Texto: Josué 3.1–17
Texto-chave: "Nisto conhecereis que o Deus vivo está no meio de vós." (Josué 3.10) ---
Existem momentos na vida em que nos deparamos com obstáculos que se apresentam como absolutamente intransponíveis aos nossos olhos. São aquelas encruzilhadas existenciais em que todos os recursos humanos, toda a nossa lógica, inteligência ou força parecem escandalosamente insuficientes.
Uma
enfermidade grave e inesperada; uma crise conjugal ou familiar que ameaça
desmoronar o lar; uma decisão crucial para o futuro que paralisa a mente; um
ministério desafiador que parece pesado demais para os nossos ombros; ou uma
porta de oportunidade que se fecha com força diante de nós.
Israel encontrava-se exatamente sob essa densa atmosfera de
impossibilidade. Após quarenta anos de uma penosa e errante caminhada pelo
deserto, a nação finalmente estava às portas da Terra Prometida. O sonho de
gerações estava a poucos metros de distância. Entretanto, entre eles e a
promessa, erguia-se uma barreira intransponível: o rio Jordão.
O texto sagrado de Josué 3 nos informa, em um detalhe que não pode passar despercebido, que aquela era a época da colheita. Nessa estação específica do ano, devido ao derretimento da neve no monte Hermom, o rio Jordão transbordava por todas as suas margens (Js 3.15).
Não estávamos diante de um
pequeno riacho que se podia cruzar com a água pelos tornozelos. Era um rio
caudaloso, violento, profundo e mortal para ser atravessado por uma multidão
estimada em cerca de dois milhões de pessoas — incluindo mulheres,
recém-nascidos, idosos, animais e toda a bagagem acumulada de uma nação.
Humanamente falando, a grande jornada da conquista parecia
destinada a fracassar e terminar antes mesmo de começar. Mas aquilo que era o
limite extremo e impossível para os homens provou ser, mais uma vez, o cenário
perfeito para Deus revelar a soberania de Sua glória.
A Escritura Sagrada é rica em episódios dessa natureza. O Mar Vermelho bloqueando a fuga do Egito; as intransponíveis muralhas de Jericó; a cova faminta dos leões na Babilônia; a fornalha ardente de Nabucodonosor; a dor terrível da cruz no Calvário; o túmulo lacrado e guardado por soldados romanos. Em todos esses marcos históricos,
Deus demonstrou de forma contundente
que Seus milagres mais extraordinários costumam ser gerados precisamente quando
todos os recursos e esperanças humanas chegam ao fim. Como tão bem escreveu o
célebre pregador batista Charles Haddon Spurgeon:
"Quando chegamos ao fim de nós mesmos, chegamos ao
começo da atuação extraordinária de Deus."
Josué 3 não é meramente um registro de folclore antigo ou um fato histórico estéril. É uma proclamação atemporal e viva de que o Deus a quem servimos continua abrindo caminhos onde a nossa miopia humana só consegue enxergar impossibilidades.
Este capítulo relata um dos eventos mais cruciais de toda a
história da Redenção no Antigo Testamento. Durante quatro décadas, Israel viveu
como um povo nômade e peregrino. Agora, eles pisariam oficialmente na terra
jurada séculos antes a Abraão, Isaque e Jacó.
Contudo, antes que pudessem sequer marchar contra Jericó, Deus estabelece um milagre de entrada. Assim como Ele abrira soberanamente o Mar Vermelho no início da jornada para libertar o povo da escravidão, agora Ele abre o Jordão para introduzi-los na herança da aliança.
Esses dois milagres
funcionam como perfeitos "parênteses" teológicos que delimitam o
tempo do deserto: o primeiro selou a libertação; o segundo consumou a introdução.
Além disso, o Senhor estava usando este evento dramático para autenticar e confirmar publicamente a liderança de Josué perante toda a congregação.
A mensagem implícita era de uma clareza absoluta: assim como
Moisés estendeu o cajado e o Mar Vermelho se abriu, Josué conduziria o povo
pelo leito seco do Jordão. O Deus que sustentou Moisés estava governando
através de Josué. Como observa o comentarista reformado Dale Ralph Davis:
"A travessia do Jordão não era apenas um milagre
utilitário; era uma declaração pública e solene de que Deus permanecia
perfeitamente fiel à Sua aliança com o Seu povo."
