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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Renovando a Aliança: A Palavra de Deus Deve Ser Gravada no Coração e Vivida em Obediência

Texto: Deuteronômio 27.1–10

Uma das marcas mais evidentes e trágicas da sociedade contemporânea é a profunda crise de fidelidade. Vivemos em uma época marcada pela pressa e pela superficialidade existencial. As pessoas assumem compromissos com extrema rapidez, mas os abandonam com a mesma facilidade diante do primeiro obstáculo. 

Contratos são rescindidos, promessas solenes são esquecidas, casamentos são desfeitos e alianças outrora consideradas sagradas tornam-se descartáveis na mentalidade pós-moderna. A cultura atual idolatra o pragmatismo e a conveniência própria, colocando-os muito acima do dever e da fidelidade.

Entretanto, o Deus Soberano que se revela nas Escrituras não compartilha da leviandade humana. Quando o Senhor estabelece uma aliança com Seu povo, Ele exige algo completamente diferente: um compromisso inegociável e permanente, uma obediência filial e sincera, e uma lembrança reverente e constante de Sua santa Palavra.

No texto que temos diante de nós, no capítulo 27 do livro de Deuteronômio, o povo de Israel encontra-se em um dos momentos mais cruciais e dramáticos de toda a sua trajetória histórica. Eles estão posicionados nas campinas de Moabe, precisamente no limiar da Terra Prometida, prestes a atravessar as águas do rio Jordão. 

A longa, dolorosa e pedagógica peregrinação de quarenta anos pelo deserto árido estava chegando ao seu fim definitivo. Aquela nova geração, que não havia testemunhado os prodígios do Egito em sua totalidade madura, estava prestes a pisar no solo de Canaã.

Antes, porém, que sacassem suas espadas para guerrear ou que dividissem os lotes da herança, o Senhor ordena, por intermédio de Moisés, uma cerimônia de extraordinária e solene relevância: a renovação pública da Aliança.

  • Grandes pedras deveriam ser levantadas e caiadas.
  • A totalidade da Lei divina deveria ser nelas meticulosamente escrita.
  • Um altar de pedras brutas e intocadas por ferramentas humanas deveria ser erguido no monte Ebal.
  • Sacrifícios cruentos de holocaustos e ofertas pacíficas deveriam ser oferecidos.
  • E toda a congregação eleita deveria declarar em alta voz sua total e irrestrita submissão aos mandamentos do Senhor.

Este arranjo litúrgico e legal possuía uma lógica teológica fulgurante: antes de conquistar as cidades fortificadas de Canaã, Israel precisava reafirmar com clareza absoluta quem governava a sua vida e o seu coração. Antes de tomarem posse jurídica e geográfica da terra, deveria haver uma profunda e sincera capitulação e submissão teológica ao Senhor da terra. 

Como bem asseverou o eminente reformador João Calvino: "Toda prosperidade torna-se uma terrível maldição quando Deus não ocupa o primeiro lugar absoluto em nossas afeições e projetos." Esta passagem imortal e solene nos ensina, com clareza solar, que a verdadeira vida com Deus e a legítima espiritualidade pactual começam unicamente quando a Sua Palavra inspirada passa a ocupar o centro gravitacional da nossa existência.

O capítulo 27 de Deuteronômio funciona como uma solene introdução teológica à última e decisiva seção legislativa e exortativa do livro. Até este ponto, Moisés vinha recapitulando a Lei e aplicando-a aos bastidores da vida cotidiana e social da nação. 

Agora, ele une-se formalmente aos anciãos de Israel — os magistrados e líderes espirituais do povo — para emitir uma ordem de caráter monumental e corporativo. O texto exige que, imediatamente após a milagrosa travessia do rio Jordão, o povo execute três ações rituais de profundo impacto visual e teológico.

Em primeiro lugar, o povo deveria levantar grandes pedras, revesti-las de cal para clarear a superfície e escrever nelas, de forma legível e permanente, "todas as palavras desta lei" (vv. 2–4). Este monumento não era uma celebração da vitória militar de Israel, mas sim um monumento de aclamação da suserania de Deus. As pedras caiadas com a Lei gravada funcionariam como o documento público da aliança e como um memorial pedagógico permanente para as futuras gerações.

