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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Quando a Graça de Deus Transforma uma Sociedade


Texto Bíblico: Deuteronômio 15.1-6

Ao olharmos para a conjuntura do mundo contemporâneo, percebemos com clareza solar que vivemos em uma sociedade profundamente marcada por crises endêmicas, dívidas sufocantes, desigualdades abissais e severas injustiças econômicas. Diariamente, testemunhamos o drama de multidões que passam anos de suas vidas aprisionadas, tentando de forma desesperada se libertar de compromissos financeiros e fardos materiais que se tornaram um jugo esmagador sobre suas costas. Em incontáveis casos, o peso de uma dívida insolúvel ultrapassa a esfera puramente contábil; ele ataca a dignidade humana, estraçalha os relacionamentos familiares, mina a saúde mental e rouba a última réstia de esperança do coração do homem.

 O Senhor Deus, em Sua presciência e soberana sabedoria, conhecia perfeitamente a fragilidade humana. Ele sabia que, em uma sociedade caída e sob os efeitos devastadores do pecado estrutural, a pobreza crônica e as dificuldades financeiras recorrentes poderiam facilmente se transformar em ferramentas de opressão, tirania e sofrimento severo. Por esta razão, ao organizar de forma minuciosa a vida teocrática, comunitária e espiritual de Israel, Deus estabeleceu princípios legais e morais absolutamente singulares, que funcionavam como um espelho de Seu próprio caráter misericordioso, santo e compassivo.

 Nas páginas sagradas de Deuteronômio 15.1-6, somos introduzidos à magnífica e revolucionária instituição do "Ano da Remissão" (Shemitá) — um tempo solene determinado pelo Senhor onde todas as dívidas financeiras contraídas entre os irmãos da aliança deveriam ser incondicionalmente canceladas. Este mandamento, meus irmãos, era algo completamente inédito, singular e chocante no contexto do Antigo Oriente Próximo. Enquanto as nações pagãs ao redor de Israel estruturavam e fortaleciam sistemas econômicos implacáveis que visavam perpetuar a exploração dos vulneráveis e a escravidão por dívidas, o Deus Vivo ensinava o Seu povo a viver, a respirar e a se mover segundo a lógica sobrenatural da Sua graça divina.

 Devemos compreender, portanto, que muito mais do que uma simples legislação civil ou um regulamento econômico temporário, este texto sagrado aponta para uma realidade espiritual infinitamente maior e mais profunda: o Deus que, por Sua pura misericórdia, perdoa as nossas impagáveis dívidas espirituais, deseja ardentemente moldar e formar um povo cuja vida comunitária seja visivelmente marcada pela generosidade, pela compaixão e pelo amor sacrificial.

Para compreendermos a profundidade teológica deste mandamento, precisamos nos posicionar no contexto histórico e geográfico em que estas palavras foram proferidas. O livro de Deuteronômio registra as exortações finais e os discursos pastorais de Moisés nas planícies de Moabe. Israel estava acampado às portas da Terra Prometida, prestes a atravessar o Jordão para tomar posse da herança de Canaã. Eles deixavam para trás quarenta anos de uma vida nômade no deserto, onde dependiam exclusivamente do maná diário, e estavam prestes a entrar em uma terra fértil, onde plantariam, colheriam, construiriam cidades e estabeleceriam um sistema socioeconômico complexo.

 É exatamente nessa transição que o Senhor estabelece a ordenança: a cada sete anos ocorreria o chamado "Ano da Remissão". A palavra hebraica para remissão é shemitá, que significa literalmente "deixar cair", "libertar" ou "afrouxar a mão". O texto determina de forma categórica que, ao chegar esse período sabático, os credores israelitas deveriam abrir as mãos e liberar completamente os seus irmãos das dívidas contraídas.

 É fundamental destacar que o objetivo divino com essa lei não era, de forma alguma, destruir a responsabilidade financeira, incentivar a negligência ou promover a indolência entre o povo. O propósito central era terapêutico e preventivo: impedir que a pobreza em Israel se tornasse uma sentença permanente, uma casta hereditária de miséria, e garantir que a sociedade da aliança nunca fosse dominada ou estrangulada pela opressão dos poderosos sobre os desamparados.

