses estranhos e se purificasse. Para viver o novo de Deus, é indispensável abandonar os "ídolos" do passado — velhos hábitos, ressentimentos e dependências que nos impedem de avançar. Não se constrói uma vida nova sobre alicerces contaminados pelo que é velho e desnecessário.
A mudança das vestes mencionada no texto simboliza uma troca de mentalidade e postura. Jacó não queria apenas mudar de lugar, mas mudar de atitude. Na Bíblia, as roupas frequentemente representam o estado do coração e a identidade social. Ao trocar de vestes, Jacó e sua casa estavam declarando que o tempo de luto e de erros havia passado, dando lugar a uma prontidão para servir ao Criador de forma íntegra.
Ao chegar em Betel, o "Lugar de Deus", Jacó levantou um altar. Esse gesto marca a centralidade da adoração na nova vida. Onde antes havia medo de seus inimigos, agora havia um memorial à fidelidade divina. Edificar um altar é uma decisão de priorizar a presença de Deus acima de qualquer outra necessidade, reconhecendo que a segurança real não vem de exércitos ou riquezas, mas da aliança com o Deus Eterno.
É nesse cenário de entrega que Deus reafirma a nova identidade de Jacó: "Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel será o teu nome". A nova vida exige um novo nome, que na cultura bíblica significa um novo caráter. Ele deixa de ser o "enganador" (Jacó) para ser aquele que "luta com Deus e prevalece" (Israel). Deus não apenas perdoa o passado de um homem; Ele redefine quem esse homem é.
A promessa de frutificação que se segue revela que uma vida renovada gera impactos geracionais. Deus se apresenta como o Deus Todo-Poderoso (El Shaddai) e promete que dele sairiam nações e reis. Isso nos ensina que, quando nos alinhamos com o propósito divino, nossa vida deixa de ser apenas sobre nossa sobrevivência pessoal e passa a ser um canal de bênção para o futuro e para aqueles que nos cercam.
Por fim, a nova vida em Betel é selada com uma oferta de gratidão. Jacó derrama azeite sobre a coluna de pedra, consagrando o momento e o lugar. Viver essa transformação exige constância: não é apenas um evento emocional, mas um compromisso diário de permanecer no lugar da revelação. Assim como Jacó, somos convidados a deixar nossos "Siquéns" de conflito para habitar na "Betel" da comunhão contínua com Deus.

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