Texto Bíblico: Deuteronômio 15.1-6
Ao
olharmos para a conjuntura do mundo contemporâneo, percebemos com clareza solar
que vivemos em uma sociedade profundamente marcada por crises endêmicas,
dívidas sufocantes, desigualdades abissais e severas injustiças econômicas.
Diariamente, testemunhamos o drama de multidões que passam anos de suas vidas
aprisionadas, tentando de forma desesperada se libertar de compromissos financeiros
e fardos materiais que se tornaram um jugo esmagador sobre suas costas. Em
incontáveis casos, o peso de uma dívida insolúvel ultrapassa a esfera puramente
contábil; ele ataca a dignidade humana, estraçalha os relacionamentos
familiares, mina a saúde mental e rouba a última réstia de esperança do coração
do homem.
O Senhor Deus, em Sua presciência e soberana sabedoria,
conhecia perfeitamente a fragilidade humana. Ele sabia que, em uma sociedade
caída e sob os efeitos devastadores do pecado estrutural, a pobreza crônica e
as dificuldades financeiras recorrentes poderiam facilmente se transformar em
ferramentas de opressão, tirania e sofrimento severo. Por esta razão, ao
organizar de forma minuciosa a vida teocrática, comunitária e espiritual de
Israel, Deus estabeleceu princípios legais e morais absolutamente singulares,
que funcionavam como um espelho de Seu próprio caráter misericordioso, santo e
compassivo.
Nas páginas sagradas de Deuteronômio 15.1-6, somos
introduzidos à magnífica e revolucionária instituição do "Ano da
Remissão" (Shemitá) — um tempo solene determinado pelo Senhor onde todas
as dívidas financeiras contraídas entre os irmãos da aliança deveriam ser
incondicionalmente canceladas. Este mandamento, meus irmãos, era algo
completamente inédito, singular e chocante no contexto do Antigo Oriente
Próximo. Enquanto as nações pagãs ao redor de Israel estruturavam e fortaleciam
sistemas econômicos implacáveis que visavam perpetuar a exploração dos
vulneráveis e a escravidão por dívidas, o Deus Vivo ensinava o Seu povo a
viver, a respirar e a se mover segundo a lógica sobrenatural da Sua graça
divina.
Devemos compreender, portanto, que muito mais do que uma
simples legislação civil ou um regulamento econômico temporário, este texto
sagrado aponta para uma realidade espiritual infinitamente maior e mais
profunda: o Deus que, por Sua pura misericórdia, perdoa as nossas impagáveis
dívidas espirituais, deseja ardentemente moldar e formar um povo cuja vida
comunitária seja visivelmente marcada pela generosidade, pela compaixão e pelo
amor sacrificial.
Para compreendermos a profundidade teológica deste
mandamento, precisamos nos posicionar no contexto histórico e geográfico em que
estas palavras foram proferidas. O livro de Deuteronômio registra as exortações
finais e os discursos pastorais de Moisés nas planícies de Moabe. Israel estava
acampado às portas da Terra Prometida, prestes a atravessar o Jordão para tomar
posse da herança de Canaã. Eles deixavam para trás quarenta anos de uma vida
nômade no deserto, onde dependiam exclusivamente do maná diário, e estavam
prestes a entrar em uma terra fértil, onde plantariam, colheriam, construiriam
cidades e estabeleceriam um sistema socioeconômico complexo.
É exatamente nessa transição que o Senhor estabelece a
ordenança: a cada sete anos ocorreria o chamado "Ano da Remissão". A
palavra hebraica para remissão é shemitá, que significa literalmente
"deixar cair", "libertar" ou "afrouxar a mão". O
texto determina de forma categórica que, ao chegar esse período sabático, os
credores israelitas deveriam abrir as mãos e liberar completamente os seus
irmãos das dívidas contraídas.
É fundamental destacar que o objetivo divino com essa lei
não era, de forma alguma, destruir a responsabilidade financeira, incentivar a
negligência ou promover a indolência entre o povo. O propósito central era
terapêutico e preventivo: impedir que a pobreza em Israel se tornasse uma
sentença permanente, uma casta hereditária de miséria, e garantir que a
sociedade da aliança nunca fosse dominada ou estrangulada pela opressão dos
poderosos sobre os desamparados.
Ao examinarmos os versículos de 1 a 6, o texto bíblico faz
saltar aos nossos olhos três grandes e perenes verdades teológicas:
Primeiro, Deus deseja e exige um povo que seja livre da
opressão econômica e da escravidão material.
