Deuteronômio 10.12-22
Uma das marcas mais nítidas e assustadoras dos nossos dias é a chocante contradição entre o crescimento da religiosidade e a escassez da verdadeira devoção. Vivemos em uma época de templos cheios, agendas eclesiásticas lotadas, proliferação de literatura espiritual e debates infindáveis sobre teologia nas redes sociais. No entanto, quando descemos às trincheiras da vida cotidiana, o que encontramos muitas vezes é um deserto de integridade, uma anemia de amor sacrificial e uma profunda ausência de santidade prática.
Muitas pessoas aprenderam a frequentar igrejas
com assiduidade, decoraram o vocabulário evangélico, dominam os rudimentos do
dogma reformado e participam ativamente de comissões e departamentos
religiosos, mas suas almas nunca foram verdadeiramente capturadas pelo senhorio
de Cristo. O coração permanece intocado.
Essa tragédia espiritual, contudo, não é uma
exclusividade do século XXI. Desde os dias da peregrinação de Israel no
deserto, o Senhor tem deixado absolutamente claro que o Seu interesse principal
nunca esteve — e jamais estará — no formalismo mecânico de rituais externos,
sacrifícios protocolares ou liturgias vazias. Deus não Se impressiona com
aparências. Ele busca a essência.
No texto que temos diante de nós, o grande
legislador Moisés está concluindo uma das seções mais dramáticas e impactantes
do seu longo sermão de despedida nas planícies de Moabe. Ele acabou de fazer o
povo olhar para trás, para o espelho retrovisor da história, lembrando-os de
sua vergonhosa rebelião moral no episódio do bezerro de ouro. Ele relembrou as
tábuas despedaçadas, o aroma do juízo iminente e a maravilhosa e imerecida
intervenção da graça divina que restaurou a aliança e deu novas pedras escritas
ao povo.
Agora, após estabelecer a base teológica da
misericórdia de Deus, Moisés se volta para a congregação e faz uma pergunta
extraordinária e de contornos eternos:
"Agora, pois, ó Israel, que é que o
Senhor, teu Deus, requer de ti...?" (v. 12)
Esta não é uma mera pergunta retórica ou um
questionamento direcionado exclusivamente aos hebreus que estavam prestes a
cruzar o rio Jordão. Esta é a pergunta que o Espírito Santo faz à Igreja de
Cristo hoje.
- O que
Deus espera daqueles a quem Ele resgatou do Egito espiritual?
- O que
o Criador deseja ver na vida de Seus filhos comprados por sangue?
- O que
significa, afinal, viver uma vida que seja um aroma suave diante do trono
da Majestade divina?
A resposta inspirada que Moisés oferece ao
longo destes versículos é de uma simplicidade cortante e de uma profundidade
avassaladora: Deus não quer apenas uma fatia de nossas vidas; Deus requer o
coração por inteiro. Ele requer um coração que O tema com reverência, que O ame
com paixão, que O obedeça com fidelidade e que reflita a Sua justiça e o Seu
caráter santo diante de um mundo corrompido. Como bem sintetizou o teólogo J.
I. Packer:
"Conhecer a Deus é o maior privilégio da vida humana; e o conhecimento prático de Deus sempre resultará em um coração inclinado a agradá-Lo em todas as coisas."
Para extrairmos toda a seiva exegética deste
trecho, precisamos compreender a sua localização geográfica e pactual. Israel
encontra-se acampado às portas de Canaã. A geração que murmurou no deserto
havia ficado para trás, e uma nova geração estava prestes a herdar as promessas
abraâmicas. Moisés, como um pastor veterano e amoroso que sabe que não entrará
na terra, compreende perfeitamente que o maior perigo que Israel enfrentará em
Canaã não serão os gigantes filisteus, as carruagens de ferro dos cananeus ou
as imponentes muralhas de Jericó. O maior perigo será a sedução do politeísmo,
o relaxamento moral da prosperidade e o esquecimento de Deus.
Por essa razão, o profeta resume as cláusulas
e o espírito da lei em uma síntese primorosa. Do ponto de vista estrutural, a
arquitetura deste texto divide-se perfeitamente em duas partes intrinsecamente
ligadas:
- Os
versículos 12 e 13 apresentam as demandas e deveres do povo (o
agir);
- Os
versículos 14 a 22 apresentam a base teológica e os motivos para tais
deveres (o ser de Deus e a Sua ação histórica).
