Texto-chave: “Não expulsaram, porém, os cananeus que habitavam em Gezer; assim, habitam os cananeus no meio dos efraimitas até ao dia de hoje, porém sujeitos a trabalhos forçados.” — Josué 16.10
Há uma diferença profunda entre receber uma promessa e viver
plenamente aquilo que a promessa exige.
Israel já se encontrava dentro da Terra Prometida. O rio Jordão havia sido miraculosamente atravessado; a fortaleza de Jericó ruíra diante do poder de Deus; a cidade de Ai fora conquistada após o devido tratamento do pecado; e os reis do sul e do norte tinham sido sucessivamente derrotados.
A terra, agora em relativo repouso, começara a ser formalmente
distribuída entre as tribos da aliança. Humanamente falando, tudo parecia
avançar com notável sucesso e tranquilidade.
É exatamente nesse contexto que chegamos ao capítulo 16 do
livro de Josué. O texto passa a registrar a porção territorial destinada aos
descendentes do patriarca José, concentrando-se detalhadamente na tribo de
Efraim. São listados nomes de fronteiras, acidentes geográficos, cidades e
regiões. No entanto, ao final desta seção, o Espírito Santo faz questão de
registrar uma breve, porém solene e preocupante observação:
“Não expulsaram, porém, os cananeus que habitavam em
Gezer.” (Js 16.10)
Observe o contraste dramático. O Senhor Deus fora perfeitamente fiel em conceder a herança prometida aos pais; todavia, a tribo de Efraim respondeu a essa generosidade com uma obediência incompleta.
A
promessa era absolutamente verdadeira e graciosa, e a fidelidade de Deus
permanecia irrepreensível e intacta. O problema decisivo residia na resposta
frouxa e negligente do Seu povo.
Essa exata tensão atravessa a totalidade da vida cristã. Em Cristo Jesus, fomos abençoados com toda sorte de bênçãos espirituais nas regiões celestiais. Fomos graciosamente justificados, adotados na família de Deus, perdoados de todos os nossos pecados, selados com o Espírito Santo da promessa e constituídos herdeiros de um reino inabalável.
No entanto, a
concessão da graça jamais foi uma licença para a negligência espiritual. A
graça sovereignemente salvadora é a mesma graça que nos convoca a uma vida de intencional
santidade. A promessa de Deus não produz acomodação; produz obediência
irrepreensível.
O grande perigo espiritual de Efraim consistiu em aprender a
tolerar e conviver pacificamente com aquilo que Deus havia ordenado remover
categoricamente. E essa continua sendo uma das tentações mais sutis e
devastadoras que assaltam o povo de Deus em todos os tempos:
- Há
pecados que condenamos severamente quando praticados por outros, mas que
toleramos e afagamos quando se tornam pessoalmente convenientes;
- Há
comportamentos e atitudes que inicialmente combatemos com rigor, mas que,
com o passar do tempo, aprendemos a acomodar e administrar;
- Há
áreas secretas da nossa vida em que dizemos interiormente: “Sei que
isto não é o ideal bíblico, mas aprendi a conviver com isso sem maiores
sobressaltos.”
O texto de Josué 16 se levanta no cânon sagrado para nos
interrogar diretamente: Existe algum “Gezer” em nossa vida? Existe
alguma área de deliberada desobediência que permitimos permanecer sob a nossa
tenda?
O puritano John Owen sintetizou este alerta com incomparável
precisão ao declarar:
“Esteja sempre matando o pecado, ou o pecado estará matando você.”
Josué 16 trata especificamente do quinhão territorial
concedido aos descendentes de José. Como bem sabemos pela narrativa de Gênesis,
José recebeu uma dupla porção na herança de Israel por meio de seus dois
filhos, Efraim e Manassés.
