Vivemos na era da autonomia radical. A cultura contemporânea, ecoando o desejo do Éden, clama por uma liberdade sem limites: "Siga seu coração", "seja fiel a si mesmo" e "crie sua própria verdade". Contudo, quando o "eu" é elevado ao trono, a vida não se torna mais livre, mas mais caótica.
Deus não nos deu os Dez Mandamentos para restringir nossa felicidade, mas para proteger nossa humanidade. Em Deuteronômio 5, Moisés reúne o povo para renovar a aliança. Note que a aliança não é uma escada para subir ao céu; é o mapa para caminhar na terra. Como afirmou Martin Lloyd-Jones: "A lei de Deus é a carta magna da liberdade cristã, pois nos mostra o caminho onde o amor pode florescer em segurança".
A verdadeira vida do povo de Deus é marcada por uma obediência amorosa que flui da graça recebida e busca glorificar ao Senhor em todas as áreas da existência.
Ao examinarmos esta passagem, encontramos cinco grandes verdades sobre a vida santa que Deus requer do Seu povo.
I. A OBEDIÊNCIA COMEÇA COM O RECONHECIMENTO DA AUTORIDADE (vv. 1-6)
Moisés começa com um imperativo urgente: "Ouve, Israel". A autoridade de Deus em Deuteronômio 5 não é a de um tirano, mas a de um Libertador. Deus começa lembrando o Egito.
Ilustração: Imagine um prisioneiro de guerra sendo resgatado e levado para casa pelo seu general. O general então lhe entrega um manual de como viver livre. A obediência desse homem não é uma troca pela liberdade; é a resposta natural ao amor que o comprou.
John Murray escreveu: "A obediência é a resposta da fé à graça. Não obedecemos para sermos salvos; obedecemos porque fomos salvos". A autoridade de Deus é o alicerce sobre o qual nossa identidade repousa.
II. O VERDADEIRO CULTO EXIGE EXCLUSIVIDADE (vv. 7-10)
Deus se autodenomina um "Deus zeloso". Esse zelo é o amor protector de um esposo.
A idolatria não é apenas trocar um deus de pedra por outro. É a "descentralização" de Deus. Tim Keller pontua: "Um ídolo é qualquer coisa que você ama mais do que a Deus, que absorve sua esperança e medos, e que, se você perder, destrói sua paz".
Aplicação Examine sua ansiedade. O que você mais teme perder? O que lhe causa mais desespero quando falta? Esse é o seu ídolo. O verdadeiro culto é o processo doloroso e libertador de destronar esses falsos deuses diariamente.
III. O NOME DE DEUS E A DIGNIDADE DO TESTEMUNHO (v. 11)
"Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão". Isso transcende o uso profano de palavras. Trata-se de "levar" o nome de Deus. No batismo, o nome de Cristo foi colocado sobre nós.
Ilustração: Pense em um embaixador de um grande reino em terra estrangeira. Se ele se comporta como um criminoso, ele não apenas arruína a sua própria reputação, ele traz desonra ao Rei que o enviou.
Charles Spurgeon exclamava: "Como é triste ver alguém que professa o nome de Cristo viver de modo que as pessoas perguntem: 'Este é o fruto da fé cristã?'". Honrar o nome de Deus é ser uma vitrine da Sua glória neste mundo caído.
IV. A SANTIDADE GOVERNA A VIDA PRÁTICA (vv. 12-19)
Aqui, a teologia toca o chão da vida diária. Deus governa a família (honrar pais), o trabalho (o sábado), a vida (não matar), o matrimônio (não adulterar) e a justiça social (não furtar).
O Sábado (v. 12) é um ato de rebeldia contra o nosso orgulho de que "o mundo depende de mim". Descansar é confessar que Deus está no controle, não nós.
Dietrich Bonhoeffer observou que a obediência aos mandamentos de Deus não é uma lista de restrições, mas uma "disciplina para a liberdade". A santidade é a ordem que torna a vida plena.
V. A SANTIDADE COMEÇA NO CORAÇÃO (vv. 20-21)
O décimo mandamento toca a raiz: a cobiça. A cobiça é o pecado que antecede a ação.
Como disse John Bunyan em O Peregrino, o pecado é como uma planta que precisa ser arrancada pela raiz. Tentar parar de pecar sem lidar com a cobiça no coração é como cortar as folhas de uma erva daninha esperando que ela morra.
John Owen, o grande puritano, dizia: "Esteja sempre matando o pecado, ou ele estará sempre matando você". O contentamento em Deus é a única arma eficaz contra a cobiça. Não é que tenhamos menos desejos, mas temos um desejo — Cristo — que satisfaz todos os outros.
CONCLUSÃO E O APELO À GRAÇA
Se você se sente desencorajado por essa exposição, alegre-se. A Lei serve para nos mostrar que não podemos nos salvar. Ela é o espelho que nos mostra a sujeira no rosto, mas que não tem água para lavar. A água é o sangue de Cristo.
Cristo e a Lei: Ele foi o único que cumpriu cada mandamento. Onde falhamos, Ele obedeceu. Onde fomos culpados, Ele pagou.
Como dizia Martinho Lutero: "A lei nos manda fazer o que não podemos, para que saibamos buscar nEle o que Ele pode fazer por nós".
Não tente obedecer por medo da condenação. Obedeça por gratidão pela justificação. Se você tem Cristo, você tem a força para ser santo. A obediência não é o preço do amor de Deus; é o fruto dele.
Oremos: Senhor, que a Tua Lei seja nosso prazer, não nosso fardo. Que o Evangelho seja nosso poder para cumprir o que a Tua santidade exige. Em nome de Jesus, Amém
Pr. Eli Vieira

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