sábado, 23 de julho de 2016

PASTORES ANUNCIAM “SABÃO EM PÓ MILAGROSO” NA TV

PARE E PENSE!





Por Jarbas Aragão

Quando surgiu a Reforma Protestante, na Idade Média, seu objetivo era protestar contra as práticas equivocadas da Igreja Católica, incluindo a venda de indulgências e de produtos milagrosos, que na prática não tinham eficácia. Quase 500 anos depois, os pastores neopentecostais, movimento derivado do protestantismo, parecem ter se esquecido disso.

A maioria das igrejas que possuem horários comprados nas emissoras de rádio e TV há anos fazem promessas de benção em troca de ofertas em dinheiro. Também são criativas ao anunciar a distribuição de uma ampla gama de objetos que possuiriam algum tipo de poder espiritual.

Com certa frequência, vídeos com trechos desses anúncios caem na internet e acabam se tornando notícia pelo ineditismo ou pela bizarrice da ideia. Um dos mais recentes é parte do programa “Agenda dos Pastores”, exibido no horário da Igreja Internacional da Graça, do Missionário R. R. Soares.

Apresentado na RedeTV!, o vídeo em questão mostra o anúncio de “um saquinho de sabão em pó milagroso, que limpa que nem Jesus”. A promessa dos pastores é que ele seria ungido e contém “uma benção especial”. Chamado de “sabão do lavandeiro”, ele é comparado a uma passagem bíblica do Velho testamento, que trata do julgamento de Deus sobre a humanidade.

Erroneamente atribuída a Cristo pelo pastor, foi o profeta Malaquias que afirmou: “Quem suportará o dia da sua vinda? e quem subsistirá, quando ele aparecer? Pois ele será como o fogo de fundidor e como o sabão de lavandeiros” (Ml 3:2).

A maioria dos teólogos que interpretam essa passagem fazem uma correlação com a volta de Cristo, mas o sabão no texto é uma analogia, não se trata de um sabão literal que pode ser usado por quem estiver disposto a pagar.

Na sequência do vídeo, enquanto falam da oferta, os apresentadores mostram testemunhos, como o de uma mulher que pede aos fiéis para irem à sua igreja testemunhar “vários milagres”. Outro recomenda que ninguém entre na “igreja errada para não perder a bênção milagrosa” só disponível na sua.

Assista:


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O Quarto Mandamento

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O dia de descanso foi instituído por Deus e não pelo homem. O mandamento tem grande importância na Palavra de Deus. Bênçãos ocorreram, por sua guarda, e castigos severos, por sua quebra. Isso deveria provocar a nossa reflexão sobre a aplicação dos princípios bíblicos relacionados com o quarto mandamento nos dias atuais, discernindo, em paralelo, a mudança para o domingo, na era cristã. O povo de Deus sempre foi muito rebelde e desobediente com relação a essa determinação, e necessita convencimento da importância do mandamento, bem como entendimento da visão neo-testamentária, para a consequente modificação do seu comportamento atual.

O quarto mandamento fala de um dia de descanso e de adoração ao Senhor. Deus julgou essa questão tão importante que a inseriu em sua lei moral. O descanso requerido por Deus é uma prévia da redenção que ele assegurou para o seu povo (Dt 5.12-15). Os israelitas foram levados em cativeiro (Jr 17.19-27) por haver repetidamente desrespeitado este mandamento.

Gostaríamos de examinar as bases desse conceito de descanso e santificação e de ir até o Novo Testamento verificar como os cristãos primitivos guardavam o dia do Senhor.

Não podemos, simplesmente, ignorar esse mandamento. Como povo resgatado por Deus, temos a responsabilidade de discernir como aplicar essa diretriz divina nas nossas vidas e nas de nossas famílias. Por outro lado, nessa procura, não devemos buscar tais diretrizes nos detalhamentos das leis religiosas ou civis de Israel, que dizem respeito ao sábado. Essas leis eram temporais. Ao estudar o sábado, muitos têm se confundido com os preceitos da lei cerimonial e judicial e terminado com uma série de preceitos contemporâneos que se constituem apenas em um legalismo anacrônico, destrutivo e ditatorial. Devemos estudar este mandamento procurando discernir os princípios da lei moral de Deus. Com esse objetivo em mente, vamos realizar nosso estudo com a oração de que Deus seja glorificado em nossa vida e por nosso testemunho.

1. Um dia de descanso

Em nossas bíblias o quarto mandamento está redigido assim – "Lembra-te do dia de sábado para o santificar...". A palavra que foi traduzida "sábado", é a palavra hebraicashabbat, que quer dizer descanso. É correto, portanto, entendermos o mandamento como "... lembra-te do dia de descanso para o santificar".

Esse "dia de descanso" era o sétimo dia no Antigo Testamento, ou seja, o nosso "sábado". No Novo Testamento, logo na igreja primitiva, vemos o dia de ressurreição de Cristo marcando o dia de adoração e descanso. Isso é: o domingo passa a ser o nosso "dia de descanso". Os apóstolos acataram esse dia como apropriado à celebração da vitória de Jesus sobre a morte (At 20.7; 1 Co 16.2; Ap 1.10). A igreja fiel tem entendido a questão da mesma maneira, ou seja: não é a especificação "do sétimo", que está envolvida no mandamento, mas o princípio do descanso e santificação.

Já enfatizamos que essa questão de um dia especial de descanso, de parada de nossas atividades diárias, de santificação ao Senhor, foi considerada tão importante por Deus que ele decidiu registrar esse requerimento em sua lei moral, nos dez mandamentos. Com certeza já ouvimos alguém dizer: "...não existe um dia especial, pois todo o dia é dia do Senhor...". Essa afirmação é, num certo sentido, verdadeira – tudo é do Senhor. Mas sempre tudo foi do Senhor, desde a criação e mesmo tudo sendo dele, ele definiu designar um dia separado e santificado. Dizer que todos os dias são do Senhor, como argumento para não separar um dia especial e específico, pode parecer um argumento piedoso e religioso, mas não esclarece a questão nem auxilia a Igreja de Cristo na aplicação contemporânea do mandamento. Na realidade, isso confunde bastante os crentes e transforma o quarto mandamento, que é uma proposição clara e objetiva e que integra a Lei Moral de Deus, em um conceito nebuloso e subjetivo, dependente da interpretação individual de cada pessoa.

Não devemos procurar modificar e "melhorar" aquilo que o próprio Deus especifica para o nosso benefício e crescimento. Deus coloca objetivamente – da mesma forma que ele nos indica a sua pessoa como o objeto correto de adoração; da mesma forma que ele nos leva a honrar os nossos pais; da mesma forma que ele nos ensina o erro de roubar, o erro de matar, o erro de adulterar – que é seu desejo que venhamos a separar para ele um dia específico, dos demais (Is 58.3).

2. Um dia santificado

Devemos notar que o requerimento é que nós nos lembremos do dia de descanso, para o santificarmos. Santificar significa separar para um fim específico. Isso quer dizer que além do descanso e parada de nossa rotina diária, Deus quer a dedicação desse dia para si. Nessa separação, o envolvimento de nossas pessoas em atividades de adoração, ensino e aprendizado da Palavra de Deus, é legítimo e desejável. A frequência aos trabalhos da igreja e às atividades de culto, nesse dia, não é uma questão opcional, mas obrigatória aos servos de Deus. O Salmo 92, que é de adoração a Deus, tem o título em hebraico – "para o dia de descanso".

3. Uma instituição permanente

Uma expressão, do quarto mandamento, nos chama a atenção. É que ele inicia com"Lembra-te...". Isso significa que a questão do dia de descanso transcende a lei mosaica, isto é: a instituição estava em evidência antes da lei de Moisés. Semelhantemente, estando enraizado na lei moral, permanece, como princípio, na Nova Aliança. Vemos isso, por exemplo, no incidente bíblico da dádiva do Maná. Deus requerendo o descanso e cessação de trabalho durante a peregrinação no deserto, quando ele alimentava o seu povo com o Maná, antes da dádiva dos dez mandamentos. Estes seriam recebidos somente por Moisés no monte Sinai (veja, especificamente, Ex 16.29, 30).

4. Paulo faz um culto de louvor e adoração, no domingo, em Trôade

Paulo nos deixou, além das prescrições de suas cartas, um exemplo pessoal – reuniu-se com os crentes no domingo (At 20.6-12), na cidade de Trôade, na Ásia Menor. O versículo 6 diz que a permanência, naquele lugar, foi de apenas uma semana. Lucas, o narrador que estava com Paulo, registra, no v. 7: "... no primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão...". Ele nos deixa a nítida impressão de que aquela reunião não era esporádica, aleatória, mas sim a prática sistemática dos cristãos – reunião periódica no primeiro dia da semana, conjugada com a observância da santa ceia do Senhor. Estamos há apenas 15 a 20 anos da morte de Cristo, mas a guarda do domingo já estava enraizada no cristianismo.

Paulo pronunciou um longo discurso, naquela noite. À meia noite, um jovem, vencido pelo cansaço, adormece e cai de uma janela do terceiro andar, vindo a falecer (v. 9). Deus opera um milagre através de Paulo e o jovem volta à vida (v. 10). Paulo continuou pregando, naquele local até o alvorecer (v. 11).

