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sexta-feira, 17 de julho de 2026

As Pedras da Memória: Lembrando as Grandes Obras de Deus

Texto-chave: "Para que isto seja por sinal entre vós; e, quando vossos filhos perguntarem... direis..." (Josué 4.6)

Uma das maiores tragédias da humanidade não é apenas esquecer fatos históricos. É esquecer as obras de Deus. A Bíblia Sagrada revela que a decadência espiritual de Israel quase sempre começou quando uma geração deixou de lembrar aquilo que Deus havia realizado no passado. Depois da morte de Josué, lemos uma das frases mais melancólicas e tristes de todo o Antigo Testamento:

"Levantou-se outra geração que não conhecia o Senhor, nem tampouco as obras que fizera a Israel." (Juízes 2.10)

Observem atentamente: eles não esqueceram apenas a Deus em Sua essência; esqueceram também as Suas obras. Quando a memória espiritual desaparece, a fé inevitavelmente começa a enfraquecer. 

É exatamente por isso que Deus ordena a construção de memoriais. A Bíblia está repleta deles. A Páscoa lembrava a libertação do Egito. O sábado lembrava a criação e a redenção. As festas anuais lembravam a fidelidade contínua do Senhor. 

No Novo Testamento, o próprio Cristo institui a Nova Aliança na Ceia dizendo: "Fazei isto em memória de mim." O cristianismo, meus irmãos, é uma fé que se alimenta da memória da graça. Não porque Deus precise lembrar-Se, mas porque nós esquecemos com extrema facilidade. Como bem observou o reformador João Calvino:

"Nossa memória é extremamente frágil; por isso Deus frequentemente estabelece sinais visíveis para fortalecer nossa fé."

Josué 4 nos ensina com clareza que uma geração que se lembra consistentemente das obras de Deus torna-se uma geração espiritualmente forte.

Israel acabara de atravessar o rio Jordão. O impossível havia acontecido diante dos olhos de todos: as águas foram tragicamente interrompidas, e o povo atravessou em terra perfeitamente seca. 

Os sacerdotes permaneceram firmes no meio do rio, sustentando a Arca da Aliança sobre os ombros. Agora, antes mesmo de iniciarem a conquista estratégica de Jericó, Deus faz algo totalmente inesperado. Ele manda o povo parar. Não para descansar da caminhada, mas para lembrar.

Humanamente falando, parecia uma completa perda de tempo. A guerra estava prestes a começar, e o inimigo estava logo adiante. Mas Deus sabia que a memória seria tão importante para a sobrevivência espiritual de Israel quanto a própria vitória militar. 

Se Israel esquecesse o Deus que abriu o Jordão, em pouco tempo confiaria apenas na força de seus próprios braços. Por isso, Deus manda levantar um memorial. Esse monumento não seria para Deus; seria para o povo e, especialmente, para as futuras gerações. Como observa o teólogo Dale Ralph Davis:

"O memorial não foi construído para informar Deus sobre o que havia acontecido, mas para impedir que Israel esquecesse quem Deus era."

O povo de Deus deve preservar continuamente a memória das grandes obras do Senhor para fortalecer sua fé pessoal e transmitir Sua fidelidade inabalável às próximas gerações.

Neste capítulo rico em simbolismo e instrução, encontramos três razões fundamentais pelas quais Deus deseja que Seu povo jamais se esqueça de Seus grandes feitos.

I – DEUS ORDENA QUE SEU POVO PRESERVE A MEMÓRIA DE SUAS GRANDES OBRAS (vv. 1–9)

Logo após toda a nação concluir a travessia do Jordão, Deus fala novamente a Josué. No versículo 2, Ele ordena: "Tomai do povo doze homens..." Observem que Deus não deixa o momento passar. O milagre ainda estava fresco na mente de cada indivíduo. 

Era exatamente o momento certo para construir o memorial. Isso nos ensina um princípio crucial: as maiores experiências espirituais precisam ser transformadas em lembranças permanentes, caso contrário, o tempo e as distrações da vida terrena as apagarão completamente.

1. Um homem de cada tribo

Os doze homens escolhidos representavam a totalidade da nação. Nenhuma tribo ficou de fora, porque a fidelidade de Deus alcançava e sustentava todo o povo por igual. Cada um desses homens deveria retirar uma pedra pesada do leito profundo do Jordão — não das margens confortáveis, mas do lugar exato onde os sacerdotes permaneceram parados. 