- Versículos
1–4: Apresentam a delimitação geral e ampla das terras pertencentes ao
bloco dos filhos de José;
- Versículos
5–9: Descrevem minuciosamente as fronteiras internas e as cidades
pertencentes à tribo de Efraim;
- Versículo
10: Encerra abruptamente a narrativa com uma nota teológica de imensa
gravidade:
“Não expulsaram, porém, os cananeus que habitavam em
Gezer; assim, habitam os cananeus no meio dos efraimitas até ao dia de hoje,
porém sujeitos a trabalhos forçados.”
Essa nota de rodapé histórica e teológica não está registrada por acaso. Ela serve como um sombrio prenúncio do declínio espiritual que será amplamente narrado no livro de Juízes.
Os povos cananeus
que Israel tolerou por conveniência econômica ou fraqueza moral tornaram-se,
posteriormente, laço, espinho nas ilhargas e fonte inagotável de idolatria,
corrupção e opressão sobre a própria nação de Israel.
Portanto, o texto sagrado nos apresenta três grandes eixos temáticos: uma herança graciosamente recebida, uma responsabilidade solenemente assumida e uma obediência perigosamente incompleta.
As bênçãos que o Senhor Deus concede ao Seu povo devem ser recebidas com profunda gratidão e administradas com integral obediência, pois aquilo que toleramos em desobediência à Palavra do Senhor fatalmente se tornará fonte de ruína e enfraquecimento espiritual.
À luz do texto de Josué 16.1–10, extraímos três verdades
fundamentais sobre como devemos responder às bênçãos e às responsabilidades que
o Senhor nos confia.
I – TODA HERANÇA RECEBIDA É EXPRESSÃO DA INABALÁVEL
FIDELIDADE DE DEUS
(Josué 16.1–9)
Os primeiros nove versículos do capítulo detalham os limites geográficos e as cidades concedidas à tribo de Efraim. Para um leitor desavisado, esses nomes e fronteiras podem parecer dados geográficos obsoletos e enfadonhos.
Todavia, para o povo de Israel, cada nome representava a
tangibilidade de uma promessa antiga tornando-se realidade visível.
Séculos antes, quando Abraão, Isaque e Jacó não possuíam sequer um palmo de terra própria em Canaã, o Senhor prometera que a posteridade deles herdaria aquela terra.
Agora, após longas gerações, aquelas palavras
solenes convertiam-se em fronteiras, pastos, fontes e cidades concretas. A
geografia era o próprio testemunho esculpido da fidelidade de Deus.
1. Deus nunca se esquece das Suas promessas
O tempo chronos havia passado metodicamente. Gerações
inteiras tinham nascido e morrido no Egito; quatrocentos anos de escravidão
haviam decorrido; e quarenta anos de rigorosa peregrinação no deserto tinham
testado a paciência do povo. Apesar das oscilações humanas, Deus permaneceu
imutável. Como bem atesta a Escritura em Números 23.19:
“Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem,
para que se arrependa. Porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o
confirmaria?”
A nossa fé vacila com frequência porque costumamos interpretar o tempo de espera como sinal de esquecimento ou ausência divina. Todavia, o Deus da aliança governa a história segundo a perfeição do Seu próprio relógio.
O reformador João Calvino enfatizava com frequência que a
demora no cumprimento visível das promessas divinas não reflete qualquer
hesitação em Deus, mas serve como uma pedagogia divina para mortificar nossa
autoconfiança e nos ensinar a paciência da fé.
2. A fidelidade de Deus sobressai nos mínimos detalhes
Contemple a precisão milimétrica da narrativa inspirada: limites do oriente ao ocidente, acidentes topográficos, nomes de povoações e divisões tribais. Nada é apresentado de forma negligente ou vaga.
Isso nos
revela que o Senhor não governa apenas os grandes e retumbantes eventos do
universo; Ele cuida com rigor soberano dos detalhes da existência de Seu povo.