5. O entendimento da Reforma sobre o dia de descanso

Confissão de Fé de Westminster captura o entendimento da teologia reformada sobre o dia de descanso ordenado por Deus. Nela não encontramos desprezo pelas diretrizes divinas, nem uma visão diluída da lei de Deus, mas um intenso desejo de aplicar as diretrizes divinas às nossas situações. O quarto mandamento tem uma consideração semelhante aos demais registrados em Ex 20, todos aplicáveis aos nossos dias. Nas seções VII e VIII, do capítulo 21, sob o título – "Do Culto Religioso e do Domingo" lemos o seguinte:
Como é lei da natureza que, em geral, uma devida proporção do tempo seja destinada ao culto de Deus, assim também, em sua palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, preceito que obriga a todos os homens em todos os séculos, Deus designou particularmente um dia em sete para ser um sábado (descanso) santificado por ele; desde o princípio do mundo, até a ressurreição de Cristo, esse dia foi o último dia da semana; e desde a ressurreição de Cristo já foi mudado para o primeiro dia da semana, dia que na Escritura é chamado de domingo, ou Dia do Senhor, e que há de continuar até ao fim do mundo como o sábado cristão.
Este sábado é santificado ao Senhor quando os homens, tendo devidamente preparado os seus corações e de antemão ordenado os seus negócios ordinários, não só guardam, durante todo o dia, um santo descanso das suas próprias obras, palavras e pensamentos a respeito dos seus empregos seculares e das suas recreações, mas também ocupam todo o tempo em exercícios públicos e particulares de culto e nos deveres de necessidade e misericórdia.

6. O Quarto Mandamento Hoje – Qual o nosso conceito do domingo?

É necessário que tenhamos a convicção de que o chamado à adoração, o desejo de estar cultuando ao Senhor, e o descansar de nossas atividades diárias, por intermédio de um envolvimento com as atividades da igreja, encontra base e respaldo bíblico. É mais do que uma questão de costumes, do que uma posição opcional. É algo tão importante que faz parte da lei moral de Deus.

Normalmente nos perdemos em discussões inúteis sobre detalhes, procurando prescrever a outros uma postura de guarda do quarto mandamento conforme nossas convicções, ou falta delas. Assumimos uma atitude condenatória, procurando impor regras detalhadas e, muitas vezes, seguindo restrições da lei cerimonial, em vez do espírito da lei moral. Antes de nos perdermos no debate dos detalhes, estamos nos aprofundando no princípio? Temos a postura de tornar realmente o domingo um dia diferente, santificado, dedicado ao Senhor e à nossa restauração física?
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Apêndice: Qual o dia de descanso – sábado ou domingo?

Sempre que estudamos o quarto mandamento surge a pergunta: quem está certo? São os Adventistas, que indicam o sábado como o dia que ainda deveríamos estar observando, ou a teologia da Reforma, apresentada na Confissão de Fé de Westminster, e em outras confissões, que encontra aprovação bíblica e histórica para a guarda do domingo? Alguns pontos podem nos ajudar a esclarecer a questão:

1. Os pontos centrais de cumprimento ao quarto mandamento são: o descanso, a questão da separação de um dia para Deus, e a sistematização, ou repetibilidade desse dia. O dia, em si, é uma questão temporal, principalmente por que depois de tantas e sucessivas modificações no calendário é impossível qualquer seita ou religião afirmar categoricamente que estamos observando exatamente o sétimo dia. Nós usamos o calendário Gregoriano, feito no século 16. Os judeus atuais usam o calendário ortodoxo, estabelecido no terceiro século, e assim por diante.

2. Os principais eventos da era cristã ocorreram no domingo:
  • Jesus ressuscitou (Jo 20.1)
  • Jesus apareceu aos dez discípulos (Jo 20.19)
  • Jesus apareceu aos onze discípulos (Jo 20.26)
  • O Espírito Santo desceu no dia de pentecostes, que era um domingo (Lv 23.15, 16 – o dia imediato ao sábado), e nesse mesmo domingo o primeiro sermão sobre a morte e ressurreição de Cristo foi pregado por Pedro (At 2.14) com 3000 novos convertidos.
  • Em Trôade os crentes se juntaram para adorar (At 20.7).
  • Paulo instruiu aos crentes para trazerem as suas contribuições (1 Cr 16.2).
  • Jesus apareceu e João, em Patmos (Ap 1.10).

3. Os escritos da igreja primitiva, desde a Epístola de Barnabé (ano 100 d.C.) até o historiador Eusébio (ano 324 d.C.) confirmam que a Igreja Cristã, inicialmente formada por Judeus e Gentios, guardavam conjuntamente o sábado e o domingo. Essa prática foi gradativamente mudando para a guarda específica do domingo, na medida em que se entendia que o domingo era dia de descanso apropriado, em substituição ao sábado. Semelhantemente, a circuncisão e o batismo foram conjuntamente inicialmente observados, existindo, depois, a preservação somente do batismo, na Igreja Cristã. O domingo não foi estabelecido pelo imperador Constantino, no 4º século, como afirmam os adventistas. Constantino apenas formalizou aquilo que já era a prática da igreja.


4. Cl 2.16-17 mostra que o aspecto do sétimo dia era uma sombra do que haveria de vir, não devendo ser ponto de julgamento de um cristão sobre outro.

Para um estudo mais detalhado do assunto, sugerimos o livro de J. K. VanBaalen, O Caos das Seitas.

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Autor: Pb. Solano Portela
Fonte: Monergismo

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A RETRIBUIÇÃO PROVIDENCIAL DE DEUS - PARTE 2 - RETRIBUIÇÃO PROVIDENCIAL AOS SEUS SANTOS

2- RETRIBUIÇÃO PROVIDENCIAL AOS SEUS SANTOS


Retribuição Providencial a Davi
Davi cometeu um dos crimes mais hediondos que já foram registrados nos anais da história. A hediondez é medida não simplesmente pelos estragos causados na vida de uma família, mas especialmente pelo grau de conhecimento que Davi possuía de Deus.
Davi usou o seu poder para cometer os seus pecados. Ele combinou uma série de fatores para levar avante o seu projeto maligno depois de cobiçar e possuir Bete-Seba. Davi pode ser considerado culpado de perfídia, crueldade e ingratidão para com um soldado leal ao seu exército. Ele chamou a Urias para conversar amistosamente sobre o seu exército (2 Sm. 11.7), quando Urias deixou sua casa, Davi enviou-lhe um presente(2 Sm 11.8),mas como soldado leal Urias não foi ter com sua mulher, mas permaneceu guardando o palácio real ( v.9). Na verdade, Davi queria que ele fosse procurar a sua esposa, que tivesse relação com ela, a fim de que a gravidez dela fosse justificada, pois o verso 27 mostra que Bate-Seba ficou grávida de Davi. A lealdade dele fica mais evidente quando ele conta o motivo por não ter ido à sua casa após a batalha (v.10). Então, Davi não encontra outra solução senão armar o crime contra o seu servo Urias, um homem leal, mas fez tudo para parecer casualidade, acidente de guerra. Somente o seu general Joabe sabia de seus motivos sujos (vs.14-15). A trama urdida por Davi não conseguiu esconder a vergonha de seu pecado. Urias foi morto e Davi recebeu a notícia da sua morte. No entanto, a Escritura registra que "isso que Davi fizera foi mal aos olhos do Senhor"(v.27).
Mesmo os melhores homens são capazes dos crimes mais repugnantes, embora eles sejam preservados pela providência divina, mas não sem a manifestação do seu desagrado com os pecados deles.
Davi casa-se com Bate-Seba depois da morte de Urias e começam a viver juntos. Então, o Senhor envia um profeta a Davi. Era Natã. Ele chega e conta uma triste história sobre dois homens, um rico e outro pobre (2 Sm 12.2-4). A história narrava as injustiças feitas pelo rico contra o pobre. Davi se ira contra a injustiça e ordena que tal homem injusto seja morto! Natã mete o dedo na face de Davi: "Esse homem que deve ser morto é você!"- e dá as razões de sua afirmação (12.8-9).
A seguir vem a maldição divina sobre Davi e sua descendência por causa daqueles pecados. Deus não pode deixar mesmo os seus filhos sem a retribuição. Ele é um Deus zeloso das suas leis quebradas. Isso ninguém pode negar. Veja o que o profeta diz a Davi: Análise de texto
Agora, pois, não se apartará jamais a espada da tua casa, porquanto me desprezaste, e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para ser tua mulher. Assim diz o Senhor: eis que da tua própria casa suscitarei o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres à tua própria vista, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com elas, em plena luz deste sol ( 2 Sm 12.10-11).

