Texto: Deuteronômio 20.1–20
Uma das verdades mais incontestáveis da
existência humana é que todos nós, sem exceção, enfrentamos batalhas. Algumas
dessas guerras são travadas na esfera pública, sob os olhos atentos do mundo:
crises financeiras severas, desemprego, enfermidades diagnosticadas na carne,
perseguições ideológicas e colapsos relacionais. Outras batalhas, contudo, são
silenciosas, travadas no terreno invisível e claustrofóbico da alma humana. São
os combates diários contra pecados de estimação, a depressão que esmaga o peito,
a ansiedade que rouba o fôlego, as dúvidas teológicas que assaltam a mente e as
tentações sutis que tentam nos desviar do caminho da santidade.
Nessas trincheiras da vida, o medo se
apresenta como uma realidade universal. Ele não escolhe classe social, nível
acadêmico ou tempo de conversão. Até mesmo os homens mais corajosos, piedosos e
proeminentes da história da redenção e da Igreja experimentaram momentos de
profundo temor. O reformador Martinho Lutero confessou em seus escritos que,
antes de comparecer diante da Dieta de Worms para defender a autoridade das
Escrituras perante o imperador e a cúria romana, sentiu um pavor que quase o
paralisou. John Knox, o trovão da Reforma Escocesa, registrou que suas pernas
tremiam e seu estômago adoecia antes de subir ao púlpito para pregar a Palavra.
O próprio Josué, o general sucessor de Moisés, precisou ouvir da boca do
Senhor, repetidas vezes, o imperativo: "Sê forte e corajoso".
Meus irmãos, o grande problema da vida cristã
não é o surgimento do sentimento de medo. Sentir medo diante do perigo é uma
reação natural da nossa humanidade decaída e frágil. O problema real e
devastador reside em permitir que o medo mude a nossa rota, governe as nossas
decisões e substitua a nossa confiança incondicional no caráter de Deus.
No capítulo 20 do livro de Deuteronômio,
Moisés está preparando a nova geração de Israel para um novo, agudo e
desafiador momento de sua história coletiva. A iminente conquista da terra de
Canaã exigiria campanhas militares, confrontos armados e guerras sangrentas.
Entretanto, prestem muita atenção à pedagogia divina: antes de ensinar qualquer
estratégia militar, antes de desenhar táticas de cerco ou treinar o manuseio de
espadas e escudos, Deus estabelece princípios espirituais e litúrgicos para o
combate.
O Senhor queria que Seu povo entendesse, de
uma vez por todas, que a vitória no dia da angústia nunca dependeria do tamanho
do exército, da sofisticação tecnológica das armas ou da experiência técnica
dos soldados. A vitória dependeria única e exclusivamente da presença pactual
do Senhor.
Assim também acontece com a Igreja de Jesus Cristo hoje. Nossa luta principal não é contra carne e sangue, não é contra estruturas humanas ou partidos políticos, mas travamos batalhas espirituais diariamente nas regiões celestiais (Efésios 6.12). E este texto milenar de Deuteronômio funciona como um manual de fé, revelando-nos como devemos nos posicionar e como podemos vencer as guerras que se levantam contra as nossas vidas.
Para extrairmos toda a seiva exegética deste
trecho, precisamos compreender a localização pactual e o contexto histórico de
Deuteronômio 20. Este capítulo faz parte das leis da aliança que regulavam os
direitos e deveres civis e militares de Israel. No Antigo Oriente Próximo, as
nações pagãs — como os egípcios, hititas e, mais tarde, os assírios — confiavam
a sua segurança em arsenais militares robustos, cavalos velozes, carros de
guerra de ferro e alianças políticas camufladas. Israel, contudo, deveria ser
uma antítese geopolítica: uma nação cujo único e supremo arrimo era o nome do
Senhor Deus Vivo.
Do ponto de vista estrutural, o texto move-se em três movimentos perfeitamente delineados:
A confiança em Deus antes da batalha (vv. 1-9): Onde a espiritualidade e a adoração antecedem o conflito
A condução da guerra com justiça e misericórdia (vv. 10-18): Onde os limites éticos do combate são estabelecidos;
O respeito pela criação de Deus durante o cerco (vv. 19-20): Onde a responsabilidade ecológica e o cuidado com o futuro são ordenados.
