Texto: Josué 15.20–63
Texto-chave: “Esta é a herança da tribo dos filhos
de Judá, segundo as suas famílias.” (Josué 15.20)
CONTEXTUALIZAÇÃO
Josué 15.20–63 é uma passagem que muitos leitores têm a
tentação de percorrer rapidamente. São dezenas de nomes de cidades, regiões e
localidades. Contudo, essa lista não é um apêndice sem importância. Para
Israel, cada nome significava que Deus estava transformando uma promessa antiga
em uma herança concreta.
Ao mesmo tempo, o versículo 63 termina o capítulo com uma
nota preocupante: os jebuseus permaneceram em Jerusalém. Assim, o texto une
duas realidades: a fidelidade absoluta de Deus e a responsabilidade ainda
incompleta do Seu povo.
INTRODUÇÃO
Irmãos, há partes da Bíblia que nos emocionam imediatamente.
Quando lemos o Salmo 23:
“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará”,
nosso coração é tocado.
Quando ouvimos João 3.16, somos conduzidos diretamente ao
amor de Deus.
Quando lemos Romanos 8, encontramos promessas que fortalecem
nossa alma.
Mas então chegamos a textos como Josué 15.20–63.
E o que encontramos?
Nomes.
Muitos nomes.
Cabzeel. Éder. Jagur. Ziclague. En-Gedi. Zanoa. Queila.
Maressa. Hebrom. Quiriate-Arba. E dezenas de outras localidades.
Alguém poderia perguntar:
“Pastor, o que Deus quer ensinar à Igreja por meio de uma
lista de cidades antigas?” A resposta é: muito mais do que imaginamos.
Porque aquilo que para nós é apenas uma lista era, para Israel, a documentação
da fidelidade de Deus.
Imagine uma família da tribo de Judá ouvindo o nome de sua
cidade.
Quando aquele nome era pronunciado, não era simplesmente
geografia.
Era herança. Era promessa cumprida. Era Deus dizendo:
“Eu não esqueci aquilo que prometi.” Séculos antes,
Deus havia chamado Abraão e declarado:
“Darei à tua descendência esta terra.” (Gênesis 12.7)
Abraão morreu sem ver o cumprimento pleno. Isaque morreu.
Jacó morreu. José morreu. Israel passou séculos no Egito. Depois vieram
quarenta anos no deserto.
Mas Deus não esqueceu.
Agora, em Josué 15, cada cidade registrada é como uma
assinatura divina debaixo da promessa feita aos patriarcas. Deus cumpre Sua
Palavra.
Mas existe algo ainda mais profundo. O capítulo termina
dizendo:
“Não puderam, porém, os filhos de Judá expulsar os
jebuseus que habitavam em Jerusalém.” (v.63)
Portanto, o texto termina com um contraste:
- De
um lado: Deus cumprindo fielmente Sua promessa.
- Do
outro: Israel ainda deixando uma tarefa incompleta.
E é justamente nessa tensão que encontramos a mensagem deste
texto para nós.
Josué 15 apresenta a distribuição da herança de Judá.
- Nos
versículos 1–12, são descritos os limites territoriais.
- Nos
versículos 13–19, encontramos a narrativa de Calebe, Otniel e Acsa.
- Agora,
nos versículos 20–63, o texto apresenta as cidades pertencentes à tribo de
Judá.
A lista é organizada geograficamente, abrangendo cidades:
- No
Neguebe, ao sul;
- Na
Sefelá, a região das planícies e colinas;
- Nas
montanhas;
- No
deserto de Judá.
Isso mostra que a herança de Judá era extensa e
diversificada.
Mas o texto não termina simplesmente com a lista. O
versículo 63 registra que os jebuseus ainda permaneciam em Jerusalém. Essa
observação prepara o leitor para problemas posteriores.
Portanto, temos diante de nós um texto sobre: promessa,
herança, providência, responsabilidade e perseverança.
A fidelidade de Deus manifesta-se até nos detalhes de Suas promessas, mas aqueles que recebem Sua herança são chamados a desfrutá-la com gratidão, responsabilidade e perseverante obediência.
Josué 15.20–63 nos apresenta três grandes verdades sobre a fidelidade de Deus e nossa responsabilidade diante da herança que Ele nos concede.
