sábado, 28 de dezembro de 2013

O calvinismo faz de Deus um “monstro moral”?

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Por Michael Horton


Dentre as caricaturas do calvinismo há uma afirmação muito difundida de que ele torna Deus o autor do mal, do sofrimento, do pecado e até mesmo da queda da humanidade. Em seu recente livro, contra o calvinismo, Roger Olson cautelosamente distingue o ensino oficial do calvinismo de onde ele acha que este logicamente conduz. Porém, há mais de três dezenas de frases em seu livro sobre calvinismo conduzindo pela boa e necessária lógica a uma divindade que é um “monstro moral,” indistinguível do diabo.

Eu respondo a esta acusação diretamente em meu volume, pelo calvinismo. Umaprofunda revisão do meu livro de uma perspectiva arminiana veio a minha atenção hoje e esta questão novamente me veio. (A propósito os calvinistas falam tanto sobre predestinação mais por causa das acusações niveladas repetidamente contra ele do que por conta de sua alegada centralidade).

Se Deus sabia que Adão e Eva iam transgredir sua lei, por que ele não mudou as circunstâncias de modo que eles tivessem feito uma escolha diferente?

Por que Deus criaria pessoas que ele sabia que seriam condenadas pelo seu pecado original e real?

As questões multiplicam.

Assumir essa questão em um blog spot é um pouco perigoso. Para uma afirmação da posição reformada e sua base bíblica, eu encaminharia os leitores ao pelo calvinismo.

Porém, há um ponto que é digno de ponderar brevemente: teologias não-calvinistas são muito vulneráveis sobre essa questão. A teologia arminiana clássica partilha com o calvinismo - na verdade com todos os ramos da cristandade - que o pré-conhecimento de Deus compreende todos os eventos futuros. Não há nada que aconteça, nada que você e eu faça, foge do pre-conhecimento eterno de Deus.

Agora volte e leia aquelas questões acima. Observe que elas não se referem àpredestinação, mas à mera presciência. Elas fazem um desafio vexatório não apenas aos calvinistas, mas a qualquer um que acredita que Deus sabe exaustivamente e eternamente tudo que acontecerá. Em outras palavras, todos aqueles que afirmam o pré-conhecimento exaustivo de Deus tem exatamente o mesmo problema como qualquer calvinista. Se Deus sabe que Adão pecará - ou que você e eu pecaremos - e pode conservar do acontecimento, mas não o faz, e o pré-conhecimento de Deus é infalível, então é simplesmente tão certo quanto se ele tivesse predestinado isso. Na verdade, é o mesmo que ser predestinado. Então a única diferença é se é determinado sem propósito ou com propósito.

Roger Olson expõe seu próprio ponto de vista: “Deus é soberano no sentido de que nada pode acontecer sem que Deus permita” (100). Então, se a queda aconteceu então Deus a permitiu. A queda “não era uma parte da vontade de Deus a não ser ao permiti-la relutantemente” (99). OK, mas então a queda era em algum sentido uma parte da vontade de Deus. Os calvinistas reconhecem que não era parte da vontade revelada (ou moral) de Deus, mas que ele de bom grado a permitiu como parte do seu plano. Roger Ainda está procurando algo entre: Deus “permiti-la”, mas não é uma “permissão de boa vontade” (64). À parte do fato de que qualquer ato de Deus em permitir algo já é um ato de vontade - uma escolha, meu ponto principal aqui é que a afirmação mais fraca de Roger é ainda forte o suficiente para ter problemas conosco. Roger concorda que Deus sabe de tudo que acontecerá. Deus até supervisiona tudo que acontecerá. Nada escapa da sua vigilância. “Eu acredito, como a Bíblia ensina e todos os cristãos deveriam acreditar, que nada pode acontecer sem a permissão de Deus” (71).

E ainda, Roger rejeita a afirmação de R.C. Sproul, “o que Deus permite ele decreta permitir” (78). Agora, o que poderia ser mais óbvio que o fato de que quando alguém com a autoridade para fazer senão permitir algo contrário à sua vontade revelada, ele está decidindo, escolhendo, decretando permiti-la? Aqui novamente, a noção de Roger de uma noção presumivelmente relutante é um oximoro. Permitir algo é fazer uma determinação positiva, embora isso de modo nenhum a faz responsável pela ação. Então qual é a diferença real entre dizer, com Roger, que “nada pode jamais acontecer que Deus não permita,” e com R. C. Sproul, “o que Deus permite, ele decreta permitir”?

