Texto: Deuteronômio 14.1-2
Uma das marcas mais dolorosas, complexas e desestruturantes da nossa virada de século é a assustadora crise de identidade que assola a humanidade. As fendas da pós-modernidade transformaram o coração do homem contemporâneo em um labirinto existencial, onde as massas se debatem fazendo perguntas dramáticas: Quem sou eu? Qual é o meu propósito real? Onde eu pertenço? Qual é o sentido definitivo da minha existência terrena? O trágico engano da cultura secularizada consiste em tentar construir as respostas para essas indagações a partir do próprio homem, das circunstâncias sociais, das escolhas estéticas ou da aprovação flutuante da opinião pública. Contudo, a revelação das Escrituras Sagradas opera em um sentido inverso: ela nos ensina que a nossa verdadeira identidade não brota da terra; ela desce dos céus. A nossa essência não é definida por aquilo que fazemos ou pelas marcas que o mundo imprime em nós, mas pelo relacionamento de Aliança que temos com o Senhor do Universo.
Quando nos aproximamos de Deuteronômio 14.1-2, o grande legislador Moisés faz uma pausa pastoral para reposicionar a mente e o coração da nova geração de Israel antes que eles atravessem o rio Jordão. Ele sabe que a obediência cega e mecânica a preceitos morais e dietéticos seria inútil sem a compreensão clara da raiz teológica que os sustentava. Antes de emitir uma longa lista de mandamentos específicos sobre o cotidiano, Deus faz o povo olhar para o espelho do pacto e relembra, de forma solene, quem eles são: eles eram filhos do Senhor e eram um povo santo, separado exclusivamente para Ele.
Na economia divina, a identidade precede e fundamenta a obediência. O comportamento visível da Igreja deve ser, única e exclusivamente, o transbordamento e o reflexo do seu pertencimento eterno. Deus não queria apenas que Israel cumprisse regras; Ele desejava que Israel vivesse em consonância com a sua filiação e eleição graciosa. O Novo Testamento adota essa mesma engrenagem homilética ao nos exortar a vivermos de maneira santa: antes de sermos servos e trabalhadores nas frentes de trabalho do Reino, nós somos soberanamente constituídos como filhos amados e possessão adquirida do Deus Vivo. Como bem pontuou o teólogo e reformador Sinclair Ferguson:
“A vida cristã prática e a santidade eclesiástica só florescem e ganham raízes profundas quando a nossa alma compreende com total clareza quem nós somos, por pura graça, em Cristo Jesus.”
Para esquadrinharmos toda a seiva exegética contida nestes dois versículos, precisamos decodificar o pano de fundo histórico-cultural do Antigo Oriente Próximo que moldava as nações vizinhas de Israel. O texto inicia-se com uma proibição de contornos funerários e litúrgicos muito específicos: “não vos dareis golpes, nem fareis calva entre os olhos por causa de algum morto” (v. 1).
Na sociologia e na religiosidade dos povos cananeus e fenícios, as expressões de luto e a dor diante da morte não eram apenas manifestações de tristeza psicológica; elas estavam intrinsecamente ligadas a rituais supersticiosos, idólatras e demoníacos. Quando um parente falecia, os pagãos costumavam cortar a própria pele com facas ou lâminas (gundad) até sangrar, raspavam a porção frontal do cabelo acima da testa para formar uma calvície intencional e invocavam os espíritos dos mortos por meio de rituais de automutilação, acreditando que o sangue humano apaziguaria as divindades do submundo e garantiria o descanso da alma do falecido.
Moisés arranca Israel dessa engrenagem macabra utilizando um argumento radicalmente teológico no versículo 2: “Porque és povo santo ao Senhor teu Deus, e o Senhor te escolheu para lhe seres o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra”. O legislador está ensinando que os rituais cananeus de desespero e automutilação eram incompatíveis com a teologia da Aliança.