Outro detalhe exegético de suma importância é a centralidade da Arca da Aliança neste capítulo. Ela é explicitamente mencionada diversas vezes ao longo da narrativa. A Arca representava a presença gloriosa, santa e graciosa do próprio Deus habitando no meio da comunidade.
O texto sagrado está nos ensinando que não seria o braço armado de Israel que abriria caminho através da torrente do rio; era o próprio Deus quem marcharia na vanguarda do Seu povo.
Essa verdade permanece como uma das colunas da nossa fé: a Igreja de Cristo nunca avança ou vence por seus próprios recursos, mas porque o Senhor da Glória marcha adiante dela.
Os maiores milagres de Deus acontecem quando Seu povo aprende a confiar inteiramente na Sua presença e a obedecer de forma incondicional à Sua Palavra.
Ao analisarmos com reverência a exposição deste texto de
Josué 3, descobrimos três princípios indispensáveis para experimentarmos o agir
sobrenatural e providencial de Deus em nossas vidas quando nos deparamos com os
nossos próprios impossíveis.
I – DEUS PREPARA O SEU POVO ANTES DE REALIZAR GRANDES
MILAGRES (vv. 1–6)
O relato bíblico inicia-se com uma observação prática e
reveladora:
"Levantou-se Josué de madrugada..." (v. 1)
Esta expressão aponta para uma das marcas indeléveis do caráter deste grande servo: a sua prontidão espiritual e diligência prática. Josué não era um líder apático ou vacilante. Diante da ordem de Deus, sua reação era imediata e enérgica.
O Senhor não chama pessoas espiritualmente
ociosas para liderarem Suas grandes obras; Ele chama aqueles que estão prontos
a agir com diligência no cumprimento de Seus decretos. Sobre essa presteza em
obedecer, João Calvino asseverou com precisão:
"A prontidão para obedecer de forma imediata à voz
de Deus é uma das primeiras e mais nítidas evidências de uma fé verdadeira e
regenerada."
A Espera de Três Dias (vv. 2–3)
Diz o texto que, após se moverem de Sitim e chegarem ao
Jordão, eles acamparam ali antes de atravessar e, ao cabo de três dias, os
oficiais passaram pelo meio do arraial.
Imagine o peso psicológico e espiritual daqueles três dias de espera. Milhões de pessoas acampadas à beira de um rio violento e transbordante.
Cada dia que passava servia para que contemplassem a total
impossibilidade de sua missão. A lógica humana sugeriria que Josué construísse
pontes ou fizesse jangadas, mas Deus os manteve ali, parados, apenas observando
a força das águas.
Muitas vezes, o Senhor nos coloca deliberadamente em salas de espera existenciais. Ele faz isso para desmantelar a nossa autossuficiência e nos ensinar que a nossa segurança deve repousar unicamente nEle, e não nas nossas estratégias pragmáticas.
O silêncio de Deus ou a Sua aparente demora
nunca significam abandono; são, na verdade, ferramentas de maturação
espiritual. Como observou o puritano Matthew Henry:
"A espera paciente diante do invisível é,
frequentemente, a melhor e mais eficaz escola da nossa fé."
A Centralidade da Presença Divina (v. 3)
Os oficiais dão a seguinte ordem ao povo:
"Quando virdes a Arca da Aliança do Senhor...
partireis do vosso lugar e a seguireis."
Este comando carrega um significado profundo. O povo não
deveria marchar na frente da Arca, nem caminhar paralelamente a ela. A Arca
deveria ditar o passo, a direção e o destino de toda a nação.
Esse princípio permanece inalterado para nós hoje: Deus não segue os planos da Sua Igreja; a Igreja é quem deve seguir os passos do seu Senhor. Vivemos em uma época antropocêntrica, onde muitos tentam usar a oração como um mecanismo para obrigar Deus a carimbar e abençoar seus projetos pessoais.