 Ao examinarmos os versículos de 1 a 6, o texto bíblico faz saltar aos nossos olhos três grandes e perenes verdades teológicas:

 Primeiro, Deus deseja e exige um povo que seja livre da opressão econômica e da escravidão material.

 Segundo, a plenitude da bênção divina sobre a comunidade está intrinsecamente ligada à fidelidade e à obediência aos termos da aliança.

 Terceiro, a estrutura social e espiritual de Israel deveria servir como um farol, um testemunho vivo e impactante diante de todas as nações pagãs da terra.

 O princípio fundamental que costura cada linha deste mandamento antigo é cristalino e eterno: A graça soberana recebida de Deus deve, obrigatoriamente, produzir uma graça compartilhada entre os homens.

Diante disso, a proposição central que este texto impõe às nossas consciências nesta manhã é a seguinte: Aqueles que experimentam a graça salvadora de Deus são chamados a viver demonstrando misericórdia prática, confiança absoluta na provisão divina e obediência incondicional à Sua Palavra.

 Ao examinarmos com temor e reverência este texto de Deuteronômio, encontramos com clareza três marcas indeléveis e distintivas de uma comunidade que foi verdadeiramente transformada pela graça de Deus.

 I. A GRAÇA DE DEUS NOS CHAMA A LIBERTAR E NÃO A OPRIMIR (vv. 1-2)

Abramos as nossas Bíblias e olhemos com atenção para o que nos dizem os versículos 1 e 2 da nossa perícope: “Ao fim de cada sete anos farás remissão. Este, pois, é o modo da remissão: todo credor que emprestou alguma coisa ao seu próximo o remirá; não o exigirá do seu próximo nem do seu irmão, pois a remissão do Senhor é proclamada.”

 Contemplem a magnitude deste mandamento, meus irmãos. O Senhor Deus da Aliança ordena que, ao final do ciclo de sete anos, as dívidas financeiras pendentes entre o povo fossem canceladas, riscadas e esquecidas. Como já mencionamos, isso era algo absolutamente revolucionário e escandaloso para os padrões da antiguidade. Nas culturas pagãs contemporâneas a Israel, como na Babilônia, no Egito ou na Assíria, as leis protegiam quase que exclusivamente a acumulação predatória de capital; os ricos acumulavam patrimônio infindável às custas do empobrecimento absoluto e da escravização dos necessitados. Se um homem não pudesse pagar o que devia, ele, sua esposa e seus filhos eram vendidos como escravos, perdendo sua identidade e sua dignidade.

 Mas o Deus de Israel levanta a Sua voz e declara: Não será assim no meio do Meu povo! Deus não queria e não tolera uma sociedade cujo progresso seja construído sobre os alicerces da exploração, da usura e da vulnerabilidade alheia. Note que o mandamento exigia algo extraordinariamente difícil para o coração humano: o credor deveria abrir mão voluntariamente de um direito legal e legítimo em favor do exercício superior da misericórdia. Ele tinha o direito de receber? Sim, a lei humana dizia que sim. Mas a lei da Aliança dizia: Abra mão do seu direito para que o seu irmão possa respirar em liberdade.

 O fundamento teológico desse mandamento não era de ordem puramente macroeconômica; era de ordem espiritual e pactual. O povo de Israel precisava se lembrar constantemente, através de exercícios práticos, de onde eles haviam saído. Eles precisavam recordar que, no passado, foram escravos indefesos sob o chicote de Faraó no Egito, destituídos de qualquer bem ou direito, e que foram libertados não por seus próprios méritos, mas pela pura, soberana e graciosa intervenção do braço forte do Senhor Deus. Portanto, quem foi liberto da opressão por pura graça não tem o direito de se tornar um opressor de seus irmãos.

 O grande reformador de Genebra, João Calvino, ao comentar sobre a ética social decorrente da Lei de Deus, capturou com precisão cirúrgica esta verdade ao escrever:

“Aquele que recebeu misericórdia de Deus deve aprender a exercê-la para com os outros; pois seria a mais vergonhosa ingratidão fechar as entranhas da compaixão contra os nossos irmãos, quando Deus abriu as janelas dos céus para nos enriquecer com a Sua graça.”

 No Novo Testamento, o nosso Senhor Jesus Cristo ecoa com perfeição absoluta esse mesmo princípio pactual quando nos ensina a orar na estrutura do Pai Nosso: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mateus 6.12). O Evangelho de Jesus Cristo não aceita uma espiritualidade mística que não se desdobre em relacionamentos horizontais curados. O Evangelho verdadeiro sempre produz corações misericordiosos, mãos abertas e mentes voltadas para a libertação do próximo.

