quarta-feira, 20 de julho de 2016

O FUTURO CRISTÃO DA CHINA




No fim da Guerra Civil Chinesa em 1949, quando o partido Comunista destruiu os Nacionalistas e fundou a República Popular da China, os cristãos na China somavam meio milhão. No entanto, aproximadamente setenta anos mais tarde, sob a rigorosa repressão do governo chinês, essa população ultrapassou os sessenta milhões, de acordo com o Fenggang Yang, um sociólogo da Purdue University. O número cresce aos milhões a cada ano, um fenômeno que alguém descreveu como uma torrente ou um gêiser. Nesse ritmo, em 2030 os cristãos na China passarão dos 200 milhões, superando os Estados Unidos e fazendo da China o país com a maior população cristã do mundo. Os primórdios desse imenso crescimento podem ser remontados a dois momentos na história chinesa contemporânea: a Revolução Cultural iniciada por Mao Zedong, em 1966, e o massacre de Tiananmen Square instigado por Deng Xiaoping, em 1989. Incontáveis vidas inocentes foram mortas como resultado desses dois cataclismos, e a crença do povo no Marxismo-Leninismo e no Maoísmo foi arruinada. Esses eventos revelaram um grande vazio espiritual, e os chineses começaram a procurar por uma nova fé.


Quando a Revolução Cultural acabou, foi como se a geração de meus pais simplesmente tivesse despertado de um sonho: constatei que o homem que eles tinham venerado como o próprio Sol Vermelho não passava de um ditador cruel e mesquinho que levou uma vida licencioasa e dissoluta. Meu pai foi um engenheiro e membro do Partido Comunista. Ele disse-me que quando o avião que transportava o vice-premiê Lin Biao – antes o aparente sucessor de Mao, mas, depois, estigmatizado como um traidor – misteriosamente caiu nas planícies da Mongólia, em 1971, sua crença no Comunismo espatifou-se junto com ele.

Meu despertar veio em 4 de junho de 1989, no meio do massacre de Tiananmen Square. Com dezesseis anos à época, eu e minha família ouvimos escondidos os relatos dos acontecimentos daquela noite nas rádios BBC e VOA. Quando os sons de gritos, choros e tiros foram emitidos pelos auto-falantes, toda a propaganda política que me foi incutida na escola, como “Sem o Partido Comunista não haveria uma nova China”, virou pó. A noite de 4 de Junho abriu um abismo entre o regime chinês e eu. Jurei que nunca trabalharia para um governo que abre fogo contra um povo desarmado e indefeso.

Anos mais tarde, em Beijing, conheci o Tiananmen Mothers, um grupo de ativistas da democracia chinesa composto por pais, parentes e amigos de vítimas do massacre. A professora Ding Zilin, mãe de uma das vítimas, deu-me uma cópia de um livro que ela havia compilado, Interviews with June 4 Victims [Entrevistas com as vítimas de 4 de Junho]. No frontispício estava manuscrito: “Se meu filho estivesse vivo, ele seria como um irmão para você”. Seu filho, Jiang Jielian, era apenas um ano mais velho que eu. Se eu não tivesse estado na longínqua província de Sichuan, mas no coração do movimento democrático de Beijing, ele poderia ter sido eu?

Após Tiannanmen, Deng Xiaoping julgou que o segredo para manter o regime no poder era produzir uma meia dúzia de ricos. Ele fez seu sonho econômico de tornar-se rico virar realidade, embora sacrificando o sonho político de muitos em viver em uma sociedade livre. Como uma droga, no entanto, a influência do dinheiro sobre as pessoas dura pouco. O homem não pode viver só de pão. Além de suas necessidades materiais encontram-se as espirituais também. Os líderes do governo também perceberam uma crise. Eles começaram a revirar pelo confucionismo e pelo budismo que tinham descartado, esperando recuperar a antiga autoridade moral dessas tradições para o partido.