Cada pedra testemunharia que ali, onde outrora passava um rio caudaloso, existiu apenas terra seca por ordem do Senhor. Aquelas pedras seriam testemunhas silenciosas da intervenção sobrenatural de Deus. O puritano Matthew Henry comenta com sabedoria:

"As pedras falariam quando a memória dos homens começasse a falhar."

2. Deus conhece nossa tendência ao esquecimento

Por que Deus insiste em mandar construir um memorial físico? Porque Ele conhece perfeitamente a fragilidade do coração humano. Nós esquecemos facilmente das orações respondidas, dos livramentos na calada da noite, das provisões miraculosas, das curas e da fidelidade geral do Senhor.

E quando esquecemos, o terrível resultado é que começamos a murmurar novamente. Foi exatamente isso que aconteceu com Israel inúmeras vezes durante a peregrinação no deserto. A memória curta produz ingratidão crônica, enquanto a memória espiritual robusta fortalece a fé. Nas palavras do teólogo Herman Bavinck:

"A gratidão floresce somente onde a memória da graça permanece viva."

3. O memorial deveria provocar perguntas

No versículo 6, Deus declara: "Quando vossos filhos perguntarem..." Que detalhe pedagógico maravilhoso! O memorial tinha um propósito intencionalmente didático.

 As crianças olhariam para aquele monte de pedras estranhas e perguntariam aos pais: "Por que essas pedras estão aqui?". Seria o gancho perfeito para que os pais contassem a história da fidelidade de Deus.

Deus não manda apenas levantar pedras; Ele manda criar oportunidades para ensinar. 

A educação espiritual nunca foi responsabilidade exclusiva dos sacerdotes ou dos líderes da igreja; ela começa obrigatoriamente dentro de casa. Pais ensinam filhos, avós contam histórias e as famílias recordam unidas a fidelidade do Senhor. Como escreveu Sinclair Ferguson:

"Uma geração transmite sua fé principalmente por aquilo que escolhe recordar diante de seus filhos."

4. A importância da memória coletiva e o memorial secreto de Josué

Essas pedras permaneceriam em Gilgal durante séculos. Elas se tornaram parte indissociável da identidade nacional de Israel. O povo nunca deveria esquecer que entrou em Canaã estritamente pela graça de Deus, e não pela inteligência militar de Josué. 

Da mesma forma, a Igreja contemporânea jamais deve esquecer que existe por causa da graça. Tudo o que somos e temos, devemos exclusivamente à misericórdia do Senhor.

Curiosamente, no versículo 9, lemos que Josué levanta um segundo memorial: doze pedras erguidas no próprio leito do rio, que seriam permanentemente submersas quando as águas voltassem ao seu fluxo normal. 

Somente Deus e aqueles que sabiam da história as veriam na mente. Isso nos ensina que existem memoriais públicos, mas também existem memoriais secretos

Há experiências profundas entre Deus e nós que ninguém mais conhece — orações respondidas no secreto do quarto, livramentos silenciosos e momentos de quebrantamento que sustentam nossa caminhada. John Flavel escreveu sobre isso:

"Os maiores tesouros da vida espiritual frequentemente são aqueles conhecidos apenas por Deus e pela alma."

ILUSTRAÇÃO: Após a histórica travessia do Oceano Atlântico por Cristóvão Colombo, muitos navegadores pioneiros passaram a erguer grandes cruzes de madeira em pontos estratégicos da costa para marcar a fidelidade de Deus durante a perigosa viagem. 

Eles não acreditavam que a cruz em si possuía poder mágico; ela servia como um memorial visual. Cada vez que olhavam para ela de longe no mar, lembravam-se da providência divina que os poupou da morte. Da mesma forma, Israel olharia para aquelas pedras e recordaria com temor: "Foi exatamente aqui que o Senhor Deus abriu o Jordão".

APLICAÇÕES PRÁTICAS:

  1. Nunca permita que o tempo apague a memória da graça de Deus em sua vida: Faça um esforço consciente para lembrar-se das orações respondidas e das misericórdias diárias.

  2. Conte aos seus filhos aquilo que Deus fez: Nossa geração registra milhares de fotografias digitais que se perdem em nuvens, mas deixa de contar verbalmente as grandes obras de Deus. Recupere a prática de narrar a fidelidade do Senhor no altar familiar.