O próprio Senhor Jesus reafirmou essa providência minuciosa
ao declarar:
“E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos
contados. Não temais, pois...” (Mateus 10.30–31)
O Deus que traça os limites territoriais das nações é o
mesmo Pai celestial que conhece cada lágrima secreta, cada ansiedade oculta e
cada necessidade concreta da sua família.
3. A herança recebida era fruto exclusivo da graça, e não
do mérito
Nenhum efraimita poderia erguer a cabeça em ufanismo e
declarar: “Conquistamos esta boa terra por causa do nosso poder militar, da
nossa superioridade moral ou da nossa sabedoria.” A terra fora concedida
estritamente por causa do pacto gracioso feito com os patriarcas.
Da mesma forma, tudo o que possuímos no âmbito da nossa vida
cristã é fruto puramente imerecido da graça de Deus. O apóstolo Paulo confronta
o orgulho humano na igreja de Corinto com uma pergunta demolidora:
“Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não
tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glórias, como se não o houveras
recebido?” (1Coríntios 4.7)
Nossa salvação eterna é graça; nosso perdão é graça; nossa vocação ministerial é graça; nossos dons espirituais são graça; nossa sustentação diária é graça.
Quanto mais mergulhamos no conhecimento da graça de
Deus, menos espaço sobra para a soberba, para a murmuração e para o orgulho
próprio.
Ilustração
Considere a imagem de um filho jovem que recebe de seu pai a escritura de uma vasta e produtiva propriedade rural, mantida e cultivada com extremo sacrifício pela família durante gerações. O filho entra naquela terra sem ter pago um único centavo por ela; ele não aplainou as montanhas, não cavou os poços e nem plantou os pomares antigos.
Ele é puramente um herdeiro. Seria
uma tolice insensata e uma profunda ingratidão se esse filho passasse a agir
como se fosse o criador e comprador daquele patrimônio. Sua única atitude
coerente deve ser a gratidão reverente e o compromisso de administrar aquela
herança com a máxima fidelidade.
Aplicações
- Lembre-se
das vitórias passadas: Exercite a memória espiritual gravando no
coração os livramentos e as promessas que o Senhor já cumpriu em sua
história.
- Cultive
uma vida de permanente gratidão: Substitua a murmuração diária pela
celebração consciente das bênçãos graciosas recebidas das mãos de Deus.
- Reijeita
todo orgulho espiritual: Lembre-se de que sua posição em Cristo, seus
dons e seus frutos são resultados imerecidos da graça divina.
- Descanse
na providência dos detalhes: Confie que o Deus que governa o cosmos
está atento aos menores detalhes da sua vida diária.
- Legue
essa memória aos seus filhos: Transmita às próximas gerações a certeza
de que tudo o que a sua família possui veio unicamente do favor do Senhor.
II – A HERANÇA RECEBIDA TRAZ CONSIGO SOLENE
RESPONSABILIDADE
(Josué 16.5–9)
Receber a porção da Terra Prometida não significava que a tribo de Efraim poderia simplesmente cruzar os braços, estender-se na relva e desfrutar de um descanso irresponsável.
A concessão do território trazia consigo obrigações imediatas: a terra devia ser devidamente ocupada, cultivada, protegida, purificada da idolatria e governada sob os preceitos da Lei do Senhor.
Na economia do Reino de Deus, a bênção recebida é sempre a plataforma
para uma nova responsabilidade.
1. Deus não nos abençoa para alimentar a nossa indolência
ou conforto pessoal
Este é um princípio estrutural de toda a Teologia Bíblica.
Quando o Senhor chamou o patriarca Abraão em Gênesis 12.2, a ordem imperativa
foi clara:
“Abençoar-te-ei... e sê tu uma bênção.”
A bênção divina jamais teve como destino final o represamento no indivíduo; ela deve fluir através dele para abençoar a outros.
O Senhor concede aos Seus filhos recursos financeiros, talentos intelectuais,
conhecimento teológico, maturidade emocional, oportunidades de liderança e
influência social não para que vivamos isolados em um oásis de egoísmo e
autossatisfação, mas para que sirvamos à igreja e glorifiquemos o Seu Santo
Nome no mundo.
