Texto: Josué 12.1–24
Texto-chave: "...ao todo, trinta e um reis." (Josué 12.24)
Vivemos numa geração que registra quase tudo. Fotografamos aniversários, filmamos casamentos, guardamos diplomas, arquivamos documentos e criamos álbuns digitais para eternizar cada instante.
Contudo, existe um
contraste curioso e doloroso nessa realidade: enquanto registramos facilmente
os acontecimentos seculares da vida, esquecemos com assustadora rapidez as
grandes obras de Deus.
O povo de Israel corria exatamente esse risco. Depois de longos e exaustivos anos no deserto e na frente de batalha, seria extremamente tentador focar apenas nas urgências do presente e esquecer a trajetória percorrida.
Mas Deus não queria que o Seu povo desenvolvesse amnésia
espiritual. Por essa razão, Josué 12 nos apresenta uma extensa e minuciosa
lista de conquistas.
À primeira leitura superficial, este capítulo pode parecer apenas um relatório histórico frio ou um registro administrativo. Mas não é. Trata-se de um memorial da graça.
Cada nome mencionado representa uma batalha
enfrentada; cada rei derrotado simboliza uma promessa cumprida; cada cidade
conquistada testemunha silenciosamente que o Senhor permaneceu perfeitamente
fiel.
Este texto nos ensina que a memória espiritual é parte
indispensável da maturidade cristã. O povo de Deus precisa aprender a olhar
para trás — não para viver de nostalgias e saudosismo do passado, mas para
fortalecer sua fé diante das batalhas do presente.
Como bem observou o teólogo Dale Ralph Davis:
"As listas da Bíblia não existem para cansar o leitor, mas para lembrá-lo de que Deus atua concretamente na história."
O capítulo 12 do livro de Josué divide-se naturalmente em
duas partes principais:
- Primeira Parte (vv. 1–6): Recorda as vitórias obtidas ainda sob a liderança de Moisés, na região a leste do rio Jordão (Transjordânia). São destacados o confronto e a derrota de Seom, rei dos amorreus, e de Ogue, rei de Basã. Essas terras conquistadas foram distribuídas como herança às tribos de Rúben, Gade e à meia tribo de Manassés.
- Segunda
Parte (vv. 7–24): Resume o catálogo abrangente das vitórias alcançadas
sob o comando de Josué na terra de Canaã (a oeste do Jordão). O texto
apresenta um total impressionante de trinta e um reis derrotados.
Notavelmente, a narrativa não detalha a tática ou o heroísmo humano de cada combate; cita apenas os nomes dos reis e de seus domínios.
Por quê? Porque a intenção do Espírito Santo não é construir um monumento à bravura militar de Josué, mas demonstrar a fidelidade contínua, soberana e inabalável do Senhor. Cada nome gravado no texto afirma em alto e bom som: "Deus cumpriu rigorosamente aquilo que prometeu."
O povo de Deus fortalece sua fé para as batalhas presentes quando se lembra da fidelidade do Senhor demonstrada nas vitórias passadas.
Josué 12 apresenta quatro lições fundamentais sobre a
importância de recordar tudo o que Deus realizou em favor do Seu povo.
I – A MEMÓRIA DA FIDELIDADE DE DEUS ALIMENTA A NOSSA FÉ
(Js 12.1–6)
O capítulo começa fazendo uma pausa no avanço presente para realizar um resgate histórico. Antes de citar Josué, o autor inspirado retorna aos feitos realizados durante a liderança de Moisés.
Esse movimento pedagógico revela que a obra de Deus não começou ontem; ela atravessa gerações e se desenvolve ao longo do tempo.
As vitórias do presente sempre germinam no solo
da fidelidade divina demonstrada no passado.
1. Deus nunca esquece Suas promessas
O Senhor havia declarado solemnemente a Abraão séculos antes: "À tua descendência darei esta terra" (Gn 12.7). Centenas de anos se passaram.
Abraão, Isaque, Jacó, José e Moisés morreram no
caminho. No entanto, a aliança de Deus permaneceu intacta. A morte dos
instrumentos humanos jamais paralisa o cumprimento da Palavra de Deus.