Segundo, a plenitude da bênção divina sobre a comunidade
está intrinsecamente ligada à fidelidade e à obediência aos termos da aliança.
Terceiro, a estrutura social e espiritual de Israel deveria
servir como um farol, um testemunho vivo e impactante diante de todas as nações
pagãs da terra.
O princípio fundamental que costura cada linha deste
mandamento antigo é cristalino e eterno: A graça soberana recebida de Deus
deve, obrigatoriamente, produzir uma graça compartilhada entre os homens.
Diante disso, a proposição central que este texto impõe às
nossas consciências nesta manhã é a seguinte: Aqueles que experimentam a graça
salvadora de Deus são chamados a viver demonstrando misericórdia prática,
confiança absoluta na provisão divina e obediência incondicional à Sua Palavra.
Ao examinarmos com temor e reverência este texto de
Deuteronômio, encontramos com clareza três marcas indeléveis e distintivas de
uma comunidade que foi verdadeiramente transformada pela graça de Deus.
I. A GRAÇA DE DEUS NOS CHAMA A LIBERTAR E NÃO A OPRIMIR (vv.
1-2)
Abramos as nossas Bíblias e olhemos com atenção para o que
nos dizem os versículos 1 e 2 da nossa perícope: “Ao fim de cada sete anos
farás remissão. Este, pois, é o modo da remissão: todo credor que emprestou
alguma coisa ao seu próximo o remirá; não o exigirá do seu próximo nem do seu
irmão, pois a remissão do Senhor é proclamada.”
Contemplem a magnitude deste mandamento, meus irmãos. O
Senhor Deus da Aliança ordena que, ao final do ciclo de sete anos, as dívidas
financeiras pendentes entre o povo fossem canceladas, riscadas e esquecidas.
Como já mencionamos, isso era algo absolutamente revolucionário e escandaloso
para os padrões da antiguidade. Nas culturas pagãs contemporâneas a Israel,
como na Babilônia, no Egito ou na Assíria, as leis protegiam quase que
exclusivamente a acumulação predatória de capital; os ricos acumulavam patrimônio
infindável às custas do empobrecimento absoluto e da escravização dos
necessitados. Se um homem não pudesse pagar o que devia, ele, sua esposa e seus
filhos eram vendidos como escravos, perdendo sua identidade e sua dignidade.
Mas o Deus de Israel levanta a Sua voz e declara: Não será
assim no meio do Meu povo! Deus não queria e não tolera uma sociedade cujo
progresso seja construído sobre os alicerces da exploração, da usura e da
vulnerabilidade alheia. Note que o mandamento exigia algo extraordinariamente
difícil para o coração humano: o credor deveria abrir mão voluntariamente de um
direito legal e legítimo em favor do exercício superior da misericórdia. Ele
tinha o direito de receber? Sim, a lei humana dizia que sim. Mas a lei da
Aliança dizia: Abra mão do seu direito para que o seu irmão possa respirar em
liberdade.
O fundamento teológico desse mandamento não era de ordem
puramente macroeconômica; era de ordem espiritual e pactual. O povo de Israel
precisava se lembrar constantemente, através de exercícios práticos, de onde
eles haviam saído. Eles precisavam recordar que, no passado, foram escravos
indefesos sob o chicote de Faraó no Egito, destituídos de qualquer bem ou
direito, e que foram libertados não por seus próprios méritos, mas pela pura,
soberana e graciosa intervenção do braço forte do Senhor Deus. Portanto, quem
foi liberto da opressão por pura graça não tem o direito de se tornar um
opressor de seus irmãos.
O grande reformador de Genebra, João Calvino, ao comentar
sobre a ética social decorrente da Lei de Deus, capturou com precisão cirúrgica
esta verdade ao escrever:
“Aquele que recebeu misericórdia de Deus deve aprender a
exercê-la para com os outros; pois seria a mais vergonhosa ingratidão fechar as
entranhas da compaixão contra os nossos irmãos, quando Deus abriu as janelas
dos céus para nos enriquecer com a Sua graça.”
No Novo Testamento, o nosso Senhor Jesus Cristo ecoa com
perfeição absoluta esse mesmo princípio pactual quando nos ensina a orar na
estrutura do Pai Nosso: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos
perdoado aos nossos devedores” (Mateus 6.12). O Evangelho de Jesus Cristo não
aceita uma espiritualidade mística que não se desdobre em relacionamentos
horizontais curados. O Evangelho verdadeiro sempre produz corações
misericordiosos, mãos abertas e mentes voltadas para a libertação do próximo.
