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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

NÃO SE ACOMODE COM MENOS DO QUE DEUS LHE CHAMOU PARA CONQUISTAR

Texto: Josué 17.1–18

Texto-chave:  “Então, Josué disse à casa de José, a Efraim e a Manassés: Tu és povo numeroso e tens grande poder; não terás uma sorte apenas. Porém a região montanhosa será tua; embora seja bosque, cortá-lo-ás e possuirás as suas extremidades; porque expulsarás os cananeus, ainda que tenham carros de ferro e sejam fortes.” — Josué 17.17–18


Há uma diferença enorme entre não possuir recursos e não utilizar os recursos que Deus já colocou em nossas mãos.

Há pessoas que pedem constantemente novas oportunidades, mas ainda não aproveitaram aquelas que receberam.

Pedem mais capacidade, mas não desenvolveram os dons que possuem.

Pedem que Deus remova os obstáculos, quando talvez Deus esteja dizendo:

“Eu lhe darei graça para enfrentá-los.” Josué 17 apresenta exatamente essa tensão.

A tribo de Manassés está recebendo sua herança.

Deus havia sido fiel.

A terra estava sendo distribuída.

As promessas feitas aos patriarcas estavam tornando-se realidade.

Entretanto, quando chegamos aos versículos finais, os descendentes de José procuram Josué com uma reclamação:

“Por que me deste por herança apenas uma sorte e uma porção, sendo eu um povo numeroso?” (v. 14)

Aparentemente, o problema era falta de espaço.

Mas Josué percebe que havia algo mais profundo.

Eles tinham território.

Tinham força.

Tinham recursos.

Tinham a promessa.

Tinham capacidade de avançar.

O problema era que parte da terra ainda precisava ser conquistada.

Havia florestas para derrubar.

Havia cananeus para expulsar.

Havia carros de ferro para enfrentar.

Então Josué não responde à reclamação oferecendo facilidade.

Ele responde oferecendo responsabilidade:

“Se és povo numeroso, sobe ao bosque e corta para ti espaço ali.” (v. 15)

Em outras palavras:

“Vocês dizem que são fortes? Então usem a força que Deus lhes deu.” “Vocês querem mais espaço? Então avancem sobre o território que ainda precisa ser ocupado.” E quando eles mencionam os carros de ferro, Josué responde:

“Tu os expulsarás, ainda que tenham carros de ferro e sejam fortes.” (v. 18)

Esse texto fala diretamente ao coração da Igreja.

Porque podemos passar a vida pedindo a Deus para mudar nossas circunstâncias quando Ele deseja mudar nossa postura diante delas.

Podemos pedir que Deus retire os gigantes, enquanto Ele deseja ensinar-nos a enfrentá-los pela fé.

Podemos reclamar da porção que recebemos enquanto ainda não administramos plenamente aquilo que já está em nossas mãos.

Josué 17 nos chama a abandonar a acomodação espiritual.

A mensagem do texto é:

Deus não nos chama para viver reclamando daquilo que falta, mas para avançar pela fé com aquilo que Ele já nos concedeu.

Josué 17 continua a distribuição da herança dos descendentes de José.

José havia recebido uma espécie de dupla representação tribal através de seus filhos:

  • Efraim; - Manassés. O capítulo pode ser dividido em três movimentos:

  1. Versículos 1–6: A distribuição da herança de Manassés e a situação das filhas de Zelofeade.

  2. Versículos 7–13: Os limites territoriais de Manassés e uma nota preocupante: os cananeus não foram completamente expulsos.

  3. Versículos 14–18: Efraim e Manassés apresentam sua reclamação a Josué, alegando que eram numerosos e precisavam de mais território.

Essas três seções revelam três atitudes diante da herança:

  • Há quem reivindique pela fé aquilo que Deus prometeu.

  • Há quem tolere aquilo que Deus ordenou remover.

  • E há quem reclame daquilo que recebeu em vez de avançar sobre aquilo que ainda precisa conquistar.

É justamente daí que surgem as três grandes lições deste texto.

O povo de Deus deve receber Suas promessas com fé, enfrentar pela graça os obstáculos que permanecem e utilizar responsavelmente os recursos que o Senhor já colocou em suas mãos.

Josué 17.1–18 apresenta três atitudes indispensáveis para quem deseja viver plenamente aquilo que Deus lhe confiou.

I – APROPRIE-SE PELA FÉ DAQUILO QUE DEUS PROMETEU

(Josué 17.1–6)

A primeira parte do capítulo apresenta a herança da tribo de Manassés.

No meio da descrição aparece novamente uma história já iniciada no livro de Números: a história das filhas de Zelofeade (Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza).

Zelofeade havia morrido sem filhos homens. Segundo a estrutura normal da sociedade israelita, isso levantava uma questão: o que aconteceria com sua herança? Suas filhas procuraram Moisés anteriormente e apresentaram sua causa. Deus então determinou que elas receberiam a herança de seu pai.

Agora, anos depois, elas aparecem diante de Eleazar e Josué e dizem:

“O SENHOR ordenou a Moisés que se nos desse herança no meio de nossos irmãos.” (v. 4)

Observe cuidadosamente o fundamento do pedido. Elas não dizem "Achamos justo" nem "Temos direito porque merecemos". Elas dizem: “O Senhor ordenou.” A confiança delas repousava na Palavra de Deus.

1. A fé conhece aquilo que Deus prometeu

Essas mulheres conheciam a promessa. Não podemos reivindicar biblicamente aquilo que não conhecemos. Por isso a vida cristã precisa ser profundamente enraizada nas Escrituras. A fé não vive de imaginação; vive da Palavra.

“E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.” (Romanos 10.17)

Muitos cristãos vivem espiritualmente inseguros porque conhecem pouco aquilo que Deus realmente prometeu: a justificação, a adoção, a providência, a perseverança, a comunhão com Cristo e a esperança da ressurreição.

 Quanto mais conhecemos as promessas bíblicas, mais firmemente podemos descansar nelas.

2. A fé transforma a promessa em oração

As filhas de Zelofeade foram até os líderes e disseram: “O Senhor ordenou...” Existe aqui um princípio importante sobre oração: a oração mais forte não é aquela que tenta convencer Deus a fazer nossa vontade, mas aquela que toma a Palavra de Deus e diz: “Senhor, faze conforme prometeste.” 

