Texto: Deuteronômio 22.12
Vivemos na era dos lembretes eletrônicos e das notificações
incessantes. Em nossos bolsos, o telefone celular vibra constantemente para nos
alertar sobre compromissos agendados, horários de medicamentos, reuniões de
trabalho e aniversários de entes queridos. Criamos mecanismos externos porque
conhecemos a fragilidade crônica da nossa própria memória. Se dependêssemos
única e exclusivamente de nossa retenção mental espontânea, esqueceríamos com
extrema facilidade uma infinidade de tarefas cruciais do nosso cotidiano.
O problema mais grave, todavia, não reside em esquecer as
chaves de casa ou uma reunião de negócios. O drama verdadeiramente trágico da
nossa existência é que nós possuímos uma inclinação assustadora para esquecer
aquilo — e Aquele — que é o mais importante: o Senhor nosso Deus.
É fascinante notar como, ao longo de toda a revelação
bíblica, Deus compreende essa debilidade humana e, em Sua infinita graça,
frequentemente estabelece memoriais visíveis e táteis no cenário da história
para que Seu povo jamais se esquecesse dos termos da Sua santa aliança. O
arco-íris rasgando as nuvens após o dilúvio lembrou Noé e toda a posteridade da
promessa divina de preservação; as doze pedras tiradas do leito do rio Jordão
ergueram-se como um monumento perene para que as futuras gerações de Israel se
recordassem da travessia milagrosa; e, na plenitude dos tempos, a Ceia do
Senhor foi instituída para lembrar a Igreja, através do pão e do cálice, do
sacrifício perfeito de Cristo no Calvário.
No coração das leis práticas de Deuteronômio 22.12,
deparamo-nos com um mandamento que, à primeira vista, parece excessivamente
simples e meramente cultural:
"Farás borlas nas quatro pontas da tua capa, com que
te cobrires."
Aos olhos de um leitor moderno e apressado, este texto aparenta ser apenas um detalhe irrelevante sobre a alfaiataria e o vestuário do antigo Oriente Médio. Entretanto, por trás deste pequeno e singular mandamento veterotestamentário, há uma lição espiritual de profundidade eterna. Deus desejava que cada israelita, ao vestir-se todas as manhãs, carregasse em sua própria roupa um lembrete visual e contínuo de que ele não pertencia a si mesmo, mas era propriedade exclusiva do Senhor Soberano. O mesmo Deus que ordenou a confecção daquelas borlas continua chamando a Sua Igreja hoje para cultivar uma vida que se recorde conscientemente de Sua presença em cada segundo da jornada terrena.
Para compreendermos a força teológica deste versículo
isolado, precisamos fazer uma breve elucidação exegética. A palavra hebraica
traduzida por "borlas" ou "franjas" é gedilim, que
se refere a cordões trançados presos rigidamente às extremidades do manto ou da
capa exterior usada pelos judeus.
Esta ordem específica não era uma novidade na legislação de
Moisés; ela já havia sido detalhada anteriormente no livro de Números 15.37-41.
Naquele texto paralelo, o próprio Deus explica com clareza solar o propósito
pedagógico e teológico por trás do adereço: "...para que as vejam, e
vos lembreis de todos os mandamentos do Senhor, e os cumprais".
As franjas não operavam como um amuleto de proteção. Não
eram um objeto místico dotado de propriedades mágicas para afastar o azar ou os
demônios, e tampouco possuíam qualquer poder sobrenatural intrínseco. Elas
funcionavam, sim, como símbolos pedagógicos da aliança. Sempre que o israelita
abaixasse os olhos e contemplasse a orla de sua veste, ou sempre que caminhasse
e sentisse o balanço daqueles cordões, sua mente seria imediatamente despertada
para três realidades solenes:
- Eu
sou propriedade exclusiva de Deus.
- Eu
devo viver estritamente segundo a Sua Palavra.
- Minha
vida inteira pertence ao Senhor.
Séculos mais tarde, quando o Verbo se fez carne e habitou
entre nós, o nosso Senhor Jesus Cristo também utilizava essas mesmas franjas
prescritas pela Lei em Suas vestes, como demonstram os relatos dos Evangelhos
onde os enfermos buscavam tocar na "orla do Seu manto" (Mateus 9.20;
14.36). Isso nos mostra de forma cabal que não havia absolutamente nenhum erro
ou pecado no símbolo em si. O erro teológico e a corrupção espiritual surgiram
séculos depois, quando os escribas e fariseus, movidos por um orgulho hipócrita,
começaram a aumentar exageradamente o tamanho de suas franjas (tsitsit)
com o único e mesquinho objetivo de ostentarem uma falsa espiritualidade
superior diante dos homens, atitude que foi duramente condenada por Cristo em
Mateus 23.5.