Mesmo tratando de um tema espinhoso como a guerra, o foco absoluto do texto não está na glorificação da violência, na exaltação do militarismo ou no derramamento de sangue. O holofote está direcionado para o caráter santo, justo e compassivo de Deus. Israel deveria lutar de maneira completamente diferente de todas as outras nações pagãs porque eles serviam a um Deus essencialmente diferente.
O povo de Deus enfrenta as batalhas da vida confiando plenamente na presença soberana do Senhor, submetendo-se aos Seus princípios éticos e preservando o Seu testemunho santo na história.
Ao esquadrinharmos os detalhes desta instrução
mosaica, encontramos três princípios permanentes que blindam a nossa mente e
fortalecem a nossa fé diante das batalhas da vida.
I. A
PRESENÇA DE DEUS É A NOSSA MAIOR FONTE DE CORAGEM (vv. 1–9)
"Quando saíres à peleja contra os teus
inimigos e vires cavalos, e carros, e povo maior em número do que tu, não os
temerás, pois o Senhor, teu Deus, que te tirou da terra do Egito, está
contigo." (v. 1)
O capítulo abre descortinando uma dose severa
de realismo. Deus não esconde de Israel a gravidade do cenário que eles
encontrariam na frente de batalha. O texto diz: "e vires cavalos, e
carros, e povo maior do que tu". Humanamente falando, a desvantagem
matemática e tecnológica de Israel era gritante. Os povos cananeus possuíam
carros de ferro (a tecnologia de ponta da época, equivalente aos tanques de
guerra modernos), cidades fortificadas com muralhas colossais e exércitos
profissionais experientes. Israel era um povo de pastores seminômades, egressos
de séculos de escravidão no Egito. O pânico, portanto, seria a resposta lógica
e natural da carne.
Contudo, no coração da desvantagem, irrompe a
ordem divina no hebraico: Lo tira’um — "Não os temerás!"
Por quê? Qual era a base para essa ausência de medo? A resposta é uma cláusula
teológica inegociável: "Porque o Senhor, teu Deus, está contigo".
A verdadeira coragem bíblica nunca nasce da autoconfiança, do pensamento
positivo, do otimismo ingênuo ou do tamanho dos nossos recursos. Ela nasce do
conhecimento experimental da presença pactual de Deus. O Deus que estava
prestes a lutar por eles em Canaã era o mesmo Deus que já havia desarticulado o
império de Faraó e aberto o Mar Vermelho.
Observem que detalhe litúrgico extraordinário
nos versículos 2 a 4: antes de o exército marchar, quem deveria se dirigir ao
povo não era o general do exército, o estrategista militar ou o rei da nação.
Quem subia à frente era o sacerdote.
Antes de desembainhar a espada, o povo
precisava ouvir a Palavra. Antes do combate físico, vinha a adoração litúrgica.
Antes do clamor da guerra, vinha a certeza absoluta da presença divina. O
sacerdote declarava: "O Senhor, vosso Deus, é o que vai convosco, a
pelejar por vós contra os vossos inimigos, para vos salvar".
Como bem pontuou o reformador João Calvino: "A verdadeira coragem e a firmeza da alma não são frutos da insensibilidade humana, mas nascem quando a fé contempla a presença majestosa de Deus assentada acima de todos os perigos temporais."
Na sequência do texto (vv. 5-9), deparamo-nos
com uma das práticas mais incomuns da história militar: as dispensas do serviço
de armas. Os oficiais deveriam apregoar ao exército que qualquer homem que
tivesse construído uma casa nova e não a tivesse inaugurado, ou plantado uma
vinha e dela não tivesse colhido, ou estivesse desposado com uma mulher e ainda
não se tivesse casado, deveria voltar para casa. E mais surpreendente ainda: o
versículo 8 ordena que qualquer homem que estivesse com medo e com o coração
tímido deveria ser mandado embora, para que o seu desespero não contaminasse o
coração de seus irmãos.
Deus estava reduzindo drasticamente o contingente militar de Israel. Por quê? Porque o Senhor queria ensinar uma lição eterna àquela nação: a vitória não depende do número de soldados, mas da fidelidade do Deus da Aliança. É exatamente o mesmo princípio que Deus aplicaria séculos mais tarde com Gideão (Juízes 7), reduzindo trinta e dois mil soldados para apenas trezentos homens, a fim de que Israel não se orgulhasse dizendo que a sua própria mão os havia salvo. Quando Deus está na batalha, o pouco com Ele se torna maioria absoluta.