Prestem muita atenção a este arranjo homilético e exegético: o que Deus requer do homem está fundamentado exclusivamente em quem Deus é e no que Deus fez. Na teologia bíblica e reformada, a obediência nunca é a moeda de troca com a qual o homem tenta comprar o favor, o perdão ou a graça de Deus. A obediência não é a causa da salvação, ela é a sua consequência inescapável. Nós não obedecemos para sermos amados; nós obedecemos porque fomos soberanamente amados primeiro.
A verdadeira espiritualidade não se constrói na periferia das práticas externas e rituais, mas consiste em responder à soberana graça de Deus com amor ardente, obediência sacrificial, transformação interior e um compromisso integral de refletir o Seu caráter perante o mundo.
Ao responder com precisão cirúrgica sobre o
que o Senhor requer de Suas criaturas, Moisés descortina diante de nós quatro
marcas indispensáveis da vida de alguém que verdadeiramente pertence ao Senhor
da Aliança.
I. DEUS
REQUER UM CORAÇÃO QUE O TEMA E O AME (vv. 12-13)
"Agora, pois, ó Israel, que é que o
Senhor, teu Deus, requer de ti, senão que temas o Senhor, teu Deus, que andes
em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor, teu Deus, com todo o
teu coração e com toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Senhor e os
seus estatutos...?" (vv. 12-13)
Moisés inicia a sua lista de imperativos
utilizando uma sucessão de verbos que funcionam como uma engrenagem espiritual
perfeita: temer, andar, amar, servir e guardar.
Olhando superficialmente, poderíamos pensar que Deus está impondo um fardo
pesado de regras morais. No entanto, no hebraico, a construção textual revela
que todas essas ações fluem de uma única fonte: o coração do homem.
O primeiro requisito é o temor do Senhor
(Yirat Yahweh). No vocabulário bíblico, esse temor nunca significou
pavor servil, pânico ou o medo de um escravo diante de um capataz cruel que
aguarda o primeiro deslize para castigá-lo. O temor bíblico é uma reverência
profunda, um assombro santo diante da majestade intocável de Deus, um pavor de
ofender Aquele que é o nosso bem mais precioso. É viver cada segundo da
existência sob a solene consciência do Coram Deo — a vida diante da face
de Deus.
E desse temor reverente nasce o amor (Ahavah).
Longe de ser apenas um sentimento vago, efêmero ou uma emoção romântica, o amor
a Deus em Deuteronômio é uma escolha pactual e uma dedicação total. É por isso
que Moisés qualifica esse amor com as palavras: "com todo o teu coração
e com toda a tua alma". Não há espaço para neutralidade ou termos
médios. Quem verdadeiramente teme e conhece a grandeza do Senhor é constrangido
a amá-Lo acima de todas as coisas. E esse amor manifesta-se em pés que andam
em Seus caminhos, mãos que O servem no próximo e uma mente que se
deleita em guardar Seus mandamentos.
Séculos mais tarde, o próprio Senhor Jesus
Cristo utilizaria essa mesma teologia para blindar Seus discípulos contra o
legalismo dos fariseus, dizendo:
"Se me amais, guardareis os meus
mandamentos."
A obediência cristã não é uma obrigação enfadonha, mas o transbordamento de uma alma que foi capturada e ferida pelo amor de Deus.
Pensemos na história do jovem José na casa de
Potifar, no Egito. Sozinho, longe dos olhos de seu pai, de sua família e de sua
comunidade de fé, ele foi diariamente assediado pela esposa de seu senhor, uma
mulher poderosa que lhe oferecia prazer e impunidade. José não tinha nenhuma
lei escrita nas mãos, nenhuma igreja vigiando seus passos. O que o segurou? O
que o impediu de ceder? A sua resposta àquela mulher revela o coração do
mistério: "Como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra
Deus?". O temor santo e o amor ao Senhor governavam o tribunal de sua
consciência íntima.
Aplicações
Práticas
- O
cristianismo autêntico sempre começa e termina na esfera do coração: Deus
não aceita dízimos sem adoração, orações sem devoção ou pregações sem
entrega pessoal. O exterior só tem valor se for a expressão sincera do
interior.
- Avalie
a motivação da sua obediência: Você serve na igreja por medo de ir para
o inferno, por busca de aplauso humano, ou porque seu coração queima de
amor por Quem o resgatou das trevas?