Como bem observou o reformador João Calvino com sua precisão
cirúrgica:
"Os sinais externos e as cerimônias visíveis possuem valor real somente quando cumprem sua função de conduzir o coração à verdadeira obediência interior."
O povo de Deus deve cultivar disciplinas e lembranças constantes que o conduzam diariamente à fidelidade da aliança e à obediência prática de Sua Palavra.
Neste pequeno e aparentemente esquecido versículo de
Deuteronômio, aprendemos três grandes verdades sobre como estruturar uma vida
cristã que permanece firmemente fiel e consciente da presença do Senhor.
I. A SANTIDADE PRECISA SER LEMBRADA CONTINUAMENTE
O texto inicia com a ordem imperativa: "Farás
borlas...". A primeira lição que salta aos nossos olhos é de natureza
antropológica: Deus nos manda criar lembretes porque Ele conhece perfeitamente
a nossa terrível e crônica tendência ao esquecimento espiritual.
O povo de Israel foi testemunha ocular das maiores exibições
de poder cósmico da história da humanidade. Aquela nação viu o Mar Vermelho se
abrir em duas paredes sólidas de água; viu o maná celestial cair milagrosamente
todas as manhãs no deserto; bebeu da água cristalina que jorrou da rocha ferida
e sentiu o monte Sinai tremer debaixo do fogo e da fumaça da glória de Deus. No
entanto, bastavam poucas semanas de calmaria ou de provação para que aquele
mesmo povo se esquecesse das promessas, murmurasse nos arraiais e se prostrasse
diante de um bezerro de ouro.
Meus amados irmãos, nós não somos em nada diferentes de
Israel. Nós possuímos uma memória prodigiosa para guardar mágoas, para reter
ofensas e para lembrar das promessas que os outros nos fizeram e falharam; mas
somos extremamente desmemoriados para com as misericórdias do Senhor. Com uma
rapidez espantosa, nós nos esquecemos da imensurável grandeza da graça que nos
alcançou; esquecemo-nos do preço de sangue vertido na cruz do Calvário;
esquecemo-nos das exortações solenes da Palavra e das respostas milagrosas que
Deus deu às nossas orações em momentos de desespero no passado.
É precisamente por causa dessa amnésia espiritual que o
Senhor, em Sua sabedoria, estabelece para a Igreja as disciplinas espirituais.
A leitura diária e sistemática das Escrituras, a vida secreta de oração, a
frequência fiel ao culto público, a participação solene na Ceia do Senhor e a
convivência na comunhão da igreja local não são obrigações legalistas ou
rituais enfadonhos; elas são as nossas "franjas espirituais". São os
marcos visíveis que Deus nos deu para interromper a nossa rotina secularizada e
nos forçar a lembrar de Quem Ele é e do que Ele fez.
João Calvino escreveu em suas Institutas uma frase
que atravessou os séculos:
"O coração humano é uma fábrica permanente de
ídolos." Se nós não preenchermos a nossa mente diariamente com os
memoriais da santidade de Deus, o vácuo deixado pelo esquecimento será
imediatamente preenchido pelos ídolos da autossuficiência, do materialismo e do
orgulho mundano.
Ilustração: O grande reformador Martinho Lutero,
compreendendo a necessidade de manter a sua mente focada naquilo que realmente
importava diante de Deus, costumava escrever diretamente sobre a sua mesa de
estudos apenas duas palavras em latim: "Memento Mori", que
significa "Lembre-se de que você vai morrer". Não se tratava
de um pessimismo mórbido ou de melancolia, mas sim de uma disciplina mental
para lembrá-lo de que a vida terrena é breve e que cada ato seu deveria ser
vivido à luz da eternidade. Nós, porém, temos um lembrete ainda maior e mais
glorioso gravado nas páginas do Novo Testamento pelo apóstolo Paulo: "Lembra-te
de Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos" (2 Timóteo 2.8).
Cristo é o nosso memorial definitivo.
II. A SANTIDADE DEVE ACOMPANHAR TODA A EXTENSÃO DA VIDA
Moisés prossegue detalhando onde essas borlas deveriam ser
costuradas: "...nas quatro pontas da tua capa, com que te
cobrires".
A capa à qual o texto se refere não era uma veste litúrgica
de uso exclusivo dos sacerdotes no tabernáculo. Não era um manto sagrado
guardado para ocasiões festivas ou cerimoniais. A capa era a peça de vestuário
comum, o manto do dia a dia que o camponês, o pastor de ovelhas e o carpinteiro
usavam para se proteger do frio e do vento enquanto trabalhavam. Ao ordenar que
o lembrete da aliança estivesse presente nas quatro pontas da roupa cotidiana,
Deus estava ensinando um princípio revolucionário: a santidade não pode ser
confinada ao espaço sagrado do templo; ela deve caminhar pelas ruas fétidas e
poeirentas da rotina comum.