I – DEUS CUMPRE SUAS PROMESSAS NOS MÍNIMOS DETALHES (Js
15.20–62)
O versículo 20 introduz toda a lista:
“Esta é a herança da tribo dos filhos de Judá, segundo as
suas famílias.” Observe a palavra: “herança”.
Não era simplesmente território conquistado; era herança
recebida.
Isso significa que por trás da geografia havia teologia. Por
trás das cidades havia promessa. Por trás das fronteiras havia fidelidade.
1. Nenhuma promessa de Deus é esquecida
Quando Deus chamou Abraão, prometeu uma terra à sua
descendência. Décadas transformaram-se em séculos. Mas Deus continuou
lembrando-se de Sua aliança.
Nós frequentemente interpretamos demora como esquecimento.
Deus não.
“Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a
julgam demorada.” (2Pedro 3.9)
O relógio de Deus não funciona segundo nossa ansiedade. Ele
trabalha conforme Sua perfeita sabedoria. Aquilo que parece atraso para nós
pode ser preparação dentro da providência divina.
2. Deus não é fiel apenas nas grandes coisas
Observe quantos detalhes aparecem no texto. Não temos
apenas: “Judá recebeu uma terra.” Temos cidades específicas, limites
específicos, regiões específicas e famílias específicas.
Isso nos mostra que a providência de Deus não trabalha
apenas em escala nacional. O Senhor governa também os detalhes.
“Até os cabelos todos da cabeça estão contados.”
(Mateus 10.30)
João Calvino, ao tratar da providência, insiste que nada acontece fortuitamente fora do governo paternal de Deus. Essa doutrina não deveria tornar-nos fatalistas; deveria tornar-nos confiantes.
O Deus que
governa a história também conhece nossa casa, nossa família, nosso trabalho,
nossas lágrimas e nossas necessidades.
3. O que parece apenas um nome pode carregar uma história
de graça
Nós lemos “Cabzeel”, “Ziclague”, “Hebrom”, “En-Gedi”. Mas imagine alguém pertencente àquela região ouvindo sua própria cidade: “Esse lugar é nosso porque Deus foi fiel.”
Há acontecimentos em nossa vida que talvez pareçam pequenos para outras pessoas, mas nós sabemos o que significam: uma porta aberta, uma oração respondida, uma conversão, uma reconciliação, uma provisão inesperada, um filho restaurado, uma igreja preservada.
Para outros pode ser apenas um acontecimento; para nós é uma
lembrança: “O Senhor foi fiel.”
4. Devemos aprender a registrar a fidelidade de Deus
A Bíblia está cheia de memoriais. Israel ergue pedras,
constrói altares, celebra festas e conta histórias aos filhos. Por quê? Porque
temos facilidade para esquecer.
“Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueces de
nem um só de seus benefícios.” (Salmo 103.2)
Uma das disciplinas espirituais mais importantes é aprender
a lembrar.
Ilustração:
George Müller ficou conhecido por registrar cuidadosamente respostas às suas orações durante seu ministério com órfãos em Bristol.
Os
registros não serviam para exaltar Müller; serviam para testemunhar: “Deus
respondeu. Deus sustentou. Deus proveu.” Josué 15 funciona de maneira
semelhante. Cada cidade é um memorial escrito: Deus cumpriu Sua promessa.
Aplicações
- Não
despreze os detalhes da providência.
- Aprenda
a contar às próximas gerações aquilo que Deus fez.
- Não
transforme demora em incredulidade. Quando uma promessa bíblica parecer
distante, lembre-se: Deus não esquece.
- Mantenha
memoriais espirituais da graça recebida.
II – A HERANÇA RECEBIDA DEVE SER ADMINISTRADA PARA A
GLÓRIA DE DEUS (Js 15.20–62)
Há outra verdade presente nessa longa lista. As cidades não
foram dadas a Judá apenas para serem admiradas; deveriam ser habitadas,
cultivadas, protegidas e administradas. A herança trazia responsabilidade.