- O
temor do Senhor deve ser o filtro das suas escolhas diárias: Ele
deve governar o que você assiste na internet quando ninguém está olhando,
a forma como você trata seu cônjuge e a integridade com que você preenche
sua declaração de impostos.
"A essência da verdadeira religião e da
piedade sólida está nos santos, profundos e fervorosos afetos do coração por
Deus." — Jonathan Edwards
II. DEUS
REQUER UM CORAÇÃO REGENERADO E TRANSFORMA DO (vv. 14-16)
"Eis que do Senhor, teu Deus, são os céus
e os céus dos céus, a terra e tudo o que nela há... Circuncidai, pois, o
prepúcio do vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz." (vv. 14,
16)
Nos versículos 14 e 15, Moisés faz uma
afirmação cosmológica de tirar o fôlego. Ele declara que o Senhor é o dono
absoluto de tudo: dos céus mais altos, da terra e de tudo o que nela respira.
Sendo Ele tão imenso, rico e autossuficiente, escolheu amar os patriarcas e
eleger a descendência deles não por seus méritos, mas por Sua soberana e livre
graça. Diante dessa eleição graciosa, no versículo 16, irrompe uma ordem
contundente: "Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração".
Para um ouvinte hebreu, essa declaração era um
verdadeiro choque teológico. A circuncisão física na carne era o sinal externo,
o selo visível da aliança que separava o judeu dos gentios pagãos desde os dias
de Abraão. No entanto, com uma ousadia profética extraordinária, Moisés arranca
o povo da sua zona de conforto e do seu orgulho nacionalista. Ele está dizendo,
essencialmente, que a marca externa na carne é uma hipocrisia inútil se o
coração continuar endurecido, impenetrável e rebelde contra Deus.
O problema crônico de Israel — e o problema de
toda a raça humana decaída — nunca foi meramente um problema de falta de
informação, ambiente inadequado ou comportamento superficial. O nosso maior
problema é a nossa condição cardíaca espiritual. O coração natural do homem
é, por definição bíblica, um "coração de pedra". É uma fortaleza de
rebeldia que produz idolatria, orgulho, incredulidade e a obstinação de uma
"cerviz dura" (uma metáfora agrícola para um boi rebelde que se
recusa a aceitar o jugo do seu dono).
Deus não quer apenas que o homem mude de hábitos; Ele exige uma cirurgia espiritual profunda. Ele requer a remoção da capa de orgulho que impede a Palavra de frutificar.
Imagine um relógio de ouro, de uma marca suíça
sofisticada. Sua pulseira é impecável, o vidro é de safira pura, e a caixa
reluz à luz do sol. É um objeto belíssimo por fora. No entanto, quando você
olha para os ponteiros, percebe que eles estão completamente parados. Você abre
a caixa e descobre que as engrenagens internas estão enferrujadas, quebradas e
cheias de poeira. De que serve a carcaça de ouro se o mecanismo interno não
funciona? Assim é o homem religioso sem a regeneração: ele tem uma fachada piedosa,
mas o mecanismo do seu coração está morto para Deus.
Aplicações
Práticas
- Deus
enxerga através das nossas máscaras de respeitabilidade: Você
pode enganar o seu pastor, o seu cônjuge e os seus irmãos de fé com uma
moralidade externa impecável, mas os olhos de fogo do Senhor perscrutam as
motivações ocultas do seu coração.
- A
religião externa e o ritualismo não possuem o poder de salvar: Ser
batizado, participar da mesa da comunhão ou ter o nome no rol de membros
de uma igreja fiel não substitui a necessidade absoluta do novo nascimento
efetuado pelo Espírito Santo.
- Clame
diariamente por um coração sensível:
Monitore a sua alma para que as repetições da vida eclesiástica não
endureçam a sua cerviz diante das exortações da Palavra de Deus.
"O maior problema do ser humano não se
encontra nas circunstâncias ao seu redor, na política ou na sociedade, mas nas
profundezas corruptas e enganosas do seu próprio coração." — John Owen
III. DEUS
REQUER QUE REFLETAMOS O SEU CARÁTER NA HISTÓRIA (vv. 17-19)
"Pois o Senhor, vosso Deus, é o Deus dos
deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz
acepção de pessoas, nem aceita suborno; que faz justiça ao órfão e à viúva e
ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestuário. Pelo que amareis o estrangeiro,
pois fostes estrangeiros na terra do Egito." (vv.