A santidade em Israel (Qadosh — que significa "separado", "consagrado", "cortado do uso comum") nunca foi um meio moralista através do qual o homem tentava subir degraus para conquistar o favor de Deus ou se tornar Seu povo. A santidade era a consequência inevitável e grata de já pertencer ao Senhor por pura eleição. A arquitetura do texto se move em um tripé inegociável da identidade do pacto:
A Filiação Relacional: Deus agindo como o Pai que cuida e acolhe (v. 1).
A Distinção Cultural: A recusa em mimetizar os padrões desesperados do mundo decaído (v. 1).
A Eleição Soberana e Graciosa: A escolha imerecida do Senhor que separa um povo para ser Sua propriedade exclusiva (v. 2).
O povo de Deus deve cultivar uma distinção visível em relação às práticas morais, litúrgicas e desesperadas do mundo porque possui uma identidade inegociável de filiação, foi separado soberanamente pela graça do Senhor e chamado a refletir a Sua santidade e glória no palco da história.
Ao analisarmos minuciosamente cada termo deste solene pronunciamento de Moisés, descobrimos quatro fundamentos indispensáveis sobre os quais a identidade e a conduta do povo de Deus devem ser edificados.
I. O POVO DE DEUS POSSUI UMA RELAÇÃO DE FILIAÇÃO COM O SENHOR (v. 1a)
Moisés abre o capítulo com uma declaração de imenso impacto emocional e teológico para um povo habituado ao peso da escravidão egípcia:
“Filhos sois do Senhor vosso Deus...” (v. 1)
Esta é uma das afirmações mais raras, preciosas e revolucionárias de todo o Antigo Testamento. Israel não era apenas uma organização política, um ajuntamento de tribos nômades ou uma teocracia jurídica; eles eram, essencialmente, a família da Aliança. O Criador dos céus e da terra não se apresentava a eles unicamente com os títulos superlativos de Rei, Juiz e Soberano Supremo; Ele assume a identidade amorosa de um Pai.
A filiação relacional mudava por completo a fiação interna e a motivação do culto hebraico. Os escravos obedecem aos seus capatazes movidos pelo pavor do chicote e pelo medo da punição imediata; os filhos obedecem aos seus pais motivados pelo amor, pelo respeito reverente e pelo desejo ardente de honrar o nome da família. Ao declarar que eles eram filhos, Deus estava blindando a congregação contra a tentação de enxergar a lei mosaica como um fardo enfadonho de tirania legalista.
Os filhos carregam os traços, representam a honra e revelam o caráter do pai ao qual pertencem. Na plenitude dos tempos, o Novo Testamento expande e cumpre essa realidade tipológica de forma gloriosa através da obra de Jesus Cristo. Por meio da união com o Filho Unigênito e pelo decreto soberano da adoção (Huiothesia), nós fomos retirados do cativeiro do pecado e inseridos na mesa do banquete real da família de Deus. O Espírito Santo foi derramado em nossos corações para que a nossa alma não viva mais em pânico servil, mas clame com santo deleite: “Aba, Pai!” (Romanos 8.15).
Lembremo-nos da teologia contida na parábola do Filho Pródigo narrada por nosso Senhor Jesus no Evangelho de Lucas. Quando o jovem rebelde desperdiçou toda a sua herança no lamaçal do mundo e caiu na mais profunda miséria, ele achou que o seu pecado havia cancelado o seu direito legal de pertencimento e planejou retornar dizendo: “trata-me como um dos teus trabalhadores”. Contudo, ao avistá-lo de longe, o pai correu, abraçou-o, cobriu-o com a melhor veste e colocou um anel em seu dedo. A dignidade do comportamento do jovem havia sido manchada, mas a sua identidade de filho permanecia intocável nos decretos de amor daquele pai.
Aplicações Práticas
Descanse na sua verdadeira identidade: O mundo tentará rotular você pelo seu saldo bancário, pelo seu status profissional, pelas suas crises familiares ou pela sua aparência física. Rejeite essas mentiras da cultura secular; se você foi lavado pelo sangue de Cristo, a sua maior, mais alta e perene identidade é ser filho legítimo do Deus Altíssimo.