Esse princípio atravessa toda a Bíblia:
“O que se requer dos despenseiros é que cada um deles
seja encontrado fiel.” (1Coríntios 4.2)
1. Toda bênção é também uma responsabilidade
Deus lhe deu uma família? Administre-a para Sua glória. Deu
recursos? Use-os para Sua glória. Deu conhecimento? Use-o para servir. Deu
influência? Use-a para edificar. Deu dons? Coloque-os à disposição do Corpo de
Cristo.
O grande erro é pensar: “Deus me deu isto para mim.”
A perspectiva bíblica pergunta: “Por que Deus colocou isto em minhas mãos?”
2. Deus concede diferentes porções
As cidades de Judá não eram iguais. Algumas ficavam nas
montanhas, outras no deserto, outras em regiões agrícolas, e outras em posições
estratégicas. Mas todas faziam parte da mesma herança.
Da mesma forma, Deus não entrega a todos os cristãos
exatamente as mesmas responsabilidades.
“Temos diferentes dons segundo a graça que nos foi dada.”
(Romanos 12.6)
O problema começa quando deixamos de cuidar de nossa porção porque estamos olhando para a porção do outro.
Comparação produz inveja,
ingratidão, competição e desânimo. Contentamento produz fidelidade.
3. Fidelidade importa mais que visibilidade
Algumas cidades da lista tornaram-se famosas; outras são
quase desconhecidas para nós. Mas todas estão registradas.
No Reino de Deus existem ministérios conhecidos e serviços que quase ninguém vê. Existem púlpitos, mas existem também salas de oração.
Existem pregadores, mas existem também pessoas que chegam cedo para abrir a
igreja. Existem missionários conhecidos, mas existem mantenedores anônimos.
Existem grandes responsabilidades públicas e pequenos atos de fidelidade que
somente Deus conhece.
Nada disso é esquecido pelo Senhor.
“Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso
trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome.” (Hebreus 6.10)
4. A pergunta final não será sobre tamanho, mas
fidelidade
Jesus não disse ao servo da parábola: “Servo famoso e
influente.” Disse:
“Muito bem, servo bom e fiel.” (Mateus 25.21)
Essa deve ser nossa ambição: não necessariamente ser grande
aos olhos dos homens, mas ser fiel diante de Deus.
Ilustração:
Em uma grande construção, algumas pedras ficam na fachada e são admiradas por todos. Outras permanecem escondidas nos fundamentos.
Mas
retire as pedras do fundamento e toda a estrutura fica comprometida. Assim é a
Igreja. Nem todo serviço será visível, mas todo serviço fiel possui valor
diante de Deus.
Aplicações
- Pare
de medir seu chamado pela visibilidade.
- Administre
fielmente sua “cidade”: sua casa, seu ministério, seu tempo, seus recursos
e seus dons.
- Não
inveje a porção de outra pessoa.
- Lembre-se:
Deus não pedirá contas daquilo que entregou ao outro; pedirá contas
daquilo que confiou a você.
III – UMA HERANÇA RECEBIDA NÃO JUSTIFICA UMA OBEDIÊNCIA
INCOMPLETA (Js 15.63)
Depois de uma longa lista de cidades, o capítulo termina de
maneira surpreendente:
“Não puderam, porém, os filhos de Judá expulsar os
jebuseus que habitavam em Jerusalém; assim, habitam os jebuseus com os filhos
de Judá em Jerusalém até ao dia de hoje.” Aqui surge uma nota de tensão: Deus
foi fiel, mas a tarefa de Judá permaneceu incompleta.
1. Vitórias anteriores não justificam acomodação presente
Judá havia recebido muito e conquistado muito. Mas ainda
havia algo a fazer.
Nunca devemos permitir que as vitórias de ontem se tornem
desculpa para a acomodação de hoje. Paulo, mesmo depois de décadas de
ministério, declarou:
“Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtained a
perfeição; mas prossigo...” (Filipenses 3.12)
O cristão maduro nunca diz “Já cheguei”; ele continua
avançando.
2. Pecados tolerados podem tornar-se problemas
prolongados
Os jebuseus permaneceram, e mais tarde Jerusalém continuaria
sendo um ponto de conflito até o período de Davi.
O princípio espiritual é claro: aquilo que toleramos hoje pode tornar-se uma batalha amanhã.
