Texto Bíblico Base: Deuteronômio 3:1–11
Uma das maiores e mais recorrentes
dificuldades da vida cristã é o confronto com desafios que parecem
geometricamente maiores do que a nossa capacidade de resposta. Há momentos em
nossa jornada em que olhamos para o cenário das circunstâncias, calculamos
nossos recursos humanos, avaliamos nossas forças e, inevitavelmente,
concluímos: a derrota é certa, a vitória é impossível.
Foi exatamente esse o cenário psicológico e
geográfico que o povo de Israel enfrentou ao se aproximar das férteis e
imponentes terras de Basã, o território governado por Ogue. Se voltarmos um
pouco os olhos para o capítulo anterior, veremos que Israel vinha de uma
vitória notável contra Seom, rei dos amorreus. Mas a alegria daquela conquista
durou pouco. O deserto e a marcha para a Terra Prometida não ofereciam tréguas.
Agora, o povo depara-se com um oponente significativamente mais aterrorizante.
Ogue não era um líder comum. A história e o
texto bíblico o cercam de notas de espanto:
- Ele
possuía uma estatura e força extraordinárias,
sendo classificado como o último dos gigantes remanescentes daquela
região.
- Seu
reino era uma potência militar da época,
estabelecido em uma geografia acidentada, repleta de paredões de pedra e
desfiladeiros.
- Suas
cidades eram verdadeiras fortalezas impenetráveis,
protegidas por altas muralhas, portas pesadas e ferrolhos de bronze.
- Seu
exército inspirava um temor paralisante em
todas as nações vizinhas.
Humanamente falando, queridos irmãos, Israel
tinha todas as razões lógicas e táticas para recuar, para sentir um medo
avassalador e para questionar a liderança de Moisés. Contudo, neste exato
momento de crise, Deus decide usar a imensidão do inimigo para esculpir no
coração do Seu povo uma verdade teológica viva, que atravessa as páginas da
Escritura do Gênesis ao Apocalipse: A vitória do povo de Deus nunca
dependeu, não depende e jamais dependerá do tamanho do inimigo, mas sim da
grandeza absoluta do Deus que marcha e luta por nós.
Esta mesma verdade precisa ser redescoberta e
fincada na alma da Igreja hoje. Nós mudamos de época, mudamos de geografia, mas
os nossos "Ogues" continuam surgindo ao longo do caminho, assumindo
novas formas e roubando o nosso sono:
- Crises
e rupturas no ambiente familiar que parecem irremediáveis;
- Enfermidades
e diagnósticos médicos avassaladores que chegam como sentenças de morte;
- Colapsos
financeiros, dívidas acumuladas e o desemprego que ameaçam a dignidade do
lar;
- Perseguições
veladas, pressões ideológicas e hostilidades no ambiente de trabalho ou na
universidade;
- Desafios
e estagnações ministeriais que drenam nossas forças e nos fazem flertar
com o desânimo.
Mas a palavra do Senhor para mim, para você e
a Sua Igreja nesta hora é de despertamento. Quando Deus assume a vanguarda,
quando o Senhor vai à frente da nossa história, o desfecho da batalha já não é
uma incógnita. Como bem pontuou o reformador João Calvino: "A fé não mede
os obstáculos pelas forças humanas, mas pelo poder de Deus."
Para compreendermos a profundidade espiritual
deste texto, precisamos nos situar na geografia e no contexto de Deuteronômio.
Moisés está proferindo seus discursos de despedida na planície de Moabe. Uma
nova geração de israelitas está prestes a cruzar o rio Jordão para possuir a
herança prometida. Os pais deles haviam fraquejado diante dos gigantes quarenta
anos antes, morrendo no deserto por causa da incredulidade. Agora, Moisés
recapitula a história recente para mostrar a essa nova geração que o Deus que operou
no passado é o mesmo que operará no futuro.