A Escritura, contudo, nos chama a nos submetermos soberanamente aos
planos eternos de Deus. O teólogo John MacArthur pontua com clareza:
"A verdadeira fé não consiste em persuadir Deus a
endossar e seguir os nossos projetos egoístas, mas em submeter a nossa vontade
para seguir fielmente os passos dEle."
O Temor e a Santidade Requeridos (vv. 4–5)
Havia, entretanto, uma instrução peculiar: deveria haver uma distância de cerca de dois mil côvados (aproximadamente 900 metros) entre o povo e a Arca. Ninguém deveria se aproximar dela além do limite estabelecido. Essa distância servia para dois propósitos claros.
O primeiro era de ordem
prática: em um terreno acidentado, com milhões de pessoas na retaguarda, manter
a Arca elevada e isolada no horizonte garantia que todos pudessem contemplar a
direção do caminho. O segundo propósito era de natureza teológica: lembrar a
Israel a santidade transcendente do Deus Altíssimo.
A presença de Deus é maravilhosa e graciosa, mas jamais deve
ser tratada como algo comum ou trivial. Embora em Cristo Jesus tenhamos plena e
livre ousadia para entrar no Santo dos Santos, não devemos perder o temor
reverente diante da majestade dAquele que é Consumidor de toda iniquidade. O
autor de Hebreus nos admoesta: "Sirvamos a Deus de modo agradável, com
reverência e santo temor" (Hb 12.28).
É nesse contexto de reverência que Josué pronuncia a solene
ordem no versículo 5:
"Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará
maravilhas no meio de vós."
Aqui está um axioma inegociável da espiritualidade bíblica: a santificação precede o milagre. Antes que as águas do Jordão se abrissem externamente, o coração do povo precisava ser purificado internamente.
A
santificação envolvia purificação cerimonial, exame minucioso de pecados
ocultos, consagração e renovação da fidelidade ao Senhor da Aliança.
Muitos em nossos dias desejam ardentemente experimentar as "maravilhas" de Deus — querem curas, prosperidade, portas abertas e intervenções espetaculares —, mas recusam-se terminantemente a trilhar o caminho estreito da santidade de vida.
Deus não realiza milagres para
satisfazer a curiosidade de uma geração incrédula ou validar corações
obstinados no pecado. Ele santifica o vaso antes de usá-lo para a Sua glória.
Como bem nos ensina o teólogo escocês Sinclair Ferguson:
"Deus frequentemente opera uma profunda obra de
purificação dentro de nós antes de realizar uma obra poderosa e visível ao
nosso redor."
No versículo 6, Josué ordena aos sacerdotes que tomem a Arca e marchem à frente do povo. Eles obedeceram prontamente. A liderança espiritual tem o dever de ser a primeira a dar passos de obediência e consagração.
O
rebanho dificilmente andará em santidade se os seus pastores e líderes não
forem modelos visíveis de piedade e reverência prática, como o apóstolo Pedro
nos exorta a ser (1Pe 5.3).
II – A FÉ OBEDECE ANTES DE CONTEMPLAR O MILAGRE (vv.
7–13)
Após o período de santificação e preparação, Deus fala
diretamente ao coração de Josué. O cenário para o grande ato de poder estava
montado, mas Deus queria fixar na mente daquela nova geração uma lição de valor
eterno: na economia do Reino de Deus, a obediência cega em relação às
circunstâncias físicas é a chave que destranca a manifestação do poder de Deus.
A nossa sociedade, governada pelo ceticismo empírico, dita o seguinte protocolo: "Ver para crer". Se eu puder tocar, analisar e ver o caminho aberto, então darei o primeiro passo.
No entanto, a
lógica da fé bíblica opera no sentido inverso: "Crer para ver".
Foi exatamente o que nosso Senhor Jesus asseverou à aflita Marta diante do
túmulo lacrado de seu irmão Lázaro: "Não te disse eu que, se creres,
verás a glória de Deus?" (Jo 11.40).
A Autenticação Divina de Josué (v. 7)
O Senhor diz a Josué:
"Hoje começarei a engrandecer-te perante todo o
Israel, para que saibam que, assim como fui com Moisés, assim serei
contigo."
