Série: Exposição no Livro de Josué
Texto: Josué 6.22–27
Texto-chave: “Assim, deu Josué vida à prostituta Raabe, e à casa de seu pai, e a tudo quanto tinha; e habitou no meio de Israel até ao dia de hoje.” (Josué 6.25)
Josué 6 é amplamente conhecido como o capítulo da queda das
impressionantes muralhas de Jericó. Quando pensamos nessa narrativa,
imediatamente nos lembramos dos sacerdotes, das trombetas de chifre de
carneiro, das sete voltas ao redor da cidade, do grande brado de vitória e das
muralhas desabando por terra.
Entretanto, existe outra história acontecendo
silenciosamente dentro da grande história. Enquanto uma cidade inteira
experimenta o inevitável juízo de Deus, uma mulher e sua família experimentam a
abundante graça de Deus.
Seu nome é Raabe.
- Ela
não era israelita;
- Não
pertencia à descendência de Abraão;
- Não
crescera ouvindo a Lei de Moisés;
- Não
participara da Páscoa;
- Não
atravessara o Mar Vermelho.
Além de tudo isso, carregava um passado moralmente
comprometido. A Escritura a identifica claramente como “Raabe, a prostituta”.
Se alguém olhasse para aquela mulher apenas segundo o seu
passado e status social, provavelmente concluiria que ela seria uma das últimas
pessoas na Terra que poderiam experimentar a misericórdia do Senhor. Mas Deus
escreveu outra história.
A mulher que vivia em uma cidade condenada encontrou refúgio no Deus de Israel. Aquela que estava destinada a morrer foi preservada.
A
estrangeira tornou-se parte do povo da aliança. A mulher marcada pelo passado
entrou para a história da redenção. E, séculos depois, o seu nome apareceria
com honra na genealogia de Jesus Cristo!
Que demonstração extraordinária da graça!
Josué 6.22–27 nos coloca diante de duas realidades
espirituais que nunca podemos separar:
- Deus
é santo e julga o pecado.
- Deus
é misericordioso e salva pecadores que se refugiam nEle pela fé.
Jericó nos mostra o juízo. Raabe nos mostra a graça. E ambas as realidades revelam o caráter perfeito do mesmo Deus.
Para compreender o alcance de Josué 6.22–27, precisamos
voltar brevemente ao capítulo 2. Quando Josué enviou dois espias para
reconhecer a terra de Jericó, eles entraram na casa de Raabe. Naquele momento,
ela os escondeu dos oficiais da cidade e declarou uma extraordinária confissão
de fé:
“O SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo
na terra.” (Js 2.11)
Raabe havia ouvido falar dos atos poderosos do Senhor — ouviu sobre a abertura do Mar Vermelho e sobre as vitórias de Israel — e respondeu com fé genuína.
Em seguida, pediu misericórdia para si e para toda a
sua família. Os espias, então, estabeleceram um sinal: um cordão de fio
escarlate deveria permanecer atado na janela. Quando o juízo caísse sobre a
cidade, aquela casa seria poupada.
Agora, em Josué 6, chegamos ao cumprimento exato dessa promessa. As muralhas caíram, a cidade foi entregue ao juízo, mas Josué não se esqueceu de Raabe. E, mais importante do que isso: Deus não se esqueceu de Raabe.
A graça soberana de Deus alcança pecadores improváveis, preserva aqueles que se refugiam nEle pela fé e lhes concede uma nova identidade no meio do Seu povo.
O texto de Josué 6.22–27 apresenta três manifestações
extraordinárias da graça de Deus em meio ao Seu justo juízo.
I – A GRAÇA DE DEUS CUMPRE A PROMESSA FEITA ÀQUELES QUE
NELE CONFIAM (vv. 22–23)
Depois da queda das muralhas, Josué imediatamente se lembra
da promessa feita a Raabe:
“Então, disse Josué aos dois homens que espiaram a terra:
Entrai na casa da mulher prostituta e tirai-a de lá com tudo quanto tiver, como
lhe jurastes.” (v. 22)
Observe atentamente a expressão: “Como lhe jurastes”.
Havia uma promessa, e essa promessa deveria ser rigorosamente cumprida. Isso
nos ensina uma das verdades mais consoladoras das Escrituras: Deus é
absolutamente fiel à Sua Palavra.
1. Deus não esquece Suas promessas
Imagine o que Raabe experimentou naquele momento terrível.
Do lado de fora, milhares de guerreiros israelitas gritando, trombetas tocando,
um grande brado ecoando, as muralhas desabando e a cidade sendo tomada pelo
fogo e pela espada. Humanamente falando, tudo indicava destruição iminente.
Mas havia uma promessa. Raabe podia olhar para o cordão
escarlate atado à sua janela e recordar: “Foi-nos prometido que seríamos
poupados”. A segurança dela não estava na resistência de sua casa ou nas
pedras de Jericó, mas na palavra que havia recebido.
Essa é a essência da fé. A fé descansa firmemente nas promessas de Deus, mesmo quando tudo ao redor parece desmoronar.