Há algumas coisas muito importantes que não podem ser esquecidas nesse texto:

1- A RETRIBUIÇÃO DE DEUS ESTÁ VINCULADA AO DESPREZO QUE O HOMEM TEM POR SUA PALAVRA.
Davi quebrou o mandamento divino de não adulterar. Às vezes não podemos fazer separação entre o Senhor e a sua Palavra. Desprezar a Palavra de Deus é equivalente a desprezar ao próprio Deus, da mesma forma que rejeitar a sua Palavra é rejeitar ao próprio Deus.
Veja o exemplo que Paulo deu desse uso. Ele instou com os tessalonicenses a viverem de modo reto, seguindo o caminho da santificação (1 Ts 4.3). Quando aqueles que estão querendo constituir família pecam sexualmente, isso é impureza e Deus a condena, "porquanto Deus não nos chamou para impureza e sim para santificação". Então Paulo conclui: "Destarte, quem rejeita estas cousas não rejeita ao homem e sim a Deus" (1Ts 4.7-8). Rejeitar a Palavra é rejeitar a Deus.
Foi exatamente essa Palavra do Senhor que Davi desprezou, pois ele a conhecia. Mesmo a sua prerrogativa real não lhe dava o direito de desprezar a verdade de Deus. Por essa razão, a retribuição providencial veio sobre ele e sobre a sua descendência de maneira muito dura.

2-A RETRIBUIÇÃO DA PROVIDÊNCIA DIVINA É ORDENADA E LEVADA A EFEITO POR MEIO DE SEUS AGENTES SECUNDÁRIOS.
Ele disse:"Eu suscitarei o mal sobre ti". Os males de juízo sobre nós são ordenados por Deus, mesmo que esses males de juízo envolvam a quebra de princípios morais. O castigo que Deus suscitou foi uma punição que envolvia atos morais que os seus agentes praticaram. Aitofel, o conselheiro e Absalão, o praticante dos atos punitivos de Deus, foi o agente que Deus usou para execução dos seus propósitos.
Aquilo que Deus determinou que acontecesse por meio de alguém da própria casa de Davi foi um mal moral, mesmo embora tem sido considerado um julgamento de Deus sobre Davi. Deus suscitou o mal, mas o mal foi praticado por agentes secundários. É difícil entender como isso se processa, mas a Escritura diz que é assim e temos de crer como a Escritura afirma.

3-A RETRIBUIÇÃO PROVIDENCIAL DE DEUS É FEITA POR MEIO DE PESSOAS QUE O PRÓPRIO DEUS DETERMINA.
Deus poderia ter escolhido um homem ímpio para cometer um pecado mais hediondo ainda. Todavia, Deus escolheu o filho amado de Davi, Absalão, que queria ser o herdeiro do trono, para ser o executou de seu terrível decreto.Os caminhos da providência retributiva de Deus, são mais altos de que os nossos caminhos e os seus pensamentos mais altos do que os nossos pensamentos. Eu não posso entender a razão última pela qual Deus faz uma coisa dessas, mas ele faz porque ele é soberano, e essa sua ação não traz nenhuma mancha sobre a sua santa natureza.
Ele levantou o filho de Davi para pecar contra o seu pai, mas foi um ato que evidenciou o modus operandi de Deus na sua justiça providencial, que está além da nossa compreensão, mas precisa ser aceito  humildemente. Deus puniu um filho seu por meio de alguém do próprio sangue a quem ele próprio suscitou.

4- A RETRIBUIÇÃO PROVIDENCIAL TEM, EM SI MESMO DOIS ASPECTOS:
1- O primeiro diz respeito ao sangue que seria derramado na sua descendência. A "espada jamais seria apartada da tua casa". toda sua descendência haveria de sofrer os pecados do famoso ascendente; 2) O segundo, por causa de seu pecado, Deus resolve expô-lo à vergonha. Esse aspecto tem um caráter pessoal para Davi. Aquilo que ele havia feito com Bate-Seba o seu descendente, Absalão, haveria de fazer com as suas mulheres, mas de uma maneira pior. A retribuição seria de tal grau que Davi iria ser envergonhado publicamente, quando suas mulheres seriam possuídas à plena luz do dia. O texto da profecia diz que Davi haveria de ver com os seus próprios olhos um seu descendente possuindo as suas mulheres.
No final das contas, todos os expedientes que Davi usou para execução de seus pecados não puderam evitar a retribuição providencial de Deus. Ninguém pode fugir dos decretos divinos. Eles foram cumpridos literalmente algum tempo depois ( ver 2 Sm 1.21-23). Quão poderoso, sábio e soberano é o Deus da providência. Quão profunda é a sua sabedoria! Quão insondável é o seu poder e quão terrível a sua soberania!
Deus poderia ter feito a retribuição de um modo muito diferente, mas quem somos nós para julgar os atos retributivos providenciais de Deus? A sabedoria humana não pode compreender as profundezas do conselho divino! Ela não pode entender o caminho de Deus! A nossa única saída é nos submetermos aos juízos sábios e santos de Deus e ficarmos calados diante de suas ações, dando ouvidos e crendo naquilo que a sua Palavra afirma, mesmo que suas afirmações estejam além de nossa compreensão!

Fonte: A Providência e a Sua Realização Histórica - Cap. 9 páginas 244-247

Por que a ideologia é idolátrica?

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Introdução

Ao tratarmos de ideologia, tratamos - sem sombra de dúvida - do estabelecimento de uma cosmovisão que pretende exercer domínio sobre um grupo, religião, sociedade, país ou, meramente, sobre o indivíduo no claustro de si e dominado pela ideia de domínio do que o cerca, por meio da construção e do empreendimento engenhoso de um conjunto de ideias e discursos autorrealizáveis, beirando a profecia “auto-cumprível”.

Notemos que a ideologia, como dizia Marx, é um vestido de ideias que procura estabelecer um contorno determinante e religiosamente seguido para o sucesso do que foi planejado. Vemos, com isso, que a ideologia exerce, então, certa dosagem de engenharia da ideia.

Idea + Logos = Telos

Tratando de ideologia, discorremos sobre o vislumbre[1] e cumprimento de ideias estabelecidas, pois ideologia nos fala de discurso das ideias. O logos, nos fala de articulação lógica das ideias. No sentido político, a ideologia é uma articulação lógica do que se pretende alcançar e fazer. Toda ideologia visa um telos, e para que esse telostenha sucesso no cumprimento, ele precisa de meios e, anteriormente, precisa-se de ter um a priori, um pressuposto. O telos é o propósito último de uma ideia, discurso, doutrina, religião, ou qualquer que seja o ponto onde está centrado o discurso, todo discurso tem um objetivo, ainda que o objetivo seja não ter objetivo.

A Lógica na Ideologia

Temos aqui claramente a lei da contradição, um discurso não visa não pretender nada, isso é lógica (logos), a lógica pretende organizar, dinamizar e apontar para um tipo de bem a ser alcançado com o discurso, ainda que esse bem não seja para ambos – emissor e receptor. O projeto do discurso lógico na ideologia visa o cumprimento da lógica estabelecida pela ideia, que pretende chegar ao telos. Diz Olavo de Carvalho: "Uma ideologia é, por definição, um simulacro de teoria científica. É, segundo a correta expressão do próprio Marx, um 'vestido de ideias' que encobre interesses ou desejos"[2]. 

Ainda dentro do universo ideológico concebe-se que
A estrutura interna do pensamento ideológico caracteriza-se pela compressão forçada da realidade para dentro de uma única dimensão, portanto pela recusa ou proibição de examinar os fatos e aspectos que não caibam no padrão escolhido[3].

A Estrutura Fundacional de uma Ideologia


É verdade que a ideologia monta-se em bases pseudoverdadeiras. Há falsificação no discurso, com o fim de manobrar as circunstâncias para uma montagem circunstancial que promova o cumprimento do ideal proposto no logos teleológico[4].
Em geral os fundadores de uma ideologia sabem que ela é objetivamente falsa. Não a defendem porque creem que ela descreve acuradamente a realidade, mas porque esperam que, se um número suficiente de pessoas acreditar no que dizem, a conduta delas se tornará mais previsível e manipulável na direção desejada. Toda ideologia é nesse sentido uma profecia autorrealizável: ela visa a criar as próprias condições sociais e psicológicas que lhe darão retroativamente uma aparência de veracidade. Mas no fundo a ambição dos ideólogos fundadores é transcender a distinção de aparência e realidade, fazendo com que esta copie tão bem aquela que se torne indiscernível dela e acabe por se transformar nela efetivamente. Essa ambiguidade inata do pensamento ideológico escapa geralmente à quase totalidade dos seus aderentes e seguidores, sendo uma espécie de segredo originário bem guardado pelos fundadores e só acessível, em cada geração, a uma reduzida elite de seus discípulos mais talentosos e clarividentes[5].