É importante discernir que o engrandecimento aqui prometido nada tinha a ver com a inflamação do ego ou do orgulho de Josué. Tratava-se de uma legitimação ministerial para o benefício do próprio povo.
Israel precisava
compreender, sem sombra de dúvida, que Josué não era um usurpador do trono ou
um líder movido por vaidade pessoal, mas o instrumento escolhido soberanamente
por Deus para aquela transição histórica.
Toda autoridade espiritual legítima e frutífera provém do
decreto e do mover do próprio Deus. João Calvino pondera:
"Quando Deus chama soberanamente um homem para uma
obra de relevância na Sua Igreja, Ele mesmo Se encarrega de selar e confirmar
essa vocação no tempo oportuno perante a comunidade."
Não cabe ao ministro de Cristo gastar sua energia
construindo marcas pessoais, reputações artificiais ou buscando autopromoção
nas redes ou no palanque. Cabe-lhe apenas pregar a Palavra e servir com
integridade. O tempo e a forma da honra pertencem exclusivamente ao Senhor da
seara.
O Propósito do Milagre: Revelar o Deus Vivo (vv. 8–10)
Josué reúne os filhos de Israel e proclama algo de imenso
valor teológico no versículo 10:
"Nisto conhecereis que o Deus vivo está no meio de
vós."
A travessia seca do Jordão não foi operada apenas para fins
de transporte logístico. O milagre não era um fim em si mesmo. O propósito
fundamental de qualquer intervenção sobrenatural de Deus na história não é
meramente aliviar o sofrimento humano ou resolver um impasse prático, mas revelar
o caráter, a glória e a soberania do próprio Deus. O foco do crente deve
estar sempre fixado no Deus do milagre, e nunca apenas no milagre de
Deus.
Josué faz questão de contrastar o Senhor com os ídolos das nações pagãs ao chamá-Lo de "o Deus vivo". Os cananeus que habitavam aquela terra adoravam deuses mortos, ídolos de madeira, barro e ouro — divindades como Baal e Astarote, que eram projeções de suas próprias paixões, incapazes de ver, ouvir, amar ou intervir na história humana.
Israel, porém, pertencia
ao Deus que é a própria fonte da vida. Aquele que fala e acontece, que decreta
e a história se curva. Herman Bavinck, o grande teólogo dogmático reformado,
expressou esta realidade com propriedade:
"A Escritura Sagrada jamais apresenta Deus como uma
mera abstração filosófica ou uma ideia religiosa vaga, mas sim como o Deus
vivo, pessoal e ativo que governa e intervém soberanamente no curso da história
humana."
A Vitória Soberana de Deus (v. 10b)
A confiança de Josué na soberania divina é tão inabalável
que ele afirma com absoluta certeza:
"Ele expulsará de diante de vós os cananeus..."
Note a precisão gramatical da sua declaração. Josué não diz
aos guerreiros de Israel: "Vocês, com suas espadas e táticas
inovadoras, expulsarão os inimigos". Ele diz: "Ele — o Deus
vivo — os expulsará".
A Bíblia preserva constantemente este perfeito equilíbrio na dinâmica da providência: nós agimos, mas é Deus quem opera o resultado. Nós pregamos a Palavra exposta com fidelidade, mas é o Espírito Santo quem regenera o coração morto.
Nós lutamos as batalhas diárias contra o pecado e contra o
mundo, mas a força da vitória provém inteiramente do Senhor. Matthew Henry, em
seu estilo devocional marcante, nos lembra:
"Quando o Deus Todo-Poderoso promete lutar por Seu
povo, toda e qualquer oposição terrena torna-se apenas um obstáculo temporário
a ser superado."
O Soberano de Toda a Terra (vv. 11–13)
Ao se referir à Arca que cruzaria na vanguarda, Josué a chama de "a Arca da Aliança do Senhor de toda a terra" (v. 11). Este título solene era uma declaração de guerra espiritual contra as pretensões territoriais dos deuses de Canaã.