João Calvino ensinava que as promessas divinas servem como fundamento e incentivo para nossas orações, pois Deus nos convida a pedir aquilo que Ele mesmo se comprometeu a conceder segundo Sua vontade.

3. A espera não anulou a promessa

Anos haviam passado desde a primeira reivindicação. Moisés havia morrido; Josué agora liderava Israel. Mas a promessa continuava válida. Os homens mudam, as gerações passam, os líderes morrem, mas a Palavra de Deus permanece.

“Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente.” (Isaías 40.8)

Talvez entre a promessa e o cumprimento exista uma longa estrada. Abraão, José, Calebe, Davi e as filhas de Zelofeade esperaram. Mas Deus não esqueceu.

4. Deus honra Sua própria Palavra

O versículo 4 termina dizendo: “Então, segundo o mandado do SENHOR, lhes deu herança no meio dos irmãos de seu pai.” Não foi favoritismo nem pressão política: foi fidelidade à Palavra. Matthew Henry ressalta que aquilo que Deus determina em favor de Seu povo não deve ser perdido por negligência humana.

ILUSTRAÇÃO: Imagine alguém que recebe um documento legal comprovando que determinada propriedade lhe pertence. Ele pode guardar o documento durante anos dentro de uma gaveta. A propriedade continua legalmente sendo sua, mas ele nunca desfrutará dela se não agir de acordo com o documento. As filhas de Zelofeade tinham algo infinitamente mais seguro: a Palavra do Senhor. Por isso compareceram diante de Josué. A fé leva a sério aquilo que Deus disse.

APLICAÇÕES DO PRIMEIRO PONTO:

  1. Conheça profundamente as promessas das Escrituras: Não construa sua fé sobre frases motivacionais, mas sobre a Palavra.

  2. Transforme promessas bíblicas em oração: Ore pela santificação, pela sabedoria, pela perseverança e pela expansão do Evangelho.

  3. Não interprete demora como esquecimento: Deus não perdeu o controle da história.

  4. Ensine seus filhos a conhecer as promessas de Deus: A fé precisa ser transmitida à próxima geração.

  5. Permaneça firmado no que Deus disse: Mesmo quando as circunstâncias mudarem, permaneça inabalável.

II – NÃO APRENDA A CONVIVER COM AQUILO QUE DEUS ORDENOU VENCER

(Josué 17.7–13)

Depois de descrever os limites territoriais, o texto chega a uma declaração preocupante:

“Os filhos de Manassés não puderam expulsar os habitantes daquelas cidades; porquanto os cananeus persistiam em habitar nessa terra.” (v. 12)

Então o versículo 13 acrescenta:

“Sucedeu que, tornando-se fortes os filhos de Israel, sujeitaram os cananeus a trabalhos forçados e não os expulsaram de todo.” Essa frase é reveladora. No início, talvez faltasse força militar suficiente. Mas depois, “tornando-se fortes...”, a situação mudou. Eles poderiam agir, mas “não os expulsaram de todo”. A questão deixa de ser apenas incapacidade e torna-se acomodação.

1. Existe diferença entre fraqueza e tolerância

Todos nós enfrentamos fraquezas. A santificação não acontece instantaneamente; há pecados contra os quais lutamos repetidamente. 

Mas isso é diferente de fazer paz com o pecado. O cristão pode cair, mas não pode transformar a queda em residência confortável. Paulo afirma:

“Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal.” (Romanos 6.12)

O pecado ainda pode estar presente, mas não deve reinar.

2. O pecado tolerado frequentemente se torna útil

Por que Israel manteve os cananeus? Eles os sujeitaram a trabalhos forçados. Eles se tornaram economicamente úteis. 

Às vezes toleramos coisas erradas porque elas oferecem alguma vantagem: uma mentira evita constrangimento, uma concessão ética gera lucro, uma amargura preservada nos dá sensação de justiça. Quando o pecado se torna conveniente, encontramos argumentos para mantê-lo.

3. Aquilo que toleramos pode acabar nos influenciando

Israel pensava que controlava os cananeus. Mas o livro de Juízes mostrará que os cananeus e seus deuses permaneceram, e pouco a pouco Israel foi dominado. 

A história espiritual costuma seguir esse caminho: primeiro toleramos, depois nos acostumamos, depois justificamos e finalmente somos dominados. John Owen escreveu:

“Esteja matando o pecado, ou ele estará matando você.”

4. Santificação exige mortificação contínua

Colossenses 3.5 ordena: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena.” E Romanos 8.13 afirma: “Se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis.” 

Não mortificamos o pecado pela força autônoma da vontade, mas pelo Espírito. O Espírito nos capacita a lutar: confessamos, fugimos, cortamos ocasiões de queda, oramos e buscamos os meios de graça. A graça produz combate.

ILUSTRAÇÃO: Uma pequena planta pode nascer entre as pedras de um muro. No início parece inofensiva, mas se suas raízes continuarem crescendo dentro das rachaduras, com o tempo começam a deslocar as pedras e comprometer toda a estrutura. Assim acontece com pecados tolerados: o que hoje parece pequeno pode criar raízes profundas amanhã.

APLICAÇÕES DO SEGUNDO PONTO:

  1. Identifique o que começou a tolerar: Examine quais áreas de concessão entraram em sua vida.

  2. Não use fraqueza como desculpa: Não confunda luta contra a carne com tolerância ao mal.

  3. Avalie falsas vantagens: Pergunte se algum pecado está oferecendo uma “vantagem” que dificulta abandoná-lo.

  4. Use seriamente os meios de graça: Palavra, oração, sacramentos e comunhão não são acessórios.

  5. Lute na dependência do Espírito Santo: Não negocie com aquilo que crucificou seu Salvador.

III – NÃO RECLAME DO TAMANHO DA HERANÇA ENQUANTO AINDA HÁ TERRITÓRIO PARA CONQUISTAR

(Josué 17.14–18)

Os descendentes de José aproximam-se de Josué e perguntam:

“Por que me deste por herança apenas uma sorte e uma porção, sendo eu um povo numeroso, visto que o SENHOR até aqui me tem abençoado?” (v. 14)

Eles reconhecem a bênção de Deus, mas usam a própria bênção como argumento para reclamar. É possível reconhecer que somos abençoados e, ao mesmo tempo, viver insatisfeitos.