O capítulo 3 relata a campanha na região de
Basã, uma área famosa por suas pastagens ricas, seus carvalhos robustos e suas
cidades fortificadas. Ali governava Ogue, um rei pertencente aos refains
— termo hebraico usado para descrever uma antiga raça de homens de estatura
gigantesca que habitavam a Palestina antes da conquista.
O texto sagrado estrutura-se de forma
cirúrgica para nos mostrar os passos dessa conquista:
- O
Avanço Obediente (v. 1): Israel não foge, mas "vira-se e
sobe" o caminho de Basã, indo direto ao encontro do perigo.
- A
Intervenção e o Imperativo Divino (v. 2):
Diante do vislumbre do exército de Ogue em Edrei, Deus interfere
diretamente na psicologia do medo de Israel, ordenando confiança.
- A
Execução do Juízo Soberano (vv. 3-5): O
texto detalha a queda de sessenta cidades fortificadas na região de
Argobe. Cidades que se julgavam invencíveis caem como castelos de cartas
diante do exército do Senhor.
- O
Despojo e a Memória da Conquista (vv. 6-11): A
narrativa culmina na menção ao leito de ferro de Ogue, um monumento que
atestava a dimensão física do inimigo derrotado.
Note algo fundamental, irmãos: o Espírito
Santo, ao inspirar este texto, não gasta uma única linha elogiando a destreza
dos soldados de Israel, a agudeza das suas espadas ou o brilhantismo tático de
Moisés. O foco narrativo é teocêntrico. É o agir soberano de Deus, movido por
Sua fidelidade pactual, que desarma os gigantes e entrega as fortalezas nas
mãos de um povo que, por si só, era fraco e limitado.
Quando o Deus Soberano decide cumprir os Seus
decretos e propósitos na vida do Seu povo, nenhum inimigo é grande demais,
nenhum obstáculo é forte demais, nenhuma parede de pedra é alta demais e
nenhuma oposição infernal pode resistir ou impedir a realização da Sua perfeita
vontade.
Ao mergulharmos com temor e reverência na
exposição desta passagem bíblica, extraímos quatro verdades teológicas e
práticas que servem de âncora para a nossa confiança no Deus que vai à frente
da Sua Igreja.
I. DEUS NOS
CHAMA A ENFRENTAR OS DESAFIOS SEM MEDO (vv. 1–2)
"Então, nos viramos e subimos o caminho
de Basã; e Ogue, rei de Basã, nos saiu ao encontro, ele e todo o seu povo, para
a peleja em Edrei. E o Senhor me disse: Não o temas..." (vv. 1–2a)
A primeira lição que salta aos nossos olhos
ocorre no limiar do campo de batalha, em Edrei. Ao avistar as tropas de Ogue se
posicionando, o coração de Israel certamente estremeceu. O medo é uma reação
humana natural diante daquilo que nos ameaça e supera as nossas forças. No
entanto, observem a agilidade de Deus: antes que a primeira flecha seja
lançada, antes que o primeiro golpe de espada seja desferido, o Senhor trata
daquilo que está acontecendo no coração do Seu povo. O Senhor diz a Moisés: "Não
o temas".
O Senhor sabe perfeitamente que o maior, o
mais perigoso e o mais sutil campo de batalha não está fora de nós, nas
circunstâncias externas. O maior campo de batalha está situado no interior da
nossa mente e do nosso coração. O medo é um mestre cruel; ele distorce a nossa
percepção da realidade. Ele hipertrofia o tamanho do problema e atrofia a nossa
visão de Deus.
Quando somos dominados pelo medo, o gigante
parece ter dez metros de altura e Deus parece desaparecer no horizonte. Israel
não precisava temer Ogue porque o destino daquele rei já não estava nas mãos do
seu próprio exército poderoso, mas já havia sido selado no tribunal do trono de
Deus. O medo é o fruto de olharmos fixamente para os gigantes; a fé é o fruto
de fixarmos os nossos olhos na majestade do Deus Todo-Poderoso.
