Texto Bíblico: Números 36:1-13
Meus amados irmãos, há um zelo profundo que corre ao longo
de todas as páginas das Escrituras: o zelo de Deus pela preservação daquilo que
Ele confiou ao Seu povo. No Reino de Deus, a herança que recebemos do Senhor
não é uma propriedade comum da qual podemos dispor segundo os nossos caprichos,
conveniências ou impulsos mercadológicos. A nossa porção n'Ele é sagrada,
eterna e deve ser guardada com o máximo temor.
No capítulo 36 de Números, nos deparamos com o encerramento
do livro. Israel permanece estacionado nas planícies de Moabe. O mapa de Canaã
já fora desenhado, as Cidades de Refúgio estabelecidas e os líderes da partilha
nomeados. Contudo, surge um impasse jurídico de altíssima relevância
espiritual. Os chefes das famílias de Gileade, da tribo de Manassés,
aproximam-se de Moisés com uma grave preocupação: se as filhas de Zelofeade —
que haviam recebido o direito de herdar terras por não terem irmãos homens (cf.
Nm 27) — se casassem com homens de outras tribos, a herança de Manassés seria
transferida e fragmentada de uma tribo para outra quando chegasse o ano do
Jubileu (vv. 3-4).
Moisés, ouvindo a voz do Senhor, traz uma resposta sábia e
categórica: as filhas de Zelofeade poderiam se casar com quem quisessem,
contanto que se casassem dentro da linhagem da tribo de seu pai (v. 6). Assim,
a herança não passaria de tribo em tribo, e cada um dos filhos de Israel
permaneceria estritamente ligado à porção herdada de seus antepassados.
Como o eminente teólogo reformado Matthew Henry
asseverou em suas exposições sobre este desfecho:
"Deus proveu para que nenhuma tribo de Israel fosse
empobrecida ou despojada de seus limites originais. Isso nos ensina que devemos
ser zelosos em manter os marcos que o Senhor colocou ao redor da nossa fé,
impedindo que o mundo misture e corrompa a nossa herança espiritual."
Este sermão nos convida a refletir sobre a santidade dos
limites que Deus estabelece para as nossas vidas e sobre o nosso dever de
guardar, intacto, o depósito da fé que recebemos do Senhor.
Para compreendermos a profundidade exegética deste
encerramento de Números, precisamos analisar o conceito de "Ano do
Jubileu" (Ano\ Jubilar) e a teologia da terra em Israel. A terra de
Canaã pertencia ao Senhor; as tribos eram apenas usufrutuárias e guardiãs dessa
possessão divina. De cinquenta em cinquenta anos, no Jubileu, todas as terras
vendidas ou alienadas por razões de pobreza deveriam retornar compulsoriamente
aos seus donos originais.
No entanto, o caso levantado pelos líderes de Manassés
revelou uma lacuna no entendimento humano da lei: se as mulheres que possuíam
terras se casassem fora de sua tribo, os filhos desse casamento pertenceriam à
tribo do pai. Consequentemente, no Ano do Jubileu, em vez de a herança retornar
a Manassés, ela seria consolidada perpetuamente na nova tribo (v. 4). Isso
geraria uma desconfiguração do plano geográfico e soberano que Deus havia
estipulado em Números 34.
A resposta divina nos versículos 5 a 9 estabelece um
princípio eterno: a liberdade humana e os afetos do coração devem ser
exercidos dentro dos limites da aliança de Deus. As filhas de Zelofeade
foram obedientes; elas se casaram com seus próprios primos paternos (vv.
10-11), harmonizando o seu desejo pessoal com a preservação do patrimônio da
sua tribo. O livro de Números se encerra no versículo 13 apontando para os mandamentos
e juízos que o Senhor deu por intermédio de Moisés.
Ao contemplarmos a resolução deste dilema sobre a herança
de Israel, podemos discernir três marcas fundamentais sobre como devemos
guardar e valorizar os limites espirituais que o Senhor estabeleceu para as
nossas vidas.
1. O Cuidado com o Futuro da Herança Espiritual (vv. 1-4)
Os líderes de Manassés não estavam agindo por mesquinhez
material, mas por zelo institucional e pátrio. Eles olharam para a frente e
perceberam o risco de a herança de seus pais ser diluída e minguada ao longo
das gerações futuros (vv.3-4). Eles sabiam que o que Deus havia dado a
Manassés deveria permanecer com Manassés.
Nós temos a solene responsabilidade de zelar pela pureza da
herança espiritual que passaremos aos nossos filhos e à posteridade da igreja.
Não podemos permitir que as verdades do Evangelho, a sã doutrina e a herança da
piedade reformada sejam relativizadas ou diluídas pelas alianças com a
mentalidade deste século.