2. A mordomia fiel é o padrão permanente da vida cristã
O apóstolo Paulo define a identidade do servo de Deus com o
termo grego oikonomos (administrador ou despenseiro da casa):
“Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que
cada um deles seja encontrado fiel.” (1Coríntios 4.2)
Nós não somos os proprietários soberanos de absolutamente nada neste mundo. Nós somos meros mordomos temporários. O nosso tempo pertence a Deus; a nossa saúde pertence a Deus; a nossa família pertence a Deus; os nossos bens pertencem a Deus; e o nosso próprio corpo pertence a Deus.
Quando
essa verdade se estabelece na alma, a pergunta fundamental da nossa vida deixa
de ser: “Como posso usar minhas coisas para o meu próprio prazer?” e
passa a ser: “Senhor, como desejas que eu administre estes recursos que
pertencem a Ti?”
3. Heranças e dons diferentes não implicam valorações
desiguais diante de Deus
Efraim recebeu uma região montanhosa e fértil; Judá recebeu as terras do sul; Manassés recebeu porções ao oriente e ao ocidente do Jordão. Cada tribo tinha fronteiras específicas e desafios singulares.
O mesmo ocorre
no corpo de Cristo. Deus não distribuiu a todos os mesmos talentos ou os mesmos
ministérios. Como ensina o apóstolo Paulo em 1Coríntios 12.4:
“Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo.”
A comparação interpessoal é uma das armas mais eficazes para
destruir a gratidão e a vocação cristã. Quando gastamos tempo cobiçando a
“herança” do nosso irmão, olhando para os dons ou para o destaque alheio,
negligenciamos o cultivo do terreno que o Senhor colocou diretamente sob os
nossos cuidados.
4. Um dia prestaremos estritas contas da mordomia que nos
foi confiada
Na parábola dos talentos (Mateus 25), o Senhor entrega diferentes quantidades de recursos aos seus servos.
Ao retornar, o senhor não
exige do servo de dois talentos o resultado daquele que recebeu cinco; contudo,
exige rigorosa fidelidade proporcional ao que fora entregue a cada um.
É um pensamento Solene e de santo temor: em um dia vindouro,
não seremos chamados a responder pelo ministério do nosso pastor, pelos dons do
nosso irmão ou pela vida do nosso vizinho. Prestaremos contas exatas daquilo
que o Senhor confiou às nossas próprias mãos — na administração do nosso lar,
na criação dos nossos filhos, no uso do nosso dinheiro e no serviço à Sua
igreja local.
Ilustração
Imagine uma grande orquestra sinfônica reunida para executar uma complexa partitura. O primeiro violinista não toca as notas do violoncelo; o tocador de tímpanos não tenta emitir as melodias da flauta transversal.
Cada músico mantém os olhos fixos na partitura que lhe foi atribuída e no regente à sua frente. Se o oboísta parar de tocar a sua parte para ficar observando criticamente a atuação do trompetista, a harmonia de toda a orquestra será irremediavelmente quebrada.
A beleza da música depende de cada instrumentista
executar com absoluta fidelidade e precisão o papel que lhe foi designado pelo
maestro.
Aplicações Práticas do Ponto II:
- Mapeie
suas responsabilidades: Mantenha clareza sobre quais áreas, pessoas e
recursos Deus colocou diretamente sob a sua guarda neste tempo.
- Exerça
a mordomia dos seus bens: Utilize suas finanças, sua casa e seu tempo
prioritariamente para a edificação do Reino e socorro dos necessitados.
- Abandone
a comparação: Rejeite a inveja e o ressentimento ao observar os dons,
a prosperidade ou o destaque de outros irmãos na fé.
- Sirva
onde você foi plantado: Não espere condições ideais ou grandes
plataformas para ser fiel no serviço diário da sua igreja local.