Ilustração: A história da Igreja de Cristo está repleta de
momentos em que essa realidade brilhou intensamente. Logo após o término da
Segunda Guerra Mundial, o continente europeu encontrava-se economicamente
devastado, imerso em escombros, fome e miséria. Nesse cenário desolador, muitas
igrejas reformadas e comunidades evangélicas locais na Europa organizaram
fundos mútuos de assistência emergencial para ajudar as famílias cristãs que
haviam perdido absolutamente tudo nos bombardeios. Registra-se na história
eclesiástica que várias daquelas comunidades tomaram a firme decisão de perdoar
integralmente os empréstimos feitos a irmãos necessitados e compartilhar os
poucos recursos que lhes restavam para que os pais de família pudessem
reconstruir suas casas e recomeçar suas vidas com dignidade. Aquelas igrejas
entenderam que a graça imerecida recebida na cruz deveria gerar,
obrigatoriamente, uma graça radicalmente praticada na história.
Aplicações Práticas:
Evite terminantemente atitudes exploradoras em seus negócios
e profissão. Se você é empresário, patrão ou comerciante, lembre-se de que o
lucro nunca deve estar acima da dignidade e da justiça devida aos seus
funcionários e clientes. Pague salários justos e não retenha o que é de direito
do trabalhador.
Trate as pessoas ao seu redor com profunda misericórdia. Não
use a vulnerabilidade ou a necessidade de alguém para obter vantagens pessoais
ou financeiras ilícitas.
Não faça do dinheiro um instrumento de dominação e poder. Em
nossa cultura pecaminosa, quem tem recursos muitas vezes usa o poder financeiro
para humilhar, subjugar ou manipular os outros. Na igreja de Cristo, o recurso
deve ser instrumento de serviço, nunca de tirania.
Aprenda a perdoar ofensas e dívidas assim como Deus, em
Cristo, perdoou você. Se há alguém que lhe deve algo — seja uma dívida material
que a pessoa genuinamente não pode pagar, ou uma dívida emocional decorrente de
uma ofensa — exerça a remissão do Senhor. Libere essa pessoa para a glória de
Deus.
II. A GRAÇA DE DEUS NOS ENSINA A CONFIAR EM SUA PROVISÃO
(vv. 3-4)
Avancemos na exposição e observemos o que nos revelam os
versículos 3 e 4 do nosso texto: “Do estrangeiro poderás exigi-la; mas o que
teu irmão tiver contigo, a tua mão o remirá; para que entre ti não haja pobre;
pois o Senhor, teu Deus, abundantemente te abençoará na terra que o Senhor, teu
Deus, te dará por herança, para a possuíres.”
A declaração do versículo 4 é de uma ousadia impressionante:
“Para que entre ti não haja pobre.” À primeira vista, meus irmãos, essa
promessa pode parecer uma utopia ou uma contradição com o que o próprio Moisés
dirá mais adiante no versículo 11 (“pois nunca deixará de haver pobre na
terra”). Contudo, a teologia bíblica resolve essa apparente tensão nos
ensinando que essa promessa de erradicação da miséria extrema não operaria de
forma mágica ou automática; ela estava intrinsecamente ligada e condicionada à
fidelidade e à obediência ativa do povo aos mandamentos da Aliança.
Deus estava empenhando a Sua própria palavra empenhada de
que supriria com abundância e superávit todas as necessidades materiais da
nação de Israel, contanto que eles andassem firmes em Seus caminhos de justiça
e generosidade. Através deste mandamento do Ano da Remissão, o Senhor queria
fixar na mente do Seu povo uma lição espiritual que atravessa os séculos: Quem
obedece a Deus nunca perde. Quem honra ao Senhor com fidelidade jamais sairá
verdadeiramente prejudicado.
O sistema deste mundo caído nos ensina, desde a infância,
que a nossa segurança depende única e exclusivamente da nossa capacidade de
acumular, reter, poupar obsessivamente e proteger os nossos tesouros a qualquer
custo. O mundo proclama o egoísmo como virtude econômica. Deus, em
contrapartida, subverte essa lógica e nos ensina a confiar em Sua providência
governante através do ato de dar, liberar e abençoar.