John Owen formulou a conhecida
advertência: “Esteja matando o pecado, ou ele estará matando você.” Não
fazemos alianças com o pecado, não o domesticamos e não o mantemos como
hóspede; pela graça e pelo Espírito, mortificamos o pecado.
3. Obediência parcial continua sendo obediência
incompleta
Podemos obedecer em muitas áreas e manter uma pequena “Jerusalém jebusita” no coração.
Podemos ser fiéis no culto e negligentes em
casa; fiéis na doutrina e indulgentes com o orgulho; fiéis no ministério e
descuidados na vida devocional; fiéis externamente e alimentando pecados
secretos.
Davi orou:
“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração.” (Salmo
139.23)
Essa deveria ser nossa oração: “Senhor, existe alguma
área ainda não submetida ao Teu governo?”
4. Precisamos de um Conquistador maior
Aqui o texto nos conduz a Cristo. Judá não completou
plenamente sua conquista, e Josué não proporcionou o descanso definitivo. Mas
Jesus veio. Ele pertence à tribo de Judá. Apocalipse O chama:
“O Leão da tribo de Judá.” (Apocalipse 5.5)
Ele enfrentou os inimigos que jamais conseguiríamos vencer:
o pecado, a culpa, Satanás e a morte. Na cruz, parecia derrotado, mas
ressuscitou.
“Tragada foi a morte pela vitória.” (1Coríntios
15.54)
A esperança cristã não está em nossa capacidade de concluir
perfeitamente a conquista. Está naquele que declarou:
“Está consumado.” (João 19.30)
Aplicações Práticas:
À luz de toda a passagem, precisamos perguntar:
- Onde
preciso reconhecer novamente a fidelidade de Deus?
- O
que Deus colocou sob minha responsabilidade?
- Existe
alguma área de obediência incompleta em minha vida? Que pecado tenho
tolerado?
- Estou
vivendo das vitórias do passado ou avançando em santificação?
- Minha
confiança está em minha capacidade ou na vitória de Cristo?
CONCLUSÃO
Josué 15.20–63 começa com uma herança e termina com uma batalha ainda não concluída.
Entre esses dois pontos existem dezenas de cidades, e cada nome proclama: Deus foi fiel. - Cabzeel: Deus foi fiel. - Ziclague: Deus foi fiel. - Hebrom: Deus foi fiel. - En-Gedi: Deus foi fiel.
Mas quando chegamos ao versículo 63, ouvimos
outra mensagem: Ainda existe trabalho a fazer. E talvez essa seja uma
excelente descrição da vida cristã:
- Quando
olhamos para trás: Quanta fidelidade de Deus!
- Quando
olhamos para dentro: Quanto ainda precisa ser transformado!
- Quando
olhamos para frente: Quanto ainda temos para avançar!
- E
quando olhamos para Cristo: Quanta esperança!
Irmãos, Deus foi fiel ontem, Deus é fiel hoje, e Deus
continuará fiel amanhã.
A pergunta é: Como responderemos à Sua fidelidade?
Com acomodação ou com obediência?
Com ingratidão ou com adoração?
Com tolerância ao pecado ou com santificação?
Que possamos dizer:
“Senhor, tudo o que tenho veio de Ti. Ajuda-me a administrar fielmente minha herança e não permitir que nenhuma área da minha vida permaneça deliberadamente fora do Teu governo.”
Porque, no fim, nossa esperança não repousa na perfeição da nossa fidelidade; repousa na perfeição da fidelidade de Cristo. Ele é o verdadeiro Leão da tribo de Judá.
Ele venceu, Ele
reina, e Ele completará Sua obra em nós. Chegará o dia em que não haverá mais
território ocupado pelo inimigo, não haverá pecado, não haverá morte e não
haverá maldição. Cristo fará novas todas as coisas.
Até esse dia:
- Lembremo-nos
da fidelidade de Deus;
- Administremos
com fidelidade aquilo que Ele nos confiou;
- Não
toleremos áreas de desobediência;
- E
continuemos avançando, olhando firmemente para Jesus.
“Fiel é o que vos chama, o qual também o fará.”
(1Tessalonicenses 5.24)
Soli Deo Gloria. Amém.
Pr. Eli Vieira Filho

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