Em segundo lugar, Deus ordena explicitamente a edificação de um altar sacrificial sobre o Monte Ebal (vv. 5–7). O detalhe arquitetônico é rigoroso: as pedras do altar deveriam ser inteiramente brutas, rústicas, sem que nenhuma ferramenta de ferro jamais as tocasse para esculpi-las. 

Sobre este altar primitivo e divinamente planejado, o povo deveria oferecer holocaustos e sacrifícios pacíficos, comendo e alegrando-se perante o Senhor. O Monte Ebal, ironicamente, seria o monte associado à proclamação das maldições da aliança, evidenciando que é exatamente no lugar da nossa condenação que o altar do sacrifício e do perdão precisa ser erguido.

Em terceiro lugar, os versículos 9 e 10 registram um momento de silêncio dramático. Moisés e os sacerdotes levíticos dirigem-se a toda a multidão dizendo: "Guarda silêncio e ouve, ó Israel! Hoje, passaste a ser povo do Senhor, teu Deus." Não que eles já não fossem o povo escolhido nos decretos pactuais com Abraão, Isaque e Jacó; mas naquele dia específico, a identidade nacional e espiritual daquela nova geração estava sendo juridicamente selada, ratificada e trazida à esfera da responsabilidade histórica.

O consagrado comentarista puritano Matthew Henry observa com precisão cirúrgica: "Antes que Israel pudesse desfrutar legitimamente um único centímetro da herança terrena, a nação precisava confessar publicamente que vivia debaixo da soberana autoridade do Deus da aliança." Esses atos e símbolos antigos revelavam três verdades teológicas fundamentais que continuam normativas para a Igreja de Cristo hoje:

  1. Deus governa e santifica Seu povo por meio de Sua Palavra revelada.
  2. Deus aceita e mantém comunhão com Seu povo mediante um sacrifício substitutivo.
  3. Deus requer e exige do Seu povo uma vida de obediência prática e fidelidade ética.

No contexto mais amplo da história da redenção, conforme as páginas do Novo Testamento nos revelam, essas três verdades encontram o seu cumprimento e ápice perfeito na pessoa e na obra salvífica de Jesus Cristo. Ele é a Palavra Eterna que se fez carne; Ele é o Altar e o Sacrifício perfeito e definitivo oferecido no Calvário; e Ele é o perfeito Mediador e Cumpridor da Nova e Eterna Aliança.

A verdadeira renovação espiritual na vida de uma pessoa ou de uma comunidade de fé acontece única e exclusivamente quando a Palavra de Deus governa soberanamente a nossa mente, a adoração pactual ocupa o centro das afeições do nosso coração e a obediência fiel torna-se o nosso estilo inegociável de viver.

Ao esquadrinharmos os detalhes textuais desta passagem veterotestamentária, descobrimos com clareza as três marcas indispensáveis daqueles que vivem genuinamente sob a aliança redentora do Senhor.

I. A PALAVRA DE DEUS DEVE SER PERMANENTEMENTE LEMBRADA (vv. 1–4)

A primeira diretriz transmitida por Moisés aos anciãos e ao povo possui contornos estéticos e litúrgicos surpreendentes. Ao cruzarem o leito seco do Jordão e pisarem nas planícies de Canaã, a primeira tarefa nacional não foi a construção de fortificações militares ou a edificação de habitações civis. 

A ordem prioritária consistia em ajuntar grandes pedras do próprio solo da promessa. Essas rochas deveriam ser levantadas e inteiramente recobertas com uma densa camada de cal. Sobre essa superfície alva e reluzente, os escribas deveriam registrar com precisão e clareza indeléveis "todas as palavras desta lei".

Por que o Deus do Universo exigiu um esforço tão monumental em termos de registro epigráfico público? A resposta revela o profundo e pastoral conhecimento que o Criador possui acerca da nossa estrutura caída: Deus conhece perfeitamente a assustadora facilidade humana de esquecer. A nossa memória espiritual é cronicamente falha. Esquecemos os livramentos do ontem enquanto murmuramos pelas necessidades do hoje. 

Os memoriais públicos e visíveis eram preciosos recursos pedagógicos e terapêuticos da maravilhosa graça divina. Sempre que um israelita, ao longo dos séculos vindouros, caminhasse por aquela região e fitasse os olhos naquelas imensas pedras caiadas sob o sol da Palestina, ele seria imediatamente confrontado com os caracteres da Lei e se lembraria de que Israel não era uma nação autônoma, mas um povo de propriedade exclusiva do Senhor Soberano. A Palavra precisava ser pública, visível e permanentemente exposta diante dos olhos da nação.