Viva à altura da família do Reino: Monitore os seus atos, as suas palavras públicas nas redes sociais e os seus negócios cotidianos. O seu comportamento tem honrado o nome do seu Pai Celestial, ou tem servido de escárnio para os inimigos da cruz?
Aproprie-se da segurança paternal: Um filho de Deus não precisa viver paralisado pela ansiedade quanto ao amanhã, pelo medo do desemprego ou pelas ameaças da enfermidade. O seu Pai governa as galáxias e cuida pessoalmente de você.
O teólogo puritano J. I. Packer, em sua clássica obra Conhecimento de Deus, sintetizou com maestria o peso doutrinário da adoção na vida cristã:
“Se você deseja avaliar com precisão quão bem uma pessoa compreende a essência profunda do cristianismo, descubra o que ela pensa sobre o privilégio de ser filho de Deus e ter o Criador como seu Pai paternal.”
II. O POVO DE DEUS DEVE SER DIFERENTE DAS PRÁTICAS E DOS DESESPEROS DO MUNDO (v. 1b)
Após estabelecer a base relacional da filiação, Moisés emite a proibição prática imediata:
“...não vos dareis golpes, nem fareis calva entre os olhos por causa de algum morto.” (v. 1)
A exegese deste trecho nos mostra que Deus estava traçando uma linha de demarcação cultural nítida entre o Seu povo e as nações pagãs de Canaã. Para os cananeus, a morte era o fim absoluto da esperança, um evento aterrorizante dominado pelo silêncio do submundo. Diante da perda, eles se desesperavam, rasgavam as suas próprias carnes e mutilavam os seus corpos porque não possuíam a luz da promessa da ressurreição.
Ao proibir essas manifestações extremas e mutiladoras de luto, Deus estava ensinando uma verdade espiritual monumental: O povo da Aliança não pode imitar as estéticas, as metodologias e os desesperos de uma cultura que vive sem Deus e sem esperança. A nossa dor diante das perdas da vida terrena e diante da morte de pessoas amadas é legítima — o próprio Jesus chorou no túmulo de Lázaro —, mas o nosso sofrimento deve ser qualitativamente diferente do desespero do mundo secularizado. Nós choramos com saudades, mas choramos deitando as nossas cabeças no travesseiro da certeza pactual de que a morte foi derrotada e de que o Senhor da Vida tem o controle do porvir.
Este mandamento condena qualquer tipo de mimetismo ou simbiose eclesiástica com o paganismo circundante. A Igreja do Novo Testamento foi colocada por Deus para habitar no meio do mundo, mas ela jamais recebeu autorização para permitir que o mundo habite e governe o seu interior. A santidade prática exige a coragem de ser contra-cultural, de romper com os modismos litúrgicos antropocêntricos e de rejeitar os padrões morais relativistas que a sociedade tenta injetar em nossas famílias.
Pensemos na engenharia de um grande navio cargueiro. Ele foi projetado e construído com o propósito específico de estar no meio do oceano, cercado por milhares de toneladas de água salgada por todos os lados. Enquanto o navio permanece na água, ele cumpre a sua rota de navegação com eficácia. No entanto, o desastre e o naufrágio apóstata acontecem no exato momento em que as fendas do casco se rompem e a água do oceano começa a penetrar no navio, inundando os seus motores. Assim é a Igreja Visible e o crente: nós fomos colocados para navegar no meio da cultura deste mundo, mas o colapso espiritual ocorre quando os valores pecaminosos do mundo penetram no coração do povo de Deus.
Aplicações Práticas
Rejeite o sincretismo estético e moral: O fato de uma prática, de um vocabulário desonesto ou de um estilo de vida hedonista ser considerado comum, aceitável e moderno pela maioria da sociedade não o torna legítimo para um filho de Deus. Avalie tudo pelo filtro absoluto das Escrituras.