  3. Cultive memoriais espirituais práticos: Use um diário de oração, anote datas importantes e versículos marcantes que falaram ao seu coração em momentos de crise.

  4. Nunca atribua suas vitórias exclusivamente ao seu próprio esforço: As pedras lembravam que foi Deus quem abriu o Jordão; nossa vida deve proclamar com humildade: "Até aqui nos ajudou o Senhor".

II – A OBEDIÊNCIA PERSEVERANTE FORTALECE A FÉ E REVELA A FIDELIDADE DE DEUS (vv. 10–18)

Depois que as doze pedras foram devidamente retiradas, o texto sagrado nos retorna à cena impactante da travessia nos versículos 10 a 18. Os sacerdotes continuam parados no meio do rio, carregando pacientemente a Arca. 

As águas continuam sobrenaturalmente retidas até que todo o povo termine de passar. Nada aqui acontece por acaso ou por golpe de sorte; tudo ocorre em estrita conformidade com a Palavra do Senhor. 

O autor bíblico faz questão de destacar repetidamente a obediência irrestrita de Josué, dos sacerdotes e do povo, ensinando-nos que os milagres de Deus jamais anulam a necessidade da obediência fiel do Seu povo.

1. A obediência completa honra a Palavra de Deus

O versículo 10 afirma textualmente: "Os sacerdotes... permaneceram no meio do Jordão até se cumprir tudo quanto o Senhor ordenara..." Observem bem a expressão: "Até se cumprir tudo". Eles não abandonaram suas posições antes da hora por cansaço ou pressa. Permaneceram firmes. 

Que extraordinária demonstração de perseverança! Imagine sustentar a pesada Arca da Aliança sob a pressão psicológica de um rio represado que poderia voltar a correr a qualquer momento. Não era uma tarefa confortável, mas era o centro da vontade de Deus.

Isso nos ensina que fidelidade, muitas vezes, significa simplesmente permanecer onde Deus nos colocou, mesmo quando a circunstância ao redor parece assustadora. Vivemos dias em que muitos iniciam ministérios e projetos com entusiasmo, mas pouquíssimos perseveram sob pressão. A Bíblia, no entanto, valoriza os que permanecem. João Calvino comenta com precisão:

"A verdadeira obediência não consiste apenas em começar bem, mas em perseverar até que Deus conclua Sua obra."

2. A presença de Deus conduz e valida o Seu povo

Quando todo o povo terminou a travessia, a Arca continuou à frente. O centro da narrativa permanece sendo a presença bendita do Senhor. A vitória de Israel jamais poderia ser atribuída a méritos humanos. No versículo 14, encontramos uma declaração crucial: "Naquele dia o Senhor engrandeceu a Josué perante os olhos de todo o Israel." 

Observem o detalhe: foi Deus quem engrandeceu Josué. Ele não procurou reconhecimento próprio, não promoveu sua imagem pública e não buscou prestígio político. Josué simplesmente foi fiel e obediente no oculto. No tempo certo, o próprio Deus confirmou publicamente a sua liderança legítima. 

Esse princípio percorre toda a Escritura Sagrada: José foi exaltado após a fidelidade na prisão; Davi foi coroado após o teste do deserto; Daniel foi honrado após a cova dos leões; e o próprio Cristo foi soberanamente exaltado após a obediência humilde da cruz. Charles H. Spurgeon escreveu brilhantemente sobre isso:

"Aquele que procura exaltar-se normalmente será humilhado; mas quem busca glorificar a Deus será honrado no tempo determinado pelo Senhor."

Essa verdade confronta diretamente a nossa época atual, marcada pelo marketing pessoal e pela autopromoção eclesiástica. A liderança estritamente bíblica continua sendo construída por meio da fidelidade silenciosa, da profunda humildade e do serviço sacrificial. Afinal, Jesus declarou: "Quem quiser tornar-se grande entre vós será esse o que vos sirva" (Mt 20.26).

3. Deus encerra Seus milagres no tempo certo

Quando toda a nação conclui a travessia, Deus ordena a Josué: "Subi do Jordão". Somente após essa ordem os sacerdotes deixam o leito do rio. O versículo 18 relata que no exato momento em que as plantas dos pés dos sacerdotes tocaram a terra seca da margem, "as águas do Jordão tornaram ao seu lugar e transbordavam como dantes".