- Ilustração: Lembrem-se
do jovem Davi no vale de Elá. Todo o exército profissional de Israel,
incluindo o rei Saul, olhava para Golias e via um gigante invencível,
raciocinando: "Ele é grande demais para que possamos
derrotá-lo". Davi, contudo, alimentado por uma comunhão viva com
o Senhor, olhou para o mesmo Golias e adotou uma perspectiva totalmente
diferente: "Ele é grande demais para que eu erre a pedrada; quem é
este filisteu incircunciso para afrontar os exércitos do Deus vivo?".
O tamanho do gigante não sofreu alteração alguma, mas a perspectiva de
quem o enfrentava mudou o rumo da história de uma nação inteira.
Aplicações
Práticas para a nossa vida hoje:
- O medo
paralisante não tem o direito de governar a sua mente, de ditar os seus
passos ou de pautar as decisões da sua vida ou da sua família.
- Deus
não ignora as suas lutas; Ele conhece com exatidão a força, o tamanho e a
pressão de cada batalha que bate à sua porta.
- A
presença gloriosa e invisível do Espírito Santo em sua vida é
infinitamente maior do que qualquer ameaça visível ou decreto humano
contrário.
- A fé
verdadeira não se alimenta das notícias alarmantes do mundo, mas sim das
promessas eternas e infalíveis que procedem da boca de Deus.
Como bem asseverou o pastor e teólogo Martyn
Lloyd-Jones: "A maior causa do medo e da ansiedade na vida do cristão é o
esquecimento prático de quem Deus realmente é."
II. DEUS
DETERMINA A VITÓRIA ANTES DA BATALHA (v. 2)
"...porque eu o entreguei na tua mão, a
ele, e a todo o seu povo, e a sua terra; e far-lhe-ás como fizeste a Seom, rei
dos amorreus, que habitava em Hesbom." (v. 2b)
Convido você (igreja) a fazer uma pausa
exegética de profunda importância no versículo 2. Atentem para o tempo verbal
empregado pela boca do Deus Todo-Poderoso: "Eu o entreguei".
No momento em que essa declaração ecoou nos ouvidos de Moisés, os soldados de
Basã ainda estavam armados, os muros de Argobe continuavam de pé, as espadas de
Israel sequer haviam saído das bainhas e nenhuma gota de suor ou sangue tinha
sido derramada no solo de Edrei. Contudo, na perspectiva da eternidade de Deus,
a batalha já havia terminado e o veredito estava assinado.
Para o Senhor, o tempo não é uma barreira. Ele
habita na eternidade. O que para nós é um futuro incerto e assustador, para
Deus é um fato consumado e estabelecido pela Sua soberana vontade. A vitória do
povo de Deus não é conquistada na base da sorte, do acaso ou do esforço de
última hora; ela brota, começa e se origina no decreto eterno de Deus,
manifestando-se posteriormente na nossa experiência histórica e humana.
Vemos esse padrão soberano repetindo-se como
um fio de ouro ao longo de toda a Revelação Bíblica:
- A
imponente e murada cidade de Jericó foi declarada entregue por Deus a
Josué antes mesmo que a primeira trombeta fosse tocada ou que o povo desse
a primeira volta ao redor dos muros.
- O
gigante Golias já havia sido espiritualmente destituído e derrotado no
tribunal divino antes que a pedra lisa saísse da funda de Davi e
penetrasse sua testa.
- O
império das trevas, o pecado e a morte foram cabalmente desmascarados e
vencidos no decreto pactual da redenção, antes mesmo do brado consumado de
Jesus no madeiro do Calvário.
Ilustração: Pensem na dinâmica de um
grande mestre internacional de xadrez. Ao jogar contra um iniciante, ele
consegue antecipar mentalmente todo o desenrolar da partida. Muitas jogadas
antes do fim, ele olha para o tabuleiro e sabe que o xeque-mate é inevitável, mesmo
que o adversário ainda tenha muitas peças de pé. Se a mente humana limitada
pode antecipar um resultado, quanto mais o Deus Soberano, que não apenas prevê
o futuro, mas estabelece, desenha e determina os rumos da história de acordo
com o conselho da Sua própria vontade!