17-19)
Moisés constrói nestes versículos um dos hinos
de louvor mais majestosos e teologicamente ricos de todo o Pentateuco. Ele usa
títulos superlativos para descrever a transcendência absoluta de Deus: Ele é o "Deus
dos deuses", o "Senhor dos senhores" — uma expressão
idiomática hebraica que denota soberania suprema sobre todas as potestades e
autoridades da terra. Ele é o Deus "grande, poderoso e temível",
um Juiz incorruptível que não se deixa impressionar pelo status humano e que
jamais aceita subornos.
Contudo, reparem bem na maravilhosa
reviravolta teológica que acontece no versículo 18. Esperaríamos que um Deus
tão infinitamente grande e poderoso estivesse ocupado apenas com o governo das
galáxias ou com os grandes impérios do mundo. Mas o texto diz que este Deus de
glória incomensurável se inclina e se importa pessoalmente com o órfão, a
viúva e o estrangeiro.
Na sociologia do Antigo Oriente Próximo, essas
três classes representavam os indivíduos mais vulneráveis, desprotegidos e
marginalizados da sociedade. Eles não tinham direitos de propriedade, não
tinham defensores legais e dependiam inteiramente da benevolência alheia para
não morrerem de fome. O Deus Soberano se autodeclara o Protetor e Advogado dos
indefesos!
E qual é o mandamento prático que Moisés extrai dessa revelação sobre o caráter divino? Versículo 19: "Pelo que amareis o estrangeiro". Em outras palavras, o povo de Deus é categoricamente intimado a refletir, na horizontal da história, o caráter do Deus que eles adoram na vertical da fé. Uma comunidade que experimentou a graça do Deus que acolhe os marginalizados não pode viver de braços cruzados, indiferente à dor, à injustiça e à miséria do próximo. A teologia deve se traduzir em ética pactual; a adoração deve gerar compaixão e justiça social.
No século XIX, na Inglaterra, o parlamento
britânico e a elite econômica lucravam bilhões de libras com o tráfico
transatlântico de escravos africanos, tratando seres humanos como mercadorias
descartáveis. Deus, no entanto, levantou um homem chamado William Wilberforce. Convertido
ao Evangelho genuíno sob a influência de John Newton, Wilberforce compreendeu
que o Deus dos deuses exige que a Igreja defenda a dignidade humana e faça
justiça aos oprimidos. Ele enfrentou escárnio, doenças e perseguição política
durante décadas, mas não descansou até que o comércio de escravos fosse abolido
no Império Britânico, provando que a fé real transforma a realidade social.
Aplicações
Práticas
- A sua
fé bíblica produz compaixão prática ou apenas debates estéreis? Tiago
nos lembra que a religião pura e sem mácula para com o nosso Deus e Pai é
esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se
incontaminado do mundo.
- A
igreja local deve ser um refúgio para os necessitados e desamparados:
Nossas comunidades de fé não podem ser clubes fechados de classe média,
mas faróis de acolhimento, socorro espiritual e assistência material para
os aflitos de nossa sociedade.
- Lembre-se
de onde a graça o retirou: Moisés lembrou o povo de que eles já
haviam sido estrangeiros e escravos no Egito. Lembrarmo-nos da nossa
antiga miséria espiritual nos impede de olhar com orgulho ou desprezo para
aqueles que ainda estão caídos no pecado.
"A justiça não é um apêndice opcional da
vida cristã; a justiça é aquilo que o amor faz em público e de forma estrutural
para refletir o coração de Deus." — Tim Keller
IV. DEUS
REQUER ADORAÇÃO EXCLUSIVA E UMA MEMÓRIA ALIMENTADA PELA GRATIDÃO (vv. 20-22)
"Ao Senhor, teu Deus, temerás; a ele
servirás, a ele te achegarás e pelo seu nome jurarás. Ele é o teu louvor e o
teu Deus, que te fez estas grandes e temíveis coisas que os teus olhos têm
visto. Com setenta almas, teus pais desceram ao Egito; e, agora, o Senhor, teu
Deus, te pôs como as estrelas dos céus em multidão." (vv.