Há na verdade uma trilha de hiper-calvinismo nas margens da cristandade agostiniana, que torna o decreto de Deus permitir em um decreto de realizar ou provocar. Ai, então: Deus é o autor do pecado. Próxima questão? Isto certamente resolve o enigma intelectual. Ou, pode desatar o nó em outra direção. Alguns têm ido além do arminianismo no ponto de vista sociniano de que Deus não sabe as ações futuras dos agentes morais livres. Conhecido como “teísmo aberto,” esta negação da onisciência de Deus reconhece que o arminianismo e o calvinismo são incapazes de resolver este dilema. Eles adequadamente veem que se Deus pré-conhece tudo da eternidade, incluindo nossos atos livres, então esses atos são certos de acontecer. Pré-conhecimento implica predestinação, então eles rejeitam a doutrina cristã clássica da onisciência de Deus.

Hiper-calvinistas e hiper-arminianos compartilham a mesma impaciência com mistério. Nenhuma posição se dobra reverentemente diante da revelação de Deus, reconhecendo suas claras afirmações da soberania divina e responsabilidade humana sem responder todas as nossas questões filosóficas. Contradições são repugnantes à fé, mas toda doutrina importante na escritura está envolta em mistério. Hiper-calvinismo e hiper-arminianismo estão dispostos mesmo a pôr escritura contra escritura, rejeitando alguns ensinos claros em favor de outros, pela satisfação racional. Ainda ambos, em diferentes formas, apresentam erros mortais - na verdade, blasfêmias - contra o caráter de Deus.

Felizmente, o debate entre Roger e eu não é hiper-calvinismo x hiper-arminianismo. A diferença real entre calvinismo e arminianismo é se Deus tem um propósito quando ele permite o pecado e o sofrimento. Novamente, ambas visões afirmam que nada acontece à parte da permissão de Deus. Porém, o calvinismo ensina que Deus nunca permite nenhum mal que ele não tenha já determinado cooperar para o nosso bem (Rm 8.28). Nada que ele permite pode terminar em mal. O que nós diríamos de uma divindade que “relutantemente permitiu” um terrível desastre ou tragédia moral, sem uma determinação para vencer aquele mal como o bem? Mas isto toma um plano e aquele plano deve necessariamente abranger o mal que ele está para conquistar.

Qualquer visão que faz Deus o autor do pecado faz na verdade tornar o objeto de nossa adoração em um monstro moral. Porém, qualquer divindade que simplesmente permanece relutantemente permitindo coisas horríveis pelos quais ele não tem um propósito maior em vista, é igualmente repreensível. Em um, Deus é soberano, mas não bom; no último, nem Deus é. Uma vez que você reconhece que Deus pré-conhece um ato pecaminoso e escolhas ao permiti-lo (porém relutantemente) quando ele poderia não ter escolhido, a única consolação é que Deus nunca o teria permitido a menos que ele já tivesse determinado por que ele permitiria e como ele tem decidido vencê-lo para sua glória e nosso bem. Felizmente, a escritura não revela que Deus faz exatamente aquilo. Roger argumenta que Deus “escolhe permitir” o sofrimento e o pecado (72). O calvinista diz que Deus escolhe permiti-los por uma razão. É permitir em vez de criar, mas é permissão com um propósito. Permissão sem propósito faz Deus um “monstro moral” na verdade.

A teologia reformada tem mantido consistentemente que a escritura ensina a soberania exaustiva de Deus e a responsabilidade humana. Deus não causa o mal. Na verdade, Deus não força ninguém a fazer nada contra a vontade dele ou dela. E ainda, nada fica de fora do sábio, amoroso, bom e justo plano “daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Que a soberania de Deus e a responsabilidade humana são verdades, nenhum estudante sério das escrituras pode negar. Como eles podem ser verdadeiros está além da nossa capacidade de entender. Como Calvino coloca, depois, seguindo Lutero, qualquer esforço de desvendar o mistério da predestinação e a responsabilidade humana além da escritura é uma “busca fora do caminho.” “Melhor mancar ao longo deste caminho,” diz Calvino, “do que correr com toda velocidade fora dele.”

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Fonte: White Horse
Tradução: Francisco Alison Silva Aquilo 
Divulgação: Bereianos
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