Como afirma o apóstolo Pedro: "O Senhor não retarda
a sua promessa..." (2Pe 3.9). O tempo pode mudar e as gerações podem
passar, mas a verdade do Senhor permanece para sempre. Comenta João Calvino:
"A demora no cumprimento das promessas divinas nunca
significa o seu abandono."
2. Cada vitória pertence exclusivamente ao Senhor
Perceba que a Escritura não eleva Moisés ou Josué à condição de mitos invencíveis. O foco absoluto permanece sobre a ação soberana de Deus.
Este é um princípio transversal de toda a Bíblia: quando Israel cruzou o Mar
Vermelho, Moisés cantou ao Senhor; após a queda de Sísera, Débora cantou ao
Senhor; diante do livramento de Jerusalém, Ezequias adorou ao Senhor. Toda
vitória genuína aponta para a glória do Pai.
O grande perigo da caminhada espiritual surge quando o coração tenta usurpar a glória das conquistas. Moisés já havia alertado o povo em Deuteronômio 8.17: "Não digas, pois, no teu coração: A minha força e o poder do meu braço me adquiriram estas riquezas."
Reconhecer o
passado é declarar que a glória de tudo pertence unicamente a Deus.
3. A memória fortalece a esperança
Ao trazer à lembrança as derrotas impostas aos temíveis reis
Seom e Ogue, a nova geração de Israel aprendeu uma lição vital: se o Senhor
venceu gigantes e impérios no passado, Ele continuaria livrando o Seu povo dos
desafios do futuro. A memória santa é o combustível da esperança.
Foi exatamente isso que fez o jovem Davi antes de confrontar Golias. Ele olhou para trás e recordou: "O Senhor me livrou das garras do leão e do urso; ele me livrá deste filisteu" (1Sm 17.37).
A fé
madura olha para o passado para renovar a coragem diante do amanhã. Matthew
Henry observou com precisão:
"As misericórdias passadas tornam-se argumentos
infalíveis para confiarmos nas misericórdias futuras."
4. Nossa história é construída sobre o legado da
fidelidade divina
Josué 12 nos lembra que a nossa jornada espiritual nunca começa do zero. Nós somos herdeiros de um longo legado de graça.
Moisés preparou o caminho, Josué avançou, os juízes governaram, Davi estabeleceu o reino, os profetas anunciaram e Cristo consumou a redenção.
A Igreja de hoje
recebe a mensagem do Evangelho através do testemunho fiel de gerações
anteriores, e nossa responsabilidade é preservar e transmitir esse tesouro às
próximas gerações.
Ilustração
Quando visitamos cidades históricas, encontramos monumentos e placas de bronze cravadas em praças e edifícios. Eles foram erguidos para impedir que as gerações vindouras se esqueçam dos sacrifícios e vitórias que moldaram a nação.
Josué 12.1–6 atua como um monumento espiritual na Bíblia:
cada linha foi cravada para clamar à nossa alma: "Não se esqueçam
daquilo que o Senhor já fez por vocês!"
Aplicações do Primeiro Ponto:
- Faça
memória constante e consciente das bênçãos e livramentos que Deus já
concedeu à sua vida.
- Rejeite
toda soberba, jamais atribuindo o sucesso de sua vida, trabalho ou
ministério à sua capacidade pessoal.
- Utilize
os testemunhos das intervenções passadas de Deus para acalmar a ansiedade
e encarar os gigantes do presente.
- Conte
aos seus filhos, familiares e discípulos as grandes obras que Deus
realizou em sua história.
- Cultive
uma postura diária de profunda gratidão ao Senhor por Sua fidelidade
ininterrupta.
II – CADA VITÓRIA REGISTRADA TESTEMUNHA A FIDELIDADE
IMUTÁVEL DE DEUS (Js 12.7–24)
A segunda seção do capítulo detalha o catálogo dos reis derrotados sob a liderança de Josué na terra prometida.
Em vez de registrar um resumo genérico como "Josué conquistou toda a região", o Espírito Santo fez questão de discriminar trinta e um reis, cidade por cidade.
Essa
minúcia revela a preciosidade de cada marco de graça aos olhos de Deus.
1. Deus conhece cada batalha individual de Seu povo
A lista abre com o rei de Jericó e o rei de Ai, prosseguindo por Jerusalém, Hebrom, Jarmute, Laquis, Eglom, Gezer, Debir, até completar trinta e um soberanos.