O Deus de Israel não é uma divindade tribal limitada a uma montanha, a um vale ou a um deserto específico. Ele é o Proprietário, Criador e Sustentador Absoluto do cosmos. Ele tem o domínio sobre as leis físicas, sobre os rios caudalosos, sobre as dinastias reais e sobre o destino das nações. John Frame, em sua teologia sistemática, escreve:
"A soberania absoluta de Deus significa que
absolutamente nada no universo criado existe ou opera à margem ou fora do Seu
governo providencial."
O Passo de Fé Antes do Milagre (v. 13)
A instrução era desafiadora ao extremo: as águas do Jordão
não se abririam enquanto os sacerdotes estivessem confortavelmente acampados na
margem seca. Elas só parariam de correr quando as plantas dos pés dos
sacerdotes que carregavam a Arca tocassem e se molhassem nas águas do rio.
Aqui reside o segredo da maturidade espiritual: a fé genuína dá o passo na obediência antes de contemplar o caminho aberto. Noé martelou a madeira da arca sob um sol escaldante, anos antes de cair a primeira gota de chuva sobre a terra. Abraão arrumou suas malas e partiu de Ur dos Caldeus sem ter um mapa de destino nas mãos.
Pedro lançou a rede sobre o mar
por causa da palavra de Cristo, mesmo tendo trabalhado a noite inteira sem
pescar nada. Os sacerdotes de Israel precisaram molhar suas vestes e seus pés
na correnteza impetuosa do Jordão antes que o milagre se tornasse visível. A fé
não é presunção; é obediência baseada na Palavra dAquele que prometeu. Como
escreveu o teólogo puritano John Owen:
"A obediência ativa e fiel é a linguagem visível e
audível da verdadeira fé."
III – DEUS ABRE O IMPOSSÍVEL PARA MANIFESTAR A SUA GLÓRIA
(vv. 14–17)
Chegamos ao ponto de maior dramaticidade e clímax da nossa
narrativa. A tensão do capítulo atinge o seu ápice. Durante todos os versículos
anteriores, uma grande expectativa foi cuidadosamente construída pelo autor
sagrado. O povo santificou-se; os sacerdotes tomaram seus postos; a Arca foi
levantada; as promessas de vitória foram solenemente anunciadas. Agora, chega a
hora da verdade.
O rio Jordão continuava ali — violento, barulhento, transbordando por todas as suas margens. Nenhuma gota d'água havia diminuído até que a obediência se materializasse. Tudo o que Israel possuía, naquele momento decisivo, era a promessa escrita e falada de Deus.
E é exatamente assim
que o Senhor trata as nossas almas hoje: Ele frequentemente escolhe não remover
o obstáculo de imediato. Primeiro, Ele exige que a nossa fé seja exercitada na
prática da obediência; depois, Ele intervém com o Seu poder majestoso.
O Milagre da Obediência e o Domínio Sobre a Criação (vv.
14–16)
O versículo 15 descreve o exato momento em que as plantas
dos pés dos sacerdotes tocaram as águas do Jordão. No instante exato daquele
toque de obediência, o extraordinário aconteceu:
"As águas que vinham de cima pararam; levantaram-se
num montão, mui longe, na cidade de Ada... e as que desciam ao mar da Arabéia,
que é o Mar Salgado, foram de todo cortadas; e o povo passou defronte de
Jericó." (v. 16)
Este detalhe geográfico e físico demonstra o controle absoluto do Criador sobre as leis da física e da natureza que Ele mesmo estabeleceu. O fluxo do rio não foi meramente atenuado ou diminuído por uma seca sazonal inexplicável.
A correnteza foi literalmente interrompida por um
ato imediato do poder de Deus. As águas pararam e acumularam-se como uma grande
muralha líquida dezenas de quilômetros acima, enquanto a porção que corria em
direção ao Mar Morto escoou completamente, abrindo um imenso corredor de terra
seca para a travessia.
Toda a criação inanimada reconhece instantaneamente a voz e
a autoridade do seu Criador. O mar se abre; o vento se cala; o sol se detém; a
tempestade se dissipa; os rios param o seu curso. Somente o coração do ser
humano, endurecido pelo pecado, costuma resistir e questionar os decretos
divinos. Charles Spurgeon comentou sobre este fato:
"A criação inanimada e irracional reconhece e
obedece prontamente à soberania de seu Criador muito melhor do que a esmagadora
maioria dos seres humanos."
