quinta-feira, 11 de julho de 2013

O calvinismo e a ética


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Por Fábio Correia (Filósofo calvinista)


“Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (I Cor 10:31).


1- Definindo termos:

Muitos não sabem, mas a Ética é um objeto de estudo específico da Filosofia. Não é da Psicologia, não é da Antropologia, não é da Sociologia, nem de qualquer outra área do saber. Esse é um tema indispensável dentro do estudo de qualquer cosmovisão.

Existe muita confusão acerca do que vem a ser Ética. Até mesmo os dicionários acabam por confundir Ética com Moral e Moral com Ética. De forma que não é raro você estar lendo um verbete sobre Ética, mas seu conteúdo trata sobre moral. Isso acontece exatamente por conta do distanciamento que temos com a Filosofia. Isso só não ocorre em dicionários técnicos de Filosofia ou ainda algum de renome e tradição mundial.

Mas, em síntese: o que Ética e o que é Moral?

A palavra ética vem do grego éthos. E a palavra moral? Também vem do grego éthos  É a mesma palavra, mesma grafia, porém com pronúncia e significados diferentes. Ou seja, ética não é a mesma coisa de moral, nem vice-versa, como muitos pensam. Não são palavras sinônimas.

Pronunciada com um som de “ê” fechado e curto (éthos), pode ser traduzida por costume, norma, hábito. Serviu de base para a tradução latina de “morales”, de onde vem nossa palavra Moral.

Pronunciada com um som de “é” aberto e mais longo (éthos), significa em sua origem mais remota, essência de um ser (aquilo que, de fato, é essencial ao ser), habitat, local onde o indivíduo se sente protegido. Metaforicamente indica que a Ética irá trabalhar para proteger a vida do ser humano.

A Moral, referindo-se aos costumes dos povos, conjunto de hábitos, de regras, normas, leis que regulam a conduta de um povo, nas diversas épocas, é mais abrangente e divergente e variante de cultura para cultura.

O livro “Costumes e Culturas” traz alguns exemplos interessantes de moral:  Na África do Sul as mulheres se cumprimentam beijando-se na boca. Na Rússia são os homens. Na Tailândia os amigos andam de mãos dadas. Note: nenhum desses preceitos possui status de universalidade. 

A Ética diz respeito a preceitos invariantes. Isto é, que não variam nem de cultura para cultura nem de tempo para tempo. Por exemplo: as necessidades elementares dos seres humanos. A necessidade de alimentação, de sobrevivência. Portanto, a Ética só diz respeito às necessidades elementares dos homens. Ela não se ocupa com questões periféricas e circunstanciais.

A Moral é normativa. Ética e Moral distinguem-se, essencialmente, pela especulação da Lei. É moral cumprir a “lei”. É ético questioná-la e não cumprir se seu fundamento não for justo. A Ética é especulativa, característica herdada da Filosofia.

Geralmente as pessoas classificam como alguém Ético aquele que cumpre as leis, que segue as normas estabelecidas em sua sociedade. Mas, em algumas situações, para ser Ético o indivíduo precisa quebrar as normas, descumprir a lei.

Por exemplo, o índio que vive numa aldeia cuja a convenção coletiva define como norma o infanticídio de gêmeos. Se ele resolve ser Moral (cumprir as normas e leis estabelecidas em sua comunidade) ele estará optando por matar seus próprios filhos. Se, do contrário ele resolve não matar as crianças, estará, necessariamente, em uma espécie de desobediência civil. Suponhamos que opte por não matar seus filhos gêmeos.

O índio, foi Ético ou Moral? Mais: É possível ser Ético e I-Moral ao mesmo tempo? Ele foi. Foi I-moral porque quebrou as Leis de sua sociedade. Foi Ético porque priorizou o que há de mais essencial no ser humano: a vida.


2 - A ética calvinista na visão de um ateu: análise da obra "Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", de Max Weber.

Depois dessa parte mais conceitual, vamos entrar na questão da chamada “Ética Calvinista”, propriamente dita. Essa particularização da Ética, que é por natureza universal, não segue o rigor terminológico exigido pela filosofia. Evidentemente que não existem vários tipos de Ética. Ela é única e universal. Não existe uma Ética especifica dos Calvinistas, nem dos médicos, nem dos advogados. Porém iremos continuar adotando essa terminologia para não contrapor a obra que trabalharemos e que citaremos mais adiante.

Para isso, iremos nos basear, quase que exclusivamente, nas pesquisas e nas observações de um ateu. Sim, de um ateu.

É claro que tem muito Calvinista que escreve e fala sobre a chamada “Ética Calvinista”. E, claro, também, sempre “puxando a brasa para a sardinha” dos Calvinistas.

Escolhi fazer essa abordagem a partir de um ateu por conta de sua análise desapaixonada e isenta.

O nome dele é Max Weber, um sociólogo ateu que intuiu que os problemas e os acertos econômicos poderiam ter uma causa completamente diferente daquelas apontadas por Karl Marx, que acreditava que o povo de um país vivia bem ou vivia mal dependendo da relação de fatores puramente econômicos, como a relação Patrão X Empregado.

Expressões do tipo “o povo sofre porque os burgueses só sabem explorar”, “somos pobres porque as elites dominantes não nos deixam crescer economicamente” dão o tom do pensamento de Karl Marx.

Interessante que nessa onda de protestos que tivemos recentemente essas expressões eram constantemente repetidas, inclusive por crentes. Crentes que são “comunistas” sem saber. Ou que, pelo menos, são simpatizantes dessa causa.

Marx Weber, então, começa a desconfiar que a causa da pobreza e da falta de desenvolvimento intelectual, social e até econômico de muitos países poderia ter outros fatores. É certo que alguns pensadores tiveram essa desconfiança, antes de Weber, mas nenhum deles conseguiu avançar nesse sentido.