Na dispensação da Nova Aliança, nós fomos poupados da necessidade de carregar pesados blocos de pedra e caiá-los nas esquinas de nossas cidades. O milagre operado pelo Evangelho da graça cumpre a promessa escatológica registrada pelo profeta Jeremias: "Naquele dia, diz o Senhor, imprimirei as minhas leis no seu entendimento e as escreverei em seu próprio coração" (Jeremias 31.33). O sacrifício de Jesus Cristo e a consequente habitação do Espírito Santo operaram essa maravilhosa cirurgia espiritual em nossa alma.

Todavia, meu amado irmão, a Palavra de Deus escrita nas páginas da Escritura Sagrada não pode se limitar a ocupar um espaço decorativo nas estantes de nossas casas, ou a ser um mero aplicativo esquecido nas telas dos nossos celulares. 

A verdade de Deus precisa, de forma imperativa, governar as nossas decisões diárias, balizar os nossos negócios, purificar a nossa mente e moldar as nossas conversas na privacidade dos nossos lares. O célebre pregador batista Charles Haddon Spurgeon afirmava com santa gravidade: "Uma Bíblia empoeirada e negligenciada na estante normalmente serve como o diagnóstico mais claro de uma alma que caminha a passos largos em direção à falência espiritual."

Ao viajarmos pelas grandes capitais do mundo moderno, encontramos monumentos colossais, estátuas de bronze e arcos de triunfo erguidos em praças públicas. Essas estruturas existem com um propósito muito claro: preservar viva a memória nacional de acontecimentos históricos, vitórias militares ou sacrifícios de heróis do passado, impedindo que o tempo apague a identidade de um povo. 

Da mesma forma, o Deus da Aliança estabeleceu memoriais espirituais no meio de Israel. Hoje, a Escritura Sagrada aberta em nossas mesas e meditada em nossos altares domésticos é o monumento vivo da graça que nos impede de naufragar no esquecimento espiritual.

Aplicação

Nesta manhã, o Espírito Santo confronta o recesso da sua alma com perguntas que exigem honestidade absoluta diante do tribunal da sua consciência:

  • A Palavra de Deus tem sido, de fato, o árbitro final e a autoridade soberana que dirige as suas escolhas financeiras, as suas reações emocionais e os seus planos para o futuro?
  • A sua família respira a atmosfera das Escrituras, ou o seu lar é espiritualmente governado pelas ideologias e entretenimentos vazios deste século?
  • Os seus filhos testemunham a Bíblia sendo lida, reverenciada e vivida por você no recesso do lar, ou eles apenas enxergam uma religiosidade puramente nominal de domingo?

Entenda esta verdade de contornos eternos: nenhuma geração de filhos permanecerá firme nos trilhos da fidelidade pactual se os pais desertarem do compromisso de gravar a Palavra nas pedras do coração e da rotina familiar.

II. A ADORAÇÃO VERDADEIRA ESTÁ FUNDAMENTADA NO SACRIFÍCIO (vv. 5–7)

A narrativa de Deuteronômio 27 avança das pedras da escrita para a estrutura do altar. Moisés ordena que um altar seja especificamente construído sobre o cume do Monte Ebal. Contudo, há uma proibição cirúrgica e categórica inserida pelo Senhor: "Não levantarás sobre elas ferramenta de ferro"

As pedras que comporiam o altar da adoração nacional deveriam permanecer exatamente como foram encontradas no solo: brutas, intocadas, rústicas, sem nenhum polimento, entalhe ou intervenção estética da engenharia ou da arte humana. O homem estava terminantemente proibido de tentar "melhorar", "embelezar" ou aperfeiçoar a estrutura que Deus havia designado.

Este rigor litúrgico nos ensina um princípio fundamental da teologia reformada e bíblica: a nossa salvação, a nossa justificação e a nossa aceitação diante de um Deus Absolutamente Santo não dependem, em absolutamente nada, da inteligência, da habilidade, dos méritos, das obras ou do suor do braço humano. 