Enfrente as perdas com esperança cristã: Quando você passar pelo vale da sombra da morte ou enfrentar o luto em sua casa, não se desespere como aqueles que não possuem a promessa da eternidade. Clame pelo consolo do Espírito Santo e descanse na vitória de Cristo sobre a sepultura.
Tenha a coragem de ser considerado antiquado: Viver em santidade prática vai atrair o escárnio e a incompreensão de uma cultura que idolatra a autonomia individual. Mantenha-se firme nos absolutos da Palavra.
O bispo evangélico anglicano e autor puritano J. C. Ryle alertou com severidade profética em seus escritos sobre os perigos da conformidade cultural:
“A amizade íntima, a flertagem constante e a conformidade cega com os padrões, estéticas e filosofias do mundo sempre funcionarão no meio da Igreja como um veneno lento que enfraquece, paralisa e destrói a nossa comunhão experimental com o Deus Santo.”
III. O POVO DE DEUS É ESCOLHIDO PELA GRAÇA SOBERANA PARA REFLETIR A SUA SANTIDADE (v. 2)
No versículo 2, Moisés eleva o tom do discurso e descortina a causa primária da existência de Israel como nação:
“Porque és povo santo ao Senhor teu Deus, e o Senhor te escolheu para lhe seres o seu povo próprio...” (v. 2)
Prestem muita atenção ao detalhe exegético do termo hebraico Segulah, traduzido aqui como “povo próprio” ou “propriedade peculiar”. No contexto jurídico do Antigo Oriente Próximo, o termo descrevia o tesouro pessoal e privado que um rei possuía em seu palácio, guardado em um cofre especial, distinto dos impostos públicos ou das terras comuns do império. Deus está dizendo que, em meio a todas as nações da terra, Israel era o Seu tesouro particular, a Sua joia de estimação pactual.
Moisés tem o cuidado pastoral de trancar as portas do orgulho e da autossuficiência humana. Ele não está declarando que Israel foi escolhido porque possuía uma performance moral superior, porque era o exército mais numeroso do deserto ou porque ostentava alguma virtude intrínseca. Mais adiante no livro, o profeta reafirmará que Deus os escolheu simplesmente porque os amou e escolheu cumprir o juramento feito aos pais (Deuteronômio 7.7-8). A santidade começa com a eleição soberana; a graça imerecida sempre precede a obediência prática.
Nós fomos lavados, separados e santificados não para nos vangloriarmos de uma suposta superioridade espiritual em relação aos descrentes, mas para agirmos como monumentos vivos da misericórdia divina. Fomos escolhidos no conselho eterno de Deus quando ainda éramos inimigos, alienados e mortos em nossos delitos e pecados. Portanto, a nossa busca diária pela pureza moral e pela sã doutrina não é uma tentativa desesperada de barganhar a nossa salvação, mas a nossa maior e mais sincera resposta de gratidão e adoração ao Deus que nos resgatou das trevas por puro amor.
Pensemos na biografia do patriarca Abraão quando ele habitava em Ur dos Caldeus, no meio de uma cultura completamente idólatra e politeísta, servindo a falsos deuses familiares. Abraão não estava buscando ao Deus Verdadeiro, não possuía méritos espirituais e não havia edificado altares ao Senhor. Foi a voz soberana da graça divina que irrompeu em sua história, chamou-o para fora e o escolheu gratuitamente para ser o pai da fé pactual. A eleição graciosa veio antes de qualquer ato de justiça humana.
Aplicações Práticas
Destrone todo o orgulho espiritual: Se você tem conseguido caminhar em santidade, se o seu casamento permanece firme e se você ama a Palavra, não olhe com desprezo ou altivez para aqueles que ainda estão caídos nas garras do pecado. Toda a sua estabilidade é fruto da graça sustentadora de Deus.