Que precisão matemática e divina impressionante! As águas não voltaram um segundo antes, nem demoraram a voltar depois. Elas responderam imediatamente à soberania do Criador. Como escreveu Herman Bavinck:

"Toda a criação permanece continuamente sustentada e governada pela vontade soberana de Deus."

Esse encerramento perfeito demonstra que Deus sabe exatamente quando concluir uma etapa e iniciar outra. Muitas vezes nós queremos prolongar artificialmente experiências extraordinárias passadas. 

Pedro quis construir tendas no monte da Transfiguração para perpetuar o momento, mas Deus conduz o Seu povo da experiência para a missão prática. 

Israel não atravessou o Jordão para ficar acampado contemplando o rio seco; atravessou para guerrear e conquistar a terra prometida. A obediência do passado abre caminho para os novos desafios do presente.

ILUSTRAÇÃO: Em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, muitos soldados aliados guardaram consigo pequenos objetos que os acompanharam nas trincheiras: uma Bíblia de bolso manchada, uma fotografia desgastada da família ou uma carta de encorajamento. 

Esses objetos não tinham grande valor material, mas representavam fisicamente a fidelidade e o livramento de Deus em meio às bombas. Anos mais tarde, ao mostrarem esses memoriais aos filhos e netos, os veteranos choravam e contavam as histórias de providência divina.

Da mesma forma, as pedras do Jordão eram o testemunho físico de que o Deus que iniciou a jornada era poderoso para terminá-la.

APLICAÇÕES PRÁTICAS:

  1. A fidelidade exige perseverança firme: Permaneça no posto que Deus lhe confiou até receber uma nova ordem clara Dele. Não retroceda diante do cansaço.

  2. Toda verdadeira liderança e ministério são confirmados por Deus: Não gaste suas energias tentando construir sua própria reputação ou aplauso; gaste suas energias servindo com humildade. A honra pertence unicamente ao Senhor.

  3. Os milagres e provações têm prazos determinados por Deus: As águas abriram e fecharam no momento exato decretado pela soberania divina. Descanse no relógio perfeito de Deus. Matthew Henry afirmou apropriadamente: "O relógio de Deus nunca adianta nem atrasa; ele sempre marca a hora exata da Sua providência."

  4. O Deus que abriu o Jordão continua governando soberanamente todas as suas circunstâncias atuais: Ele governa sua família, sua saúde, seu ministério, suas lutas financeiras e o seu futuro inteiro. Nada escapa ao Seu controle.

III – O TESTEMUNHO DAS OBRAS DE DEUS DEVE ALCANÇAR AS FUTURAS GERAÇÕES (vv. 19–24)

Chegamos, finalmente, ao propósito teológico e final do memorial. As pedras não foram levantadas meramente para que a geração de Josué ficasse alimentando uma nostalgia do passado. 

Elas existiam para moldar ativamente o futuro da nação. O objetivo do Senhor nunca foi preservar apenas um registro histórico frio em um museu, mas sim preservar uma fé viva, pulsante e ortodoxa no coração das próximas gerações.

Deus sabia perfeitamente que Israel pisaria em uma terra corrompida por uma idolatria cananeia agressiva e sedutora. Por isso, as futuras gerações precisavam de um ponto focal visível de lembrança espiritual.

1. O memorial foi estabelecido estrategicamente em Gilgal

O texto nos informa nos versículos 19 e 20 que o povo subiu do Jordão no décimo dia do primeiro mês e acampou em Gilgal, e foi ali que Josué levantou as doze pedras. Gilgal tornou-se, a partir daquele momento, o quartel-general espiritual e militar de Israel dentro da Terra Prometida. 

Ali eles renovariam a aliança, celebrariam a Páscoa, circuncidariam a nova geração e se preparariam para a batalha de Jericó. Gilgal transformou-se em um marco geográfico da memória espiritual.

Deus frequentemente associa lugares específicos a manifestações extraordinárias da Sua graça na história bíblica: Betel lembrava o encontro de Jacó; Moriá lembrava a provisão de Abraão; Sinai lembrava a entrega solene da Lei; e o Calvário lembraria definitivamente o sacrifício substitutivo de Cristo. Os lugares em si não eram mágicos ou santos, mas apontavam diretamente para o Deus vivo que agiu ali. Como bem observou Dale Ralph Davis:

"Gilgal tornou-se um livro de pedras onde cada geração podia ler novamente a fidelidade de Deus."