Aplicações
Práticas para a nossa vida:
- As
promessas contidas na Palavra de Deus não são meras palavras de otimismo
psicológico; elas são garantias reais e espirituais que sustentam os
nossos pés enquanto cruzamos os desertos da vida.
- O
amanhã da sua vida, o futuro dos seus filhos e o sustento da sua casa não
estão jogados à própria sorte ou à deriva de crises políticas ou
econômicas; estão guardados e selados nas mãos feridas de Cristo.
- A fé
bíblica legítima não é uma torcida cega para que tudo dê certo no final; é
o descanso da alma na certeza de que Deus já estabeleceu o fim proveitoso
de todas as coisas.
O chamado "príncipe dos pregadores",
Charles Haddon Spurgeon, escreveu com rara beleza: "As promessas de Deus
nunca devem ser vistas como meras previsões; elas são a garantia antecipada e
legal das vitórias futuras do Seu povo."
III. DEUS
USA MEIOS HUMANOS PARA CUMPRIR SEUS PROPÓSITOS SOBERANOS (vv. 3–7)
"E o Senhor, nosso Deus, nos entregou na
mão também a Ogue, rei de Basã, e a todo o seu povo; e ferimo-lo, até que lhe
não ficou nenhum sobrevivente. E, naquele tempo, tomamos todas as suas cidades;
nenhuma cidade houve que lhes não tomássemos: sessenta cidades, toda a região
de Argobe, o reino de Ogue, em Basã." (vv. 3–4)
Ao avançarmos na leitura dos versículos 3 a 7,
deparamo-nos com uma das tensões mais profundas, ricas e belas de toda a
teologia bíblica. Deus havia dito no versículo 2: "Eu o entreguei na
tua mão". Diante de uma afirmação teocêntrica tão absoluta, poderíamos
imaginar que Israel poderia simplesmente cruzar os braços, armar suas tendas,
sentar-se na colina e assistir passivamente a um raio divino cair do céu e
consumir o exército de Basã. Mas não é isso o que o texto relata. O versículo 3
diz textualmente: "...e ferimo-lo, até que lhe não ficou nenhum
sobrevivente. E, naquele tempo, tomamos todas as suas cidades...".
Aqui aprendemos a respeito da perfeita
conjunção entre dois pilares da nossa caminhada com Deus:
- A Soberania
Absoluta de Deus (O Senhor quem opera o milagre e garante o resultado
final).
- A Responsabilidade
Ativa do Homem (O povo precisa marchar, empunhar as armas e obedecer).
Deus, em Sua infinita sabedoria, não realiza
Seus decretos no vácuo; Ele escolhe, por pura graça, usar meios humanos. A
soberania de Deus nunca foi e nunca será um salvo-conduto para a indolência,
para a preguiça espiritual ou para a inércia ministerial. Deus garantiu a
vitória, mas exigiu que Israel marchasse. O Senhor entregou as sessenta cidades
de Argobe, mas o povo teve que colocar os pés na estrada, cercar os muros e
desferir os golpes de espada. Deus opera o sobrenatural, mas não nos dispensa
de fazermos aquilo que é a nossa responsabilidade natural.
Ilustração: Contemplem o exemplo de
Neemias séculos mais tarde. Ele recebeu uma promessa e tinha a convicção
profunda de que a boa mão do Senhor estava sobre ele para reconstruir os muros
caídos de Jerusalém. No entanto, Neemias não se limitou a cruzar os braços em
oração mística. Ele organizou o povo, estabeleceu turnos de guarda e colocou os
trabalhadores com a colher de pedreiro em uma das mãos e a espada na outra.
Eles vigiavam e oravam; trabalhavam duro na reconstrução enquanto confiavam
plenamente na proteção divina. Essa é a síntese perfeita da vida cristã
saudável.