1. A insatisfação ignora aquilo que já temos

Eles dizem: “Somos numerosos.” Josué responde: “Se és povo numeroso, sobe ao bosque e corta para ti espaço ali.” (v. 15). 

Josué transforma o argumento deles em responsabilidade. Em essência: “Se vocês têm gente suficiente, usem essa força para trabalhar e abrir espaço no território que já lhes foi dado.”

2. Às vezes pedimos mais quando precisamos trabalhar melhor

Antes de pedir uma porção maior, devemos perguntar se estamos sendo fiéis na porção atual.

“Quem é fiel no pouco também é fiel no muito.” (Lucas 16.10)

Se pedimos mais oportunidades, dons ou recursos, precisamos avaliar se já administramos com fidelidade aquilo que está em nossas mãos.

3. A reclamação cresce quando olhamos mais para os obstáculos do que para Deus

Os descendentes de José argumentam: “Todos os cananeus que habitam na terra do vale têm carros de ferro.” (v. 16). O verdadeiro problema era o medo. 

Os carros de ferro representavam tecnologia militar superior. Josué não nega a realidade do obstáculo, mas afirma:

“Expulsarás os cananeus, ainda que tenham carros de ferro e sejam fortes.” (v. 18)

Fé não é negar a força do inimigo; é afirmar a superioridade da fidelidade de Deus.

4. Deus frequentemente fortalece-nos para atravessar o obstáculo

Nem sempre Deus remove a montanha; muitas vezes Ele nos concede graça e força para subi-la. Como Paulo ouviu do Senhor: “A minha graça te basta” (2Co 12.9). Nem todo mar será removido, mas alguns serão atravessados a pé enxuto.

5. A fé olha para recursos invisíveis

Os cananeus tinham carros de ferro, mas Israel tinha o Senhor Deus.

“Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do SENHOR, nosso Deus.” (Salmo 20.7)

A fé não pergunta "Quantos carros o inimigo possui?", mas "Quem está conosco?".

ILUSTRAÇÃO: Quando William Carey considerou levar o Evangelho à Índia no final do século XVIII, enfrentou barreiras gigantescas. 

Ele resumiu sua convicção na frase: “Espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas para Deus.” Não era autoconfiança, mas a certeza de que a grandeza da missão depende do Deus que nos envia.

APLICAÇÕES DO TERCEIRO PONTO:

  1. Faça um inventário da graça: Antes de reclamar do que falta, reconheça o que Deus já concedeu.

  2. Transforme bênção em responsabilidade: Não use dádivas como desculpa para exigi-los ainda mais.

  3. Pare de esperar condições perfeitas: A obediência não deve esperar pela ausência de desafios.

  4. Identifique seus “carros de ferro”: Não permita que intimidações dominem sua visão.

  5. Trabalhe na porção confiada: Há florestas que não desaparecerão sem trabalho e oração.

CRISTO E A VERDADEIRA HERANÇA

Josué 17 expõe a fragilidade do coração humano: recebemos e reclamamos, somos abençoados e permanecemos insatisfeitos. Precisamos de um Josué maior: Jesus Cristo.

Israel recebeu uma herança terrestre e imperfeita; Cristo nos conquistou uma herança eterna:

“Uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós.” (1Pedro 1.4)

Israel falhou em expulsar completamente seus inimigos; Cristo venceu definitivamente os Seus. Na cruz, Ele despojou os principados e potestades (Cl 2.15) e triunfou sobre a morte e o pecado. Não lutamos para alcançar uma vitória incerta, mas lutamos a partir da vitória que Cristo já conquistou por nós.

CONCLUSÃO

Josué 17 apresenta três atitudes:

  1. Fé: As filhas de Zelofeade declaram: “O Senhor prometeu.”

  2. Acomodação: Israel permite que os cananeus permaneçam por conveniência.

  3. Responsabilidade: Josué diz aos descendentes de José: “Subam. Cortem. Ocupem. Expulsem.” Qual dessas cenas descreve sua vida hoje?

Se você está diante de uma crise, de um desafio ministerial, de limitações ou de batalhas espirituais e pensa que o inimigo é forte demais, lembre-se das palavras do texto: “Ainda que tenham carros de ferro e sejam fortes... tu os expulsarás.” Não reclame quando Deus o chama para avançar. Não faça acordos com o pecado.

Há florestas para cortar, territórios para ocupar, pessoas para evangelizar e uma Igreja para edificar.

“Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do SENHOR, nosso Deus.” (Salmo 20.7)

“Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.” (Filipenses 1.6)

NÃO SE ACOMODE COM MENOS DO QUE DEUS LHE CHAMOU PARA CONQUISTAR. Receba pela fé, combata o pecado, use os recursos concedidos e avance no poder do Senhor.

Soli Deo Gloria. Amém.

Pr. Eli Vieira Filho

Rio Grande do Sul é estado menos evangelizado do país, avalia pastor


Pr. Sandro Fontoura durante ministração sobre os desafios da evangelização no Rio Grande do Sul. (Captura de tela/Instagram/prsandrofontoura)

 PARE E PENSE!!!

Há 35 anos no ministério, Sandro Fontoura alerta para os desafios espirituais do Rio Grande do Sul e defende que a Igreja ocupe as ruas.

Há 35 anos no ministério pastoral, Sandro Fontoura, líder da missão SMG (Sul, Missões e Graça), tem chamado a atenção da Igreja brasileira para os desafios da evangelização no Rio Grande do Sul.

Em um vídeo, ele afirmou que o estado é um dos menos evangelizados do país:

“O Rio Grande do Sul é o estado menos evangelizado hoje no Brasil, nós temos 497 municípios. Dos 497 municípios que nós temos, a igreja não tem 400 mil crentes no nosso estado”, disse o pastor.

Sandro também demonstrou preocupação com o cenário religioso do estado e defendeu maior envolvimento das igrejas em evangelização.