Cada nome gravado representa um confronto real, um
terreno perigoso e uma crise superada. Israel poderia vir a esquecer os
detalhes de algumas dessas batalhas, mas Deus não esqueceu nenhuma delas.
Isso revela o cuidado profundamente pessoal do Senhor. Ele
conhece detalhadamente:
- As
orações fervorosas feitas em secreto;
- As
lágrimas derramadas nos momentos de dor;
- As
noites de angústia e insônia;
- Os
conflitos espirituais invisíveis aos olhos humanos;
- As
tentações enfrentadas e vencidas pela graça;
- As
aflições suportadas com paciência.
Conforme declara o salmista: "Contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no teu odre" (Sl 56.8).
Nosso Deus não nos governa à distância ou de modo
genérico; Seu cuidado é meticuloso e individual.
2. Cada vitória é a confirmação de uma promessa
Nenhum rei desta lista caiu por mero acidente geopolítico ou superioridade tática de Israel. Eles caíram porque o Deus Soberano havia prometido entregar aquela terra ao Seu povo.
Ao examinar esse catálogo, Josué
não via uma lista de títulos pessoais, mas um monumento à veracidade da Palavra
de Deus.
Quando olhamos para a história de nossa vida, a pergunta
central não deve ser "O que eu consegui alcançar com meu esforço?",
mas sim "Quais foram as promessas que o Senhor cumpriu em Sua
misericórdia?". C. H. Spurgeon afirmou:
"Toda vitória do cristão é um monumento erguido à
fidelidade indescritível de Deus."
3. Nenhum inimigo resiste aos propósitos do Senhor
O capítulo encerra com o somatório impressionante: "...ao todo, trinta e um reis" (v. 24). Nenhum deles conseguiu permanecer de pé; nenhuma coalizão inimiga foi capaz de frustrar os decretos de Deus.
Isso
não significa que a conquista tenha sido fácil ou sem dor. Houve batalhas
árduas, esforço prolongado e discipline após fracassos momentâneos (como no
Vale de Acor). Porém, o resultado final permaneceu exatamente como o Senhor
havia determinado.
Essa verdade ecoa pelas Escrituras: "Toda ferramenta preparada contra ti não prosperará" (Is 54.17). E Cristo declarou categoricamente: "Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16.18).
Os inimigos da fé se alteram a
cada século, mas o triunfo de Deus permanece inabalável.
4. O povo de Deus precisa cultivar a disciplina da
memória espiritual
Josué registrou essa extensa lista para proteger o povo contra o pecado da amnésia espiritual. O ser humano regenerado ainda luta contra uma triste inclinação para esquecer rapidamente as respostas de oração, as provisões miraculosas e as consolações recebidas nas horas difíceis.
Por
isso, a alma necessita do comando direto do Salmo 103.2: "Bendize, ó
minha alma, ao Senhor, e não te esqueces de nenhum só de seus benefícios."
Como advertiu o reformador João Calvino:
"A ingratidão nefanda nasce no momento exato em que
deixamos de meditar continuamente nas misericórdias do Senhor."
Ilustração
Muitas famílias guardam com carinho antigos álbuns de fotos. Ao folhear suas páginas, lembram-se de nascimentos, superações e momentos marcantes da caminhada familiar.
Josué 12 funciona como o grande "álbum de família" do povo de Israel. O célebre evangelista George Müller mantinha um diário onde registrava minuciosamente cada oração respondida ao longo de sua vida.
Quando enfrentava crises financeiras nos orfanatos, ele abria seus
diários, lia os registros passados, renovava sua fé e descansava no Deus que
nunca falha.
Aplicações Práticas:
- Mantenha
um registro de orações respondidas e livramentos concedidos por Deus à sua
vida e família.
- Transforme
a lembrança de suas vitórias em atos concretos de adoração e louvor no
altar de Deus.
- Enfrente
as incertezas e crises de hoje trazendo à mente as portas que Deus abriu
ontem.
- Mobilize
sua família e comunidade para celebrar publicamente os marcos da graça
divina.
- Aprenda
a dar graças pelas pequenas vitórias diárias — pela tentação resistida,
pela paz mantida e pelo sustento diário fornecido.