Certamente, humanamente falando, muitos credores em Israel,
ao verem o sétimo ano se aproximar no calendário, poderiam ser assaltados por
pensamentos de incredulidade e avareza, racionalizando: “Se eu cancelar a
dívida deste meu irmão agora, eu amargarei um prejuízo terrível em meu balanço
financeiro; meus recursos diminuirão e eu poderei passar necessidade no
futuro.” No entanto, a resposta soberana de Deus a esse coração ansioso e
calculista é direta: “Não tema. Abra a sua mão e confie em Mim, pois Eu sou
Aquele que abençoará abundantemente a obra das suas mãos.”
A fé salvadora e verdadeira não vive escrava dos cálculos
matemáticos humanos ou das projeções financeiras deste mundo. Ela descansa de
forma convicta, inabalável e pacífica na fidelidade da provisão do Deus
Todo-Poderoso.
O célebre comentarista puritano Matthew Henry, versando
sobre a generosidade pactual descrita neste texto, asseverou com extrema
sabedoria:
“Os homens temem que a generosidade para com os necessitados
os empobreça, mas a verdade divina é exatamente o oposto: quem entrega algo por
amor a Deus, motivado pela obediência à Sua Palavra, jamais será
verdadeiramente empobrecido, pois as comportas da providência divina são
infinitamente maiores do que as nossas pequenas dispensas.”
Ilustração: Um dos testemunhos mais estrondosos da história
da igreja ocidental acerca dessa verdade foi a vida do piedoso pastor alemão
George Müller, que viveu no século XIX na Inglaterra. Müller sentiu o chamado
do Senhor para fundar e sustentar orfanatos na cidade de Bristol. Ao longo de
sua jornada, ele pastoreou e sustentou mais de dez mil crianças órfãs. A marca
registrada do ministério de George Müller era que ele havia tomado a firme
resolução de nunca pedir um único centavo a nenhuma pessoa, nem fazer campanhas
de arrecadação ou relatórios financeiros públicos. Toda e qualquer necessidade
era apresentada única e exclusivamente a Deus em oração, de joelhos no secreto.
Por diversas vezes, a liderança do orfanato acordava pela manhã e a despensa
estava absolutamente vazia, sem um pedaço de pão sequer para alimentar as
centenas de crianças. Entretanto, repetidas vezes, de formas miraculosas e
inacreditáveis — através de padeiros cujo coração Deus tocava na madrugada ou
carroças que quebravam em frente ao orfanato contendo mantimentos —, Deus
enviava exatamente o que era necessário, no minuto exato. A vida de Müller foi
e continua sendo um monumento vivo de que Deus é perfeitamente fiel para suprir
aqueles que dependem de Sua provisão.
Aplicações Práticas:
Deposite a sua confiança e a sua segurança na provisão
diária de Deus, e não no saldo dos seus recursos financeiros. Lembre-se de que
o seu emprego, os seus investimentos e os seus bens são apenas canais, mas a
Fonte sustentadora da sua vida é o Senhor.
Não permita de forma alguma que o medo do amanhã ou a
ansiedade controlem as suas decisões éticas. A avareza nasce do medo da
escassez. Quando confiamos que o nosso Pai celestial cuida de nós, somos
libertos do pânico que nos impede de sermos generosos.
Aprenda a ser generoso mesmo quando as circunstâncias
parecerem difíceis. A verdadeira generosidade bíblica não é o transbordamento
do que nos sobra após satisfazermos todos os nossos caprichos; é um ato de
adoração e fé que se expressa mesmo em tempos de aperto, glorificando a Deus.
Lembre-se diariamente de uma verdade elementar: Deus
continua sendo o dono absoluto de todas as coisas. O ouro e a prata pertencem a
Ele. Nós somos apenas mordomos temporários dos recursos que Ele colocou em
nossas mãos.
III. A GRAÇA DE DEUS FAZ DE SEU POVO UM TESTEMUNHO PARA O
MUNDO (vv. 5-6)
Finalmente, consideremos o clímax desta seção nos versículos
5 e 6 do texto bíblico: “Se apenas ouvires diligentemente a voz do Senhor, teu
Deus, para cuidares em cumprir todos estes mandamentos que hoje te ordeno. Pois
o Senhor, teu Deus, te abençoará, como te tem dito; e emprestarás a muitas
nações, porém tu não tomarás emprestado; e dominarás sobre muitas nações, porém
elas não dominarão sobre ti.”