Toda e qualquer tentativa de acrescentar a eficácia do esforço carnal àquilo que Deus já estabeleceu soberanamente resulta, inevitavelmente, em heresia e abjeta idolatria. O homem nada pode oferecer para cooperar na sua própria redenção.

Sobre este altar de pedras brutas, Israel deveria oferecer dois tipos específicos de sacrifícios: os holocaustos e as ofertas pacíficas. 

Os holocaustos eram ofertas inteiramente queimadas no fogo do altar; a vítima era totalmente consumida, simbolizando a consagração integral e a entrega absoluta da vida do ofertante ao Senhor.

 Já as ofertas pacíficas (ou de comunhão) eram sacrifícios onde parte da carne era compartilhada em uma refeição comunitária perante o Senhor; elas celebravam a paz estabelecida, a comunhão restaurada e a alegria da reconciliação pactual.

Observe com máxima atenção a ordem cronológica e litúrgica imposta pelo Espírito Santo no texto: primeiro ergue-se o altar; depois experimenta-se a alegria. Primeiro verte-se o sangue do sacrifício substitutivo sobre as pedras; depois celebra-se o banquete da comunhão. Não existe verdadeira alegria pactual que não passe pelo caminho do sacrifício. Não existe comunhão com o Criador sem que haja, antes, a devida expiação da culpa e do pecado.

Esta sequência tipológica impecável aponta de maneira fulgurante para o ápice da história da redenção: a colina do Calvário. No altar rústico da cruz, Jesus Cristo ofereceu a Si mesmo como o Cordeiro substitutivo definitivo. Ele padeceu no Monte Ebal da nossa maldição, derramando Seu sangue precioso para aplacar a justa e santa ira do Pai contra os nossos pecados e para rasgar o escrito de dívida que nos era prejudicial. 

Em Cristo, a justiça perfeita de Deus e o Seu insondável amor reconciliaram-se. Como escreveu com rara felicidade o teólogo anglicano John Stott: "A cruz não é um adendo na história humana; ela é o lugar exato e o único espaço cósmico onde a justiça inflexível de Deus e o Seu amor superabundante se abraçaram para salvar o pecador arruinado."

Imagine um arquiteto tentando erguer um arranha-céu monumental e luxuoso sobre um terreno arenoso, movediço e sem nenhuma sapata ou alicerce de concreto armado. Por mais belas que fossem as paredes e por mais ricos que fossem os adornos, aquela estrutura colapsaria diante do primeiro vento tempestuoso. 

Da mesma forma, qualquer tentativa humana de edificar uma vida espiritual sem estar firmada na rocha sangrenta do sacrifício substitutivo de Cristo está irremediavelmente condenada ao desabamento eterno. Tudo na vida cristã começa e permanece aos pés do altar da cruz.

Aplicação

Existem muitas pessoas em nossos dias — e talvez algumas assentadas nos bancos deste santuário nesta manhã — que estão tentando desesperadamente manter uma fachada de vida cristã baseada única e exclusivamente em sua própria moralidade, em seus esforços religiosos, em sua caridade social ou em sua tradição familiar. Elas acreditam que Deus as aceitará por causa de sua integridade humana.

Ouça com tremor a advertência do Evangelho: sem o sangue expiatório de Jesus Cristo, as suas melhores obras de justiça não passam de trapos de imundícia diante dos olhos do Justo Juiz! A nossa legitimidade pactual, a nossa paz existencial e a nossa esperança de glória não nascem das nossas habilidades, mas sim das feridas do nosso Salvador. Nós nos alegramos na mesa porque Ele foi partido no altar!

III. A OBEDIÊNCIA É A MARCA INDELÉVEL DO POVO DA ALIANÇA (vv. 8–10)

A solene cerimônia litúrgica nas planícies do Jordão aproxima-se do seu clímax com uma proclamação verbal de teor dramático e majestoso. Moisés e os sacerdotes ordenam o silêncio absoluto de toda a multidão e emitem o veredito jurídico: "Guarda silêncio e ouve, ó Israel! Hoje, passaste a ser povo do Senhor, teu Deus. Portanto, obedecerás à voz do Senhor, teu Deus, e cumprirás os seus mandamentos e os seus estatutos".

À primeira vista, o leitor desatento das Escrituras poderia incorrer no erro teológico de imaginar que Israel estava se tornando o povo de Deus naquele exato momento histórico por causa dos seus próprios méritos ou por causa da realização daquele ritual. 