2. A solene responsabilidade dos pais em ensinar os filhos

O versículo 21 toca no coração pulsante de todo o capítulo 4. Josué declara categoricamente: "Quando, no futuro, vossos filhos perguntarem..." Vejam novamente a metodologia pedagógica de Deus: Ele desperta a curiosidade natural das crianças através de sinais visíveis para criar oportunidades intencionais de ensino teológico dentro do lar. 

Esse princípio imutável revela que a responsabilidade primária pela formação espiritual e pelo discipulado dos filhos pertence exclusivamente à família. A igreja local auxilia graciosamente, os pastores ensinam do púlpito e a Escola Dominical contribui imensamente; porém, o primeiro e mais eficaz discipulado deve ocorrer dentro de casa. Moisés já havia estabelecido esse padrão em Deuteronômio 6: "Estas palavras... tu as inculcarás a teus filhos".

O Salmo 78 reforça firmemente o mesmo princípio: "Contaremos à vindoura geração os louvores do Senhor".

Uma geração de pais que deixa de ensinar ativamente seus filhos sobre as obras de Deus prepara o caminho para a apostasia e o esquecimento espiritual da geração seguinte. João Calvino escreveu com gravidade:

"Os pais são os primeiros mestres da religião na casa de Deus."

Meus irmãos, que responsabilidade solene pesa sobre os nossos ombros! Não basta oferecermos aos nossos filhos uma excelente educação secular, uma boa alimentação, roupas de marca ou uma profissão de prestígio no mercado. Nós precisamos, acima de tudo, transmitir-lhes o conhecimento salvador do Deus vivo.

3. O memorial proclamava a soberania universal de Deus

Nos versículos 23 e 24, Josué conclui o seu pronunciamento apontando para o duplo objetivo teológico do memorial: "Porque o Senhor, vosso Deus, fez secar as águas do Jordão... para que todos os povos da terra conheçam que a mão do Senhor é forte..."

  • Primeiro objetivo: Fortalecer a fé interna de Israel e gerar temor filial contínuo.

  • Segundo objetivo: Testemunhar publicamente às nações pagãs ao redor.

O milagre do Jordão não foi um evento egoísta, operado apenas para o benefício interno de Israel; ele tinha um caráter profundamente evangelístico e missiológico. 

Os povos pagãos precisavam saber que o Deus de Israel não era um ídolo local de madeira ou pedra, mas sim o único Deus verdadeiro e soberano sobre a terra. Essa continua sendo a grande missão da Igreja hoje. 

Nossa vida comunitária e familiar deve proclamar ao mundo quem Deus é. Jesus declarou: "Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens" (Mt 5.16). E o apóstolo Pedro arrematou: "Para proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz" (1Pe 2.9). A memória da graça sempre nos conduz ao testemunho da graça. Como escreveu Herman Bavinck:

"A Igreja existe para tornar conhecido entre as nações o Deus vivo."

AS PEDRAS DO JORDÃO E A REDENÇÃO EM CRISTO

Ao pregarmos o livro de Josué, devemos lembrar que todo memorial e sombra do Antigo Testamento aponta tipologicamente para uma realidade infinitamente maior e definitiva no Novo Testamento. 

As doze pedras brutas de Gilgal lembravam a travessia física do Jordão. No entanto, o nosso Senhor Jesus Cristo instituiu para a Sua Igreja um memorial infinitamente superior. Na noite em que foi cruelmente traído, Ele tomou o pão e o cálice em Suas mãos e disse: "Fazei isto em memória de mim".

Assim como Israel jamais deveria esquecer o milagre do Jordão sob o risco de morte espiritual, a Igreja de Deus jamais, sob hipótese alguma, deve esquecer a cruz do Calvário. 

O nosso maior memorial não é feito de pedras frias empilhadas em um monumento; o nosso memorial é a Mesa do Senhor. Cada celebração da Santa Ceia proclama verdades eternas: Cristo morreu pelos nossos pecados, Cristo ressuscitou para nossa justificação e Cristo voltará em glória!