- Viva
com a eternidade em vista: Lembre-se diariamente de que o Tribunal de
Cristo avaliará não o aplauso dos homens, mas a fidelidade da sua
mordomia.
III – A OBEDIÊNCIA INCOMPLETA PODE TRANSFORMAR-SE EM UM
PERIGO ESPIRITUAL PERMANENTE
(Josué 16.10)
Chegamos agora ao versículo decisivo e mais perturbador
deste capítulo. Após listar a generosidade da herança outorgada a Efraim, o
texto sagrado declara:
“Não expulsaram, porém, os cananeus que habitavam em
Gezer; assim, habitam os cananeus no meio dos efraimitas até ao dia de hoje,
porém sujeitos a trabalhos forçados.” (Js 16.10)
Esta pequena declaração altera drasticamente a atmosfera do
texto. No auge da posse das bênçãos, surge a grave fratura da desobediência.
Efraim recebeu a herança do Senhor, mas recusou-se a executar integralmente a
Sua ordem.
1. O fracasso não esteve na fidelidade de Deus, mas na
frouxidão do povo
É preciso deixar absolutamente claro que Deus não falhou em
Suas promessas de capacitação militar. O Senhor havia assegurado reiteradamente
que nenhum inimigo poderia resistir diante do Seu povo, contanto que eles
marchassem em obediência.
O problema de Efraim não foi a falta de poder divino, mas a falta de disposição para obedecer até o fim. A tribo preferiu manter a população cananeia residente em Gezer, sujeitando-a a tributos e trabalhos forçados.
Isso revela uma motivação vergonhosa: Efraim percebeu uma vantagem econômica na desobediência. Era financeiramente rentável e logisticamente mais confortável escravizar os cananeus do que travar a árdua batalha para expulsá-los.
Eles aprenderam a lucrar com aquilo que Deus mandara erradicar!
Esta é a forma mais sutil de contaminação espiritual: quando a desobediência
nos parece conveniente e rentável, passamos a criar sofisticadas justificativas
teológicas para racionalizá-la.
2. O pecado tolerado sempre se apresenta sob a máscara de
uma vantagem aparente
A tribo de Efraim certamente justificou sua conduta dizendo:
“Por que deveríamos gastar forças e arriscar vidas expulsando os habitantes
de Gezer, se podemos usá-los como mão de obra escrava para enriquecer nossas
cidades?” Parecia uma decisão extremamente pragmática, inteligente e
economicamente vantajosa. Todavia, continuava sendo flagrante desobediência ao
mandamento de Deus.
O pecado raramente se aproxima da alma apresentando sua
verdadeira face de destruição e morte. Ele se veste de razoabilidade, prazer
imediato, segurança financeira, avanço profissional ou alívio de tensões. O
livro de Provérbios nos adverte categoricamente sobre esse engano mortal:
“Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele
são os caminhos da morte.” (Provérbios 14.12)
3. Aquilo que toleramos hoje como escravo tentará nos
dominar amanhã como senhor
Efraim imaginou que manteria os cananeus de Gezer sob firme controle por meio do trabalho forçado. A história posterior, registrada tragicamente no livro de Juízes e nos livros dos Reis, demonstra o retumbante fracasso dessa ilusão.
Os cananeus que permaneceram no meio de Israel não
ficaram passivos; eles infectaram a nação com sua religiosidade pagã, suas
práticas imorais, sua idolatria abominável e seus casamentos intermisto.
O pecado opera exatamente mediante essa dinâmica enganosa. No início, a pessoa diz a si mesma: “Eu domino este hábito; eu controlo este relacionamento ilícito; eu administro este pensamento; eu posso parar quando quiser.” Todavia, aquilo que você tolera e alimenta hoje como um “escravo domesticado” amanhã assumirá o trono do seu coração e governará a sua vida como um tirano cruel.