Weber queria entender o que faz uma nação ser próspera e desenvolvida e outra subdesenvolvida e seu povo intelectualmente desprovido e limitado.

Pra saber isso só tinha um jeito: era preciso fazer uma análise comparativa entre as nações.

E foi o que ele fez. Tendo como pano de fundo a Europa Moderna, Weber avaliou e investigou diversos países, diversas nações para tentar trazer luz a essa problemática, utilizando, para isso, os métodos comparativos das ciências sociais. Ele chega, então, a uma descoberta surpreendente, jamais percebida antes.

Depois de uma vasta pesquisa, Weber começa a cruzar os dados colhidos de vários países. Ele constatou que nos países bem sucedidos, em todos os aspectos, havia uma característica muito interessante, que ele não conseguiu identificar nos países decadentes. Vejamos suas premissas:

a) Homens de negócios e grandes capitalistas[1]; b) Operários qualificados de alto nível e pessoal especializado (tecnologicamente e comercialmente); c) Premissas 1 e 2 têm em comum o fato de conter majoritariamente protestantes de linha Calvinista.

Diz Weber:

“Um simples olhar às estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição mista mostrará, com notável freqüência, uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas. O fato de que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante’ (WEBER, 2002. p.37).

Essa constatação intrigou bastante Max Weber. Então ele passou a investigar o que havia de diferente nesses protestantes que produzia uma “ética” diferenciada; esse estilo de vida peculiar a ponto de mudar a realidade de um país.

E mais uma vez sua constatação foi surpreendente:

De forma bastante clara, Weber atribui ao Calvinismo a produção dessa ética particular, principalmente aos efeitos psicológicos causados pela doutrina da eleição ou da predestinação.

A antropologia bíblica enxergada por Calvino e tantos outros expoentes, como Agostinho de Hipona, que tira do homem o tão requerido e postulado “livre arbítrio”, é peça fundamental no entendimento da doutrina da predestinação ou eleição.

Segundo Calvino, o homem, em seu estado natural, está morto (Efésios 2:1), restando-lhe apenas a certeza do inferno eterno.

Para um homem nesse estado de morte espiritual e de “nulidade” total e absoluta, um verdadeiro agente passivo da condição espiritual pós-pecado, quando há a perda do livre-arbítrio - pois que vontade (espiritual) pode ter um morto? - só existe uma possibilidade de salvação: o favor não merecido de Deus para salvá-lo, a graça de Deus.

A crença nessa sistematização doutrinária calvinista leva o “eleito” a um imenso sentimento de gratidão a Deus, uma vez que, mesmo sem merecer, recebe esta graça extraordinária.

Como consequência e em gratidão, passa a viver e a dedicar todos os seus momentos, inclusive atividades seculares, para a “glória de Deus”.

Isso simplesmente acaba com o binômio Sagrado X Profano. Para o Calvinista tudo passa a ser sagrado; tudo deve ser servir para a glória de Deus

Veja o que Weber diz:

“Dessa forma, coube aos puritanos, que se consideravam eleitos, viver a santificação da vida cotidiana. Pois o caráter sectário – a consciência de ser minoria e a motivação de ser eleito de Deus – fazia de cada membro dessas comunidades não mero adepto do rebanho mas, mas um vocacionado que se dedicava simultaneamente ao aprimoramento ético, intelectual e profissional” (WEBER, 2002. p.21).

O importante Catecismo calvinista, Catecismo Maior de Westminster, dá o tom dos objetivos dessa nova vida outorgada pela graça, já na pergunta inicial:

“Qual é o Fim supremo e principal do homem? O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus” (CATECISMO MAIOR, 2007. p.31).

Esse novo modelo de vida, essa “ética” calvinista, segundo Weber, é a causa evidente do desenvolvimento dos países por ele pesquisado.

Diz Weber:

O Deus de Calvino exigia de seus crentes não boas ações isoladas, mas uma vida de boas ações combinadas em um sistema unificado (WEBER, 2002. p.91).

Isso é seguir a orientação Apostólica de Paulo, os Calvinistas procuram “fazer todas as coisas como se estivessem fazendo para Deus” (Col 3:23).

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Para ler a continuação desse artigo, acesse o blog Filosofia Calvinista clicando aqui!
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Nota:
[1] De capitalismo não devemos entender, aqui, como a busca desregrada pelo Lucro, como diz o próprio Weber: “O impulso pelo ganho, a perseguição do lucro, do dinheiro, da maior quantidade possível de dinheiro, não tem, em si mesmo, nada que ver com o capitalismo. Tal impulso existe e sempre existiram entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas [...]. Pode-se dizer que tem sido comum a toda sorte de condições humanas em todos os tempos e em todos os países da terra [...]. A ganância ilimitada de ganho não se identifica nem de longe com o capitalismo, e menos ainda com o seu “espírito”(WEBER, 2002. p.26). Ao que concorda Biéler: “Não se trata mais, de modo algum, da paixão pelo ganho que caracterizava outrora alguns comerciantes à vida de riquezas” (BIÉLER, 1999. p.624). E ainda: Calvino, sabe-se, é o primeiro dos teólogos cristãos a exonerar o empréstimo a juros do opróbrio moral e teológico que a igreja havia feito sobre ele, até então; não é justo, entretanto, atribuir-lhe a justificação integral do capitalismo liberal (BIÉLER, 1999. p.20)

- Sobre o autor: Fabio Correia é mestre em Filosofia - UFPE, Licenciado em Filosofia - Unicap, Licenciado em Educação Religiosa - SPN, Professor de Introdução à Filosofia, Ética Profissional e Filosofia da Educação da Faculdade Decisão-FADE-PE e da Faculdade DAMAS.

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