Aplicações
Práticas para a nossa vida:
- Devemos
orar e depender do Senhor com a consciência de que tudo depende
exclusivamente d'Ele, mas devemos agir, trabalhar, estudar e cumprir
nossos deveres diários com o máximo de zelo, como se tudo dependesse do
nosso esforço.
- A
verdadeira fé salvífica e amadurecida nunca se manifesta por meio de
palavras vazias ou de um quietismo estéril, mas sim através de uma
obediência dinâmica, suada e prática aos mandamentos de Deus.
- Deus,
em Sua soberana graça, não precisa de nossos braços, de nossos talentos ou
de nossos recursos para fazer absolutamente nada, mas Ele se agrada e
escolhe nos honrar, usando-nos como instrumentos vivos nas Suas mãos.
O teólogo puritano John Owen sintetizou essa
verdade com precisão milimétrica: "A graça soberana de Deus nunca opera
destruindo ou anulando a responsabilidade humana; pelo contrário, a graça
capacita, estabelece e dignifica essa responsabilidade."
IV. AS
MAIORES VITÓRIAS DEVEM PRODUZIR MAIOR ADORAÇÃO (vv. 8–11)
"Porque só Ogue, rei de Basã, restou dos
refains; eis que o seu leito, um leito de ferro, não está porventura em Rabá
dos filhos de Amom? O seu comprimento é de nove côvados, e de quatro côvados a
sua largura, segundo o côvado de um homem." (v. 11)
Ao chegarmos ao versículo 11, deparamo-nos com
um detalhe curioso e quase exótico na narrativa bíblica. Moisés faz questão de
registrar para a posteridade as dimensões exatas do leito de ferro de Ogue —
uma cama que media aproximadamente quatro metros de comprimento por um metro e
oitenta de largura. Por qual razão o Espírito Santo achou relevante inspirar a
inserção de uma nota de rodapé sobre o mobiliário de um rei pagão derrotado?
Seria para satisfazer uma mera curiosidade histórica ou arqueológica? Certamente
não, meus irmãos.
Aquele leito de ferro foi preservado e
registrado na Escritura para servir como um memorial teológico da fidelidade
e do poder de Deus. Toda vez que um israelita das gerações futuras passasse
por Rabá ou lesse aquele relato e começasse a duvidar do cuidado de Deus em
tempos de crise, ele seria forçado a lembrar: "O nosso Deus foi Aquele
que derrubou o gigante dono daquela cama de quatro metros de comprimento. Se
Ele fez isso no passado, Ele pode nos livrar hoje".
O propósito de relatar a magnitude do inimigo
e a solidez das sessenta cidades fortificadas não era, de forma alguma, exaltar
a valentia ou o heroísmo de Israel. O objetivo era fazer o povo cair de joelhos
e reconhecer: Se dependesse de nós, seríamos esmagados. Foi o braço forte do
Senhor que fez isto! Toda vitória que
alcançamos em nossa trajetória existencial deve, obrigatoriamente, fazer o
caminho de volta para o trono de Deus em forma de adoração, louvor e humilhação
sincera.
Ilustração: No século XVIII, durante os
dias gloriosos do Primeiro Grande Despertamento na Nova Inglaterra, quando
milhares de almas choravam por seus pecados e igrejas eram inteiramente
revitalizadas pelo Espírito, o pastor e teólogo Jonathan Edwards percebeu o perigo
de o homem tentar roubar para si o palco da obra divina. Ele escreveu tratados
inteiros insistindo com seus contemporâneos que toda aquela movimentação
extraordinária era obra exclusiva da soberana graça de Deus. Edwards sabia que
os maiores e mais puros movimentos espirituais da história nasceram e se
mantiveram de pé apenas quando homens e mulheres reconheceram que eram vasos de
barro, e que toda a excelência do poder pertencia ao Senhor.