 Ilustração: A história da Igreja de Cristo está repleta de momentos em que essa realidade brilhou intensamente. Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, o continente europeu encontrava-se economicamente devastado, imerso em escombros, fome e miséria. Nesse cenário desolador, muitas igrejas reformadas e comunidades evangélicas locais na Europa organizaram fundos mútuos de assistência emergencial para ajudar as famílias cristãs que haviam perdido absolutamente tudo nos bombardeios. Registra-se na história eclesiástica que várias daquelas comunidades tomaram a firme decisão de perdoar integralmente os empréstimos feitos a irmãos necessitados e compartilhar os poucos recursos que lhes restavam para que os pais de família pudessem reconstruir suas casas e recomeçar suas vidas com dignidade. Aquelas igrejas entenderam que a graça imerecida recebida na cruz deveria gerar, obrigatoriamente, uma graça radicalmente praticada na história.

 Aplicações Práticas:

 Evite terminantemente atitudes exploradoras em seus negócios e profissão. Se você é empresário, patrão ou comerciante, lembre-se de que o lucro nunca deve estar acima da dignidade e da justiça devida aos seus funcionários e clientes. Pague salários justos e não retenha o que é de direito do trabalhador.

 Trate as pessoas ao seu redor com profunda misericórdia. Não use a vulnerabilidade ou a necessidade de alguém para obter vantagens pessoais ou financeiras ilícitas.

 Não faça do dinheiro um instrumento de dominação e poder. Em nossa cultura pecaminosa, quem tem recursos muitas vezes usa o poder financeiro para humilhar, subjugar ou manipular os outros. Na igreja de Cristo, o recurso deve ser instrumento de serviço, nunca de tirania.

 Aprenda a perdoar ofensas e dívidas assim como Deus, em Cristo, perdoou você. Se há alguém que lhe deve algo — seja uma dívida material que a pessoa genuinamente não pode pagar, ou uma dívida emocional decorrente de uma ofensa — exerça a remissão do Senhor. Libere essa pessoa para a glória de Deus.

 II. A GRAÇA DE DEUS NOS ENSINA A CONFIAR EM SUA PROVISÃO (vv. 3-4)

Avancemos na exposição e observemos o que nos revelam os versículos 3 e 4 do nosso texto: “Do estrangeiro poderás exigi-la; mas o que teu irmão tiver contigo, a tua mão o remirá; para que entre ti não haja pobre; pois o Senhor, teu Deus, abundantemente te abençoará na terra que o Senhor, teu Deus, te dará por herança, para a possuíres.”

A declaração do versículo 4 é de uma ousadia impressionante: “Para que entre ti não haja pobre.” À primeira vista, meus irmãos, essa promessa pode parecer uma utopia ou uma contradição com o que o próprio Moisés dirá mais adiante no versículo 11 (“pois nunca deixará de haver pobre na terra”). Contudo, a teologia bíblica resolve essa apparente tensão nos ensinando que essa promessa de erradicação da miséria extrema não operaria de forma mágica ou automática; ela estava intrinsecamente ligada e condicionada à fidelidade e à obediência ativa do povo aos mandamentos da Aliança.

 Deus estava empenhando a Sua própria palavra empenhada de que supriria com abundância e superávit todas as necessidades materiais da nação de Israel, contanto que eles andassem firmes em Seus caminhos de justiça e generosidade. Através deste mandamento do Ano da Remissão, o Senhor queria fixar na mente do Seu povo uma lição espiritual que atravessa os séculos: Quem obedece a Deus nunca perde. Quem honra ao Senhor com fidelidade jamais sairá verdadeiramente prejudicado.

 O sistema deste mundo caído nos ensina, desde a infância, que a nossa segurança depende única e exclusivamente da nossa capacidade de acumular, reter, poupar obsessivamente e proteger os nossos tesouros a qualquer custo. O mundo proclama o egoísmo como virtude econômica. Deus, em contrapartida, subverte essa lógica e nos ensina a confiar em Sua providência governante através do ato de dar, liberar e abençoar.