Ideologia, Soteriologia e Escatologia


Dadas as condições acima mencionadas para formulação da ideologia, temos então um quatro interessante a ser analisado e ponderado com profunda observação, não apenas por um prisma da filosofia política, ou por um prisma da teologia política que vai estabelecer uma base divergente no processo de exposição do bem-estar humano em contraparte com as tentativas da ideologia. A ideologia vai propor uma esperada redenção que somente se dará através da adesão ao discurso e a luta para tal instauração ideológica. A ideologia irá exigir um posicionamento no que se refere ao espectro do discurso lógico que se deflagra um “evangelho”, boas novas para oprimidos e grupos minoritários que em muitos casos se transformam de oprimidos para opressores, logo a lógica da ideologia é de domínio soberano e aniquilação do inimigo que se opõe ao discurso escatológico da pauta em questão. Ainda, nos diz Koysis:
[...] vejo as ideologias como tipos modernos do fenômeno perene da idolatria, trazendo em seu bojo suas próprias teorias sobre o pecado e a redenção. Desde o início de sua narrativa, a Escritura denuncia o culto aos ídolos, falsos deuses que os seres humanos criaram. Como as idolatrias bíblicas, cada ideologia se fundamenta no ato de isolar um elemento da totalidade criada, elevando-o acima do resto da criação e fazendo com que esta orbite em torno desse elemento e o sirva. A ideologia também se fundamenta no pressuposto de que esse ídolo tem a capacidade de nos salvar de um mal real ou imaginário que há no mundo[6]. 

Ideologia Política e Imaginação Totalitária


A política é alvo da construção ideológica e assim compreendida de forma errada, o que era para ser voltado para o bem comum começa a girar em torno de uma facção, um grupo que articula ideologicamente para estabelecer centros de poder dominante na sociedade, assim foi com os regimes socialistas na China, Alemanha e Rússia, para citar alguns países. Razzo nos diz que:
A relação entre os conceitos de política e de imaginação pode gerar uma variedade de modos de compreensão e abrir uma série interessante de perspectivas a respeito do seu significado. Quando vinculada à política, toda compreensão corre o risco de se tornar ideológica na medida que se reduz a variedade da compreensão a uma unidade inequívoca, a partir da qual se presume  ser a única forma – correta e inegociável – de atividade política[7].

Toda construção ideológica é uma caricatura e uma distorção do cristianismo. A ideologia perpetra uma redução da realidade, fundamentando-se numa suposta realidade não realizável que buscará ser uma profecia “auto-cumprível”. Portanto, há na ideologia uma soteriologia que emana do discurso axiomático que ela se vale por seu pressuposto salvífico imaginário. Com isso, também se vale a ideologia de uma escatologia autocriada e buscada pela guerra cultural e ideológica. Como então pode um cristão aderir a ideologias?

Percebamos que a construção de uma ideologia transita por fatores religiosos, temos estabelecida uma guerra de questões não apenas políticas, mas metafisicas e teológicas. A realidade e o futuro são objetos do empenho ideológico. O Cristianismo não convive com isso. O Cristianismo é exclusivista e possui uma cosmovisão particular e reinante. Toda ideologia é quebra do primeiro e segundo mandamentos do decálogo. É a divinização de um ídolo e a reconfiguração de uma adoração a ele. É um rompimento com o mandamento de adoração e submissão àquele que governa soberanamente. 

Ideologia e Domínio

Pelo que já vimos até aqui, fica evidente que a intensão última da ideologia é o domínio de ideias contrárias a ela, estabelecendo métodos de centralização e atração de poder para si. A ideologia acaba agindo de forma totalitária, tomando e estabelecendo princípios para toda a vida humana individual e em sociedade. Podemos fazer uma ligação teológica interessante no que se refere aos axiomas.

Axiomas – Ontológico e Epistemológico

A ideologia vai lidar com axiomas, quando esta estabelece uma axioma ontológico que se refere ao ser, ela obstrui e substitui a divindade, ou seja, temos no cristianismo dois axiomas básicos para a compreensão filosófica da fé cristã e como isso se desenvolve no âmbito da teologia e da filosofia política por um prisma cristão. O axioma ontológico do cristianismo é Deus. O axioma epistemológico do cristianismo é a Escritura. A ideologia vai substituir esses axiomas, estabelecendo uma nova fundamentação filosófica que perpasse a vida humana e redime os flagelos e moléstias sociais. Temos então uma clara estabilização de falsos deuses para uma cosmovisão. Por isso, toda ideologia é idolatria.

Conclusão

Os fundamentos da ideologia não são apenas filosóficos, são religiosos. A busca por soluções redentoras e escatológicas ultrapassam os limites da função da política no mundo. A ideologia é uma violação explícita dos dois primeiros mandamentos do decálogo, o que é idolatria.

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Notas:

[1] No conceito de ideia temos uma busca e uma mentalização do algo que ainda não é. A idealização gera o vislumbre, o vislumbre e a idealização são inevitavelmente fundamentados por axiomas ontológicos e epistemológicos. O que vai intermediar a ideia entre os axiomas são as pressuposições.
[2] http://www.olavodecarvalho.org/semana/confronto.html
[3] http://www.olavodecarvalho.org/semana/070910dc.html
[4] O termo que uso por logos teleológico refere-se a um discurso que se esmera a uma finalidade de cabal cumprimento, via de regra a luta para que esse cumprimento ocorra procede de regimes totalitários.
[5] http://www.olavodecarvalho.org/semana/070910dc.html
[6] Koysis, David. Visões e Ilusões Políticas. 2014. São Paulo, ed. Vida Nova, p.18.
[7] Razzo. Francisco. A Imaginação Totalitária. Ed. Record, Rio de Janeiro. 2016, p.9.

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Autor: Thomas Magnum
Fonte: Electus
Foto: Arquivo PT. Arte: Bereianos

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A natureza humana é totalmente depravada

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O homem, porém, não se pode melhor conhecer, em uma e outra parte da alma, a não ser que se ponha à vista com seus títulos, pelos quais é caracterizado pela Escritura. Se todos forem descritos com estas palavras de Cristo: “O que é nascido da carne é carne” [Jo 3.6], como é fácil comprovar, o homem é convencido de ser uma criatura mui miserável. Ora, o Apóstolo atesta que a inclinação da carne é morte, uma vez que é inimizade contra Deus, e por isso não se sujeita à lei de Deus, nem pode sujeitar-se [Rm 8.6, 7].

Porventura a carne está a tal ponto pervertida, que com toda sua inclinação exerça inimizade contra Deus, que não possa conformar-se à justiça da lei divina, que nada, afinal, possa exibir senão ocasião de morte? Pressupõe-se, então, que nada há na natureza humana senão carne, e que daí não se pode extrair algo de bom. Mas dirás que o termo carne se refere apenas à parte sensória, não à parte superior da alma. Isto, porém, se refuta plenamente à luz das palavras não só de Cristo, como também do Apóstolo. O postulado do Senhor é: ao homem importa nascer de novo [Jo 3.3], porque ele é carne [Jo 3.6]. Não está preceituando nascer de novo em relação ao corpo. Mas, na alma nada nasce de novo, se apenas alguma porção lhe for reformada; ao contrário, toda ela se renova. E isto é confirmado pela antítese estabelecida em uma e outra destas duas passagens, pois de tal modo o Espírito é contrastado com carne, que nada é deixado entre ambos. Logo, tudo que no homem não é espiritual, segundo este arrazoado, diz-se ser carnal. Nada, porém, temos do Espírito senão pela regeneração. Portanto, tudo quanto temos da natureza é carne.

Na verdade, tanto quanto em outras circunstâncias, se pudesse haver dúvida acerca desta matéria, a mesma nos é dirimida por Paulo, onde, descrito o velho homem, que dissera ter sido corrompido pelas concupiscências do erro, ordena que sejamos renovados no espírito de nossa mente [Ef 4.22, 23]. Vês que ele não situa os desejos ilícitos e depravados apenas na parte sensorial, mas também na própria mente, e por isso requer que lhe haja renovação. E de fato, pouco antes pintara esta imagem da natureza humana, que mostra que estamos corrompidos e depravados em todas as nossas faculdades.

Ora, ele escreve que todos os gentios andam na vaidade de sua mente, estão entenebrecidos no entendimento, alienados da vida de Deus por causa da ignorância que neles há, e da cegueira de seu coração [Ef 4.17, 18], não havendo a mínima dúvida de que isso se aplica a todos aqueles a quem o Senhor ainda não reformou para a retidão, seja de sua sabedoria, seja de sua justiça. O que se faz ainda mais claro da comparação adjunta logo em seguida, onde adverte aos fiéis de que não haviam assim aprendido a Cristo [Ef 4.20]. Seguramente concluímos destas palavras que a graça de Cristo é o único remédio pelo qual somos libertados dessa cegueira e dos males daí resultantes.

Ora, também assim havia Isaías vaticinado acerca do reino de Cristo, quando o Senhor prometia que haveria de ser por luz sempiterna à sua Igreja [Is 60.19], enquanto, a esse mesmo tempo, trevas cobririam a terra e escuridão cobriria os povos [Is 60.2]. Quando testifica haver de despontar na Igreja a luz de Deus, fora da Igreja certamente nada deixa, a não ser trevas e cegueira. 

Não mencionarei, uma a uma, as passagens que a respeito da vacuidade do homem se contam por toda parte, especialmente nos Salmos e nos Profetas. Incisivo é o que Davi escreve: “Certamente os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira” [Sl 62.9]. Traspassado de pesado dardo lhe é o entendimento, quando todos os pensamentos que daí procedem são escarnecidos como estultos, frívolos, insanos, pervertidos.