Segundo o Censo, o estado possui proporcionalmente a maior presença de adeptos de Umbanda, Candomblé e outras religiões de matriz africana do Brasil: 3,2% da população com 10 anos ou mais.

O pastor também citou a construção de uma “igreja” dedicada a Lúcifer em Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Segundo informou, em poucos meses o local conta com mais de 300 membros.

Ele também mencionou uma proposta apresentada na Câmara Municipal para reconhecer Porto Alegre como “Cidade da Umbanda”.

O projeto começou a tramitar em 2026 e também prevê o reconhecimento da Umbanda como patrimônio histórico, cultural e imaterial do município.

“Nós temos o maior público de ateus praticantes da América Latina, que era Montevidéu no Uruguai e hoje é o nosso estado. Pessoas que pregam a inexistência de Deus e combatem aqueles que defendem a sua fé cristã”, relatou.

Dentre as tragédias, o pastor citou ainda o desaparecimento de crianças.

“Vocês vão pasmar com o número de crianças desaparecidas no nosso estado”, disse, incentivando as pessoas a pesquisarem os dados na internet.

Um estado marcado pela tragédia

Após falar sobre o cenário espiritual do Rio Grande do Sul, que considera desafiador para a evangelização, Sandro relembrou tragédias que marcaram o estado.

“Na contrapartida [da realidade espiritual], as maiores tragédias naturais do Brasil, parece que tudo parte do nosso estado”, disse.

Ele mencionou as enchentes históricas que atingiram o estado em 2024.

Segundo dados da Defesa Civil, 478 dos 497 municípios gaúchos foram afetados e cerca de 2,4 milhões de pessoas sofreram os impactos da tragédia. Centenas de milhares precisaram deixar suas casas.

O pastor também recordou outros eventos trágicos que marcaram a história gaúcha, como o incêndio da Boate Kiss, ocorrido em Santa Maria, em 2013, que deixou 242 mortos, e o voo TAM 3054, que partiu de Porto Alegre e sofreu um acidente ao pousar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em 2007, deixando 199 mortos.

Ao citar esses acontecimentos, Sandro apresentou sua interpretação espiritual sobre o momento vivido pelo estado e ressaltou a necessidade de mobilização da Igreja.

Para ele, porém, a resposta não deve permanecer apenas nos púlpitos.

Resgate e restauração

Atuando diretamente entre pessoas em situação de rua, ele defende uma presença cristã mais intensa fora dos templos e afirma que os cristãos precisam voltar a ocupar as ruas com o Evangelho.

“Eu abri uma igreja debaixo de um viaduto da Conceição, na capital, em Porto Alegre, atendendo moradores de rua. Realizei esse ano que passou o primeiro congresso de missões do Brasil para moradores de rua. E em onze meses de trabalho, nós tiramos 284 pessoas das ruas e mais de 440 pessoas nós devolvemos às suas famílias, ao convívio social, ao ambiente da liberdade e da libertação”, contou, defendendo que a igreja precisa ocupar as ruas.

“O diabo tomou as ruas, a igreja acomodou e simplesmente ficamos olhando de longe as coisas acontecerem”, declarou Sandro, dizendo que declarou “que quem manda agora nas ruas do estado do Rio Grande do Sul não é mais Satanás. Agora as ruas ganharam pastores.”

Em entrevista anterior ao Guiame, Sandro afirmou que o movimento nas ruas se transformou em uma espécie de “avivamento debaixo da ponte”, com conversões, reconciliações familiares e pessoas deixando as ruas.

Campo missionário

O avanço da população em situação de rua é um dos desafios enfrentados pela capital gaúcha. Dados oficiais apontaram aumento de 14,88% após as enchentes de 2024: o número de pessoas cadastradas nessa condição passou de 4.549, em abril de 2024, para 5.226 em fevereiro de 2025.

Já um levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, com dados do Cadastro Único referentes a dezembro de 2025, identificou 16.359 pessoas nessa condição no Rio Grande do Sul.

Para Sandro, esses números representam também um campo missionário que precisa receber maior atenção das igrejas.

A experiência no Viaduto da Conceição se tornou um exemplo da estratégia defendida pelo pastor: ir até onde estão as pessoas que dificilmente entrariam espontaneamente em uma igreja.

“Agora as ruas ganharam pastores e nós vamos tomar o território que o diabo levou de nós”, afirmou.

Fonte: Guiame


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A HERANÇA RECEBIDA EXIGE OBEDIÊNCIA COMPLETA

Texto-chave: “Não expulsaram, porém, os cananeus que habitavam em Gezer; assim, habitam os cananeus no meio dos efraimitas até ao dia de hoje, porém sujeitos a trabalhos forçados.” — Josué 16.10

Há uma diferença profunda entre receber uma promessa e viver plenamente aquilo que a promessa exige.

Israel já se encontrava dentro da Terra Prometida. O rio Jordão havia sido miraculosamente atravessado; a fortaleza de Jericó ruíra diante do poder de Deus; a cidade de Ai fora conquistada após o devido tratamento do pecado; e os reis do sul e do norte tinham sido sucessivamente derrotados. 

A terra, agora em relativo repouso, começara a ser formalmente distribuída entre as tribos da aliança. Humanamente falando, tudo parecia avançar com notável sucesso e tranquilidade.

É exatamente nesse contexto que chegamos ao capítulo 16 do livro de Josué. O texto passa a registrar a porção territorial destinada aos descendentes do patriarca José, concentrando-se detalhadamente na tribo de Efraim. São listados nomes de fronteiras, acidentes geográficos, cidades e regiões. No entanto, ao final desta seção, o Espírito Santo faz questão de registrar uma breve, porém solene e preocupante observação:

“Não expulsaram, porém, os cananeus que habitavam em Gezer.” (Js 16.10)

Observe o contraste dramático. O Senhor Deus fora perfeitamente fiel em conceder a herança prometida aos pais; todavia, a tribo de Efraim respondeu a essa generosidade com uma obediência incompleta. 

A promessa era absolutamente verdadeira e graciosa, e a fidelidade de Deus permanecia irrepreensível e intacta. O problema decisivo residia na resposta frouxa e negligente do Seu povo.