Vejam que coisa magnífica, meus irmãos: a promessa da bênção
de Deus sobre Israel não tinha como objetivo final o orgulho nacional, o
triunfalismo geopolítico ou a ostentação egoísta de riqueza. A bênção divina
tinha, fundamentalmente, um profundo, central e urgente propósito missionário!
O plano do Senhor era que Israel, ao obedecer a essas leis sociais alternativas
e radicalmente justas, demonstrasse de forma visível e tangível para todas as
nações pagãs vizinhas a diferença gloriosa que a aliança com o Deus Vivo
produzia na engrenagem de uma sociedade.
Uma nação onde não havia miséria crônica, onde os
necessitados eram acolhidos, onde as dívidas eram perdoadas e onde os corações
eram generosos, funcionaria como uma apologética viva, uma poderosa e
irresistível testemunha da glória, da justiça e do caráter do Deus invisível. O
versículo 6 corrobora essa perspectiva ao afirmar: “Emprestarás a muitas
nações, porém tu não tomarás emprestado.” Esta declaração aponta para uma
posição pactual de liderança, dignidade, influência espiritual e estabilidade,
e nunca de dependência humilhante ou submissão aos impérios idólatras da terra.
Quando o povo andava em obediência, a bênção de Deus se manifestava de tal
maneira que o mundo era obrigado a olhar e reconhecer: “Certamente este Deus é
grande e justo!”
Da mesma forma, meus amados, no período da Nova Aliança, a
Igreja de Jesus Cristo é chamada, de forma categórica, para ser a luz do mundo
e o sal da terra. A nossa maneira cristã de lidar com o dinheiro, com os bens
materiais, com os contratos de trabalho, com os lucros e com o amparo aos
necessitados deve revelar ao mundo incrédulo o caráter santo, compassivo e
generoso do nosso Salvador. O mundo não lê as Escrituras Sagradas, o mundo lê a
vida da Igreja!
O saudoso teólogo contemporâneo John Stott, discorrendo
sobre a responsabilidade social e o impacto da comunidade cristã na sociedade,
escreveu com extrema felicidade:
“O mundo que nos cerca tem o pleno direito de julgar a
autenticidade e a veracidade da nossa fé e das nossas doutrinas pela maneira
como vivemos e administramos os nossos relacionamentos práticos. Uma igreja que
prega a graça com palavras, mas vive na avareza com as mãos, torna o Evangelho
inacreditável aos olhos dos homens.”
Uma igreja local que se levanta em generosidade, compaixão e
amor prático pelos aflitos e marginalizados proclama a eficácia e o poder
salvador do Evangelho de Cristo com estrondo, muitas vezes antes mesmo de abrir
a boca no púlpito.
Ilustração: A história da Igreja Primitiva testifica o poder
dessa realidade de forma avassaladora. Durante os primeiros séculos da era
cristã, terríveis epidemias de peste e varíola devastaram grandes cidades do
Império Romano, como Alexandria e Cartago. Diante do contágio iminente e da
morte horrível, os cidadãos pagãos — incluindo médicos, filósofos e os próprios
parentes das vítimas — fugiam desesperados para os campos, abandonando os seus
próprios familiares moribundos nas sarjetas e nas casas para morrerem sozinhos.
Entretanto, os historiadores registram que os cristãos agiram de modo
inteiramente oposto. Movidos pelo amor de Cristo e pela certeza da vida eterna,
eles permaneceram nas cidades infectadas, recolhendo os enfermos das ruas,
limpando suas feridas, alimentando os necessitados e cuidando não apenas dos
seus irmãos na fé, mas também dos seus próprios perseguidores pagãos. Muitos
cristãos contraíram as doenças e morreram nesse serviço sacrificial. Essa
compaixão heróica e radical chocou profundamente as autoridades romanas,
desarmou o preconceito da sociedade e contribuiu poderosamente para a expansão
geométrica do Evangelho por todo o Império. A fé crida tornou-se visível e
irresistível através do amor encarnado.
Aplicações Práticas:
Seja um referencial absoluto e inquestionável de integridade
financeira em sua vida pública e privada. Que o seu "sim" seja sim, e
o seu "não" seja não. Pague as suas contas pontualmente, honre os
seus contratos e fuja de qualquer tipo de sonegação, fraude ou esperteza
ilícita. O nome de Cristo está em jogo em suas transações comerciais.