Essa verdade deve encher a nossa alma de profundo descanso
espiritual. Se o Deus que adoramos governa as correntes do Jordão, Ele governa
com o mesmo poder soberano cada detalhe, cada reviravolta e cada circunstância
da nossa história de vida. Herman Bavinck pontua com maestria:
"A providência abrangente de Deus estende-se de
forma ativa desde o curso majestoso das galáxias até os menores, mais íntimos e
aparentemente insignificantes eventos da existência de cada criatura
humana."
A Travessia Segura de Todo o Povo (v. 17)
O capítulo se encerra com uma nota de triunfo e segurança
absoluta:
"Os sacerdotes... pararam firmes em seco, no meio do
Jordão, e todo o Israel passou a seco, até que todo o povo acabou de passar o
Jordão."
Ninguém foi esquecido na margem oposta. Nenhuma família se
perdeu na travessia. Nenhuma criança foi arrastada pelas águas. Nenhum idoso
foi deixado para trás. Todo o povo da aliança cruzou em perfeita e total
segurança.
Essa garantia de preservação não residia na habilidade física daquele povo ou na competência militar de Josué, mas na fidelidade inabalável do Senhor de toda a terra.
Os sacerdotes, carregando a Arca da
Aliança, permaneceram firmes, imóveis e plantados no meio do leito seco do rio.
Enquanto a presença divina estava ali, no meio do perigo potencial, o caminho
permanecia aberto e seguro para que todos atravessassem.
Que imagem gloriosa da nossa preservação em Cristo! Assim
como aqueles sacerdotes seguraram simbolicamente o rio até que o último
israelita cruzasse em segurança, Cristo Jesus, o nosso Sumo Sacerdote perfeito,
garante a segurança eterna de cada um de Seus eleitos. John Owen, o grande
teólogo puritano inglês, escreveu com segurança bíblica:
"Cristo, em Sua fidelidade sacerdotal absoluta,
jamais permitirá que se perca um sequer daqueles que o Pai lhe entregou na
eternidade."
O JORDÃO APONTA PARA CRISTO
Ao expormos este glorioso capítulo de Josué 3, os nossos
olhos não devem se deter apenas em Josué, nos sacerdotes ou nas águas paradas
do Jordão. Toda esta narrativa histórica transborda com um profundo e rico
significado cristológico e tipológico.
Assim como aquela multidão de pecadores necessitados não tinha condições físicas ou humanas de transpor o Jordão por si mesma para alcançar a herança prometida, nós também estávamos completamente bloqueados por um abismo infinitamente maior, mais profundo e letal: o abismo do nosso próprio pecado e a justa ira de um Deus Santo.
Nenhuma religião humana,
nenhuma moralidade estrita, nenhuma quantidade de boas obras ou méritos
pessoais seria capaz de abrir um milímetro de caminho através desse abismo
espiritual. Mas aquilo que era absolutamente impossível para nós, Deus tornou
realidade e abriu de forma definitiva através de Seu Filho unigênito na cruz do
Calvário.
- A Arca
da Aliança (a presença santa de Deus) entrou primeiro nas águas da
morte do Jordão para que o caminho se abrisse. Jesus Cristo, a
perfeita habitação de Deus entre os homens, entrou primeiro nas águas
escuras da morte e sofreu o juízo da ira de Deus em nosso lugar para nos
abrir o caminho do Céu.
- A
Arca permaneceu firme no meio da torrente até que o último israelita
estivesse seguro. Cristo permanece fiel à Sua Igreja e ao Seu
sacerdócio, intercedendo por nós diante do Pai, garantindo que nenhum dos
Seus eleitos seja condenado ou se perca ao longo da jornada terrena.
O autor de Hebreus proclama com júbilo esta verdade
monumental: "Temos, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santuário,
pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou..."