Essa exata tensão atravessa a totalidade da vida cristã. Em Cristo Jesus, fomos abençoados com toda sorte de bênçãos espirituais nas regiões celestiais. Fomos graciosamente justificados, adotados na família de Deus, perdoados de todos os nossos pecados, selados com o Espírito Santo da promessa e constituídos herdeiros de um reino inabalável. 

No entanto, a concessão da graça jamais foi uma licença para a negligência espiritual. A graça sovereignemente salvadora é a mesma graça que nos convoca a uma vida de intencional santidade. A promessa de Deus não produz acomodação; produz obediência irrepreensível.

O grande perigo espiritual de Efraim consistiu em aprender a tolerar e conviver pacificamente com aquilo que Deus havia ordenado remover categoricamente. E essa continua sendo uma das tentações mais sutis e devastadoras que assaltam o povo de Deus em todos os tempos:

  • Há pecados que condenamos severamente quando praticados por outros, mas que toleramos e afagamos quando se tornam pessoalmente convenientes;
  • Há comportamentos e atitudes que inicialmente combatemos com rigor, mas que, com o passar do tempo, aprendemos a acomodar e administrar;
  • Há áreas secretas da nossa vida em que dizemos interiormente: “Sei que isto não é o ideal bíblico, mas aprendi a conviver com isso sem maiores sobressaltos.”

O texto de Josué 16 se levanta no cânon sagrado para nos interrogar diretamente: Existe algum “Gezer” em nossa vida? Existe alguma área de deliberada desobediência que permitimos permanecer sob a nossa tenda?

O puritano John Owen sintetizou este alerta com incomparável precisão ao declarar:

“Esteja sempre matando o pecado, ou o pecado estará matando você.”

Josué 16 trata especificamente do quinhão territorial concedido aos descendentes de José. Como bem sabemos pela narrativa de Gênesis, José recebeu uma dupla porção na herança de Israel por meio de seus dois filhos, Efraim e Manassés.

  • Versículos 1–4: Apresentam a delimitação geral e ampla das terras pertencentes ao bloco dos filhos de José;
  • Versículos 5–9: Descrevem minuciosamente as fronteiras internas e as cidades pertencentes à tribo de Efraim;
  • Versículo 10: Encerra abruptamente a narrativa com uma nota teológica de imensa gravidade:

“Não expulsaram, porém, os cananeus que habitavam em Gezer; assim, habitam os cananeus no meio dos efraimitas até ao dia de hoje, porém sujeitos a trabalhos forçados.”

Essa nota de rodapé histórica e teológica não está registrada por acaso. Ela serve como um sombrio prenúncio do declínio espiritual que será amplamente narrado no livro de Juízes.

 Os povos cananeus que Israel tolerou por conveniência econômica ou fraqueza moral tornaram-se, posteriormente, laço, espinho nas ilhargas e fonte inagotável de idolatria, corrupção e opressão sobre a própria nação de Israel.

Portanto, o texto sagrado nos apresenta três grandes eixos temáticos: uma herança graciosamente recebida, uma responsabilidade solenemente assumida e uma obediência perigosamente incompleta.

As bênçãos que o Senhor Deus concede ao Seu povo devem ser recebidas com profunda gratidão e administradas com integral obediência, pois aquilo que toleramos em desobediência à Palavra do Senhor fatalmente se tornará fonte de ruína e enfraquecimento espiritual.

À luz do texto de Josué 16.1–10, extraímos três verdades fundamentais sobre como devemos responder às bênçãos e às responsabilidades que o Senhor nos confia.

I – TODA HERANÇA RECEBIDA É EXPRESSÃO DA INABALÁVEL FIDELIDADE DE DEUS

(Josué 16.1–9)

Os primeiros nove versículos do capítulo detalham os limites geográficos e as cidades concedidas à tribo de Efraim. Para um leitor desavisado, esses nomes e fronteiras podem parecer dados geográficos obsoletos e enfadonhos. 

Todavia, para o povo de Israel, cada nome representava a tangibilidade de uma promessa antiga tornando-se realidade visível.

Séculos antes, quando Abraão, Isaque e Jacó não possuíam sequer um palmo de terra própria em Canaã, o Senhor prometera que a posteridade deles herdaria aquela terra.

Agora, após longas gerações, aquelas palavras solenes convertiam-se em fronteiras, pastos, fontes e cidades concretas. A geografia era o próprio testemunho esculpido da fidelidade de Deus.

1. Deus nunca se esquece das Suas promessas

O tempo chronos havia passado metodicamente. Gerações inteiras tinham nascido e morrido no Egito; quatrocentos anos de escravidão haviam decorrido; e quarenta anos de rigorosa peregrinação no deserto tinham testado a paciência do povo. Apesar das oscilações humanas, Deus permaneceu imutável. Como bem atesta a Escritura em Números 23.19:

“Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa. Porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?”

A nossa fé vacila com frequência porque costumamos interpretar o tempo de espera como sinal de esquecimento ou ausência divina. Todavia, o Deus da aliança governa a história segundo a perfeição do Seu próprio relógio. 

O reformador João Calvino enfatizava com frequência que a demora no cumprimento visível das promessas divinas não reflete qualquer hesitação em Deus, mas serve como uma pedagogia divina para mortificar nossa autoconfiança e nos ensinar a paciência da fé.

2. A fidelidade de Deus sobressai nos mínimos detalhes

Contemple a precisão milimétrica da narrativa inspirada: limites do oriente ao ocidente, acidentes topográficos, nomes de povoações e divisões tribais. Nada é apresentado de forma negligente ou vaga. 

Isso nos revela que o Senhor não governa apenas os grandes e retumbantes eventos do universo; Ele cuida com rigor soberano dos detalhes da existência de Seu povo.

O próprio Senhor Jesus reafirmou essa providência minuciosa ao declarar:

“E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois...” (Mateus 10.30–31)

O Deus que traça os limites territoriais das nações é o mesmo Pai celestial que conhece cada lágrima secreta, cada ansiedade oculta e cada necessidade concreta da sua família.