Viva em conformidade com a sua eleição: Se Deus o separou como uma joia preciosa (Segulah) para o Seu uso exclusivo, não se ofereça como instrumento do pecado na internet, na pornografia oculta ou nas práticas corrompidas do mercado da fé.
Alimente a sua segurança na soberania de Deus: A sua salvação e o seu pertencimento não flutuam de acordo com as oscilações das suas emoções diárias; eles estão firmados no decreto inabalável da escolha eleitoral do Senhor.
O reformador João Calvino, ao comentar sobre a doutrina da eleição e o mistério da santificação nas páginas do Pentateuco, asseverou:
“Não encontramos absolutamente nada em nós mesmos, em nossa carne ou em nossos méritos que possa explicar a escolha soberana de Deus, exceto o abismo insondável de Sua infinita e livre misericórdia.”
IV. A IDENTIDADE DO POVO DE DEUS DEVE PRODUZIR UM TESTEMUNHO VISÍVEL (v. 2b)
Moisés encerra a seção delimitando o escopo geográfico e a vocação histórica da eleição de Israel:
“...de todos os povos que há sobre a terra.” (v. 2)
Este trecho nos revela um princípio missiológico de extrema urgência para a Igreja Visível: A eleição jamais foi um privilégio estático para ser guardado em um clube egoísta; ela é uma vocação missionária para tornar a glória de Deus visível perante as nações. Deus colocou Israel na encruzilhada geográfica do mundo antigo — espremido entre as rotas comerciais que ligavam o Egito, a Mesopotâmia e a Europa — exatamente para que o estilo de vida santo, a integridade de suas leis sociais e a pureza do seu culto monoteísta servissem como um espelho que confrontasse a idolatria imoral dos impérios pagãos.
Eles deveriam ser uma nação vitrine. Olhando para a justiça com que Israel cuidava dos necessitados e para a paz de suas famílias sob o senhorio de Deus, as nações vizinhas deveriam ser atraídas a conhecer o Senhor. Na Nova Aliança, o apóstolo Pedro resgata exatamente essa mesma teologia e vocação de Deuteronômio 14 ao escrever para a Igreja da Diáspora: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2.9).
A santidade prática do cristão é a ferramenta apologética e evangelística mais poderosa de que a Igreja dispõe na história. O mundo ímpio e secularizado não lê tratados de teologia sistemática e não frequenta os nossos concílios eclesiásticos; o mundo lê a biografia cotidiana das nossas vidas. Ele avalia a veracidade do Evangelho que pregamos através da fidelidade dos nossos casamentos, da integridade das nossas transações comerciais e da compaixão com que estendemos as mãos aos vulneráveis da nossa sociedade.
Lembremo-nos do impacto avassalador que a Igreja Primitiva causou nas estruturas pagãs do Império Romano durante os três primeiros séculos. Os primeiros cristãos não possuíam templos suntuosos, não detinham o poder das legiões militares e não controlavam os recursos econômicos do senado romano; eles eram perseguidos e jogados nas arenas das feras. Contudo, a diferença absoluta de suas vidas — a forma como eles recolhiam os bebês rejeitados nas lixeiras de Roma, o amor sacrificial com que cuidavam dos doentes durante as grandes pestes e a santidade inegociável de seus lares — funcionou como um farol no meio de uma tempestade escura. Eles implodiram o paganismo do maior império da antiguidade através do testemunho visível de suas vidas transformadas.
Aplicações Práticas
Seja sal da terra e luz do mundo: O seu ambiente de trabalho ou o seu campus universitário tem sido confrontado pela pureza da sua conduta? As pessoas ao seu redor conseguem perceber, sem que você precise abrir a boca, que o seu coração pertence a um Deus que é Santo?
Abrace a responsabilidade missionária: Entenda que a sua santificação não é um evento privado ou místico para o seu próprio bem-estar psicológico; ela é o instrumento de Deus para atrair pecadores arrependidos aos pés da cruz.