III – A SOBERANIA DE DEUS GOVERNA TODA A HISTÓRIA E
GARANTE A VITÓRIA DO SEU POVO (Js 12.7–24)
Diante do registro minucioso dos trinta e um reis em Josué 12, podemos perguntar: por que o Espírito Santo não resumiu o capítulo dizendo apenas que a terra fora dominada?
A resposta reside na verdade central da soberania divina: a história da redenção não é fruto de acontecimentos casuais.
Cada cidade mencionada — Jericó, Ai, Jerusalém, Hebrom, Laquis — caía
exatamente no tempo e no modo estabelecidos no conselho eterno de Deus.
Como afirma o Salmo 103.19: "O SENHOR estabeleceu o
seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo."
1. Deus governa imperadores, nações e o curso da história
O testemunho constante da Bíblia é que o Senhor detém o controle absoluto sobre os governantes da terra.
Foi Ele quem exaltou José no
Egito, confrontou o orgulho de Faraó, chamou o rei Ciro da Pérsia pelo nome
antes mesmo do seu nascimento e humilhou Nabucodonosor até que este
reconhecesse o governo do Altíssimo.
O profeta Daniel declarou com clareza: "É ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis" (Dn 2.21).
Os trinta e um reis de Canaã pareciam imbatíveis em suas fortalezas; contudo,
caíram um a um diante do Deus Todo-Poderoso. Calvino observou com maestria:
"Os reis da terra imaginam governar livremente por
suas próprias mentes, mas são apenas instrumentos conduzidos pela providência
secreta de Deus."
Essa doutrina traz consolo profundo à Igreja em tempos de
instabilidade política, guerras, colapsos econômicos e transformações culturais
hostis. Nada escapa à soberania do Nosso Senhor.
2. Cada inimigo derrotado no Antigo Testamento aponta
para uma vitória maior
A destruição dos trinta e um reis possui uma dimensão tipológica profunda. Eles prefiguram todos os poderes das trevas que se levantam contra o Reino de Deus.
Na história da salvação, o povo de Deus
enfrenta inimigos espirituais devastadores: a tirania do pecado, a acusação de
Satanás, o medo da morte e a corrupção do mundo.
Entretanto, foi na cruz do Calvário que o verdadeiro Capitão da nossa salvação obteve o triunfo definitivo.
Naquele momento em que o inferno
celebrava a aparente derrota de Cristo, o Senhor desferiu o golpe fatal contra
o reino das trevas.
Como testifica o apóstolo Paulo: "E, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Cl 2.15).
A lista dos trinta e um reis de Josué 12 é
apenas uma sombra da vitória esmagadora de Jesus sobre as forças espirituais do
mal.
3. O Senhor jamais perde uma batalha
A lista de Josué encerra-se sem registrar qualquer sobrevivente entre os reis condenados. Isso demonstra que os planos de Deus jamais podem ser frustrados.
É verdade que Israel enfrentou reveses dolorosos no caminho — como a derrota inicial em Ai por conta do pecado de Acã, ou o engano cometido na aliança com os gibeonitas.
No entanto, o fracasso humano não
anula o propósito soberano do Criador.
Diante disso, ecoa a pergunta vitoriosa de Romanos 8.31: "Se
Deus é por nós, quem será contra nós?". Isso não garante imunidade
contra lutas ou tribulações, mas assegura a impossibilidade de uma derrota
final para os eleitos. Spurgeon afirmou:
"O povo de Deus pode ser ferido em combate e
derramar lágrimas na batalha, mas jamais será finalmente derrotado."
4. A Igreja vive entre o dever de lembrar o passado e o
chamado de conquistar o futuro
Josué 12 estabelece um equilíbrio espiritual perfeito: ensina a olhar para trás com gratidão, enquanto prepara o povo para olhar para frente com santa responsabilidade.
Logo no início do capítulo seguinte, o
Senhor dirá a Josué: "És já velho... e ainda muitíssima terra ficou
para possuir" (Js 13.1).
A gratidão pelo passado jamais deve gerar acomodação ou preguiça no presente. A Igreja deve celebrar com alegria os reavivamentos e vitórias concedidos ontem, mas precisa continuar marchando hoje.
O apóstolo Paulo viveu essa dinâmica ao declarar: "Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão..." (Fp 3.13).