Como afirmava o teólogo puritano Richard Baxter: "A herança mais preciosa que podes
deixar para os teus filhos não são casas ou terras, mas o conhecimento puro de
Deus e uma vida moldada pela Sua santa Palavra. Guarda este depósito a todo
custo."
2. A Liberdade Humana Deve se Submeter à Soberania Divina
(vv. 5-9)
O versículo 6 traz uma tensão resolvida de modo maravilhoso:
"Casem-se com quem bem lhes parecer, contanto que seja na família da
tribo de seu pai." Deus não anulou o afeto ou a vontade das mulheres,
mas colocou uma cerca de proteção teológica ao redor de suas escolhas. A
liberdade delas encontrava o seu limite na fidelidade à herança da aliança.
O homem moderno idolatra a autonomia e o direito de agir
segundo o seu próprio coração. Contudo, para o cristão genuíno, a nossa
liberdade é delimitada pelos preceitos do Senhor. Seja na escolha de um
cônjuge, na condução dos negócios ou no uso do tempo, nossos afetos devem se
curvar à soberana vontade de Deus.
No século XVIII, o teólogo e pastor americano Jonathan
Edwards experimentou o peso de manter a pureza da aliança na igreja de
Northampton. Quando a liderança e os jovens da comunidade tentaram afrouxar os
critérios bíblicos para a participação na Ceia do Senhor e adotar um estilo de
vida tolerante com as modas mundanas, Edwards se posicionou firmemente,
defendendo que os afetos religiosos devem ser santos e submissos à Palavra. Ele
preferiu ser demitido do seu púlpito a cruzar a divisa da concessão espiritual,
deixando um legado incomparável de integridade.
3. A Obediência Prática Consolida a Bênção do Senhor (vv.
10-13)
O texto faz questão de registrar que Maala, Tirza, Hogla,
Milca e Noa "fizeram como o Senhor ordenara a Moisés" (v. 10).
Elas não murmuraram, não acusaram a lei de ser restritiva e nem buscaram seus
próprios interesses fora da comunidade. Casaram-se dentro da tribo e, com isso,
mantiveram a herança intacta.
A verdadeira espiritualidade não se move por discursos
grandiosos, mas pela simplicidade da obediência diária aos mandamentos divinos.
Quando nos submetemos aos "nãos" de Deus, estamos blindando nossas
famílias e nossa igreja contra a ruína espiritual.
O reformador João Calvino, em suas exegeses sobre o
Pentateuco, destaca que a obediência dessas mulheres é um espelho para a
Igreja. Ele escreveu que a ordem do acampamento de Israel e a preservação de
suas fronteiras mostram que Deus ama a harmonia e a fidelidade. Nós dependemos
do Espírito Santo para mortificar a nossa teimosia e aceitar com alegria os
parâmetros que o Senhor fixou na Sua Palavra.
Aplicação
Diante do encerramento histórico e teológico do livro de
Números, examinemos nossa postura espiritual:
- Guarde
os limites morais e doutrinários: Você tem mantido as fronteiras da
sua vida cristã bem definidas, ou tem permitido que o linguajar, a
imoralidade e os conceitos pagãos do mundo invadam e fragmentem a sua
herança de santidade?
- Oriente
as escolhas do seu coração: Ao tomar grandes decisões, você consulta a
soberana Palavra de Deus ou se deixa guiar unicamente pelo que "bem
lhe parece" aos olhos humanos? Lembre-se de que caminhos que parecem
direitos aos olhos humanos podem terminar em cativeiro espiritual.
- Valorize
o depósito da fé: Lembre-se de que a igreja local e as verdades que
professamos custaram o sangue de Cristo e o suor de gerações de crentes
fiéis. Não negocie a verdade, não venda a sua herança e mantenha os marcos
antigos da sã doutrina.
Conclusão
O livro de Números começou no capítulo 1 com um censo
militar, no deserto do Sinai, cercado por uma geração incrédula que viria a
tombar na areia. No entanto, ele termina no capítulo 36 com um acampamento
organizado, santo e obediente, nas planícies de Moabe, pronto para tomar posse
da terra. O deserto não venceu o povo da promessa, porque o Deus da promessa
permaneceu fiel.
A última imagem de Números não é de caos, mas de ordem,
submissão e preservação da herança. As filhas de Zelofeade obedeceram e a
porção de Manassés foi resguardada.
Nós também estamos nos limites da nossa herança eterna.
Fomos comprados não com terras perecíveis, mas com o sangue precioso do nosso
Salvador, Jesus Cristo. N'Ele, nossa herança é incorruptível e está
perfeitamente guardada nos céus. Que o Senhor nos encontre firmes, zelosos por
Sua Palavra e felizes dentro dos limites da Sua santa vontade, até o dia em que
o nosso Grande Sumo Sacerdote e Josué Celestial, Jesus, nos introduzirá de
forma definitiva na glória eterna. Amém.
Pr. Eli Vieira
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