20-22)
Moisés caminha para o encerramento deste
trecho de seu sermão elevando o tom da exclusividade da adoração. No versículo
20, ele acumula expressões de total intimidade e fidelidade: o povo deve servir
a Deus, achegar-se a Ele (no hebraico Davaq, que significa
"apegar-se firmemente", "colar-se", a mesma palavra usada
para o compromisso matrimonial em Gênesis 2.24) e apenas por Seu Nome jurar. O
Senhor não aceita um coração dividido, uma devoção fragmentada ou uma vida de
sincretismo religioso. Ele não divide o Seu trono com os ídolos de Canaã e não
divide o nosso coração com os ídolos do nosso século. Ele exige lealdade total.
E como essa adoração exclusiva é alimentada na
prática? Por meio do exercício intencional da memória histórica e da
gratidão. Moisés faz um contraste extraordinário nos versículos 21 e 22.
Ele faz o povo olhar para as suas origens humildes: "Com setenta almas,
teus pais desceram ao Egito". Setenta pessoas não passavam de um
pequeno clã familiar patriarcal, vulnerável e insignificante. Mas o que havia
acontecido agora? Eles se tornaram uma multidão numerosa como as estrelas dos
céus — o cumprimento exato da promessa feita a Abraão séculos atrás.
Como eles saíram de 70 pessoas escravizadas para uma nação soberana prestes a conquistar Canaã? Não foi por estratégia militar, por inteligência geopolítica ou por força própria. Foi obra exclusiva da intervenção e da graça de Deus! "Ele é o teu louvor... que te fez estas grandes e temíveis coisas que os teus olhos têm visto". A gratidão pelas ações passadas de Deus é o combustível que mantém o coração aquecido e imune à apostasia no presente. Uma memória esquecida é a antessala de um coração apóstata.
Muitas vezes, em nossa caminhada cristã,
ficamos ansiosos, murmuradores e propensos a duvidar do cuidado de Deus quando
enfrentamos as crises do presente. Esquecemo-nos de olhar para trás e fazer o
inventário das misericórdias divinas em nossa biografia pessoal. Se pararmos
para anotar em um papel de onde o Senhor nos tirou, os livramentos invisíveis
que recebemos, as portas que Ele abriu quando tudo parecia trancado e o
sustento diário que Ele providenciou sobre a nossa mesa, a nossa boca se
encherá de louvor e os ídolos da murmuração perderão o poder sobre as nossas
almas.
Aplicações
Práticas
- Destrone
os ídolos que competem com Deus em seu coração: O
dinheiro, o sucesso profissional, a aprovação social ou o conforto
material têm ocupado o lugar de adoração e apego que pertence unicamente
ao Senhor?
- Cultive
a disciplina espiritual da gratidão diária: Em
vez de começar o seu dia reclamando do trânsito, da economia ou dos
problemas, comece louvando a Deus pelo fôlego de vida, pela salvação em
Cristo e por Sua fidelidade que se renova a cada manhã.
- Conte
as bênçãos de Deus para as próximas gerações:
Converse com seus filhos e netos sobre os milagres e provisões que o
Senhor operou na história da sua família, para que eles também aprendam a
fixar suas esperanças no Deus Vivo.
"A gratidão humilde e constante é uma das
mais belas, raras e perfumadas flores que crescem no jardim da graça no coração
do redimido." — Charles Spurgeon
CRISTO NO
TEXTO
Ao contemplarmos toda a extensão e as pesadas
demandas de Deuteronômio 10.12-22, uma santa santa angústia pode tomar conta do
nosso peito. Nós lemos que Deus requer temor perfeito, amor incondicional de
toda a alma, obediência sem falhas, um coração perfeitamente circuncidado e uma
justiça social imaculada. Mas quando olhamos para a nossa própria performance,
quando examinamos a história da Igreja e as nossas próprias fraquezas diárias,
percebemos que somos incapazes de cumprir tais exigências por nossas próprias
forças. A Lei nos apresenta o padrão elevado de Deus, mas o nosso braço humano
é curto demais para alcançá-lo.
É exatamente aqui que este texto se torna um
vetor maravilhoso que nos aponta para a pessoa e a obra bendita de Jesus
Cristo. Tudo aquilo que Deus legitimamente requer do homem na Antiga
Aliança, Cristo realizou de forma absoluta e perfeita como o nosso
Representante e Substituto legal!
- Jesus
Cristo temeu o Pai com reverência total durante toda a Sua vida terrena.
- Jesus
amou o Pai e o próximo com cada batida de Seu coração perfeito.
- Jesus
andou em todos os caminhos da justiça, não cometendo pecado algum e sendo
obediente até a morte, e morte de cruz.