No ano de 1588, a Coroa Espanhola enviou a sua
lendária e aparentemente invencível "Armada Espanhola" — uma frota
naval colossal com mais de 130 navios — com o objetivo de invadir a Inglaterra
protestante e destronar a rainha Elizabeth I. Humanamente, a Inglaterra não
possuía navios ou homens suficientes para conter aquele monstro marítimo. O
pavor tomou conta da ilha. No entanto, os cristãos ingleses dobraram os joelhos
em oração. De forma inesperada e extraordinária, tempestades violentas e ventos
atípicos surgiram no mar, dispersando e destruindo completamente a frota
espanhola antes que ela pudesse desembarcar. Ao celebrarem o livramento, os
ingleses cunharam uma medalha comemorativa com uma frase em latim baseada nas
Escrituras: "Deus soprou, e eles foram dispersos". Quando o
Senhor assume a batalha por Seu povo, nenhuma força geopolítica na terra pode
prevalecer.
Aplicações Práticas
Não permita que o medo paralise a sua vida espiritual: O medo olha para o tamanho dos gigantes; a fé olha para a soberania dAquele que criou os céus e a terra.
Alimente a sua mente com a Palavra antes de entrar no combate: Não enfrente os problemas do seu dia de cabeça baixa, focado apenas nas circunstâncias. Faça como Israel: ouça a voz do Sacerdote, alimente-se das promessas e adore ao Senhor antes que o primeiro conflito se levante.
Lembre-se de onde a graça de Deus já o resgatou: Moisés fez o povo lembrar do Egito. Quando você olhar para uma crise financeira ou familiar hoje e o medo tentar assaltar o seu coração, lembre-se do Calvário. O Deus que deu o Seu próprio Filho para salvá-lo da condenação eterna não o abandonará no deserto das suas aflições temporais.
II. O POVO
DE DEUS PELEJA SEGUNDO OS PRINCÍPIOS DA JUSTIÇA E DA MISERICÓRDIA DIVINA (vv.
10–18)
"Quando te achegares a alguma cidade para
combatê-la, apregoar-lhe-ás a paz." (v. 10)
As guerras conduzidas por Israel no Antigo
Testamento jamais deveriam ser movidas por caprichos imperiais, ganância
territorialista, vaidade de monarcas ou crueldade sádica. O versículo 10
estabelece um freio ético sem paralelos nas legislações do Antigo Oriente
Próximo: antes de qualquer ataque militar, deveria haver uma oferta formal de Shalom
— de paz. Isso nos revela uma faceta maravilhosa do caráter do nosso Deus: o
Senhor não tem prazer na destruição de vidas e na violência gratuita. Ele é o
Deus da paz, que esgota as possibilidades da clemência antes de aplicar o rigor
do juízo.
No entanto, o texto faz uma distinção crucial
entre as cidades distantes (vv. 10-15) e as cidades pertencentes aos povos da
terra de Canaã (vv. 16-18). Para com os povos da terra prometida — os hititas,
amorreus, cananeus, ferezeus, heveus e jebuseus —, a ordem era de destruição
total (Herem), sem termos de paz.
Precisamos encarar esse texto com honestidade
teológica e exegética. Essas guerras da conquista possuíam um caráter
absolutamente único, temporário e judicial na história da redenção. Elas não
eram motivadas por limpeza étnica ou ódio racial. Os povos de Canaã estavam sob
o decreto de juízo divino por causa de séculos de abominações indizíveis,
perversões morais degradantes, bestialidade e, sobretudo, pelo sacrifício
ritual de suas próprias crianças vivas nas fogueiras do deus Moloque.
A santidade de Deus usou Israel como o
instrumento histórico para executar a sentença judicial contra aquela cultura
moralmente putrefata. Além disso, havia uma razão preventiva de preservação
espiritual, descrita no versículo 18: "Para que não vos ensinem a fazer
segundo todas as suas abominações... e pequeis contra o Senhor, vosso
Deus". A tolerância com o paganismo de Canaã resultaria na
contaminação espiritual de Israel — o que, tragicamente, acabou acontecendo no
período dos Juízes.