3. A herança recebida era fruto exclusivo da graça, e não do mérito

Nenhum efraimita poderia erguer a cabeça em ufanismo e declarar: “Conquistamos esta boa terra por causa do nosso poder militar, da nossa superioridade moral ou da nossa sabedoria.” A terra fora concedida estritamente por causa do pacto gracioso feito com os patriarcas.

Da mesma forma, tudo o que possuímos no âmbito da nossa vida cristã é fruto puramente imerecido da graça de Deus. O apóstolo Paulo confronta o orgulho humano na igreja de Corinto com uma pergunta demolidora:

“Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glórias, como se não o houveras recebido?” (1Coríntios 4.7)

Nossa salvação eterna é graça; nosso perdão é graça; nossa vocação ministerial é graça; nossos dons espirituais são graça; nossa sustentação diária é graça. 

Quanto mais mergulhamos no conhecimento da graça de Deus, menos espaço sobra para a soberba, para a murmuração e para o orgulho próprio.

Ilustração 

Considere a imagem de um filho jovem que recebe de seu pai a escritura de uma vasta e produtiva propriedade rural, mantida e cultivada com extremo sacrifício pela família durante gerações. O filho entra naquela terra sem ter pago um único centavo por ela; ele não aplainou as montanhas, não cavou os poços e nem plantou os pomares antigos.

 Ele é puramente um herdeiro. Seria uma tolice insensata e uma profunda ingratidão se esse filho passasse a agir como se fosse o criador e comprador daquele patrimônio. Sua única atitude coerente deve ser a gratidão reverente e o compromisso de administrar aquela herança com a máxima fidelidade.

Aplicações 

  1. Lembre-se das vitórias passadas: Exercite a memória espiritual gravando no coração os livramentos e as promessas que o Senhor já cumpriu em sua história.
  2. Cultive uma vida de permanente gratidão: Substitua a murmuração diária pela celebração consciente das bênçãos graciosas recebidas das mãos de Deus.
  3. Reijeita todo orgulho espiritual: Lembre-se de que sua posição em Cristo, seus dons e seus frutos são resultados imerecidos da graça divina.
  4. Descanse na providência dos detalhes: Confie que o Deus que governa o cosmos está atento aos menores detalhes da sua vida diária.
  5. Legue essa memória aos seus filhos: Transmita às próximas gerações a certeza de que tudo o que a sua família possui veio unicamente do favor do Senhor.

II – A HERANÇA RECEBIDA TRAZ CONSIGO SOLENE RESPONSABILIDADE

(Josué 16.5–9)

Receber a porção da Terra Prometida não significava que a tribo de Efraim poderia simplesmente cruzar os braços, estender-se na relva e desfrutar de um descanso irresponsável. 

A concessão do território trazia consigo obrigações imediatas: a terra devia ser devidamente ocupada, cultivada, protegida, purificada da idolatria e governada sob os preceitos da Lei do Senhor. 

Na economia do Reino de Deus, a bênção recebida é sempre a plataforma para uma nova responsabilidade.

1. Deus não nos abençoa para alimentar a nossa indolência ou conforto pessoal

Este é um princípio estrutural de toda a Teologia Bíblica. Quando o Senhor chamou o patriarca Abraão em Gênesis 12.2, a ordem imperativa foi clara:

“Abençoar-te-ei... e sê tu uma bênção.”

A bênção divina jamais teve como destino final o represamento no indivíduo; ela deve fluir através dele para abençoar a outros. 

O Senhor concede aos Seus filhos recursos financeiros, talentos intelectuais, conhecimento teológico, maturidade emocional, oportunidades de liderança e influência social não para que vivamos isolados em um oásis de egoísmo e autossatisfação, mas para que sirvamos à igreja e glorifiquemos o Seu Santo Nome no mundo.

2. A mordomia fiel é o padrão permanente da vida cristã

O apóstolo Paulo define a identidade do servo de Deus com o termo grego oikonomos (administrador ou despenseiro da casa):

“Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel.” (1Coríntios 4.2)

Nós não somos os proprietários soberanos de absolutamente nada neste mundo. Nós somos meros mordomos temporários. O nosso tempo pertence a Deus; a nossa saúde pertence a Deus; a nossa família pertence a Deus; os nossos bens pertencem a Deus; e o nosso próprio corpo pertence a Deus.

 Quando essa verdade se estabelece na alma, a pergunta fundamental da nossa vida deixa de ser: “Como posso usar minhas coisas para o meu próprio prazer?” e passa a ser: “Senhor, como desejas que eu administre estes recursos que pertencem a Ti?”

3. Heranças e dons diferentes não implicam valorações desiguais diante de Deus

Efraim recebeu uma região montanhosa e fértil; Judá recebeu as terras do sul; Manassés recebeu porções ao oriente e ao ocidente do Jordão. Cada tribo tinha fronteiras específicas e desafios singulares. 

O mesmo ocorre no corpo de Cristo. Deus não distribuiu a todos os mesmos talentos ou os mesmos ministérios. Como ensina o apóstolo Paulo em 1Coríntios 12.4:

“Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo.”

A comparação interpessoal é uma das armas mais eficazes para destruir a gratidão e a vocação cristã. Quando gastamos tempo cobiçando a “herança” do nosso irmão, olhando para os dons ou para o destaque alheio, negligenciamos o cultivo do terreno que o Senhor colocou diretamente sob os nossos cuidados.

4. Um dia prestaremos estritas contas da mordomia que nos foi confiada

Na parábola dos talentos (Mateus 25), o Senhor entrega diferentes quantidades de recursos aos seus servos. 

Ao retornar, o senhor não exige do servo de dois talentos o resultado daquele que recebeu cinco; contudo, exige rigorosa fidelidade proporcional ao que fora entregue a cada um.

É um pensamento Solene e de santo temor: em um dia vindouro, não seremos chamados a responder pelo ministério do nosso pastor, pelos dons do nosso irmão ou pela vida do nosso vizinho. Prestaremos contas exatas daquilo que o Senhor confiou às nossas próprias mãos — na administração do nosso lar, na criação dos nossos filhos, no uso do nosso dinheiro e no serviço à Sua igreja local.

Ilustração 

Imagine uma grande orquestra sinfônica reunida para executar uma complexa partitura. O primeiro violinista não toca as notas do violoncelo; o tocador de tímpanos não tenta emitir as melodias da flauta transversal. 