Absolutamente não! Israel já pertencia ao Senhor desde os decretos eternos da graça manifestados na eleição soberana de Abraão, Isaque e Jacó. Eles haviam sido resgatados do Egito pelo braço forte do Senhor porque Ele se lembrou da aliança pactual. 

O que estava acontecendo naquele dia estratégico era a solene transição da identidade pactual para a responsabilidade pactual na história. O Senhor estava declarando que a dignidade de pertencer à realeza do Reino exige, de forma intransigente, uma contrapartida ética: a obediência na prática diária.

Moisés assevera: "Ouvirás, pois, a voz do Senhor". No idioma hebraico, bem como em toda a estrutura do pensamento bíblico, o verbo ouvir (shema) jamais se limita ao fenômeno biológico de captar ondas sonoras através dos tímpanos. Ouvir, na Bíblia, é um sinônimo exato e indissolúvel de obedecer. Quem escuta a verdade de Deus e permanece apático ou inalterado em sua conduta prática, na realidade, nunca ouviu espiritualmente a voz do Senhor.

Séculos mais tarde, o próprio Senhor Jesus Cristo ecoaria este mesmo padrão ético nas salas do Novo Testamento ao declarar categoricamente aos Seus discípulos: "Se me amais, guardareis os meus mandamentos" (João 14.15). 

A verdadeira fé salvífica opera pelo amor e produz, necessariamente, uma obediência zelosa. É vital compreendermos a distinção teológica fundamental: nós não obedecemos aos mandamentos de Deus para sermos salvos ou para conquistarmos o Seu favor pactual; nós obedecemos com alegria e tremor justamente porque já fomos plena, eterna e graciosamente salvos por Ele! 

O reformador João Calvino sintetizou esta dinâmica com precisão ao escrever: "A obediência cristã não é o chicote legalista que compra a salvação, mas sim a resposta voluntária, amorosa e transbordante de um coração verdadeiramente regenerado pelo Espírito Santo."

Imagine o processo jurídico e social de uma adoção legal. Uma criança que vivia em estado de completo abandono, miséria e vulnerabilidade em um abrigo é recebida por um casal amoroso e ricamente provido. 

No tribunal, o juiz assina os papéis e, instantaneamente, aquela criança recebe um novo nome, uma nova identidade jurídica e torna-se herdeira legítima daquela nova família. Ela não precisou trabalhar ou merecer para ser adotada. 

Contudo, ao entrar naquele novo lar, espera-se naturalmente que ela, ao longo do tempo, aprenda, honre e passe a viver em conformidade com os valores morais, os princípios éticos e a cultura daquela família que a acolheu. Assim acontece conosco: fomos graciosamente adotados na família de Deus através do sangue de Cristo, e agora a nossa obediência diária é a evidência visível de que assimilamos o caráter do nosso Pai Celestial.

Aplicação

Olhe para os bastidores da sua própria biografia e responda diante de Deus:

  • A sua conduta diária no trabalho, os seus hábitos de navegação na internet na solidão do seu quarto e a integridade da sua língua confirmam que você passou a ser propriedade exclusiva do Senhor?
  • As suas escolhas financeiras e éticas refletem a sua nova identidade em Cristo, ou você continua mimetizando e imitando perfeitamente os comportamentos, os desesperos e os subornos morais de uma cultura que caminha a passos largos para a ruína espiritual?
  • A sua obediência aos mandamentos do Senhor tem sido uma mera encenação religiosa externa de domingo, ou ela jorra como um rio de gratidão sincera nascido no recesso da sua alma regenerada?

Lembre-se: o Deus da Aliança não aceita fatias da sua existência; Ele exige o senhorio absoluto sobre a totalidade da sua história.

APLICAÇÕES PRÁTICAS

1. Faça da Palavra de Deus a sua autoridade máxima e cotidiana

Vivemos submersos em um oceano de opiniões humanas, relativismos morais e filosofias descartáveis que tentam anestesiar a nossa devoção. Contudo, somente a Palavra do Senhor permanece inabalável para sempre. 

Não se limite a ter a Bíblia como um livro de consultas místicas; leia-a diariamente, medite em suas doutrinas, ensine-a com afinco aos seus filhos no altar doméstico e submeta todas as decisões da sua empresa, do seu casamento e do seu futuro à autoridade final das Escrituras.