Olhamos para as vitórias passadas para obter coragem de evangelizar
novas vidas, plantar novas igrejas, mortificar novos pecados e buscar maior
maturidade espiritual.
Ilustração
Durante os dias mais sombrios da Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill proferia discursos relembrando ao povo britânico as grandes vitórias navais e os momentos de superação da história da nação.
Ele não fazia isso para alimentar o orgulho inútil, mas para incutir coragem e perseverança no coração dos soldados que enfrentavam o terror dos bombardeiros.
Da mesma
forma, o Espírito Santo apresenta a lista dos trinta e um reis a Israel para
que, ao olharem para cada nome derrotado, ganhassem ânimo inabalável para
possuir o restante da terra prometida.
Aplicações Práticas:
- Descanse
o seu coração na soberania absoluta de Deus diante das incertezas
geopolíticas e sociais do mundo contemporâneo.
- Enfrente
suas lutas contra a tentação e o pecado fortalecido pela certeza de que a
vitória final foi garantida na cruz por Jesus Cristo.
- Não
permita que falhas ou tropeços passados definam sua caminhada; busque o
arrependimento em Cristo e continue avançando.
- Recuse
o conformismo espiritual: celebre o que Deus fez em sua vida, mas busque
crescer continuamente em santidade e serviço.
- Mantenha
os seus olhos fixos no Rei dos reis, sabendo que todos os impérios humanos
passarão, mas o Seu Reino permanecerá para sempre.
IV – TODAS AS VITÓRIAS DE JOSUÉ APONTAM PARA O TRIUNFO
DEFINITIVO DE CRISTO (Js 12.1–24)
Ao chegarmos ao encerramento deste capítulo, compreendemos
que Josué 12 transcende a condição de registro militar: ele é um grande
memorial da graça redentora de Deus.
Cada rei derrotado clama silenciosamente: "O Senhor é fiel!". Cada cidade conquistada declara: "Nenhuma só de Suas promessas caiu por terra!".
A memória da fidelidade de Deus no passado
é o alicerce indispensável sobre o qual repousa a nossa esperança no futuro.
1. A memória da graça é o grande antídoto contra a
apostasia
O esquecimento das obras de Deus é a porta de entrada para a decadência espiritual. Foi exatamente essa a tragédia registrada em Juízes 2.10: "Levantou-se outra geração que não conhecia o Senhor, nem tampouco as obras que fizera a Israel."
Quando a igreja para de
ensinar e recordar os grandes atos da redenção, o secularismo e a idolatria
ocupam o espaço vacante.
Por essa razão, a Bíblia ordena repetidamente a preservação
da memória santa. Como observou João Calvino:
"A memória das misericórdias passadas é o alimento
diário e indispensável para a manutenção da fé no presente."
Se listássemos as orações que Deus respondeu em nossa vida,
os livramentos invisíveis que nos concedeu, a salvação dada à nossa alma e o
sustento diário fornecido às nossas famílias, teríamos um memorial
infinitamente maior e mais glorioso do que a lista de Josué 12.
2. Cristo é o verdadeiro e definitivo Conquistador
Toda a narrativa de Josué 12 aponta tipologicamente para
Nosso Senhor Jesus Cristo. Josué foi um servo notável, mas era apenas uma
sombra imperfeita do Libertador que haveria de vir.
- Josué
derrotou trinta e um reis terrenos; Cristo derrotou Satanás, o
pecado, o inferno e a morte.
- Josué
conquistou uma terra geográfica e temporal; Cristo conquistou uma
herança celestial e incorruptível (1Pe 1.4).
- Josué
deu a Israel um descanso temporário; Cristo concede à Sua Igreja o
descanso eterno para a alma (Mt 11.28).
- Josué
conduziu uma nação terrena; Cristo edifica uma Igreja formada por
povos de todas as tribos, línguas e nações.
Geerhardus Vos explicou com profundidade teológica:
"Toda a estrutura histórica e institucional do
Antigo Testamento foi desenhada por Deus para encontrar seu cumprimento
orgânico e definitivo na pessoa e obra do Messias."
3. Um dia o nosso catálogo de vitórias estará eternamente
completo
A lista de Josué encerrou-se com trinta e um nomes. No entanto, a história da redenção continua sendo escrita pelo Espírito Santo através da expansão da Igreja.