O Deus da Bíblia abomina a dicotomia hipócrita que divide a
existência humana em compartimentos estanques. Ele não aceita que dividamos a
nossa vida entre o "sagrado" e o "profano". A santidade não
é uma roupa de domingo que vestimos com esmero para impressionar os irmãos na
congregação e que depois despimos e guardamos no armário na manhã de
segunda-feira para vivermos como bem entendemos. A fé genuína não se resume a
momentos místicos entre quatro paredes.
O cristão autêntico é chamado a servir e glorificar a Deus
no recôndito do seu lar, no sigilo do seu quarto, na mesa de operações do seu
trabalho, nos corredores da sua escola, na administração das suas finanças
pessoais, na integridade do seu comportamento no trânsito e até mesmo na
privacidade do seu computador e nas palavras que digita em suas redes sociais.
O teólogo e estadista holandês Abraham Kuyper expressou essa
verdade de forma magistral ao declarar:
"Não existe um único centímetro quadrado de toda a
existência humana sobre o qual o Cristo ressurreto, que é o Senhor de tudo, não
levante o Seu cetro soberano e declare com autoridade absoluta: É meu!"
Aplicação: Diante disso, precisamos avaliar com
tremor a nossa própria caminhada. A nossa fé na aliança tem sido percebida de
forma prática pelas pessoas que nos cercam? A nossa santidade se manifesta na
honestidade impecável dos nossos negócios comerciais, na pureza das nossas
palavras diárias, na retidão das nossas decisões quando ninguém nos está
observando e na mansidão e compaixão com que tratamos os nossos subalternos e
familiares? As "quatro pontas da nossa capa" continuam falando ao
mundo sobre a Quem nós pertencemos, mesmo quando estamos longe do santuário.
III. A SANTIDADE EXTERNA DEVE REFLETIR UMA PROFUNDA
TRANSFORMAÇÃO INTERIOR
Por fim, precisamos compreender o limite do símbolo para não
cairmos no pior dos erros espirituais. O problema de Israel nunca esteve na
confecção das franjas ou na estrutura física do mandamento de Deuteronômio. O
problema real e devastador sempre esteve na decadência espiritual do coração.
Como mencionamos na elucidação exegética, Jesus dirigiu Seus
mais severos e contundentes ais contra os líderes religiosos da Sua época
porque eles haviam transformado o mandamento pedagógico em uma plataforma de
vaidade e exibicionismo carnal. Eles costuravam franjas imensas e vistosas em
suas roupas para serem elogiados nas praças públicas, mas o coração deles
continuava cheio de rapina, orgulho, avareza e podridão espiritual. Eles
ostentavam os símbolos externos da aliança, mas haviam perdido completamente a
essência do amor, da justiça e da misericórdia de Deus.
O Novo Testamento nos ensina com clareza cristalina que, sob
os termos da Nova Aliança selada com o sangue de Cristo, Deus não escreve mais
as Suas leis em pedaços de pano, em tábuas de pedra ou nas franjas de nossos
casacos. O profeta Jeremias anunciou e o profeta Ezequiel confirmou que o
próprio Deus removeria o nosso coração de pedra e escreveria os Seus estatutos
diretamente nas tábuas de carne do nosso coração regenerado.
Hoje, a maior e mais fidedigna marca do povo de Deus não
consiste no uso de uniformes religiosos, cortes de cabelo específicos, símbolos
externos pendurados no pescoço ou jargões evangélicos ensaiados. A nossa marca
indelével é a presença do Espírito Santo habitando em nós e produzindo um
coração verdadeiramente transformado, humilde e apaixonado pela glória de
Jesus.
O teólogo puritano John Owen compreendeu perfeitamente essa
dinâmica da graça ao escrever:
"A verdadeira santidade evangélica começa sempre na
raiz secreta do coração antes que possa aparecer de forma visível nas
ramificações da vida externa." Quando o Cristo vivo opera uma cirurgia
espiritual no nosso interior, o exterior é modificado de maneira espontânea,
graciosa e irresistível.
Ilustração: Uma macieira saudável não produz maçãs
doces e suculentas porque o agricultor foi até o pomar e amarrou com barbantes
frutos artificiais em seus galhos secos. Ela produz frutos de verdade porque a
sua seiva interna é viva e a sua própria natureza biológica foi desenhada para
isso. Da mesma forma acontece na vida do cristão verdadeiro: as práticas
externas e as boas obras não produzem a santidade; é a nova vida de Cristo
pulsando em nossa alma que produz, naturalmente, frutos dignos de
arrependimento e uma conduta santa.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
Como podemos aplicar as verdades eternas de Deuteronômio
22.12 na realidade prática da nossa vida contemporânea?