A DEPRAVAÇÃO HUMANA É CONFIRMADA PELO QUE DIZ PAULO EM ROMANOS 3

Em nada é mais branda a condenação do coração, quando se diz ser enganoso acima de todas as coisas e depravado [Jr 17.9]. Mas, visto que estou tentando ser breve, contentar-me-ei com apenas uma passagem, a qual, no entanto, haverá de ser como um espelho caríssimo, em que contemplamos a imagem integral de nossa natureza. Ora, o Apóstolo, quando quer lançar por terra a arrogância do gênero humano, o faz com estes testemunhos [Rm 3.10-16, 18]: “Pois não há nenhum justo, não há quem tenha entendimento, ou que busque a Deus; todos se desviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, nem um sequer” [Sl 14.1-3; 53.1-3]; sepulcro aberto é a garganta deles; com suas línguas agem dolosamente” [Sl 5.9]; veneno de áspides há debaixo de seus lábios” [Sl 140.3]; “dos quais a boca está cheia de maldição e amargor” [Sl 10.7]; “cujos pés são velozes para derramar sangue; em cujas veredas há destruição e infortúnio” [Is 59.71]; “diante de cujos olhos não há temor de Deus” [Rm 3.18].

Com esses raios, o Apóstolo não está investindo apenas contra certos homens, mas contra toda a raça dos filhos de Adão. Nem está ele a censurar os costumes depravados de uma ou outra era, mas está acusando a perpétua corrupção de nossa natureza. Com efeito, nesta passagem, seu propósito não é simplesmente censurar os homens, para que caiam em si, mas, antes, ensinar que todos têm sido acossados de inelutável calamidade, da qual não podem sair, a não ser que sejam retirados pela misericórdia de Deus.

Visto que isso não podia ser provado, a não ser que fosse estabelecido da ruína e destruição de nossa natureza, trouxe ele à baila estes testemunhos, mediante os quais se convence de que nossa natureza está mais do que perdida. Portanto, fique isto demonstrado: os homens são tais quais aqui descritos, não apenas pelo vezo do costume depravado, mas ainda pela depravação de sua natureza. Porquanto não se pode de outra forma sustentar a argumentação do Apóstolo: não há para o homemnenhuma salvação, senão pela misericórdia do Senhor, porquanto, em si, ele está inexoravelmente perdido.

Não me darei aqui ao trabalho de provar a aplicabilidade desses testemunhos, para que não pareçam, aos olhos de alguém, indevidamente usados pelo Apóstolo.

Procederei exatamente como se essas coisas fossem originalmente ditas por Paulo, não tomadas dos profetas. Ele priva o homem, de início, da justiça, isto é, da integridade e da pureza; a seguir, do entendimento [Rm 3.10, 11]. Ora, a carência de entendimento é demonstrada pela apostasia para com Deus, a busca de quem é o primeiro degrau da sabedoria. Mas essa deficiência necessariamente se acha naqueles que se têm afastado de Deus. Acrescenta em seguida que todos se têm transviado e se têm tornado como que putrefatos, que nenhum há que faça o bem; então adiciona as ignomínias com as quais contaminam a cada um de seus membros aqueles que uma vez se espojaram na dissolução. Finalmente, atesta que são vazios do temor de Deus, o que deveria ser a regra a dirigir-nos os passos.

Se forem estes os dotes hereditários do gênero humano, em vão se busca algo de bom em nossa natureza. Reconheço, sem dúvida, que nem todas estas abominações vêm à tona em cada ser humano, entretanto não se pode negar que esta hidra jaz oculta no coração de cada um. Ora, como o corpo, quando já mantém incubada em si a causa e matéria de uma doença, se bem que ainda não efervesça a dor, por isso não se julgará ser sã nem mesmo a alma, enquanto borbulha em tais achaques de vícios, embora a comparação não se enquadre em todos os aspectos, porque, no corpo, por mais enfermo, subsiste um alento de vida; a alma, porém, imersa neste abismo fatal, não só padece desses achaques, mas ainda é inteiramente vazia de todo bem.

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Autor: João Calvino
Fonte: CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. Vol. 2, Cap. III, pág. 57-59. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O FUTURO CRISTÃO DA CHINA




No fim da Guerra Civil Chinesa em 1949, quando o partido Comunista destruiu os Nacionalistas e fundou a República Popular da China, os cristãos na China somavam meio milhão. No entanto, aproximadamente setenta anos mais tarde, sob a rigorosa repressão do governo chinês, essa população ultrapassou os sessenta milhões, de acordo com o Fenggang Yang, um sociólogo da Purdue University. O número cresce aos milhões a cada ano, um fenômeno que alguém descreveu como uma torrente ou um gêiser. Nesse ritmo, em 2030 os cristãos na China passarão dos 200 milhões, superando os Estados Unidos e fazendo da China o país com a maior população cristã do mundo. Os primórdios desse imenso crescimento podem ser remontados a dois momentos na história chinesa contemporânea: a Revolução Cultural iniciada por Mao Zedong, em 1966, e o massacre de Tiananmen Square instigado por Deng Xiaoping, em 1989. Incontáveis vidas inocentes foram mortas como resultado desses dois cataclismos, e a crença do povo no Marxismo-Leninismo e no Maoísmo foi arruinada. Esses eventos revelaram um grande vazio espiritual, e os chineses começaram a procurar por uma nova fé.


Quando a Revolução Cultural acabou, foi como se a geração de meus pais simplesmente tivesse despertado de um sonho: constatei que o homem que eles tinham venerado como o próprio Sol Vermelho não passava de um ditador cruel e mesquinho que levou uma vida licencioasa e dissoluta. Meu pai foi um engenheiro e membro do Partido Comunista. Ele disse-me que quando o avião que transportava o vice-premiê Lin Biao – antes o aparente sucessor de Mao, mas, depois, estigmatizado como um traidor – misteriosamente caiu nas planícies da Mongólia, em 1971, sua crença no Comunismo espatifou-se junto com ele.

Meu despertar veio em 4 de junho de 1989, no meio do massacre de Tiananmen Square. Com dezesseis anos à época, eu e minha família ouvimos escondidos os relatos dos acontecimentos daquela noite nas rádios BBC e VOA. Quando os sons de gritos, choros e tiros foram emitidos pelos auto-falantes, toda a propaganda política que me foi incutida na escola, como “Sem o Partido Comunista não haveria uma nova China”, virou pó. A noite de 4 de Junho abriu um abismo entre o regime chinês e eu. Jurei que nunca trabalharia para um governo que abre fogo contra um povo desarmado e indefeso.

Anos mais tarde, em Beijing, conheci o Tiananmen Mothers, um grupo de ativistas da democracia chinesa composto por pais, parentes e amigos de vítimas do massacre. A professora Ding Zilin, mãe de uma das vítimas, deu-me uma cópia de um livro que ela havia compilado, Interviews with June 4 Victims [Entrevistas com as vítimas de 4 de Junho]. No frontispício estava manuscrito: “Se meu filho estivesse vivo, ele seria como um irmão para você”. Seu filho, Jiang Jielian, era apenas um ano mais velho que eu. Se eu não tivesse estado na longínqua província de Sichuan, mas no coração do movimento democrático de Beijing, ele poderia ter sido eu?

Após Tiannanmen, Deng Xiaoping julgou que o segredo para manter o regime no poder era produzir uma meia dúzia de ricos. Ele fez seu sonho econômico de tornar-se rico virar realidade, embora sacrificando o sonho político de muitos em viver em uma sociedade livre. Como uma droga, no entanto, a influência do dinheiro sobre as pessoas dura pouco. O homem não pode viver só de pão. Além de suas necessidades materiais encontram-se as espirituais também. Os líderes do governo também perceberam uma crise. Eles começaram a revirar pelo confucionismo e pelo budismo que tinham descartado, esperando recuperar a antiga autoridade moral dessas tradições para o partido.

A tradição de ensino que começou com Confúcio guiou os chineses por dois milênios. O confucionismo enfatiza a importância de cultivar-se o caráter bem como o intelecto, de reprimir o desejo e manter as coisas moderadamente e ter boa vontade para com todos. “Respeite qualquer idoso como você respeitaria os seus pais; cuide das crianças como você cuidaria dos seus filhos”. Tal conselho seria acatado em qualquer lugar do mundo civilizado, ecoando o mandamento de Jesus para “amar o próximo como a si mesmo”. Por outro lado, como um instrumento político, o confucionismo tem sido usado pelos monarcas para controlar e manipular as pessoas; eles garantem soberania absoluta ao apelar para o “mandato celestial” e para a “ortodoxia confuciana”. Começando com a dinastia Han em 141 a.C., o confucionismo foi promulgado como a religião oficial do Estado. Ao longo do tempo, tornou-se cada vez mais estabelecido no escalão hierárquico e social como a fonte de todo sentido e respeito. Somente no século passado foi que os chineses começaram a refletir criticamente sobre o pensamento confuciano, começando com o Movimento Quatro de Maio de 1919, onde muitos intelectuais importantes introduziram as ideias ocidentais de ciência moderna e democracia no país, derrubando o confucionismo de seu altar.