Portanto, é um erro exegético grotesco e uma
distorção herética utilizar estes textos bíblicos para legitimar guerras
santas, cruzadas medievais, violência religiosa ou intolerância física nos dias
de hoje. A Igreja de Cristo não conquista territórios geográficos pela ponta da
espada ou pela força das armas políticas. Como bem nos ensina o apóstolo Paulo:
"As armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus
para destruição das fortalezas" (2 Coríntios 10.4). Nossa guerra hoje
é contra o pecado, contra o erro teológico e contra as forças espirituais das
trevas, e o nosso único instrumento de conquista é a pregação mansa, firme e
graciosa do Evangelho da Salvação.
Como escreveu o comentarista puritano Matthew Henry: "O soldado de Jesus Cristo avança na história não para destruir a vida dos homens, mas para conquistar as suas afeições e cativar os seus corações para o doce império do Salvador."
Quando o pioneiro das missões modernas,
William Carey, desembarcou na Índia no final do século XVIII, ele encontrou uma
cultura profundamente arraigada em práticas religiosas pagãs violentas. Uma
delas era o Sati, um ritual onde as viúvas eram forçadas a se queimar
vivas na pira fúmida de seus maridos falecidos. Carey nunca empunhou uma arma
de fogo, nunca usou de violência física e enfrentou uma oposição ferrenha das
autoridades locais e coloniais. Qual foi a sua estratégia? Ele usou as armas do
Reino: traduziu as Escrituras para as línguas nativas, fundou escolas, pregou o
Evangelho com lágrimas e amor sacrificial, e lutou no parlamento através de
argumentos éticos. Décadas mais tarde, aquela prática cruel foi abolida. Carey
transformou a realidade de uma nação inteira sem derramar uma única gota de
sangue alheio, provando que o Reino de Deus avança pelo poder da Verdade e do
Amor.
Aplicações Práticas
Aprenda a separar o pecador do pecado: Nós devemos odiar o erro, combater a heresia e rejeitar a impiedade com firmeza inegociável, mas devemos olhar para as pessoas escravizadas pelo pecado com profunda compaixão pastoral, enxergando nelas um campo missionário que precisa urgentemente do Evangelho.
Seja um embaixador da reconciliação no seu dia a dia: Antes de inflamar um conflito no ambiente de trabalho ou explodir em ira dentro de casa, faça como a instrução de Deuteronômio: apregoe a paz. Busque o entendimento e use de mansidão, esgotando todas as vias do diálogo gracioso.
Não negocie com os "cananeus" do seu coração: Na sua vida devocional íntima, não faça acordos com os pecados ocultos, com a pornografia, com o orgulho ou com a mentira. Para com os ídolos do coração, a ordem da santificação é a destruição total. Não dê abrigo ao que pode destruir a sua comunhão com Deus.
III. O POVO
DE DEUS DEVE PELEJAR PRESERVANDO A VIDA E O FUTURO DAS PRÓXIMAS GERAÇÕES (vv.
19–20)
"Quando sitiares uma cidade por muito
tempo, pelejando contra ela para a tomar, não destruirás o seu arvoredo,
metendo nele o machado, porque dele comerás; pelo que o não cortarás (pois a
árvore do campo é o homem, para que seja empregada no cerco?)" (v. 19)
O encerramento deste capítulo traz uma
diretriz que, à primeira vista, pode parecer curiosa e deslocada em um manual
militar. Deus emite uma ordem expressa proibindo os soldados de Israel de
cortarem as árvores frutíferas que cercavam as cidades sitiadas. No Antigo
Oriente Próximo, a tática da "terra arrasada" era uma prática comum e
brutal. Os exércitos invasores cortavam todas as árvores, envenenavam os poços
de água e destruíam os campos agrícolas para provocar a fome generalizada e
destruir a economia futura da região conquistada.
Deus, contudo, estabelece uma lógica ecológica
e geracional de tirar o fôlego: "porque dele comerás; pelo que o não
cortarás". O Senhor faz uma pergunta retórica poética: "pois a
árvore do campo é o homem, para que seja empregada no cerco?" Em
outras palavras, as árvores não são vossos inimigos; elas não pegam em armas
contra vós. Elas foram criadas por Deus para manifestar provisão, sustento e
vida.
Essa ordem revela que a justiça divina nunca é
destrutiva sem um propósito santo e preventivo. Deus cuida da criação, zela
pela integridade dos ecossistemas e protege a herança alimentar que sustentaria
as gerações futuras — inclusive o próprio Israel que habitaria naquela terra
após a vitória. Deus proíbe as vitórias pirricas, aquelas conquistadas à custa
da destruição irresponsável do futuro.