Aplicações
Práticas para a nossa vida:
- Faça
um exercício de memória espiritual: identifique as grandes conquistas, os
livramentos invisíveis e as portas abertas na sua vida recentemente e
converta cada um deles em momentos de adoração e ações de graças na sua
intimidade.
- Guarde
o seu coração contra a soberba e a autoglorificação; nunca atribua ao seu
intelecto, à sua capacidade de trabalho ou aos seus méritos pessoais as
bênçãos que foram compradas pelo favor imerecido de Deus.
- Permita
que a memória dos livramentos e dos "gigantes" que Deus já
derrubou na sua história passada sirva de combustível para queimar a
incredulidade diante das batalhas que você está travando no dia de hoje.
Como pontuou brilhantemente o teólogo
reformado Herman Bavinck: "O propósito supremo e final de toda a
providência divina na história e no cosmos é, e sempre será, a manifestação e a
exaltação da glória soberana de Deus."
V. CRISTO É
O VERDADEIRO VENCEDOR DO SEU POVO
Meus amados irmãos, se encerrarmos a nossa
exposição teológica e homilética em Deuteronômio 3 apontando apenas para uma
vitória militar contra um rei gigante e a conquista de algumas cidades de pedra
na Transjordânia, teremos falhado gravemente na nossa tarefa de pregar as
Escrituras de forma cristocêntrica. A vitória de Israel sobre o gigante Ogue
não é um fim em si mesma. Ela funciona na economia da salvação como um tipo,
uma sombra, um apontamento profético que visa clarear os nossos olhos para uma
realidade espiritual infinitamente maior, mais excelente e definitiva.
Israel marchou para derrotar um monarca
gigante que ameaçava sua herança terrena. Mas a raça humana, por sua vez,
encontrava-se escravizada, encurralada e totalmente desarmada diante de
inimigos colossais, contra os quais nenhum exército humano jamais pôde
resistir: o pecado original, a culpa esmagadora da quebra da lei, as hostes
espirituais da maldade comandadas por Satanás, o pavor da morte física e a
justa condenação ao inferno eterno. Éramos nós que estávamos diante de muralhas
intransponíveis, aguardando a destruição total.
No entanto, na plenitude dos tempos, o próprio
Deus Soberano encarnou-se. Jesus Cristo, o Filho de Deus, assumiu a nossa
humanidade e marchou à nossa frente. Ele entrou no campo de batalha deste mundo
não com cavalos ou carruagens de guerra, mas revestido de humildade e
obediência perfeita. No Calvário, quando o inferno celebrou achando que havia
derrotado o Príncipe da Vida, Jesus estava, na verdade, operando o maior
xeque-mate da história do universo.
Na cruz, Jesus:
- Esmagou
a cabeça da serpente, despojando os principados e as
potestades e exibindo-os publicamente ao triunfo;
- Rasgou
a cédula da nossa dívida, cravando ali todos os nossos pecados e
nos absolvendo plenamente;
- Tragou
a morte na vitória, ressuscitando gloriosamente ao terceiro
dia e transformando o túmulo vazio no maior memorial de libertação que a
humanidade já contemplou.
Ogue tombou sem vida diante das espadas dos
filhos de Israel em Edrei, mas o império do pecado e da morte foi
definitivamente implodido e desfeito diante da cruz e da ressurreição de Nosso
Senhor Jesus Cristo. A Igreja de Deus hoje não vive em um estado de ansiedade
ou incerteza quanto ao desfecho da história. Nós marchamos em esperança
triunfante porque a nossa vitória escatológica e final não está em disputa; ela
já foi plenamente conquistada pelo nosso Irmão Mais Velho, o Leão da Tribo de
Judá.
Como bem afirmou com precisão o teólogo John
Murray: "A ressurreição corpórea de Cristo dentre os mortos é a garantia
inviolável, histórica e cósmica do triunfo final e absoluto do povo de
Deus."