 Certamente, humanamente falando, muitos credores em Israel, ao verem o sétimo ano se aproximar no calendário, poderiam ser assaltados por pensamentos de incredulidade e avareza, racionalizando: “Se eu cancelar a dívida deste meu irmão agora, eu amargarei um prejuízo terrível em meu balanço financeiro; meus recursos diminuirão e eu poderei passar necessidade no futuro.” No entanto, a resposta soberana de Deus a esse coração ansioso e calculista é direta: “Não tema. Abra a sua mão e confie em Mim, pois Eu sou Aquele que abençoará abundantemente a obra das suas mãos.”

A fé salvadora e verdadeira não vive escrava dos cálculos matemáticos humanos ou das projeções financeiras deste mundo. Ela descansa de forma convicta, inabalável e pacífica na fidelidade da provisão do Deus Todo-Poderoso.

 O célebre comentarista puritano Matthew Henry, versando sobre a generosidade pactual descrita neste texto, asseverou com extrema sabedoria:

 “Os homens temem que a generosidade para com os necessitados os empobreça, mas a verdade divina é exatamente o oposto: quem entrega algo por amor a Deus, motivado pela obediência à Sua Palavra, jamais será verdadeiramente empobrecido, pois as comportas da providência divina são infinitamente maiores do que as nossas pequenas dispensas.”

 Ilustração: Um dos testemunhos mais estrondosos da história da igreja ocidental acerca dessa verdade foi a vida do piedoso pastor alemão George Müller, que viveu no século XIX na Inglaterra. Müller sentiu o chamado do Senhor para fundar e sustentar orfanatos na cidade de Bristol. Ao longo de sua jornada, ele pastoreou e sustentou mais de dez mil crianças órfãs. A marca registrada do ministério de George Müller era que ele havia tomado a firme resolução de nunca pedir um único centavo a nenhuma pessoa, nem fazer campanhas de arrecadação ou relatórios financeiros públicos. Toda e qualquer necessidade era apresentada única e exclusivamente a Deus em oração, de joelhos no secreto. Por diversas vezes, a liderança do orfanato acordava pela manhã e a despensa estava absolutamente vazia, sem um pedaço de pão sequer para alimentar as centenas de crianças. Entretanto, repetidas vezes, de formas miraculosas e inacreditáveis — através de padeiros cujo coração Deus tocava na madrugada ou carroças que quebravam em frente ao orfanato contendo mantimentos —, Deus enviava exatamente o que era necessário, no minuto exato. A vida de Müller foi e continua sendo um monumento vivo de que Deus é perfeitamente fiel para suprir aqueles que dependem de Sua provisão.

 Aplicações Práticas:

Deposite a sua confiança e a sua segurança na provisão diária de Deus, e não no saldo dos seus recursos financeiros. Lembre-se de que o seu emprego, os seus investimentos e os seus bens são apenas canais, mas a Fonte sustentadora da sua vida é o Senhor.

Não permita de forma alguma que o medo do amanhã ou a ansiedade controlem as suas decisões éticas. A avareza nasce do medo da escassez. Quando confiamos que o nosso Pai celestial cuida de nós, somos libertos do pânico que nos impede de sermos generosos.

 Aprenda a ser generoso mesmo quando as circunstâncias parecerem difíceis. A verdadeira generosidade bíblica não é o transbordamento do que nos sobra após satisfazermos todos os nossos caprichos; é um ato de adoração e fé que se expressa mesmo em tempos de aperto, glorificando a Deus.

 Lembre-se diariamente de uma verdade elementar: Deus continua sendo o dono absoluto de todas as coisas. O ouro e a prata pertencem a Ele. Nós somos apenas mordomos temporários dos recursos que Ele colocou em nossas mãos.

 III. A GRAÇA DE DEUS FAZ DE SEU POVO UM TESTEMUNHO PARA O MUNDO (vv. 5-6)

Finalmente, consideremos o clímax desta seção nos versículos 5 e 6 do texto bíblico: “Se apenas ouvires diligentemente a voz do Senhor, teu Deus, para cuidares em cumprir todos estes mandamentos que hoje te ordeno. Pois o Senhor, teu Deus, te abençoará, como te tem dito; e emprestarás a muitas nações, porém tu não tomarás emprestado; e dominarás sobre muitas nações, porém elas não dominarão sobre ti.”