- Desenvolva
intencionalmente lembretes espirituais diários: Não confie na
estabilidade da sua carne ou na força da sua memória. Comece as suas
manhãs consagrando os primeiros minutos à leitura atenta e devocional das
Escrituras. Curve os seus joelhos e ore fervorosamente antes de tomar
decisões cruciais ou de responder a um e-mail difícil. Memorize versículos
bíblicos fundamentais e mantenha a pessoa de Cristo constantemente diante
dos olhos da sua alma em meio à agitação do trabalho.
- Viva
de forma absolutamente coerente em todos os ambientes: Renuncie hoje
mesmo à tentação satânica da hipocrisia e da dupla personalidade
espiritual. Não permita que haja discrepância entre o irmão piedoso que
canta louvores no domingo e o cidadão desonesto que sonega, mente e
destila ódio durante a semana. Que a sua vida inteira, em cada detalhe,
seja um testemunho inabalável da santidade do Evangelho.
- Examine
constantemente as motivações secretas do seu coração: Fuja do
exibicionismo religioso dos fariseus modernos. Não busque o aplauso dos
homens, os elogios na igreja ou o reconhecimento público de sua piedade.
Lembre-se de que Deus não vê como vê o homem; o homem olha para as
aparências e para o tamanho das franjas, mas o Senhor esquadrinha os
pensamentos e as intenções mais profundas do coração.
- Faça
da Palavra de Deus o seu maior e mais precioso memorial: Hoje, a nossa
grande e perene "franja" não está costurada no tecido de algodão
de nossas roupas, mas sim na Escritura Sagrada gravada pelo Espírito Santo
em nossa mente. Submeta os seus pensamentos ao crivo da Palavra e permita
que ela guie cada um dos seus passos.
CONCLUSÃO
As franjas de pano prescritas na antiguidade para o povo de
Israel desapareceram com o cumprimento da Antiga Lei. Todavia, a nossa profunda
necessidade espiritual de lembrar de Deus permanece absolutamente a mesma.
Continuamos sendo, por natureza, um povo inclinado ao esquecimento, à distração
e à rebeldia da carne. Por essa razão, o Senhor continua convocando a Sua
Igreja a viver recordando-se diariamente, com santo tremor e gratidão, dos
termos da aliança da graça.
Há, contudo, um detalhe homilético e teológico ainda mais
belo escondido nas páginas do Novo Testamento. Os Evangelhos narram a história
comovente de uma mulher que sofria de uma hemorragia crônica e incurável havia
doze longos anos. Rompendo a multidão esmagadora, ela estendeu a sua mão
trêmula com fé e tocou justamente na orla — isto é, nas franjas
regulamentadas por Deuteronômio — das vestes de Jesus. Naquele dia memorável,
aquela mulher necessitada descobriu algo infinitamente maior do que o símbolo
pedagógico da Lei. Ela encontrou o próprio Autor da Lei; encontrou o Salvador,
o Messias Prometido, de quem jorrou virtude e poder para curar instantaneamente
a sua enfermidade física e restaurar a dignidade da sua alma.
Aquelas antigas borlas nas roupas dos israelitas nunca
existiram para si mesmas; elas apontavam profeticamente para a pessoa
santíssima de Jesus Cristo! Ele é o verdadeiro e perfeito cumprimento de toda a
Lei. Ele é a lembrança viva, encarnada e histórica do amor incondicional do Pai
por nós. É Ele quem derrama o Seu Espírito para escrever Seus mandamentos
eternos em nossos corações, transformando-nos em um povo verdadeiramente
separado e santo.
Nós não precisamos mais de cordões azuis trançados e
pendurados nas pontas de nossas roupas. Nós precisamos, sim, de Cristo reinando
com soberania absoluta no trono de nossos corações. Somente quando Ele governa
o nosso interior é que a nossa biografia inteira se transforma, de maneira
natural e poderosa, em um lembrete vivo e eficaz para esta geração de que nós
pertencemos, por direito de compra de sangue, ao Senhor da Aliança.
Como bem nos advertiu o sábio Salomão nas páginas das Escrituras: "Acima de tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida." (Provérbios 4.23)
Que o Espírito Santo de Deus aplique esta Palavra com poder
e eficácia em nossas vidas, e que o Senhor faça de cada um de nós uma
"franja viva" da Sua maravilhosa graça, testemunhando diariamente ao
mundo, por meio de nossas palavras e de nossas obras, que fomos resgatados para
viver única e exclusivamente para a maior glória do Deus Vivo!
Vamos orar. Amém!
Pr. Eli Vieira

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