Os comunistas tinham razões estritamente ideológicas para descartar a herança confuciana chinesa, mas para Mao, a aversão era pessoal. Quando jovem, ele trabalhou por um breve período na Biblioteca da Universidade de Beijing. Lá, sentiu-se menosprezado pelos professores e alunos que adotaram Confúcio como seu modelo. Daí surgiu seu ódio permanente pelos intelectuais. Ele os visou especialmente na revolução, chamando-os de “os fedorentos número nove”, o patamar mais baixo da classe de inimigos após os latifundiários, os camponeses ricos, os reacionários, os maus elementos, os direitistas, os traidores, os espiões a os “seguidores da via capitalista”. Muitos estudiosos e escritores foram sujeitos a tortura física e psicológica por Mao; alguns foram levados ao suicídio. O líder supremo fez até mesmo sua Guarda Vermelha derrubar os templos de Confúcio e cavar sua sepultura. Hoje, contrastando com isto, os funcionários do partido se agarram a Confúcio como um homem se afogando se agarra a qualquer coisa que vir pela frente. Sem nem mesmo terem se desculpado pelo que fizeram para destruir o confucionismo, eles agora fundam os assim chamados Institutos Confúcio ao redor do mundo, sem medir esforços, para promover sua agenda. Os institutos oferecem ajuda financeira aos estudiosos da China no Ocidente, convidando-os para excursões de luxo pelo país em troca de avaliações favoráveis do governo chinês. Além disso, eles colocam os críticos do governo na lista negra e mandam seus nomes para as embaixadas chinesas ao redor do mundo, as quais, por sua vez, lhes negam vistos. Os Institutos Confúcio são instrumentos políticos para a manutenção do poder, não recursos genuínos para a renovação cultural. Se os comunistas não tivessem exumado a sua cova, Confúcio estaria rolando nela.

Na China, o confucionismo está passando por uma transformação de estilos também. No comando do governo, muitas universidades estabeleceram centros de estudos chineses dedicados a pesquisar textos confucianos clássicos e história. Alguns alunos recusam-se a usar quepes e togas ocidentais nas cerimônias de graduação em favor do hanfu, uma vestimenta tradicional originária da dinastia Han. Jovens acadêmicos escrevem cartas abertas condenando a celebração popular do natal como “o esquecimento das raízes”. Em Qufu, a cidade natal de Confúcio, alguns habitantes que querem observar apenas o Ano Novo Chinês se opuseram à construção de igrejas. Para eles, defender o que entendem ser a cultura confuciana é mais importante do que a liberdade religiosa. Na China, o choque de civilizações aparenta estar a pleno vapor.

Se o confucionismo pode apenas ser considerado uma filosofia ética e política, mas não uma religião em sentido estrito, então a China hoje só reconhece cinco grandes religiões: Budismo, Taoísmo, Catolicismo, Protestantismo e Islamismo. O governo criou a Administração de Estado para Assuntos Religiosos, sob as ordens de seu Departamento de Trabalho da Frente Unida, para manter uma vigilância cuidadosa e um pequeno controle sobre os adeptos, estabelecendo-se efetivamente como o sumo sacerdote presidindo os assuntos internos das organizações religiosas. É exatamente isso o que o presidente chinês Xi Jinping está fazendo com respeito ao cristianismo. Na Conferência Nacional sobre Trabalho Religioso em Beijing, em abril deste ano, ele declarou que a religião deve adaptar-se à ordem social existente na China e aceitar a liderança do partido. Como um líder, Xi parece ligeiramente inseguro. Ele está desconfiado da sociedade civil e vê o cristianismo como uma ameaça: é a maior força na China fora o partido comunista.

Na China, o número de igrejas nos lares é três vezes maior do que o número de igrejas patrocinadas pelo governo. Contra as igrejas nos lares que se recusam a cooperar, o governo tem empreendido uma operação-limpeza na província oriental litorânea de Zhejiang, especialmente na cidade de Wenzhou, conhecida como a “Jesusalém da China”, onde quinze por cento da população é cristã. Em dois anos, mais de duas mil igrejas em Zhejiang foram demolidas, e aproximadamente duas mil cruzes foram removidas. A cena da cruz sendo removida de uma igreja na vila Ya, situada na cidade de Huzhou, em 7 de agosto de 2015, foi simbólica. Trabalhadores migrantes contratados por funcionários do governo capotaram o carro da paróquia, e então a polícia chegou. Eles arrastaram o pastor, intimidaram os paroquianos, isolaram o terreno da igreja e jogaram spray de pimenta nos manifestantes. Eles encheram a igreja de cães. Monges budistas e sacerdotes taoístas contratados por oficiais vieram para entoar e realizar rituais em frente à igreja. Muitas pessoas, incluindo o procurador da igreja, foram detidas e interrogadas.

Zhang Kai, um advogado de direitos humanos que estivera fornecendo suporte legal para igrejas na província de Zhejiang, foi levado sob custódia em 25 de agosto de 2015, o dia anterior em que ele devia encontrar-se com David Saperstein, embaixador itinerante para a liberdade religiosa internacional dos Estados Unidos. Seis meses depois, Zhang foi obrigado a ir para a televisão, declarando o seguinte: “Transgredi a lei, perturbei a paz e violei, pus em perigo a segurança nacional e violei a ética da minha categoria. Arrependo-me profundamente de minhas ações”. Emagrecido, com o corpo cruelmente encurvado pela tortura, ele ficou praticamente irreconhecível. Na China de Xi, a televisão substituiu os tribunais. Confissões televisionadas são a moda do dia. Infelizmente, a administração Obama senta-se e assiste, relutante em pressionar mais o governo chinês e exigir reforma.

Um documento interno do governo obtido pelo New York Times em maio de 2014 mostra que as demolições de igrejas são parte de uma campanha maior para reprimir a influência do cristianismo sobre o público. De acordo com a página da declaração de política provincial, a administração Xi quer pôr um fim aos sites religiosos “excessivos” e às atividades religiosas “excessivamente populares”, mas isso se refere a uma religião em particular – o cristianismo –, e um símbolo – a cruz. A estratégia é fácil de discernir: primeiro Wenzhou, depois o restante da China.

Entretanto, os cristãos chineses têm se recusado a entregar os pontos. Uma das frases que ouvi na maioria das vezes entre eles é: “Quanto maior a perseguição, maior o avivamento”. Para os cristãos dissidentes, as remoções da cruz e a demolição de igrejas são apenas o prelúdio em uma história que imita a Paixão e a Ressurreição de Cristo. Eles falam sobre como, durante a Revolução, a população cristã em Wenzhou, na verdade, cresceu muitas vezes.

Na Igreja de Zengshan, vizinha a Wenzhou, vê-se membros colocando em prática o que aprenderam ao resistir à administração comunista: pedregulhos empilhados fora do portão principal para bloquear o acesso de veículos, panos pretos puxados sobre as barras de aço para evitar espionagem, arames farpados colocados no topo da cerca em voltar da igreja para dissuadir os invasores, câmeras instaladas em cada esquina para detectador intrusos, alto-falantes em caso de emergência, trancas na porta principal que conduz à cruz, uma equipe especial para proteger a cruz com seus próprios corpos se necessário for e contraespiões em vários agências governamentais. Mao pode ter inventado a “guerra do povo”, mas seu partido jamais imaginou que um dia tomaria uma dose do seu próprio veneno.

Desde o alvorecer do novo milênio, o cristianismo na China tem redirecionado seu crescimento em direção a aproximadamente uma centena de cidades por todo o país. Grupos de profissionais dinâmicos jovens e instruídos têm se reunido em igrejas urbanas, quebrando o estereótipo na psique de muitos chineses de cristãos como pessoas idosas, débeis, doente ou inválidos. Essas igrejas não podem se registrar no Ministério de Assuntos Civis e adquirir status legal, mas elas são o primeiro passo para os cristãos assumirem a liderança no desenvolvimento de uma sociedade independente do controle do governo. Elas têm sites, locais de reunião, cronogramas, listas de discussão, comunicados e inclusive publicações – que não podem ser vendidas, mas podem ser circuladas entre os membros da igreja.

As igrejas urbanas da China serão uma força importante em sua democratização, pois uma sociedade livre requer uma sociedade civil capaz de resistir à tirania e ao abuso de poder. Em primeiro lugar, entretanto, eles terão de remediar a noção equivocada, presente até mesmo entre alguns frequentadores de igrejas, de que a religião devia ser uma questão privada. O que se faz necessário é uma teologia política enfatizando a soberania da lei de Deus, em vez da separação entre igreja e estado.

O cristianismo transformou a minha maneira de me ver como um dissidente. Ao longo de décadas de envolvimento com o movimento democrático chinês, vi os assim chamados dissidentes pensar o mesmo, falar o mesmo e agir da mesma forma daqueles de quem eles supostamente discordavam. Os comunistas e dissidentes são, muitas vezes, espíritos afins. Também já vi ambições pessoais e lutas de poder separando amigos e colocando em oposição aqueles que deviam estar trabalhando juntos. Meus companheiros dissidentes depositam muita esperança na democracia, mas ela é tão-somente um método melhor de gestão pública e divisão de poderes – o mal menor, como disse Churchill. Se alguém não acredita em algo que não seja a democracia, esse tal não é melhor do que os comunistas, fazendo de um sistema político um deus.