- Jesus
cumpriu a essência de acolher o órfão, a viúva e o estrangeiro,
aproximando-Se dos marginalizados e dando a Sua vida para resgatar a nós,
que éramos estrangeiros e alienados das promessas de Deus.
Mais do que ser o nosso exemplo de
cumprimento, Cristo faz por nós aquilo que a Lei apenas tinha o poder de
exigir. A Lei ordenava de fora: "Circuncidai o vosso coração".
Mas o homem não pode operar o seu próprio coração. Por isso, Cristo, por meio
de Sua morte na cruz e pela habitação do Espírito Santo em nós, opera a
verdadeira circuncisão espiritual — a regeneração. Ele arranca de nós o coração
de pedra e nos concede um coração de carne, inclinado, capacitado e desejoso de
amar e servir ao Senhor.
Aquilo que Deus soberanamente requer de ti na
Lei, Ele mesmo providencia gratuitamente para ti por meio dos méritos e da
graça de Jesus Cristo no Evangelho!
"Dá-me, ó Deus, o cumprimento daquilo que
me ordenas na Tua Lei, e então ordena-me tudo o que quiseres segundo a Tua
santa vontade." — Santo Agostinho
CONCLUSÃO
Ao fecharmos o manuscrito desta exposição de
Deuteronômio 10.12-22, gravemos estas quatro colunas teológicas da verdadeira
religião que agrada a Deus:
- Deus
requer um coração que O tema e O ame: Uma
espiritualidade afetiva, sincera e que brota do âmago do ser.
- Deus
requer uma transformação interior real: A
necessidade de uma circuncisão espiritual operada pelo Espírito Santo.
- Deus
requer que reflitamos o Seu caráter na sociedade: Uma
fé ativa que pratica a justiça e acolhe os mais vulneráveis.
- Deus
requer adoração exclusiva e gratidão constante: Uma
memória viva que celebra a fidelidade do Senhor ao longo da nossa jornada.
A verdadeira religião que Deus aceita nunca será uma lista fria de proibições ou um conjunto enfadonho de obrigações dominicais. Ela é um relacionamento vivo, dinâmico e transformador que nasce no coração regenerado, transforma o caráter do indivíduo, produz amor prático ao próximo e exalta, acima de todas as coisas, a glória incomparável do Deus da nossa salvação.
Meus irmãos e queridos ouvintes da Palavra do
Deus Vivo: hoje, neste exato momento, através da pregação das Escrituras, o
Senhor da Aliança continua fazendo a mesma pergunta a cada alma presente neste
lugar: "Que é que o Senhor, teu Deus, requer de ti?"
Ele não está perguntando quantos cursos de
teologia você completou. Ele não está medindo o tamanho da sua respeitabilidade
social ou a beleza da sua voz nos cânticos litúrgicos. Ele não quer apenas a
sua presença formal nos bancos deste templo ou as suas atividades ativas em
nossos departamentos. Ele deseja o trono do seu coração.
Talvez você esteja aqui hoje e perceba que,
infelizmente, possui muita religião, mas nenhuma comunhão real com o Pai.
Talvez você possua um vasto conhecimento bíblico em sua mente, mas um deserto
de amor em suas ações diárias. Talvez a sua vida seja repleta de ativismo
eclesiástico, mas completamente vazia de temor santo e devoção secreta em seu
lar.
Não saia deste lugar da mesma forma que
entrou. Não tente remendar a sua velha moralidade com os panos rasgados do
esforço humano. Corra hoje mesmo para os braços abertos de Jesus Cristo.
Entregue a Ele a totalidade da sua existência, as suas fraquezas, os seus
planos e o comando da sua vida. Peça que o Espírito Santo faça uma cirurgia
profunda em sua alma, renovando o seu coração e alinhando os seus afetos com a
vontade divina.
Viva, a partir de hoje, para a exclusiva
glória daquele que o amou com amor eterno e o resgatou por meio de Sua graça
soberana. Porque a autêntica vida cristã e a verdadeira religião só começam de
fato quando Deus deixa de ocupar apenas um lugar periférico em nossa agenda e
passa a ocupar, de forma absoluta e graciosa, o primeiro e mais alto lugar no
trono dos nossos corações.
Que o Senhor Deus nos conceda a graça de vivermos esta realidade pactual todos os dias da nossa marcha rumo à Pátria Celestial. Amém.
Pr. Eli Vieira

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