Cada músico mantém os olhos fixos na partitura que lhe foi atribuída e no regente à sua frente. Se o oboísta parar de tocar a sua parte para ficar observando criticamente a atuação do trompetista, a harmonia de toda a orquestra será irremediavelmente quebrada. 

A beleza da música depende de cada instrumentista executar com absoluta fidelidade e precisão o papel que lhe foi designado pelo maestro.

Aplicações Práticas do Ponto II:

  1. Mapeie suas responsabilidades: Mantenha clareza sobre quais áreas, pessoas e recursos Deus colocou diretamente sob a sua guarda neste tempo.
  2. Exerça a mordomia dos seus bens: Utilize suas finanças, sua casa e seu tempo prioritariamente para a edificação do Reino e socorro dos necessitados.
  3. Abandone a comparação: Rejeite a inveja e o ressentimento ao observar os dons, a prosperidade ou o destaque de outros irmãos na fé.
  4. Sirva onde você foi plantado: Não espere condições ideais ou grandes plataformas para ser fiel no serviço diário da sua igreja local.
  5. Viva com a eternidade em vista: Lembre-se diariamente de que o Tribunal de Cristo avaliará não o aplauso dos homens, mas a fidelidade da sua mordomia.

III – A OBEDIÊNCIA INCOMPLETA PODE TRANSFORMAR-SE EM UM PERIGO ESPIRITUAL PERMANENTE

(Josué 16.10)

Chegamos agora ao versículo decisivo e mais perturbador deste capítulo. Após listar a generosidade da herança outorgada a Efraim, o texto sagrado declara:

“Não expulsaram, porém, os cananeus que habitavam em Gezer; assim, habitam os cananeus no meio dos efraimitas até ao dia de hoje, porém sujeitos a trabalhos forçados.” (Js 16.10)

Esta pequena declaração altera drasticamente a atmosfera do texto. No auge da posse das bênçãos, surge a grave fratura da desobediência. Efraim recebeu a herança do Senhor, mas recusou-se a executar integralmente a Sua ordem.

1. O fracasso não esteve na fidelidade de Deus, mas na frouxidão do povo

É preciso deixar absolutamente claro que Deus não falhou em Suas promessas de capacitação militar. O Senhor havia assegurado reiteradamente que nenhum inimigo poderia resistir diante do Seu povo, contanto que eles marchassem em obediência.

O problema de Efraim não foi a falta de poder divino, mas a falta de disposição para obedecer até o fim. A tribo preferiu manter a população cananeia residente em Gezer, sujeitando-a a tributos e trabalhos forçados. 

Isso revela uma motivação vergonhosa: Efraim percebeu uma vantagem econômica na desobediência. Era financeiramente rentável e logisticamente mais confortável escravizar os cananeus do que travar a árdua batalha para expulsá-los. 

Eles aprenderam a lucrar com aquilo que Deus mandara erradicar! Esta é a forma mais sutil de contaminação espiritual: quando a desobediência nos parece conveniente e rentável, passamos a criar sofisticadas justificativas teológicas para racionalizá-la.

2. O pecado tolerado sempre se apresenta sob a máscara de uma vantagem aparente

A tribo de Efraim certamente justificou sua conduta dizendo: “Por que deveríamos gastar forças e arriscar vidas expulsando os habitantes de Gezer, se podemos usá-los como mão de obra escrava para enriquecer nossas cidades?” Parecia uma decisão extremamente pragmática, inteligente e economicamente vantajosa. Todavia, continuava sendo flagrante desobediência ao mandamento de Deus.

O pecado raramente se aproxima da alma apresentando sua verdadeira face de destruição e morte. Ele se veste de razoabilidade, prazer imediato, segurança financeira, avanço profissional ou alívio de tensões. O livro de Provérbios nos adverte categoricamente sobre esse engano mortal:

“Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte.” (Provérbios 14.12)

3. Aquilo que toleramos hoje como escravo tentará nos dominar amanhã como senhor

Efraim imaginou que manteria os cananeus de Gezer sob firme controle por meio do trabalho forçado. A história posterior, registrada tragicamente no livro de Juízes e nos livros dos Reis, demonstra o retumbante fracasso dessa ilusão. 

Os cananeus que permaneceram no meio de Israel não ficaram passivos; eles infectaram a nação com sua religiosidade pagã, suas práticas imorais, sua idolatria abominável e seus casamentos intermisto.

O pecado opera exatamente mediante essa dinâmica enganosa. No início, a pessoa diz a si mesma: “Eu domino este hábito; eu controlo este relacionamento ilícito; eu administro este pensamento; eu posso parar quando quiser.” Todavia, aquilo que você tolera e alimenta hoje como um “escravo domesticado” amanhã assumirá o trono do seu coração e governará a sua vida como um tirano cruel. 

John Owen tinha total razão: não existe neutralidade na guerra contra a carne; ou você mortifica o pecado pela força do Espírito, ou o pecado devorará a sua vitalidade espiritual.

4. A santificação bíblica exige a morte radical do pecado, e não a sua mera administração

O apóstolo Paulo não utiliza linguagem suave ao tratar do pecado na vida do crente. Escrevendo aos Colossenses, ele ordena:

“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo mau e a avareza, que é idolatria.” (Colossenses 3.5)

Preste atenção na severidade da instrução apostólica: Paulo não diz “administrai a vossa natureza terrena”, nem “reduzi a frequência das vossas práticas pecaminosas”, tampouco “negociai um acordo razoável com a vossa carne”.

 A ordem é categórica: fazei morrer! A santificação verdadeira envolve uma guerra diária e implacável contra o mal interior. A doutrina da graça não produz passividade moral; ela fornece o combustível e a capacitação pelo Espírito para lutar até a vitória.

5. O Senhor Jesus Cristo realizou a obediência perfeita que nossa fraqueza jamais poderia alcançar

É aqui que a narrativa de Josué 16 nos aponta inexoravelmente para a glória do Evangelho. A história de Israel é uma crônica ininterrupta de heranças recebidas e obediências tragicamente incompletas.