Como ressalta
João Calvino em seus escritos sobre a fé, a segurança do crente repousa na
verdade e fidelidade imutáveis de Deus. Raabe tinha como fundamento não a sua
própria dignidade ou mérito, mas a palavra graciosa que lhe fora dada.
2. A fé de Raabe produziu ações práticas
Raabe não apenas declarou intelectualmente que acreditava no
Deus de Israel; ela agiu em conformidade com aquilo que creu. O autor de
Hebreus registra:
“Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os
desobedientes, porque acolheu com paz aos espias.” (Hb 11.31)
Tiago também menciona as obras de Raabe (Tg 2.25). Não há contradição aqui. Raabe não foi salva porque suas obras mereceram a salvação; suas ações apenas demonstraram a realidade viva da sua fé. A fé verdadeira sempre produz frutos de obediência.
Como enfatizava John Owen, a fé que
justifica nunca permanece sozinha: a graça que recebe a Cristo começa também,
inevitavelmente, a transformar a vida.
3. A graça alcançou toda a sua casa
O texto sagrado destaca que foram retirados do perigo:
“Raabe, seu pai, sua mãe, seus irmãos e tudo quanto
tinha.” (v. 23)
Que cena gloriosa! A fé de Raabe tornou-se instrumento de
bênção para toda a sua família. Isso não significa salvação automática por
procuração — cada indivíduo precisa responder pessoalmente ao Senhor —, mas
revela como Deus frequentemente utiliza uma pessoa transformada para estender
Sua graça a toda uma casa. Uma mulher creu e passou a chamar seus familiares
para dentro do lugar de refúgio.
Ilustração: Quando o transatlântico Titanic afundou em 1912, os botes salva-vidas representavam a única diferença entre a vida e a morte.
Não bastava saber que o navio estava afundando; era necessário abandonar a falsa segurança da embarcação e buscar o meio de resgate providenciado.
Raabe fez exatamente isso no âmbito espiritual: reconheceu que
Jericó estava sob condenação, não depositou esperança em muralhas humanas e
refugiou-se na promessa do Deus de Israel.
Aplicações do Primeiro Ponto:
- Confie
nas promessas de Deus quando as circunstâncias ao seu redor parecerem
contraditórias.
- Não
permita que o seu passado o faça duvidar da graça, pois a promessa de
Deus é infinitamente maior que a sua história.
- Leve
o Evangelho para dentro da sua casa, intercedendo e apresentando
Cristo aos seus familiares.
- Lembre-se
de que a fé verdadeira produz obediência prática.
II – A GRAÇA DE DEUS OFERECE REFÚGIO EM MEIO AO JUÍZO (v.
24)
O texto sagrado prossegue revelando a gravidade do momento:
“Porém a cidade e tudo quanto havia nela queimaram-no a
fogo...” (v. 24)
Aqui encontramos o lado solene da narrativa. Jericó foi severamente julgada. A mesma narrativa que anuncia salvação para Raabe anuncia condenação para uma cultura rebelde.
Precisamos resistir à tentação moderna de
suavizar essa realidade: o Deus da Bíblia é pleno de amor, mas também é
infinitamente santo e justo.
1. O juízo sobre Jericó não foi arbitrário
Muitos séculos antes, em Gênesis 15.16, Deus dissera a Abraão que a iniquidade dos amorreus ainda não havia atingido a sua medida cheia.
Isso significa que o Senhor suportou pacientemente a perversão daquela
cultura durante gerações. O juízo não veio de forma precipitada; veio após uma
longa demonstração de paciência divina.
A paciência de Deus não deve ser confundida com indiferença
ao pecado. Como bem escreveu o apóstolo Pedro: “Não retarda o Senhor a sua
promessa... pelo contrário, ele é longânimo para convosco” (2Pe 3.9). A
demora do juízo é oportunidade de arrependimento, mas não significa que o juízo
jamais virá.
2. A porta da misericórdia estava aberta
Raabe era cananeia, pertencente a um povo sob condenação. No
entanto, quando creu no Senhor, foi poupada. Isso prova que a salvação nunca
foi uma questão meramente étnica ou social, mas de fé e arrependimento.
Como destaca o teólogo Dale Ralph Davis, no mesmo acontecimento de Jericó contemplemos lado a lado a severidade do justo juízo divino e a amplitude surpreendente de Sua misericórdia.
Os habitantes de Jericó
ouviram as mesmas notícias sobre as obras de Deus que Raabe ouviu; a diferença
esteve na resposta do coração: enquanto os outros se endureceram, Raabe creu.
3. O cordão escarlate e o princípio redentivo
Ainda que devamos evitar alegorias arbitrárias, há uma
inequívoca correspondência teológica entre esta narrativa e o padrão redentivo
das Escrituras.
- No
Egito, o sangue nos umbrais protegia as casas dos hebreus contra o
anjo da morte;
- Em
Jericó, o cordão escarlate identificava a casa preservada da
condenação;
- No
Calvário, encontramos a consumação definitiva: “O sangue de Jesus, seu
Filho, nos purifica de todo pecado.” (1Jo 1.7)
O nosso refúgio seguro contra o juízo vindouro não é uma
fortaleza terrena, mas a pessoa e a obra de Jesus Cristo.