John Owen tinha total razão: não existe neutralidade na guerra
contra a carne; ou você mortifica o pecado pela força do Espírito, ou o pecado
devorará a sua vitalidade espiritual.
4. A santificação bíblica exige a morte radical do
pecado, e não a sua mera administração
O apóstolo Paulo não utiliza linguagem suave ao tratar do
pecado na vida do crente. Escrevendo aos Colossenses, ele ordena:
“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena:
prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo mau e a avareza, que é
idolatria.” (Colossenses 3.5)
Preste atenção na severidade da instrução apostólica: Paulo não diz “administrai a vossa natureza terrena”, nem “reduzi a frequência das vossas práticas pecaminosas”, tampouco “negociai um acordo razoável com a vossa carne”.
A ordem é categórica: fazei morrer!
A santificação verdadeira envolve uma guerra diária e implacável contra o mal
interior. A doutrina da graça não produz passividade moral; ela fornece o
combustível e a capacitação pelo Espírito para lutar até a vitória.
5. O Senhor Jesus Cristo realizou a obediência perfeita
que nossa fraqueza jamais poderia alcançar
É aqui que a narrativa de Josué 16 nos aponta inexoravelmente para a glória do Evangelho. A história de Israel é uma crônica ininterrupta de heranças recebidas e obediências tragicamente incompletas.
Efraim falhou; Judá falhou; Manassés falhou; a nação inteira sucumbiu ao
compromise moral e acabou conduzida ao cativeiro. Essa falência reiterada da
humanidade grita pela necessidade absoluta de um Mediador perfeito.
Esse Mediador é o Nosso Senhor Jesus Cristo! Jesus é o
verdadeiro Herdeiro de todas as coisas, que veio ao mundo e prestou ao Pai uma
obediência integral, perfeita e irrestrita. Ele jamais fez concessões ao diabo,
jamais negociou com o pecado, jamais vacilou no cumprimento da Lei e foi
obediente até a morte — e morte de cruz.
O apóstolo Paulo proclama em Romanos 5.19:
“Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos
foram constituídos pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos
serão constituídos justos.”
A nossa aceitação final diante de Deus não repousa na
perfeição vacilante da nossa própria obediência, mas na perfeição impecável da
obediência de Cristo imputada a nós pela fé! Contudo, essa mesma graça que nos
justifica livremente mediante a justiça de Cristo é a graça que habita em nós
pelo Espírito Santo para nos conformar à imagem do Filho, capacitando-nos a
dizer “não” à impiedade e a lutar contra cada “Gezer” que tenta se alojar em
nosso coração.
Ilustração do Ponto III:
Pense na situação de um morador que percebe uma pequena e sutil infiltração de água no teto da sua casa. Inicialmente, é apenas uma mancha imperceptível e algumas poucas gotas que caem esporadicamente.
O morador, por preguiça ou para evitar despesas imediatas, decide ignorar o problema e coloca um pequeno balde no chão para recolher a água, dizendo a si mesmo: “Consigo conviver com isto por enquanto.” Os meses se passam. A água continua correndo silenciosamente por trás do emboço, apodrecendo as vigas de madeira, enferrujando a ferragem estrutural e espalhando mofo por toda a alvenaria.
Um dia, sem qualquer aviso prévio, o teto inteiro desaba sobre a
casa. O desastre catastrófico não ocorreu de repente; ele foi pacientemente
construído ao longo do tempo mediante a tolerância com um problema
aparentemente insignificante.
Aplicações Práticas do Ponto III:
- Identifique
o seu “Gezer” pessoal: Faça um exame de consciência diante da Palavra
e responda: qual é a área de deliberada desobediência que você tem
tolerado em sua vida?
- Rejeite
as justificativas econômicas e morais: Pare de Racionalizar o pecado
sob o pretexto de que ele lhe traz algum conforto, lucro ou alívio
passageiro.