O teólogo reformado John Murray observou com maestria: "Toda autoridade e poder recebidos da parte de Deus devem ser exercidos com um profundo senso de responsabilidade ecológica, moral e geracional diante do próprio Deus, que é o dono absoluto da terra."
Este princípio milenar ecoa de forma
avassaladora em nossas vidas práticas. Ele nos ensina que as nossas batalhas
diárias, as nossas defesas de pontos de vista e as nossas buscas por alvos
pessoais jamais podem ser conduzidas de modo a destruir aquilo que possui valor
eterno e que Deus deseja que seja preservado.
Tragicamente, meus irmãos, vemos muitas pessoas vencendo discussões intelectuais na mesa de jantar, mas estraçalhando a paz e a harmonia de suas famílias. Vemos homens trabalhando de forma obsessiva, vencendo batalhas corporativas e acumulando patrimônios vultosos, mas cortando as "árvores frutíferas" do relacionamento com seus filhos e perdendo a alma de suas casas. Vemos crentes conquistando posições de destaque e aplausos no mundo, mas sacrificando a sua integridade moral, a sua saúde emocional e a sua comunhão secreta com o Deus Vivo. Nem toda vitória aparente na horizontal da vida constitui uma verdadeira vitória no tribunal dos céus.
Após o término da Segunda Guerra Mundial, com
a Europa devastada por bombardeios e cercos militares violentos, várias cidades
históricas — como Varsóvia e Dresden — ficaram reduzidas a montanhas de
entulho. No esforço de reconstrução nas décadas seguintes, arquitetos,
urbanistas e governantes tomaram a decisão consciente de não limparem o terreno
para construir prédios modernos e sem identidade. Eles recolheram os cacos,
analisaram fotografias antigas e reconstruíram os centros históricos exatamente
como eram antes da tragédia, preservando monumentos, praças e fachadas antigas.
Eles compreenderam que, para possuir um futuro digno, era preciso preservar os
marcos valiosos da história e da identidade. Da mesma forma, em nossas batalhas
diárias, precisamos lutar blindando os valores eternos da fé, da família e do
caráter, para que o nosso futuro não seja um deserto de aridez espiritual.
Aplicações Práticas
Pergunte sempre a si mesmo se o preço da sua vitória vale a pena: Antes de entrar em uma disputa judicial desgastante por motivos de orgulho, ou de se engajar em uma briga por herança ou posições, questione: "Esta batalha vai destruir as árvores frutíferas do meu caráter e dos meus relacionamentos?"
Não sacrifique o eterno no altar do temporário: Nenhuma promoção profissional, nenhum sucesso acadêmico e nenhum ganho financeiro compensa o preço de ver a sua família destruída ou a sua vida devocional cauterizada.
Exerça responsabilidade com os recursos que Deus colocou em suas mãos: Seja um bom mordomo da criação de Deus, do seu tempo, das suas finanças e do seu corpo, que é o templo do Espírito Santo. Lute as batalhas da vida preservando a vida.
Como intérpretes fiéis da totalidade da
revelação bíblica, sabemos que todo o Antigo Testamento funciona como um grande
rio tipológico que corre em direção à pessoa, ao caráter e à obra consumada de
nosso Senhor Jesus Cristo. Deuteronômio 20 não é um texto isolado; ele respira
a glória de Cristo em cada mandamento.
Quando olhamos para a severa demanda de
coragem inabalável, justiça imaculada no combate e fidelidade absoluta exigida
de Israel nas páginas deste texto, somos constrangidos a olhar para a história
e ver que Israel falhou. O povo tremeu de medo diante dos carros de ferro, fez
alianças ilícitas com os povos pagãos e destruiu os marcos da santidade de Deus
ao longo de sua trajetória pactual.
É exatamente sobre o pano de fundo do fracasso
humano que a beleza do Evangelho brilha com esplendor eterno! Jesus Cristo veio
a este mundo como o nosso Grande Sumo Sacerdote e, ao mesmo tempo, como o
Capitão Supremo da nossa salvação. Ele enfrentou a maior, mais violenta e
decisiva batalha de toda a história do universo.
No jardim do Getsêmani, o suor de Jesus
transformou-se em gotas de sangue. Ele sentiu o peso esmagador do pavor do
cálice da ira divina, mas Ele não recuou. Ele não pediu dispensa por timidez de
coração. Ele marchou resolutamente em direção ao Gólgota. Na cruz do Calvário,
Jesus Cristo enfrentou o exército colossal do nosso pecado, a condenação
irrevogável da Lei, o aguilhão da morte e as potestades do inferno.