Viva para a glória exclusiva do Pai: O alvo final de toda a sua dedicação e retidão ética deve ser a exaltação do nome de Cristo e não a busca por vaidade ou respeitabilidade religiosa pessoal.
O grande "Príncipe dos Pregadores", o batista reformado Charles Haddon Spurgeon, exortou o seu rebanho em Londres sobre o poder do testemunho cristão prático:
“A melhor, mais eficaz e irrefutável defesa do Evangelho de Cristo contra os ataques do ceticismo não se faz com argumentos intelectuais complexos, mas com a beleza de uma vida cotidianamente transformada pela santidade do Senhor.”
CRISTO NO TEXTO
Amados irmãos e irmãs, como intérpretes responsáveis da totalidade do cânon bíblico, sabemos com clareza exegética que as leis, os tipos e as sombras de Deuteronômio funcionam como um grandioso mapa cujas linhas deságuam com absoluta perfeição na Pessoa e na Obra de nosso Senhor Jesus Cristo. Deuteronômio 14.1-2 projeta a glória do Calvário de maneira extraordinária.
Em primeiro lugar, o texto declara que Israel era o "filho de Deus", mas o testemunho amargo da história do Antigo Testamento nos prova que o primeiro Israel fracassou miseravelmente em sua filiação. Eles murmuraram no deserto, prostituíram-se com os deuses de Canaã e agiram como filhos rebeldes e obstinados de dura cerviz. Jesus Cristo veio a este mundo como o Verdadeiro Israel de Deus, o Filho Perfeito da Aliança. Na horizontal da história, encarnado em nossa carne, Jesus viveu uma vida de absoluta, imaculada e irretocável obediência pactual ao Pai Celestial. Onde o primeiro povo capitulou diante da tentação, Cristo venceu o diabo no deserto fundamentando cada vitória na Palavra Escrita. Ele foi o Filho amado em quem o coração do Pai encontrou pleno e eterno contentamento.
Em segundo lugar, Jesus cumpriu perfeitamente o mandamento de viver de forma distinta e santa no meio de um mundo decaído. Ele assentou-se à mesa com publicanos e pecadores, abraçou os leprosos e aproximou-se dos marginalizados da sociedade, mas jamais permitiu que o contágio ou a impureza do pecado tocasse a Sua essência santa. Ele esteve no meio da tempestade do mundo sem reter em Si mácula alguma, cumprindo cada jota e cada til da lei moral de Deus em nosso lugar através de Sua obediência ativa.
Em terceiro lugar, este texto nos constringe a olhar para o Calvário com lágrimas de profunda gratidão. Diante do padrão estabelecido em Deuteronômio 14, nós éramos os idólatras; nós éramos aqueles que se cortavam e se mutilavam espiritualmente nas práticas desesperadas do pecado; nós éramos os rebeldes dignos de sermos riscados do livro da vida. Contudo, na colina do Gólgota, Jesus Cristo voluntariamente colocou-Se em nosso lugar como o nosso Substituto Vicário. O Filho Perfeito foi desamparado pelo Pai na cruz para que nós, os filhos pródigos e rebeldes, fôssemos recebidos com as vestes da justiça. Ele suportou as feridas e os golpes da ira santa que as nossas idolatrias mereciam, para que pelas Suas pisaduras fôssemos sarados.
Por meio de Sua ressurreição triunfante, Cristo nos concedeu a Sua própria identidade. Agora, nós não somos mais estrangeiros ou alienados; em Cristo, nós somos constituídos como raça eleita, nação santa, propriedade exclusiva do Senhor e filhos legítimos do Altíssimo. Tudo aquilo que a Lei ordenava de fora, Cristo grava em nossos corações por meio da habitação interna do Espírito Santo, capacitando-nos a marchar em novidade de vida rumo à Pátria Celestial.