 Efraim falhou; Judá falhou; Manassés falhou; a nação inteira sucumbiu ao compromise moral e acabou conduzida ao cativeiro. Essa falência reiterada da humanidade grita pela necessidade absoluta de um Mediador perfeito.

Esse Mediador é o Nosso Senhor Jesus Cristo! Jesus é o verdadeiro Herdeiro de todas as coisas, que veio ao mundo e prestou ao Pai uma obediência integral, perfeita e irrestrita. Ele jamais fez concessões ao diabo, jamais negociou com o pecado, jamais vacilou no cumprimento da Lei e foi obediente até a morte — e morte de cruz.

O apóstolo Paulo proclama em Romanos 5.19:

“Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos foram constituídos pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos serão constituídos justos.”

A nossa aceitação final diante de Deus não repousa na perfeição vacilante da nossa própria obediência, mas na perfeição impecável da obediência de Cristo imputada a nós pela fé! Contudo, essa mesma graça que nos justifica livremente mediante a justiça de Cristo é a graça que habita em nós pelo Espírito Santo para nos conformar à imagem do Filho, capacitando-nos a dizer “não” à impiedade e a lutar contra cada “Gezer” que tenta se alojar em nosso coração.

Ilustração do Ponto III:

Pense na situação de um morador que percebe uma pequena e sutil infiltração de água no teto da sua casa. Inicialmente, é apenas uma mancha imperceptível e algumas poucas gotas que caem esporadicamente. 

O morador, por preguiça ou para evitar despesas imediatas, decide ignorar o problema e coloca um pequeno balde no chão para recolher a água, dizendo a si mesmo: “Consigo conviver com isto por enquanto.” Os meses se passam. A água continua correndo silenciosamente por trás do emboço, apodrecendo as vigas de madeira, enferrujando a ferragem estrutural e espalhando mofo por toda a alvenaria.

Um dia, sem qualquer aviso prévio, o teto inteiro desaba sobre a casa. O desastre catastrófico não ocorreu de repente; ele foi pacientemente construído ao longo do tempo mediante a tolerância com um problema aparentemente insignificante.

Aplicações Práticas do Ponto III:

  1. Identifique o seu “Gezer” pessoal: Faça um exame de consciência diante da Palavra e responda: qual é a área de deliberada desobediência que você tem tolerado em sua vida?
  2. Rejeite as justificativas econômicas e morais: Pare de Racionalizar o pecado sob o pretexto de que ele lhe traz algum conforto, lucro ou alívio passageiro.
  3. Não tente domesticar a carne: Compreenda que o pecado não aceita acordos pacíficos; o que você não mortificar hoje tentará destruir sua fé amanhã.
  4. Confesse e leve à Cruz de Cristo: Não esconda a sua falha; traga o seu pecado à luz mediante o arrependimento sincero, buscando o perdão e a purificação no sangue de Jesus.
  5. Dependa do Espírito Santo: Busque a capacitação diária do Espírito para mortificar as obras da carne e andar em novidade de vida.

CONCLUSÃO

O capítulo 16 do livro de Josué começa com a celebração da herança e termina com o eco solene de uma advertência. De um lado, contemple a majestosa e inabalável fidelidade de Deus, que cumpriu rigorosamente tudo o que prometera aos patriarcas; do outro lado, observe a obediência incompleta de Efraim, que preferiu a conveniência de um acordo comercial à integridade da ordem divina.

Essa tensão ancestral continua sendo assustadoramente atual para cada um de nós neste dia. O Senhor nosso Deus permanece perfeitamente fiel. Suas promessas em Cristo são "sim" e "amém". Sua graça continua sendo superabundante para conosco. Contudo, a pergunta inadiável que o Espírito Santo faz à sua igreja hoje é: Como você tem respondido à fidelidade do Senhor?

Estamos nós administrando a herança da salvação com reverente responsabilidade e santo empenho? Ou estamos nos acomodando, aprendendo a conviver em paz com áreas de conhecida desobediência?

Lembre-se: o maior perigo enfrentado pela tribo de Efraim naquela ocasião não foi a presença de um exército inimigo invencível marchando com carros de ferro. O maior perigo foi a presença de um inimigo tolerado dentro de suas próprias fronteiras

E essa verdade permanece inalterada na jornada cristã. Aquilo que o adversário das nossas almas não consegue destruir mediante a perseguição aberta, ele frequentemente tenta corromper através da conveniência, do compromisso moral e da tolerância ao pecado.

Por essa razão, ergamos os nossos olhos para Jesus Cristo! Ele é o verdadeiro e Supremo Herdeiro do Pai, o Filho perfeitamente obediente, o nosso Capitão que jamais fez concessões ao mal. Na cruz do Calvário, Jesus carregou sobre Si toda a maldição e a culpa da nossa vergonhosa desobediência e das nossas omissões. 

Na Sua ressurreição gloriosa, Ele quebrou definitivamente o domínio do pecado e da morte. E agora, mediante o Seu Espírito habitador, Ele nos concede a força e a graça necessárias para rompermos com a complacência moral e avançarmos em obediência viva.

Portanto, meus amados irmãos:

  • Celebrem com alegria e reverência a inabalável fidelidade de Deus;
  • Administrem com profunda responsabilidade e santo temor a herança recebida em Cristo;
  • Não tolerem em suas vidas, lares e ministérios aquilo que o Senhor categoricamente mandou remover;
  • E quando sentirem a fragilidade e as fraquezas da sua carne, corram imediatamente para Jesus Cristo, porque Nele há perdão abundante para as nossas falhas, restauração para a nossa alma e poder sobrenatural para nos fazer crescer em obediência diária.

Que a oração do nosso coração neste dia seja:

“Ó Deus Soberano e Pai de misericórdia, não permitas que eu transforme em moradia tranquila aquilo que Tu ordenaste erradicar da minha vida. Concede-me, pelo poder do Teu Espírito Santo, a graça e a coragem para obedecer à Tua Palavra de todo o meu coração, para que a Tua Igreja seja santa e o Teu Santo Nome seja glorificado em nós.”

E que possamos caminhar todos os dias guardando no coração as palavras do apóstolo Paulo:

“Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2.12–13)

Soli Deo Gloria. Amém!

Pr. Eli Vieira Filho

 

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