O capítulo 6 de Êxodo apresenta um dos contrastes mais profundos da experiência de fé: o limite da resistência humana frente à infinitude da vontade divina. Enquanto Moisés mergulha em um ciclo de questionamentos e autodepreciação após o aumento da opressão egípcia, Deus responde não com explicações detalhadas, mas com a afirmação de Sua própria natureza. Este trecho revela que o desânimo do homem não tem o poder de anular a determinação de Deus; pelo contrário, a fraqueza humana serve de palco para a manifestação do poder absoluto do Criador.
O desânimo de Moisés surge de uma expectativa não correspondida. Ele obedeceu à voz de Deus e confrontou o Faraó, mas o resultado imediato foi o aumento do sofrimento do seu povo e a rejeição de sua liderança. Para o mensageiro, o silêncio de Deus e a resistência do inimigo pareciam derrota. Entretanto, a determinação de Deus começa justamente onde a lógica humana termina. O Senhor afirma: "Agora verás o que hei de fazer", indicando que a aparente demora era a preparação para uma intervenção tão avassaladora que o próprio opressor seria forçado a ceder.
A determinação divina é fundamentada em Sua identidade eterna e imutável. Ao declarar "Eu sou o Senhor", Deus tira o foco de Moisés das circunstâncias variáveis e o coloca na Rocha da Eternidade. Ele recorda que se revelou aos patriarcas como o Deus Todo-Poderoso (El Shaddai), mas que agora agiria como Javé, Aquele que executa fielmente Suas promessas. O desânimo humano costuma ser amnésico, esquecendo o que Deus já fez; a determinação de Deus, por outro lado, é baseada em um compromisso que atravessa gerações.
Um dos pontos mais sensíveis do texto é a reação do povo de Israel. Escravizados e exaustos, eles não conseguem ouvir as palavras de esperança de Moisés devido à "angústia de espírito". Aqui, o desânimo atinge o seu ápice: a incapacidade de crer na libertação mesmo quando ela é anunciada na sua frente. Diante dessa barreira emocional, a determinação de Deus não recua nem se ofende. Ele não exige que o povo tenha uma fé perfeita para começar a agir; Ele decide agir justamente porque eles não têm mais forças para lutar por si mesmos.
Moisés, contagiado pelo pessimismo ao redor, volta a olhar para suas próprias limitações físicas, queixando-se de seus "lábios incircuncisos". Ele acredita que sua falta de eloquência é o maior obstáculo para a missão. Contudo, a determinação de Deus ignora a suposta incapacidade do instrumento escolhido. O Senhor não estava procurando um orador brilhante, mas um canal disponível. Para Deus, a eficácia da libertação não reside na boca de quem fala, mas na autoridade de Quem ordena a saída, mostrando que o desânimo pessoal não invalida o chamado divino.
As sete promessas de resgate listadas nos versículos 6 a 8 são a prova máxima da resolução divina contra a inércia humana. Deus utiliza verbos de ação direta: tirar, livrar, resgatar, tomar, ser, introduzir e dar. Não há espaço para o "talvez" ou "se o povo colaborar". Cada promessa é uma martelada de esperança sobre a bigorna da opressão. Enquanto o homem olha para as correntes atuais, Deus descreve a herança futura; enquanto o homem conta os dias de escravidão, Deus estabelece o calendário da redenção.
Finalmente, o texto encerra com uma ordem clara e inegociável a Moisés e Arão. A determinação de Deus se torna um mandato que independe da aprovação do Faraó ou do estado emocional dos israelitas. O Senhor estabelece que o Êxodo vai acontecer porque Sua palavra foi empenhada. O desânimo humano pode atrasar a percepção da vitória, mas jamais pode impedir o braço estendido de Deus. O mensageiro é enviado novamente, ciente de que a história não é escrita pelas queixas dos homens, mas pelos decretos do Senhor.

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