III – A GRAÇA DE DEUS NÃO APENAS SALVA DO PASSADO; ELA
NOS DÁ UMA NOVA HISTÓRIA (vv. 25–27)
Chegamos ao ápice da beleza deste texto:
“Deu Josué vida à prostituta Raabe... e habitou no meio
de Israel até ao dia de hoje.” (v. 25)
Raabe não foi apenas resgatada da destruição física de
Jericó; ela foi calorosamente acolhida entre o povo da aliança.
1. Deus não apenas nos tira da condenação, Ele nos traz
para Si
O Evangelho não consiste apenas em nos livrar do inferno,
mas em nos adotar na família de Deus.
- Raabe
perdeu Jericó, mas ganhou o povo de Deus;
- Perdeu
sua antiga cidade condenada, mas recebeu uma nova comunidade santa.
Seu passado ficou definitivamente para trás. Paulo expressa
essa realidade gloriosa ao escrever: “Se alguém está em Cristo, é nova
criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2Co
5.17) A graça de Deus não faz reformas superficiais; ela concede uma vida
completamente nova.
2. A antiga prostituta entrou na genealogia do Messias
O registro de Mateus 1.5 revela algo de tirar o fôlego:
“Salmom gerou de Raabe a Boaz; Boaz gerou de Rute a
Obede; Obede gerou a Jessé; e Jessé gerou ao rei Davi.” (Mt 1.5–6)
Uma mulher cananeia, prostituta, estrangeira e habitante de
uma cidade sob anátema foi transformada pela graça e tornou-se ancestral do
próprio Jesus Cristo!
- Se
alguém perguntar: “Deus pode realmente transformar alguém destruído
pelo pecado?” — Raabe responde: “Olhe para mim!”
- Se
perguntarem: “Meu passado vergonhoso pode ser perdoado?” — Raabe
responde: “Olhe para a graça de Deus na minha vida!”
Não porque o pecado seja insignificante, mas porque Cristo é
um Salvador infinitamente poderoso!
3. Toda a glória pertence ao Senhor
O texto encerra proclamando:
“Assim, era o SENHOR com Josué; e corria a sua fama por
toda a terra.” (v. 27)
Toda a glória é dada ao Senhor. Foi Deus quem derrubou as
muralhas, foi Deus quem preservou Raabe, foi Deus quem cumpriu a promessa e
sustentou Josué. A salvação pertence, do início ao fim, ao Senhor!
CRISTO NO CENTRO DO TEXTO
A história de Raabe aponta para a plenitude da salvação
revelada em Jesus Cristo. Espiritualmente, todos nós estávamos em uma “Jericó”
condenada — debaixo da justa ira de Deus, sem méritos morais e sem direito à
aliança.
Mas Deus providenciou o refúgio perfeito em Seu Filho. Na
cruz do Calvário, o juízo e a misericórdia se encontraram de forma perfeita:
- O
pecado foi punido;
- O
pecador que crê foi salvo.
Cristo recebeu sobre Si a condenação que era nossa para que
recebêssemos a justiça que é dEle. Ele foi colocado fora da cidade para que
fôssemos trazidos para dentro do Reino de Deus.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
- Nunca
considere alguém além do alcance da graça: Se Deus salvou e
transformou Raabe, continue orando por aqueles que parecem humanamente
impossíveis.
- Não
permita que o seu passado defina a sua identidade: Em Cristo, culpa
perdoada não se torna rótulo permanente.
- Corra
para Cristo enquanto a porta da graça está aberta: Jericó nos lembra
que o juízo é real; Raabe nos lembra que o refúgio está disponível.
- Faça
do seu lar um ambiente de evangelismo: Deseje ardentemente que sua
família esteja abrigada no mesmo refúgio que salvou você.
- Celebre
a sua nova comunidade: A graça nos reconcilia com Deus e nos insere na
comunhão do Seu povo.
CONCLUSÃO
Quando as muralhas de Jericó vieram abaixo, duas realidades
manifestaram-se simultaneamente: juízo e graça. A cidade ruiu, mas Raabe
permaneceu de pé.
- O
passado dela dizia: “Prostituta”; a graça disse: “Pertence ao
povo de Deus”.
- Sua
origem dizia: “Cananeia”; a graça disse: “Herdeira da aliança”.
- Sua
cidade dizia: “Condenada”; a promessa disse: “Preservada para a
glória de Deus”.
Essa é a força transformadora do Evangelho. Na cruz, Jesus
recebe pecadores arrependidos e reescreve suas histórias. Por essa razão, os
autores do Novo Testamento não hesitam em mencionar a fé de Raabe (Hb 11.31; Tg
2.25; Mt 1.5). Deus não se envergonha de expor aquilo que a Sua graça
transformou.
Portanto, ao olhar para a conquista de Jericó, não contemple apenas pedras caindo; veja uma janela, contemple um cordão escarlate e adore o Deus santo cuja graça soberana triunfa gloriosamente em meio ao juízo! Amém.

Nenhum comentário:
Postar um comentário