2. Nunca se afaste da centralidade absoluta da Cruz de Cristo

Toda e qualquer adoração que agrade ao Deus Santo precisa nascer e estar ancorada unicamente na obra consumada de Jesus no Calvário. Nunca permita que o moralismo humanista ou o ativismo eclesiástico substituam a beleza do Evangelho em seu coração. 

A nossa única esperança e o nosso único direito de acesso ao trono da graça repousam na certeza de que o Cordeiro de Deus foi sacrificado em nosso lugar. Descanse os seus méritos na cruz.

3. Viva de maneira rigorosamente coerente com a sua nova identidade

Você foi comprado por um preço de sangue infinitamente alto; você não pertence mais a si mesmo ou ao império das trevas. Portanto, trabalhe na sua profissão para a glória de Deus; administre os seus recursos materiais e os seus dízimos para a expansão do Reino; eduque os seus filhos com vistas à eternidade e sirva à sua igreja local com alegria e sacrifício, demonstrando ao mundo a beleza do caráter do Senhor.

4. Renove diariamente a sua aliança de fidelidade com o Senhor

Embora a Nova Aliança tenha sido estabelecida de forma jurídica, definitiva e inabalável na cruz pelo sangue de Jesus, nós somos convocados pelo Espírito Santo a uma dinâmica diária de renovação espiritual. Todas as manhãs, ao acordar, corra para os braços do Salvador em arrependimento sincero pelos seus pecados ocultos, reafirme a sua fé pactual e dê passos firmes e decididos nos trilhos da obediência fiel.

CONCLUSÃO

A solene cerimônia descrita com cores tão vivas e dramáticas no capítulo 27 do livro de Deuteronômio não se limitava a um mero protocolo político ou a um evento nacional datado na poeira do tempo. Aquela liturgia era uma profunda e radical renovação espiritual. 

As grandes pedras levantadas, a Lei nitidamente gravada, o altar erguido no monte da maldição, os sacrifícios de sangue vertidos e a declaração pública de obediência — tudo aquilo funcionava como uma belíssima sinfonia tipológica que apontava profeticamente para uma realidade infinitamente maior, mais excelente e gloriosa: tudo ali apontava para a pessoa de Jesus Cristo!

Jesus é a Palavra Viva e Eterna que habitou entre nós; Ele é o verdadeiro e definitivo Altar erguido na colina do nosso cativeiro; Ele é o Sacrifício perfeito e imaculado cuja morte vicária nos reconciliou com o Criador; e Ele é o Mediador Supremo de uma Nova e Eterna Aliança. 

Nele e por meio dEle, a Lei de Deus deixa de estar gravada de forma fria em pesadas tábuas de pedra e passa a ser impressa de forma viva pelo Espírito Santo nas tábuas de carne dos nossos corações regenerados. Nele, a nossa comunhão com o Deus Absolutamente Santo é perfeitamente restaurada. Nele, nós encontramos a força espiritual e a graça superabundante para caminharmos nesta terra em novidade de vida e obediência fiel.

Como magistralmente resume o Catecismo de Heidelberg em sua Pergunta 86: "Porque Cristo, tendo-nos redimido e comprado pelo Seu precioso sangue, também nos renova progressivamente pelo Seu Espírito Santo à Sua própria imagem, para que, com toda a nossa existência, demonstremos a nossa sincera gratidão a Deus por Seus inumeráveis benefícios, e para que o Seu Santo Nome seja glorificado através de nós."

Que cada um de nós, ao sair deste santo lugar nesta manhã, possa desviar os olhos das atrações efêmeras e enganosas deste século e renovar, com tremor e santa alegria, a sua aliança de amor e fidelidade com o Senhor do Universo.

Façamos da Sua Palavra inspirada a regra inegociável da nossa vida, da cruz do Calvário o fundamento inabalável da nossa esperança eterna, e da obediência prática a expressão mais límpida e visível do nosso amor ardente por Jesus Cristo!

Ouçamos, portanto, a autoridade profética que ecoa do texto sagrado: "Hoje vocês se tornaram povo do Senhor, seu Deus. Portanto, obedeçam à voz do Senhor e cumpram os seus mandamentos." (Deuteronômio 27.9–10).Vamos orar. Amém!

Pr. Eli Vieira Filho

 

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