Cada pecador regenerado, cada missão
estabelecida, cada dor suportada com fé e cada avanço do Reino integra o
registro eterno de Deus.
Um dia, a última batalha será travada e a história da Igreja neste mundo será concluída. Então soará a trombeta e ouviremos o grande brado registrado em Apocalipse 11.15: "O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos."
Naquele dia glorioso, não haverá mais inimigos a enfrentar, tentações a
combater ou lágrimas a enxugar. O verdadeiro Josué nos conduzirá à posse plena
da Nova Jerusalém.
Ilustração Final
Na Antiguidade, quando um general romano obtinha uma vitória decisiva sobre nações inimigas, o Senado concedia-lhe o direito de realizar o Triunfo Romano — um majestoso cortejo pelas ruas de Roma.
O general vitorioso
desfilava em sua carruagem, enquanto os reis e generais derrotados eram
exibidos acorrentados, demonstrando a todos a ruína completa dos adversários.
Paulo usa essa exata imagem militar em Colossenses 2.15 para descrever a cruz. Na sexta-feira da paixão, o mundo e o inferno imaginaram que Jesus fora derrotado.
Contudo, no Calvário, Cristo estava realizando o maior desfile triunfal do universo: Ele desarmou os principados e potestades, expôs Satanás à vergonha pública e despojou a morte de seu aguilhão.
Josué 12 é
apenas uma pequena amostra do triunfo supremo do Cordeiro de Deus!
APLICAÇÕES
- Cultive
uma memória agradecida: Não permita que as correrias da vida apaguem o
brilho dos livramentos que Deus deu a você. Registre suas bênçãos e louve
ao Senhor por elas.
- Rejeite
toda a autoglorificação: Lembre-se de que cada conquista financeira,
familiar ou ministerial é fruto da graça imerecida de Deus ("Que
tens tu que não tenhas recebido?" - 1Co 4.7).
- Persevere
no avanço do Reino: Entenda que, enquanto estivermos neste mundo,
ainda há "muita terra a ser conquistada". Continue
evangelizando, servindo e buscando a santificação diária.
- Descanse
na vitória consumada de Cristo: Quando as tribulações e perseguições
apertarem o seu coração, recorde-se de que a batalha final já foi decidida
na cruz e confirmada na sepultura vazia.
- Aguarde
com esperança o triunfo final: Viva este tempo presente com os olhos
postos na pátria celestial, sabendo que o Rei dos reis voltará para
enxugar toda lágrima e reinar eternamente com Seu povo.
CONCLUSÃO
Josué 12 parece terminar apenas como um catálogo de nomes
antigos. Todavia, sob a inspiração do Espírito Santo, ele proclama uma verdade
monumental para o povo de Deus em todas as eras: O SENHOR É ABSOLUTAMENTE
FIEL.
- Cada
rei derrotado testemunha: "O Senhor cumpriu Sua Palavra!"
- Cada
cidade conquistada declara: "Nenhuma das Suas promessas
falhou!"
- Cada
batalha vencida confirma: "Foi o Deus soberano quem pelejou pelo
Seu povo!"
Porém, o livro de Josué não é o destino final da história da salvação; ele aponta para algo infinitamente mais glorioso.
Josué conduziu Israel a uma terra Prometida terrena; Jesus Cristo conduz a Sua Igreja redimida à Canaã celestial. Josué venceu reis mortais; Cristo venceu o pecado, o diabo e a própria morte.
Josué concedeu um descanso temporário; Cristo nos dá a vida
eterna e o descanso inabalável na presenca do Pai.
Por essa razão, o nosso coração se une à declaração
vitoriosa do apóstolo Paulo:
"Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio
de nosso Senhor Jesus Cristo." (1 Coríntios 15.57)
Portanto, meus amados irmãos e irmãs:
- Lembrem-se
com gratidão das vitórias que o Senhor já lhes concedeu no passado;
- Confiem
com firmeza inabalável nas promessas que Ele ainda cumprirá no seu
presente e futuro;
- Permaneçam
firmes e inabaláveis enquanto a batalha da fé continuar;
- E
caminhem de olhos fixos em Jesus Cristo, o Capitão supremo da nossa
salvação, na certeza absoluta de que Aquele que começou a boa obra em
vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6).
Soli Deo Gloria. Amém!
Pr. Eli Vieira Filho

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