As pedras de Josué lembravam uma libertação geográfica e temporal; a Ceia do Senhor lembra uma redenção espiritual e eterna. As pedras anunciavam a fidelidade de Deus nas águas do Jordão; a cruz anuncia a fidelidade absoluta de Deus no Calvário, onde Ele derramou o Seu próprio Filho para abrir o caminho definitivo para o Céu. Como bem escreveu o puritano John Owen:

"Toda a esperança da Igreja repousa na lembrança contínua da obra consumada de Cristo."

ILUSTRAÇÃO FINAL

Durante muitos anos de seu frutífero ministério, um idoso pastor escocês mantinha sobre a sua mesa de estudos uma pequena pedra cinzenta e simples, trazida do campo escuro onde ele havia se convertido a Cristo na juventude. 

Sempre que enfrentava crises severas no ministério, momentos de profunda depressão, escassez ou perseguição, ele parava, olhava fixamente para aquela pedra na mesa e lembrava-se com lágrimas da fidelidade de Deus naquele dia da sua salvação. 

Certa vez, um visitante perguntou por que ele conservava aquele objeto tão comum e sem valor estético em sua mesa. O pastor respondeu comovido:

"Eu a guardo aqui porque a minha memória é infinitamente mais fraca do que a fidelidade de Deus."

Era exatamente isso que Deus sabia a respeito de Israel, e é exatamente isso que Ele sabe a respeito de cada um de nós hoje. Nós sofremos de uma terrível amnésia espiritual. Por isso, precisamos constantemente recordar aquilo que Deus já fez na história da redenção e em nossas vidas particulares.

CONCLUSÃO

Josué 4 é um capítulo solene sobre a memória. Mas não se trata de uma memória melancólica ou de um saudosismo estéril. É uma memória teológica que fortalece a fé para as batalhas do presente. 

Aquelas pedras em Gilgal permaneceriam silenciosas ao longo dos anos, mas cada vez que um israelita ou um estrangeiro olhasse para elas, elas pregariam um sermão poderoso sem proferir uma única palavra audível. Elas diriam em alto e bom som: "Foi o Senhor Deus quem abriu o Jordão!"

Nós, a Igreja do Deus vivo, também possuímos memoriais maravilhosos dados pelo Senhor: a Palavra inspirada em nossas mãos, o selo do Batismo, a celebração da Ceia do Senhor e os testemunhos vivos de transformação da Igreja ao longo dos séculos. Todos esses elementos proclamam continuamente: "Até aqui nos ajudou o Senhor".

Vivemos em um mundo secularizado que sofre de amnésia espiritual crônica. As pessoas esquecem as misericórdias recebidas no dia anterior e caem em desespero na primeira crise do dia seguinte. 

Mas a Igreja é chamada a ser o baluarte da memória. Somos chamados a lembrar da cruz, a lembrar da sepultura vazia e a lembrar que o Deus que abriu o Jordão continua governando o universo inteiro hoje.

Mais do que isso, este capítulo aponta diretamente para a pessoa de Jesus Cristo. Assim como o antigo Israel entrou na terra de Canaã por meio de um caminho milagrosamente aberto por Deus no Jordão, nós entramos hoje na presença santa do Pai e garantimos a nossa pátria celestial por meio do caminho vivo e definitivo aberto pelo corpo rasgado de Jesus Cristo na cruz. Ele é o nosso verdadeiro Jordão. Ele é a nossa verdadeira Arca da Aliança. Ele é o nosso supremo Libertador.

Portanto, meu irmão e minha irmã, quando novos desafios, enfermidades ou desertos surgirem diante de você nesta semana, não olhe para o tamanho das águas ou para a força da correnteza. 

Olhe para as "pedras" da fidelidade divina em sua história. Recorde tudo o que Deus já fez por você na cruz. Alimente a sua alma com a memória bendita da graça e avance com total confiança, porque o Deus que foi fiel no passado continuará sendo perfeitamente fiel no seu presente e no seu futuro.

Como declarou confiantemente o profeta Samuel:

"Até aqui nos ajudou o Senhor." (1 Samuel 7.12)

E como afirma categoricamente o autor da carta aos Hebreus:

"Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre." (Hebreus 13.8)

Esta é a certeza inabalável que sustenta e sustentará a Igreja de Cristo em todas as gerações.Oremos. Amém!

Pr. Eli Vieira Filho

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