(Hb 10.19-20). Como bem resumiu o reformador de Genebra, João Calvino:
"Toda a esperança e segurança da Igreja repousam
única e exclusivamente na obra Daquele que rasgou o véu e abriu um novo e vivo
caminho de reconciliação com Deus."
APLICAÇÕES PRÁTICAS
Como este texto inspirado fala às nossas vidas hoje?
- Deus continua abrindo caminhos onde não existem caminhos. Talvez você tenha entrado neste santuário hoje com um imenso "Jordão" bloqueando o seu horizonte existencial. Um problema de saúde sem diagnóstico simples; uma falência financeira iminente; um lar despedaçado pela dor; um ministério que parece ter chegado ao limite das forças humanas. Lembre-se desta verdade: aquilo que limita as forças dos homens jamais limita o poder soberano do Deus vivo. Ele continua sendo o Senhor dos caminhos secos.
- A
nossa única responsabilidade é a obediência fiel. Os sacerdotes não
tinham o poder de fazer o rio parar; a função deles era apenas colocar os
pés na água sob a direção da Palavra. A sua responsabilidade, irmão, não é
produzir milagres ou tentar controlar o amanhã. A sua única missão é
obedecer fielmente ao que Deus já ordenou na Sua Palavra escrita. O
controle e os resultados pertencem inteiramente ao Senhor.
- Jamais
marche à frente da presença de Deus. Israel permaneceu seguro porque
aprendeu a esperar e a seguir a Arca. Sempre que agimos por impulso,
guiados por nossas próprias opiniões pragmáticas ou ansiedades carnais,
sem consultar o Senhor em oração e submissão à Sua Palavra, acabamos nos
afogando nas correntes deste mundo. Deixe que Cristo conduza a sua vida.
- O
maior de todos os milagres é a obra da salvação. Ver as águas de um
rio caudaloso retrocederem é algo espetacular de se contemplar. Contudo, o
milagre mais extraordinário que ocorre no universo não é físico, mas
espiritual: é quando o Deus vivo, por Sua maravilhosa graça, vivifica um
coração morto em delitos e pecados, abrindo o caminho da salvação e
transportando-nos do império das trevas para o Seu reino de luz.
- Nossa
âncora de esperança está cravada na Cruz. O rio Jordão secou e voltou
a correr; mas a obra consumada por Cristo na cruz permanece eternamente de
pé. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Não há outro acesso ao Pai, não
há outra esperança de glória senão nEle.
CONCLUSÃO
Queridos irmãos e irmãs, o texto sagrado de Josué 3 nos
constrange a aprender que as intervenções mais extraordinárias do Senhor
acontecem quando aprendemos a confiar mais no Seu caráter e na Sua Palavra do
que nas circunstâncias visíveis ao nosso redor.
Israel chegou diante de uma barreira impossível, mas saiu do outro lado testemunhando a fidelidade inabalável do Deus da Aliança.
O mesmo
Deus que abriu o Mar Vermelho foi o Deus que secou o Jordão. O mesmo Deus que
guiou Josué em suas fraquezas é o Deus que governa e sustenta a Sua amada
Igreja no dia de hoje.
Portanto, quando você se deparar com o seu próprio
"Jordão" nesta semana, não fixe os seus olhos primeiramente na força
ou no barulho das águas que ameaçam te afogar. Firme os seus olhos e o seu
coração na fidelidade inabalável do Deus que prometeu jamais te deixar ou te
desamparar.
Marche em direção à promessa pela fé. Consagre a sua vida ao Senhor em santidade. Siga os passos e os ensinamentos de Jesus Cristo.
E
descanse plenamente na certeza bendita de que Aquele que abriu o Jordão
continua sendo perfeitamente poderoso para abrir caminhos santos e seguros onde
a lógica humana diz que não existem caminhos.
Como o próprio Deus nos assegura através das palavras do
profeta Isaías:
"Eis que farei uma coisa nova, agora sairá à luz;
porventura não a percebeis? Eis que porei um caminho no deserto, e rios no
ermo." (Isaías 43.19)
Que o Senhor grave estas verdades em nossas almas pelo Seu Santo Espírito. Amém!
Pr. Eli Vieira Filho

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