CONCLUSÃO
Ao olharmos para a Palavra de Deus em
Deuteronômio 3:1–11, somos confrontados com um espelho teológico que organiza a
nossa visão a respeito de Deus, de nós mesmos e das batalhas da vida.
Aprendemos de forma clara e insofismável que:
- O medo
deve ser rejeitado, pois ele insulta a presença e o caráter
de Deus;
- A
nossa vitória está decretada e garantida na
soberania dos propósitos divinos antes mesmo de entrarmos na arena;
- A
nossa responsabilidade humana de marchar, obedecer e agir
permanece firme e é o meio pelo qual Deus manifesta o Seu poder;
- Todos
os louros, aplausos e troféus das nossas conquistas
pertencem única e exclusivamente ao Senhor, o autor de toda boa dádiva;
- A
nossa segurança e esperança definitivas
encontram-se firmadas na obra perfeita, consumada e vitoriosa de Jesus
Cristo na cruz.
Portanto, o clímax e o coração desta mensagem
não repousam na coragem circunstancial de Israel, tampouco na nossa própria
força moral ou espiritual. O fundamento inabalável da nossa pregação repousa na
Soberania absoluta do Deus que vai à frente. O mesmo Senhor que esvaziou
o reino de Basã, que despedaçou ferrolhos de ferro e abriu caminhos no deserto
para os pais na fé, permanece assentado no mais alto e sublime trono do
universo hoje. Ele não mudou. Ele não envelheceu. Ele não perdeu o controle.
Ele continua governando a história, desarmando os Gigantes da atualidade e
cumprindo, tim-tim por tim-tim, cada uma das promessas da Sua santa Aliança.
Meus amados e queridos irmãos, é muito
provável que alguns de vocês tenham chegado as portas deste texto (santuário)
hoje trazendo nos ombros e na alma o peso sufocante de um "Ogue"
plantado bem no meio do seu caminho. Você sabe perfeitamente qual é o nome do
gigante que tem se levantado contra você nas últimas semanas. Você olha para os
lados, avalia suas forças humanas e o relatório da sua lógica diz que não há
saída, que a parede de pedra é alta demais e que o confronto resultará na sua
destruição.
Pode ser que o seu "Ogue" seja uma
crise conjugal que parece ter atingido o ponto de não retorno; pode ser o
diagnóstico de uma doença crônica ou degenerativa que assalta a sua paz; pode
ser uma situação de falência ou endividamento que sufoca as suas noites de
sono; ou talvez seja uma batalha silenciosa, invisível e cruel contra a
depressão, a ansiedade ou um pecado de estimação que tem tentado paralisar a
sua caminhada com Deus.
Eu convido você a ouvir a Palavra do Senhor
que ecoa eternamente através deste texto sagrado: O Deus que
despedaçou o exército de Basã continua vivo, ativo e presente neste momento. O
Deus que ressuscitou a Jesus dentre os mortos e desarmou os poderes do inferno
é o mesmo Deus que recebeu a sua vida em aliança e que prometeu jamais deixar
você ou abandonar você no deserto.
Portanto, diante do altar do Senhor nesta
hora:
- Não
tema as ameaças, as palavras contrárias ou o
tamanho dos exércitos inimigos;
- Confie de
todo o seu coração no decreto soberano e na Palavra infalível do Deus
vivo;
- Obedeça com
fidelidade, dê o passo que lhe cabe, empunhe a sua espada e cumpra o seu
dever com integridade;
- Avance com
convicção e passos firmes, sem olhar para trás e sem vacilar na fé.
Porque quando o Deus da Glória assume a
vanguarda e decide marchar à frente da vida do Seu povo, a vitória não é uma
possibilidade remota; a vitória já está eternamente garantida.
"Não o temas, porque eu o entreguei nas
tuas mãos, a ele, e a todo o seu povo, e a sua terra..."
(Deuteronômio 3:2)
Que o Senhor Deus sele esta Palavra no seu coração
e da Sua Igreja. Amém.

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