O teólogo dogmático holandês Herman Bavinck sintetizou com precisão essa transferência gloriosa de identidade operada pelo Redentor:
“Jesus Cristo é o Filho Eterno que voluntariamente esvaziou-Se de Sua glória e assumiu as nossas dores na cruz, com o desígnio soberano de transformar em filhos amados e herdeiros santos aqueles que, por natureza, eram apenas inimigos decaídos de Deus.”
CONCLUSÃO
Ao fecharmos o manuscrito desta exposição teológica de Deuteronômio 14.1-2, fixemos em nossas mentes e corações estas quatro verdades perenes sobre a nossa identidade pactual:
O povo de Deus possui uma relação indelével de filiação com o Senhor: A nossa segurança e a nossa motivação para a obediência nascem do amor paternal de Deus.
O povo de Deus deve cultivar uma distinção visível em relação às práticas do mundo: A nossa esperança diante das perdas e o nosso padrão de vida devem confrontar o desespero e o relativismo da cultura secularizada.
O povo de Deus é escolhido soberanamente pela graça para refletir a santidade divina: A nossa salvação não se alicerça em nossos méritos humanos, mas na escolha livre e imerecida do Senhor que nos separou para Si.
A identidade do povo de Deus deve se traduzir em um testemunho visível na história: Fomos eleitos para agirmos como vitrines da graça e faróis da glória de Deus perante uma sociedade corrompida.
A grande, urgente e central pergunta que emana deste texto sagrado diretamente para o tribunal da sua consciência neste dia é:
A estrutura das suas decisões diárias, o ambiente do seu lar e as motivações ocultas do seu coração revelam com clareza que você pertence, por inteiro, ao Deus Santo?
Meu amado irmão, minha amada irmã, querido ouvinte da preciosa e imutável Palavra do Deus Vivo: nós habitamos em um mundo confuso que tenta, a cada segundo, capturar a sua mente e redefinir a sua identidade através das lentes do consumo, do relativismo moral e do hedonismo desenfreado. O sistema secular deste século quer convencer você de que você é o resultado de suas posses materiais, dos seus erros do passado ou do julgamento alheio.
No meio desse tiroteio de vozes e slogans antropocêntricos, o Espírito Santo de Deus ergue a Sua voz soberana através das páginas de Deuteronômio nesta oportunidade e declara com ternura e gravidade cortantes ao seu coração: “Filhos sois do Senhor, vosso Deus”.
Se você foi alcançado pela graça eficaz, se você correu para os braços abertos de Jesus Cristo com arrependimento e fé, essa é a sua verdadeira, inalterável e eterna identidade. Você não pertence mais ao cativeiro do pecado; você não pertence mais à escravidão dos velhos hábitos carnais; você não pertence mais ao império do desespero e do medo. Você pertence, por inteiro e por direito de compra de sangue, ao Senhor do Universo!
Portanto, não viva mais nenhum segundo prostrado no chão, imitando os desesperos e as automutilações de uma cultura que caminha a passos largos em direção ao abismo. Rompa com o sincretismo litúrgico e moral que tem anestesiado a sua devoção secreta. Viva como um filho legítimo da realeza do Reino! Ande em santidade prática no recesso do seu lar, na privacidade do seu computador e nas trincheiras do seu trabalho cotidiano. Reflita com coragem e ousadia o caráter santo, justo e compassivo do seu Pai Celestial. Faça com que a integridade da sua biografia proclame a esta geração que existe um Deus vivo, gracioso e digno de toda a nossa adoração.
Que a nossa congregação marche de cabeça erguida, unida nos trilhos da obediência fiel, e que possamos repetir diariamente com santo espanto e adoração ardente as palavras inspiradas do apóstolo João registradas no coração do Novo Testamento:
“Vede que grande e incomensurável amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados e constituídos como verdadeiros filhos de Deus; e, de fato, nós o somos!” (1 João 3.1)
Que o Deus da Aliança nos concede discernimento teológico, firmeza ética e fidelidade inabalável até o último dia da nossa jornada histórica rumo à Pátria Celestial. Amém.
Pr. Eli Vieira
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