 Vejam que coisa magnífica, meus irmãos: a promessa da bênção de Deus sobre Israel não tinha como objetivo final o orgulho nacional, o triunfalismo geopolítico ou a ostentação egoísta de riqueza. A bênção divina tinha, fundamentalmente, um profundo, central e urgente propósito missionário! O plano do Senhor era que Israel, ao obedecer a essas leis sociais alternativas e radicalmente justas, demonstrasse de forma visível e tangível para todas as nações pagãs vizinhas a diferença gloriosa que a aliança com o Deus Vivo produzia na engrenagem de uma sociedade.

 Uma nação onde não havia miséria crônica, onde os necessitados eram acolhidos, onde as dívidas eram perdoadas e onde os corações eram generosos, funcionaria como uma apologética viva, uma poderosa e irresistível testemunha da glória, da justiça e do caráter do Deus invisível. O versículo 6 corrobora essa perspectiva ao afirmar: “Emprestarás a muitas nações, porém tu não tomarás emprestado.” Esta declaração aponta para uma posição pactual de liderança, dignidade, influência espiritual e estabilidade, e nunca de dependência humilhante ou submissão aos impérios idólatras da terra. Quando o povo andava em obediência, a bênção de Deus se manifestava de tal maneira que o mundo era obrigado a olhar e reconhecer: “Certamente este Deus é grande e justo!”

 Da mesma forma, meus amados, no período da Nova Aliança, a Igreja de Jesus Cristo é chamada, de forma categórica, para ser a luz do mundo e o sal da terra. A nossa maneira cristã de lidar com o dinheiro, com os bens materiais, com os contratos de trabalho, com os lucros e com o amparo aos necessitados deve revelar ao mundo incrédulo o caráter santo, compassivo e generoso do nosso Salvador. O mundo não lê as Escrituras Sagradas, o mundo lê a vida da Igreja!

 O saudoso teólogo contemporâneo John Stott, discorrendo sobre a responsabilidade social e o impacto da comunidade cristã na sociedade, escreveu com extrema felicidade:

 “O mundo que nos cerca tem o pleno direito de julgar a autenticidade e a veracidade da nossa fé e das nossas doutrinas pela maneira como vivemos e administramos os nossos relacionamentos práticos. Uma igreja que prega a graça com palavras, mas vive na avareza com as mãos, torna o Evangelho inacreditável aos olhos dos homens.”

 Uma igreja local que se levanta em generosidade, compaixão e amor prático pelos aflitos e marginalizados proclama a eficácia e o poder salvador do Evangelho de Cristo com estrondo, muitas vezes antes mesmo de abrir a boca no púlpito.

 Ilustração: A história da Igreja Primitiva testifica o poder dessa realidade de forma avassaladora. Durante os primeiros séculos da era cristã, terríveis epidemias de peste e varíola devastaram grandes cidades do Império Romano, como Alexandria e Cartago. Diante do contágio iminente e da morte horrível, os cidadãos pagãos — incluindo médicos, filósofos e os próprios parentes das vítimas — fugiam desesperados para os campos, abandonando os seus próprios familiares moribundos nas sarjetas e nas casas para morrerem sozinhos. Entretanto, os historiadores registram que os cristãos agiram de modo inteiramente oposto. Movidos pelo amor de Cristo e pela certeza da vida eterna, eles permaneceram nas cidades infectadas, recolhendo os enfermos das ruas, limpando suas feridas, alimentando os necessitados e cuidando não apenas dos seus irmãos na fé, mas também dos seus próprios perseguidores pagãos. Muitos cristãos contraíram as doenças e morreram nesse serviço sacrificial. Essa compaixão heróica e radical chocou profundamente as autoridades romanas, desarmou o preconceito da sociedade e contribuiu poderosamente para a expansão geométrica do Evangelho por todo o Império. A fé crida tornou-se visível e irresistível através do amor encarnado.

 Aplicações Práticas:

 Seja um referencial absoluto e inquestionável de integridade financeira em sua vida pública e privada. Que o seu "sim" seja sim, e o seu "não" seja não. Pague as suas contas pontualmente, honre os seus contratos e fuja de qualquer tipo de sonegação, fraude ou esperteza ilícita. O nome de Cristo está em jogo em suas transações comerciais.