Demonstre a beleza do Evangelho através de uma generosidade
intencional e contagiante. Que as pessoas ao seu redor conheçam você não como
alguém apegado ao dinheiro ou mesquinho, mas como alguém cujo coração é alegre
em repartir e abençoar.
Use os seus recursos materiais de forma estratégica para
promover o avanço do Reino de Deus na terra. Invista na obra missionária, no
sustento da igreja local, na plantação de novas igrejas e no socorro aos
necessitados e aflitos.
Mostre ao mundo cético, através das suas atitudes
cotidianas, a diferença monumental que Jesus Cristo operou em sua escala de
valores. Mostre que a sua alegria não provém da abundância dos bens que você
possui, mas do fato de ter o seu nome escrito no Livro da Vida.
CONCLUSÃO
Meus amados irmãos, ao percorrermos as linhas sagradas desta
antiga ordenança de Deuteronômio, o Espírito Santo de Deus expande as nossas
mentes para compreendermos que o "Ano da Remissão" não era um fim em
si mesmo. Ele funcionava na pedagogia divina como uma sombra, um tipo, um
apontamento profético maravilhoso que visava sinalizar uma realidade espiritual
infinitamente maior, mais gloriosa e definitiva que haveria de se manifestar na
plenitude dos tempos.
A grande verdade teológica que o texto nos impõe é que todos
nós — sem qualquer exceção — éramos devedores espirituais falidos. Nós
possuíamos diante do tribunal de um Deus perfeitamente Santo uma dívida moral
impagável e astronômica, decorrente da culpa terrível dos nossos pecados,
rebeliões e transgressões contra a Majestade divina. Não possuíamos nenhum
recurso em nós mesmos, nenhum mérito, nenhuma boa obra capaz de amortizar ou
liquidar essa folha corrida de condenação. Estávamos falidos, arruinados e condenados
à escravidão eterna e ao inferno.
No entanto, louvado seja o Nome do Senhor, quando não havia
qualquer esperança humana, o Filho Eterno de Deus, o nosso Senhor Jesus Cristo,
entrou na nossa história! Ele veio ao mundo para inaugurar o Ano da Remissão
definitivo e eterno. No altar ensanguentado da cruz do Calvário, Jesus Cristo
assumiu a nossa culpa, tomou sobre Si o nosso lugar jurídico, carregou o nosso
castigo e sofreu a condenação que era nossa por direito. Ali, na cruz, vertendo
o Seu sangue precioso, Cristo cravou o escrito de dívida que nos era
prejudicial e declarou de forma vitoriosa: Tetelestai! Está pago! A dívida foi
cancelada de forma completa, definitiva e eterna!
Nós fomos agraciados com o perdão absoluto do tribunal
divino. Fomos libertos da escravidão do pecado e do medo da morte por pura,
soberana e imerecida graça. Portanto, meus irmãos, nós que fomos resgatados de
uma dívida eterna no Calvário, não podemos mais viver como prisioneiros do
egoísmo, da avareza e da mesquinhez deste século presente. Aqueles que foram
alcançados pela graça irresistível de Deus devem, por obrigação de amor, viver
como instrumentos vivos dessa mesma graça na história.
Que o Espírito Santo de Deus aplique estas verdades de forma
irresistível em nossa alma hoje. Portanto, igreja do Senhor:
Liberte em vez de oprimir — vivendo com misericórdia para
com os erros e as fragilidades dos seus irmãos.
Confie em vez de temer — descansando convictamente na
provisão diária dAquele que veste os lírios do campo e alimenta as aves do céu.
Testemunhe em vez de apenas falar — fazendo com que a sua
vida financeira e social seja uma pregação silenciosa, mas avassaladora, do
amor de Cristo Jesus.
Que a Igreja de Cristo nesta localidade seja conhecida e
lembrada pelas gerações não pelo acúmulo de bens materiais, não pelo amor ao
dinheiro ou pelo luxo secular, mas por uma generosidade radical, santa e
contagiante que reflete com fidelidade a essência pura do Evangelho da paz.
Lembremo-nos para sempre, em cada dia de nossas vidas, de
que a maior, a mais profunda e a mais gloriosa remissão de toda a história
humana não aconteceu nas planícies econômicas deste mundo, mas aconteceu no
topo do monte Calvário. Ali, o Cordeiro de Deus rasgou os nossos pecados e
decretou que a nossa dívida está paga para sempre. Vivamos, pois, para o louvor
da glória de Sua graça!
Soli Deo Gloria. Amém!
Pr. Eli Vieira