Quando me tornei cristão, aprendi a reconhecer-me como um pecador. Ao fazer isso, desenvolvi uma sensibilidade para com o pecado que me ajuda a reconhecer o mal e a injustiça quando os vejo. Enquanto mostro a tirania do regime comunista, reflito sobre ela e julgo a mim mesmo. Essa obra interior de arrependimento pelos meus próprios pecados transformou minha luta contra o totalitarismo. Não estou mais simplesmente apontando as falhas do mundo. Também as reconheço em mim mesmo.

Lendo Calvino, o teólogo da depravação total e da predestinação, passei a considerá-lo como um Pai Fundador dos Estados Unidos mais importante do que o próprio George Washington. Eleições gerais, habeas corpus, liberdade de contrato, igualdade perante a lei, julgamento por júri, direito comum, livre mercado, liberdade de expressão e imprensa e liberdade religiosa – tudo isso é reforçado pelo legado de Calvino e pelo legado da Bíblia. Assim, tornei-me um liberal clássico ou, no linguajar americano de hoje, um conservador – algo raro entre meus pares chineses. Calvino, Locke, Burke, Tocqueville, von Mises e Hayek – todos são educativos para mim, embora alguns não sejam cristãos no sentido tradicional.

Contudo, nenhuma influência tem sido maior sobre mim do que a de Dietrich Bonhoeffer. Seu alerta de que “Um estado que ameaça a proclamação da mensagem cristã nega a si mesmo” tornou-se um lema para os cristãos da China, sobre os quais ele exerceu uma grande influência. Seu foco no gemeisames Leben ou “vida juntos” (o que significa que os cristãos formam uma comunidade mais coesa, como se fosse de um único organismo vivo) tem ressoado pela China. É óbvio que Deus tem um relacionamento pessoal com cada um de nós, mas é o fato de que amamos uns aos outros, ajudamos uns aos outros e oramos uns pelos outros que nos torna possível completar a nossa peregrinação. Desde que me tornei cristão, não deixei a igreja, na China ou nos Estados Unidos. O cristão está para a igreja assim como o ramo está para a árvore. Ele não enfraquecerá enquanto for parte de uma árvore.

Os cristãos chineses também veem em Bonhoeffer um homem que ousou promover uma guerra entre uma formiga e um elefante. Ele encontrou sabedoria e coragem em Jesus, entendendo que ele existe pelos outros, e aqueles que o seguem deviam fazer o mesmo. Bonhoeffer não se esquivou de denunciar a covardia e colaboracionismo da Deutsche Christen [Cristãos Alemães], as igrejas que aquiesceram ao controle nazista. Ele expôs a razão por trás do fracasso delas em resistir: graça barata. “Graça barata é a pregação do perdão sem a exigência do arrependimento, do batismo sem a disciplina eclesiástica, da comunhão sem a confissão e da absolvição sem a confissão pessoal”, escreveu ele em The Cost of Discipleship [O Custo do discipulado]. A graça barata torna a fé sem gravidade e impotente. A verdadeira graça capacita-nos a encarar nosso pecado e lutar contra ele. Ou a reconhecer e combater a injustiça social. O regime comunista chinês está rumando para o fascismo. Quão oportunos são o pensamento e práxis de Bonhoeffer para os chineses hoje! Nós, também, devemos nos conscientizar da graça barata, que nos conduz à servidão a Mamon, o instrumento de sedução normalmente usado para subornar as nossas consciências.

Bonhoeffer também percebeu que o Nazismo tem suas raízes na deslealdade do homem a Deus e seu culto de si mesmo. O mesmo poderia ser dito do Comunismo. Solzhentsyn chamou o ateísmo de a peça central do Comunismo, e uma aversão a Deus a principal força motora por trás do pensamento marxista. Destruir o regime comunista não resolverá todos os problemas da China. Os chineses precisam experimentar uma profunda transformação espiritual a fim de restaurar a liberdade e dignidade que Deus lhes conferiu quando os criou à Sua imagem. O caminho a seguir exige que desviemos os olhos de nós e nos voltemos para o divino.

Embora a China comunista seja uma sociedade totalitária, os cristãos podem aprender e exercer um estilo de vida democrático na igreja, e então atuar como um fermento na sociedade. Por exemplo, até agora os chineses não têm direitos de voto legítimo, mas os congregados podem eleger seus próprios membros do conselho e líderes administrativos. Para aqueles que não têm experiência em campanha eleitoral e eleição de cargos, as igrejas são um celeiro de atividade cívica. Muitas dessas igrejas são presbiterianas e calvinistas, a mesma tradição que desempenhou um papel central no surgimento da democracia no Ocidente.

As igrejas já estão envolvidas em obras de caridade, educação, cultura e outros setores públicos, ampliando ainda mais o espaço público da China. Por exemplo, na esteira do terremoto de Sichuan, em 2008, centenas de igrejas rapidamente criaram a associação voluntária China Christian Action Love para prestar socorro, o que muitas vítimas de desastres elogiaram como superando os esforços do governo em termos de velocidade e constância. Além disso, algumas igrejas fundaram escolas para os filhos de seus membros como uma alternativa ao currículo estatista das escolas públicas. Através das igrejas, os cristãos chineses estão se tornando agentes ativos na sociedade, em vez de indivíduos passivos controlados pelo governo.

Eu não somente testemunhei, mas também posso comprovar este avivamento. Minha esposa, Liu Min, foi batizada e tornou-se cristã em Beijing, em 2001. Em pouco tempo ela organizou um pequeno grupo de estudo bíblico em casa com três casais.

Dois anos mais tarde, o Espírito Santo fez amizade comigo e me permitiu confessar meus pecados. O Senhor me deu a chance de arrepender-me e aceitou-me como seu servo humilde. Fui batizado na véspera de Natal. Nosso grupo de estudo bíblico tornou-se uma arca. Na medida em que advogados de direitos humanos, escritores independentes, jornalistas e sobreviventes de Tiananmen juntaram-se a nós a bordo de nossa embarcação, nossa comunidade de fé também se tornou um espinho para o regime. Meu querido amigo Liu Xiaobo, o corajoso ativista dos direitos humanos, era um amigo da igreja e expressou seu apoio a nós escrevendo quando fomos acossados pelo governo.

Na noite de 10 de dezembro de 2010, enquanto a cerimônia do Prêmio Nobel da Paz em homenagem a Liu estava acontecendo em Oslo, fui sequestrado pela polícia secreta e conduzido para os subúrbios de Beijing. Eles me bateram e torturaram por horas, quebrando meus dedos um por um. Apaguei e fui levado a um hospital. Um hospital em Changping, um subúrbio de Beijing, recusou me aceitar, dizendo que eu “não tinha mais jeito”. Então eu fui levado a um hospital em Beijing. Minha vida foi salva. Por dias, minha esposa estava em prisão domiciliar em não sabia do meu paradeiro, nem mesmo se eu estava vivo. Ela foi acometida de uma sensação ruim e não conseguia comer ou dormir. Em poucos dias, maior parte do seu cabelo caiu. Antes de perder a consciência, orei: “Senhor, se tu me aceitas, então faz de mim um mártir. Não sou digno disso, mas estou disposto”. Nesse momento, ouvi claramente a sua voz: “Tão certo como eu vivo, nenhum fio da tua cabeça cairá no chão”. E: “Não temais por aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma”. Deus me deixou vivo, pois tem grandes planos para mim. Em 11 de janeiro de 2012, assim como fez aos israelitas no Egito, Deus tirou minha família da China para a capital dos Estados Unidos da América.

A polícia secreta me advertira: você é o número um da lista de “duas centenas de intelectuais para enterrar vivo” criada por Zhou Yongkang, então secretário da Comissão Central de Assuntos Políticos e Legais. Quem teria imaginado que hoje eu estaria escrevendo, orando e respirando desimpedidamente, achando-me em solo livre, enquanto Zhou, outrora apelidado de “czar de segurança” da China, seria condenado a viver na prisão por corrupção por seus inimigos políticos? Nos planos de Deus, os tiranos contam pouco. Como disse Maria em seu grande hino de louvor, o Magnificat, ele “agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos soberbos. Derribou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lucas 1.51-52).

Em 2013, minha esposa atendeu ao chamado do Senhor e tornou-se pregadora em tempo integral na Harvest Chinese Christian Church, nos arredores de Washington, DC[1]. Como parte do ministério, sirvo como professor de escola dominical e conduzo estudo bíblico. Eu até cozinho para meus amados irmãos e irmãs. Deus faz com que eu maneje uma caneta em uma mão e uma espátula na outra. Nem todos em minha congregação leram meus livros, mas todos experimentaram da minha comida – e com muitos elogios!