 Demonstre a beleza do Evangelho através de uma generosidade intencional e contagiante. Que as pessoas ao seu redor conheçam você não como alguém apegado ao dinheiro ou mesquinho, mas como alguém cujo coração é alegre em repartir e abençoar.

 Use os seus recursos materiais de forma estratégica para promover o avanço do Reino de Deus na terra. Invista na obra missionária, no sustento da igreja local, na plantação de novas igrejas e no socorro aos necessitados e aflitos.

 Mostre ao mundo cético, através das suas atitudes cotidianas, a diferença monumental que Jesus Cristo operou em sua escala de valores. Mostre que a sua alegria não provém da abundância dos bens que você possui, mas do fato de ter o seu nome escrito no Livro da Vida.

CONCLUSÃO

Meus amados irmãos, ao percorrermos as linhas sagradas desta antiga ordenança de Deuteronômio, o Espírito Santo de Deus expande as nossas mentes para compreendermos que o "Ano da Remissão" não era um fim em si mesmo. Ele funcionava na pedagogia divina como uma sombra, um tipo, um apontamento profético maravilhoso que visava sinalizar uma realidade espiritual infinitamente maior, mais gloriosa e definitiva que haveria de se manifestar na plenitude dos tempos.

 A grande verdade teológica que o texto nos impõe é que todos nós — sem qualquer exceção — éramos devedores espirituais falidos. Nós possuíamos diante do tribunal de um Deus perfeitamente Santo uma dívida moral impagável e astronômica, decorrente da culpa terrível dos nossos pecados, rebeliões e transgressões contra a Majestade divina. Não possuíamos nenhum recurso em nós mesmos, nenhum mérito, nenhuma boa obra capaz de amortizar ou liquidar essa folha corrida de condenação. Estávamos falidos, arruinados e condenados à escravidão eterna e ao inferno.

 No entanto, louvado seja o Nome do Senhor, quando não havia qualquer esperança humana, o Filho Eterno de Deus, o nosso Senhor Jesus Cristo, entrou na nossa história! Ele veio ao mundo para inaugurar o Ano da Remissão definitivo e eterno. No altar ensanguentado da cruz do Calvário, Jesus Cristo assumiu a nossa culpa, tomou sobre Si o nosso lugar jurídico, carregou o nosso castigo e sofreu a condenação que era nossa por direito. Ali, na cruz, vertendo o Seu sangue precioso, Cristo cravou o escrito de dívida que nos era prejudicial e declarou de forma vitoriosa: Tetelestai! Está pago! A dívida foi cancelada de forma completa, definitiva e eterna!

 Nós fomos agraciados com o perdão absoluto do tribunal divino. Fomos libertos da escravidão do pecado e do medo da morte por pura, soberana e imerecida graça. Portanto, meus irmãos, nós que fomos resgatados de uma dívida eterna no Calvário, não podemos mais viver como prisioneiros do egoísmo, da avareza e da mesquinhez deste século presente. Aqueles que foram alcançados pela graça irresistível de Deus devem, por obrigação de amor, viver como instrumentos vivos dessa mesma graça na história.

 Que o Espírito Santo de Deus aplique estas verdades de forma irresistível em nossa alma hoje. Portanto, igreja do Senhor:

 Liberte em vez de oprimir — vivendo com misericórdia para com os erros e as fragilidades dos seus irmãos.

 Confie em vez de temer — descansando convictamente na provisão diária dAquele que veste os lírios do campo e alimenta as aves do céu.

Testemunhe em vez de apenas falar — fazendo com que a sua vida financeira e social seja uma pregação silenciosa, mas avassaladora, do amor de Cristo Jesus.

Que a Igreja de Cristo nesta localidade seja conhecida e lembrada pelas gerações não pelo acúmulo de bens materiais, não pelo amor ao dinheiro ou pelo luxo secular, mas por uma generosidade radical, santa e contagiante que reflete com fidelidade a essência pura do Evangelho da paz.

 Lembremo-nos para sempre, em cada dia de nossas vidas, de que a maior, a mais profunda e a mais gloriosa remissão de toda a história humana não aconteceu nas planícies econômicas deste mundo, mas aconteceu no topo do monte Calvário. Ali, o Cordeiro de Deus rasgou os nossos pecados e decretou que a nossa dívida está paga para sempre. Vivamos, pois, para o louvor da glória de Sua graça!

 Soli Deo Gloria. Amém!

Pr. Eli Vieira

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