Aparentemente, aos olhos do mundo, Ele foi
derrotado, esmagado e crucificado em fraqueza. No entanto, a Sua morte
substitutiva tornou-se o maior e mais retumbante grito de vitória de toda a
eternidade! Ao ressurgir ao terceiro dia, Jesus desarmou os principados e as
potestades, triunfando sobre eles na cruz. Ele bebeu o cálice do juízo que nós
merecíamos por nossa idolatria diária e nos concedeu, por pura graça soberana,
o direito de sermos chamados mais do que vencedores!
Como bem afirmou o apóstolo Paulo no coração do Novo Testamento: "Mas graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo." (1 Coríntios 15.57)
Hoje, meus irmãos, nós não lutamos por uma
vitória que ainda precisa ser conquistada através do suor do nosso braço. Nós
lutamos a partir da vitória que já foi plenamente consolidada por Jesus
Cristo na cruz! O Capitão da nossa alma vai à nossa frente na marcha da
história.
Como declarou de forma inspirada o célebre
pregador Charles H. Spurgeon:
"A fé verdadeira não se intimida com o
barulho dos carros de ferro do inimigo; ela vê o Invisível, crê no Incrível,
apoia-se no Onipotente e recebe o Impossível das mãos do Senhor das
Nações."
CONCLUSÃO
Ao fecharmos o manuscrito desta exposição de Deuteronômio 20, fixemos em nossas mentes estas três colunas eternas da espiritualidade pactual:
A presença de Deus é a nossa maior fonte de coragem: Não temas o tamanho dos exércitos que se levantam contra a sua vida, pois o Senhor vai convosco para vos salvar;
O povo de Deus peleja segundo os princípios do Reino: Nossa guerra é espiritual, conduzida com firmeza na verdade e doçura no amor, apregoando sempre a paz do Evangelho;
O povo de Deus luta preservando a vida e o futuro: Não destrua o seu caráter, a sua família ou os valores eternos em busca de vantagens e vitórias temporais e ilusórias.
A história da sua caminhada com Deus não precisa ser escrita com as tintas escuras do pânico, da ansiedade paralisante ou do desespero. As batalhas reais virão, mas você não caminhará órfão no deserto da vida.
Meu amado irmão, minha amada irmã, querido
ouvinte (leitor) da Palavra do Deus Vivo: talvez você tenha entrado por esta porta hoje
carregando o peso esmagador de uma batalha intensa que tem consumido as suas
forças nas últimas semanas. Talvez o barulho dos "carros de ferro" do
desemprego, de um diagnóstico médico assustador, de uma crise aguda no seu
casamento ou de uma tentação silenciosa tenha tirado a paz da sua alma e
implantado o terror no seu coração. Talvez você se sinta em total desvantagem
matemática e humana diante das circunstâncias do seu presente.
Se este é o seu estado de alma hoje, ouça com
tremor a voz do Senhor que ecoa através dos séculos nas linhas de Deuteronômio
20: "Não os temerás, pois o Senhor, teu Deus... está contigo!"
Não permaneça mais nenhum segundo tentando gerenciar as crises da sua vida
confiando apenas na fragilidade do seu próprio braço ou na escassez dos seus
recursos terrenos. Saia hoje mesmo da posição de isolamento e corra para os
braços soberanos de Jesus Cristo. Renda o controle das suas ansiedades aos pés
dAquele que já venceu a morte por você.
Dobre os seus joelhos no secreto do seu
quarto, clame pela intervenção dAquele que governa as tempestades e marche com
a cabeça erguida, sabendo que o Senhor dos Exércitos caminha lado a lado com o
Seu povo fiel na coluna de nuvem e de fogo.
Ajuste a sua armadura espiritual, dê passos
firmes na direção do seu amanhã e descanse na promessa bendita, perene e
inabalável que o próprio Capitão da nossa salvação nos deixou antes de subir
aos céus:
"Eis que estou convosco todos os dias,
até à consumação do século." (Mateus 28.20)
Que o Deus da Aliança nos encha de santa coragem e nos guie em triunfo nesta gloriosa marcha rumo à Pátria Celestial. Amém.
Pr. Eli Vieira

Nenhum comentário:
Postar um comentário