Deus me deixou viver para testemunhar e testificar dele através da escrita. E pelos 1,4 bilhões de almas de minha terra natal, eu continuarei. Faço-o com grande expectativa. Uma fé crescente em Cristo, fortalecida pelos vínculos do companheirismo na vida da igreja, está soprando vida nova em meu país. Nem a mão mortal do Comunismo, nem a imitação cínica do Confucionismo, nem o capitalismo, nem a democracia ou qualquer coisa terrena determinará o destino da minha terra. O cristianismo é o futuro da China

[1] A perspectiva do articulista não representa a posição do Voltemos ao Evangelho no tocante à ordenação feminina. Para maiores esclarecimentos quanto a isso, clique aqui. (Nota do Tradutor.)
Por: Yu Jie. © 2016 First Things. Original: Chinas christian future

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Traduzido por Leonardo Bruno Galdino no Ministério Fiel via Voltemos ao evangelho

Carta a um Pastor Pentecostal que Virou Reformado




*Embora a situação e o destinatário dessa carta sejam fictícios, ela se baseia em fatos reais.



Meu caro Fernando,

Fiquei muito feliz em saber que você vem se fortalecendo mais e mais nas doutrinas da Reforma. Lembro-me bem das suas interrogações e de seus conflitos quando você começou a ler Martin Lloyd-Jones, Spurgeon e outros autores reformados e se deparou com a visão reformada de mundo e com as doutrinas da soberania de Deus, da graça absoluta e da nossa profunda depravação. Quantas perguntas e quantas interrogações! Pelo que entendi da sua carta, esse período inicial de conflito interior e de "arrumação" da mente já passou e agora você enfrenta uma outra fase, que é o antagonismo de colegas pastores da sua denominação e de membros da sua igreja para com o novo conteúdo das suas pregações e do seu ensino.

Você me perguntou se temos espaço em nossa igreja para pastores como você, que é pentecostal e que recentemente encontrou as doutrinas reformadas. Estou vendo essa possibilidade com alguns outros colegas pastores, mas eu pessoalmente não creio que a solução seria você sair de sua igreja e passar para uma reformada. Creio que você deveria tentar ficar onde está o máximo de tempo que puder. Os reformadores, como Lutero, a princípio não pretendiam sair da Igreja Católica, mas ficar e reformá-la de dentro para fora. Somente após algum tempo é que ficou claro que isso era impossível. No caso de Lutero, o papa se encarregou de expulsá-lo com a excomunhão. Seu caso é diferente, pois é um absurdo comparar a situação de um reformado dentro da Igreja Católica com a situação de um reformado dentro de uma igreja pentecostal. Portanto, minha sugestão é que você permaneça o máximo que puder, só saia se for obrigado a isso. Deixe-me dar alguns conselhos nessa direção.

1. Mantenha sempre em mente que apesar das diferenças que existem em doutrinas e práticas (nem sempre discutidas de maneira cristã), os reformados no Brasil sempre reconheceram os pentecostais históricos como genuínos irmãos em Cristo. Nós chegamos ao Brasil primeiro. Vocês vieram depois. É verdade que a princípio houve relutância em reconhecê-los como evangélicos por causa da estranheza com as práticas e doutrinas pentecostais, mas apesar delas, eventualmente vieram a ser reconhecidos como irmãos dentro da fraternidade evangélica.

2. Existem muitos pontos de convergência entre os reformados e os pentecostais. Além dos pontos fundamentais contidos, por exemplo, no Credo Apostólico, compartilhamos com eles ainda o apreço pelas Escrituras, o reconhecimento da necessidade de uma vida santa, a busca da glória de Deus, o desejo de um legítimo avivamento espiritual e o zelo pela doutrina. Nesses pontos e em outros, pentecostais e reformados sempre se alinharam contra liberais e libertinos. Tente se concentrar nesses pontos comuns nas suas pregações e no seu ensino.

3. Enquanto permanecer em sua igreja, responda sempre com mansidão e humildade aos que questionarem as "novas doutrinas" que você agora professa. Diga que as doutrinas ensinadas pelos reformados são muito mais antigas que a própria Reforma e que remontam ao ensino de Jesus e dos apóstolos. Elas têm sido adotadas e ensinadas por pastores e pregadores de todos os continentes e de muitas denominações diferentes. Elas serviram de base para o surgimento da democracia, da visão social, das universidades e da ciência moderna, e vêm abençoando a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. Naturalmente, o que vai realmente fazer a diferença em sua resposta é sua habilidade de mostrar biblicamente que você não está abraçando nenhuma heresia ou doutrina nova. Para isso, é necessário que você estude as Escrituras e que se familiarize com sua mensagem, especialmente com as passagens e porções que tratam mais diretamente das doutrinas características da Reforma.

4. Evite dar a falsa impressão de que ser reformado é cantar somente salmos sem instrumentos musicais, não ter corais nem grupos de louvor, proibir as mulheres de orar em público e não levantar as mãos ou bater palmas no culto. Concentre-se nos pontos essenciais, como a soberania de Deus, a sua graça absoluta na salvação de pecadores, a depravação total e a inabilidade do homem voltar-se para Deus por si mesmo, a necessidade de conversão e arrependimento e a centralidade das Escrituras na experiência cristã.

5. Quando chegar ao tema do livre arbítrio, escolha com cuidado as suas palavras. Você sabe que a posição reformada clássica é de que a soberania de Deus e a responsabilidade humana são duas verdades igualmente ensinadas na Bíblia, muito embora não saibamos como elas se reconciliam logicamente. Deixe claro que você em momento algum está anulando a responsabilidade do homem para com as decisões que ele toma, e que, quando ele toma essas decisões, ele as toma porque quer tomá-las. Ele é, portanto, responsável pelo que faz e pelo que escolhe, mesmo que, ao final, o plano de Deus sempre prevalecerá e será realizado. Não tente resolver o mistério dessa equação. Seja humilde o suficiente para dizer que você reconhece o aparente paradoxo dessa posição e que não consegue eliminar nenhum dos seus dois pontos. Mantê-los juntos em permanente tensão é o caminho da Reforma, e um caminho que muitos pentecostais vão entender e apreciar. O que eles receiam é que se acabe por eliminar a responsabilidade do homem e reduzi-lo a um mero autômato. Deixe claro que não é isso que os reformados defendem.

6. Creio que será muito útil você estar familiarizado com as experiências espirituais vividas por John Flavel, Lloyd-Jones, Jonathan Edwards, David Brainerd, George Whitefield e muitos outros reformados. Os reformados e particularmente os puritanos deram grande ênfase à religião experimental, isto é, ao fato de que os cristãos deveriam ter profundas experiências com Deus. Nossos irmãos pentecostais apreciam essa ênfase, pois o surgimento do pentecostalismo, entre outros fatores, foi uma reação contra a frieza e a formalidade de muitas igrejas históricas do início do século XX nos Estados Unidos e Europa.

7. Tente ainda mostrar que as doutrinas da graça, aquelas da Reforma, são as que mais tendem a glorificar a Deus, visto que exaltam a sua soberania e humilham o homem, colocando-o no devido lugar. Todo cristão genuíno tem anseios de dar a glória a Deus e de vê-lo exaltado. Nossos irmãos pentecostais buscam a glória de Deus, e quando entendem que as doutrinas da graça tendem a exaltá-lo mais que outras, passam a ter uma atitude de reflexão e abertura para com elas.

8. Um outro conselho. Pregue a Palavra, exponha as Escrituras com fidelidade. Ao fazer isso, você estará pregando as grandes doutrinas da graça em vez de pregar sobre a Reforma. Evite citar autores reformados o tempo todo. Muitos pregadores reformados estragaram seu ministério porque dão a impressão que conhecem Lutero, Calvino, Spurgeon e os puritanos mais do que o apóstolo Paulo, pela quantidade de vezes que ficam citando autores reformados em seus sermões. Evite clichés evangélicos e reformados. Pregue a Palavra e deixe que seus ouvintes concluam que as doutrinas reformadas são, na realidade, bíblicas.



9. Não estou dizendo que você deve "esconder o jogo" para evitar ser colocado para fora de sua igreja. Faz parte da integridade e da honestidade cristãs assumirmos o que pensamos. Assuma sua posição, mas de forma inteligente e sábia, de forma que muitos entendam a mudança que ocorreu em você. Por outro lado, evite a síndrome de mártir. Eu pessoalmente detesto essa atitude que por vezes alguns reformados adotam quando estão em minoria e estão sofrendo resistência. Se ao final não tiver jeito e você tiver mesmo de sair da sua igreja, saia com dignidade, não saia atirando nem acusando as pessoas.


10. Não veja as perseguições que você tem sofrido dentro de sua igreja como algo pessoal, mas como a reação de irmãos sinceros do outro lado de um conflito que já dura séculos dentro da igreja cristã, que é aquele entre semipelagianos-erasmianos-arminianos, de um lado, e agostinianos-calvinistas-puritanos, de outro. Lembre que em ambos os lados há crentes verdadeiros e sinceros.


Por fim, existem já no Brasil várias igrejas pentecostais-reformadas, pequenas, é verdade, ainda nascentes. Mas, mesmo não sendo pentecostal, profetizo que esse movimento pode crescer muito no Brasil. Muitas igrejas históricas já são pós-reformadas e é muito triste ver o esquecimento das suas heranças e como vai ficando cada vez mais difícil um retorno verdadeiro. Quem sabe os pentecostais não estejam predestinados a avançar bastante a teologia da Reforma no Brasil?

Fique em paz. Um abraço do seu irmão e amigo,

Augustus


Fonte: O Tempora, O Mores
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