- Não
tente domesticar a carne: Compreenda que o pecado não aceita acordos
pacíficos; o que você não mortificar hoje tentará destruir sua fé amanhã.
- Confesse
e leve à Cruz de Cristo: Não esconda a sua falha; traga o seu pecado à
luz mediante o arrependimento sincero, buscando o perdão e a purificação
no sangue de Jesus.
- Dependa
do Espírito Santo: Busque a capacitação diária do Espírito para
mortificar as obras da carne e andar em novidade de vida.
CONCLUSÃO
O capítulo 16 do livro de Josué começa com a celebração da
herança e termina com o eco solene de uma advertência. De um lado, contemple a
majestosa e inabalável fidelidade de Deus, que cumpriu rigorosamente
tudo o que prometera aos patriarcas; do outro lado, observe a obediência
incompleta de Efraim, que preferiu a conveniência de um acordo comercial à
integridade da ordem divina.
Essa tensão ancestral continua sendo assustadoramente atual
para cada um de nós neste dia. O Senhor nosso Deus permanece perfeitamente
fiel. Suas promessas em Cristo são "sim" e "amém". Sua
graça continua sendo superabundante para conosco. Contudo, a pergunta inadiável
que o Espírito Santo faz à sua igreja hoje é: Como você tem respondido à
fidelidade do Senhor?
Estamos nós administrando a herança da salvação com
reverente responsabilidade e santo empenho? Ou estamos nos acomodando,
aprendendo a conviver em paz com áreas de conhecida desobediência?
Lembre-se: o maior perigo enfrentado pela tribo de Efraim naquela ocasião não foi a presença de um exército inimigo invencível marchando com carros de ferro. O maior perigo foi a presença de um inimigo tolerado dentro de suas próprias fronteiras.
E essa verdade permanece inalterada na
jornada cristã. Aquilo que o adversário das nossas almas não consegue destruir
mediante a perseguição aberta, ele frequentemente tenta corromper através da
conveniência, do compromisso moral e da tolerância ao pecado.
Por essa razão, ergamos os nossos olhos para Jesus Cristo! Ele é o verdadeiro e Supremo Herdeiro do Pai, o Filho perfeitamente obediente, o nosso Capitão que jamais fez concessões ao mal. Na cruz do Calvário, Jesus carregou sobre Si toda a maldição e a culpa da nossa vergonhosa desobediência e das nossas omissões.
Na Sua ressurreição gloriosa, Ele quebrou definitivamente
o domínio do pecado e da morte. E agora, mediante o Seu Espírito habitador, Ele
nos concede a força e a graça necessárias para rompermos com a complacência
moral e avançarmos em obediência viva.
Portanto, meus amados irmãos:
- Celebrem
com alegria e reverência a inabalável fidelidade de Deus;
- Administrem
com profunda responsabilidade e santo temor a herança recebida em Cristo;
- Não
tolerem em suas vidas, lares e ministérios aquilo que o Senhor
categoricamente mandou remover;
- E
quando sentirem a fragilidade e as fraquezas da sua carne, corram
imediatamente para Jesus Cristo, porque Nele há perdão abundante para
as nossas falhas, restauração para a nossa alma e poder sobrenatural para
nos fazer crescer em obediência diária.
Que a oração do nosso coração neste dia seja:
“Ó Deus Soberano e Pai de misericórdia, não permitas que
eu transforme em moradia tranquila aquilo que Tu ordenaste erradicar da minha
vida. Concede-me, pelo poder do Teu Espírito Santo, a graça e a coragem para
obedecer à Tua Palavra de todo o meu coração, para que a Tua Igreja seja santa
e o Teu Santo Nome seja glorificado em nós.”
E que possamos caminhar todos os dias guardando no coração
as palavras do apóstolo Paulo:
“Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque
Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa
vontade.” (Filipenses 2.12–13)
Soli Deo Gloria. Amém!
Pr. Eli Vieira Filho

Nenhum comentário:
Postar um comentário