A tradição de ensino que começou com Confúcio guiou os chineses por dois milênios. O confucionismo enfatiza a importância de cultivar-se o caráter bem como o intelecto, de reprimir o desejo e manter as coisas moderadamente e ter boa vontade para com todos. “Respeite qualquer idoso como você respeitaria os seus pais; cuide das crianças como você cuidaria dos seus filhos”. Tal conselho seria acatado em qualquer lugar do mundo civilizado, ecoando o mandamento de Jesus para “amar o próximo como a si mesmo”. Por outro lado, como um instrumento político, o confucionismo tem sido usado pelos monarcas para controlar e manipular as pessoas; eles garantem soberania absoluta ao apelar para o “mandato celestial” e para a “ortodoxia confuciana”. Começando com a dinastia Han em 141 a.C., o confucionismo foi promulgado como a religião oficial do Estado. Ao longo do tempo, tornou-se cada vez mais estabelecido no escalão hierárquico e social como a fonte de todo sentido e respeito. Somente no século passado foi que os chineses começaram a refletir criticamente sobre o pensamento confuciano, começando com o Movimento Quatro de Maio de 1919, onde muitos intelectuais importantes introduziram as ideias ocidentais de ciência moderna e democracia no país, derrubando o confucionismo de seu altar.

Os comunistas tinham razões estritamente ideológicas para descartar a herança confuciana chinesa, mas para Mao, a aversão era pessoal. Quando jovem, ele trabalhou por um breve período na Biblioteca da Universidade de Beijing. Lá, sentiu-se menosprezado pelos professores e alunos que adotaram Confúcio como seu modelo. Daí surgiu seu ódio permanente pelos intelectuais. Ele os visou especialmente na revolução, chamando-os de “os fedorentos número nove”, o patamar mais baixo da classe de inimigos após os latifundiários, os camponeses ricos, os reacionários, os maus elementos, os direitistas, os traidores, os espiões a os “seguidores da via capitalista”. Muitos estudiosos e escritores foram sujeitos a tortura física e psicológica por Mao; alguns foram levados ao suicídio. O líder supremo fez até mesmo sua Guarda Vermelha derrubar os templos de Confúcio e cavar sua sepultura. Hoje, contrastando com isto, os funcionários do partido se agarram a Confúcio como um homem se afogando se agarra a qualquer coisa que vir pela frente. Sem nem mesmo terem se desculpado pelo que fizeram para destruir o confucionismo, eles agora fundam os assim chamados Institutos Confúcio ao redor do mundo, sem medir esforços, para promover sua agenda. Os institutos oferecem ajuda financeira aos estudiosos da China no Ocidente, convidando-os para excursões de luxo pelo país em troca de avaliações favoráveis do governo chinês. Além disso, eles colocam os críticos do governo na lista negra e mandam seus nomes para as embaixadas chinesas ao redor do mundo, as quais, por sua vez, lhes negam vistos. Os Institutos Confúcio são instrumentos políticos para a manutenção do poder, não recursos genuínos para a renovação cultural. Se os comunistas não tivessem exumado a sua cova, Confúcio estaria rolando nela.

Na China, o confucionismo está passando por uma transformação de estilos também. No comando do governo, muitas universidades estabeleceram centros de estudos chineses dedicados a pesquisar textos confucianos clássicos e história. Alguns alunos recusam-se a usar quepes e togas ocidentais nas cerimônias de graduação em favor do hanfu, uma vestimenta tradicional originária da dinastia Han. Jovens acadêmicos escrevem cartas abertas condenando a celebração popular do natal como “o esquecimento das raízes”. Em Qufu, a cidade natal de Confúcio, alguns habitantes que querem observar apenas o Ano Novo Chinês se opuseram à construção de igrejas. Para eles, defender o que entendem ser a cultura confuciana é mais importante do que a liberdade religiosa. Na China, o choque de civilizações aparenta estar a pleno vapor.

Se o confucionismo pode apenas ser considerado uma filosofia ética e política, mas não uma religião em sentido estrito, então a China hoje só reconhece cinco grandes religiões: Budismo, Taoísmo, Catolicismo, Protestantismo e Islamismo. O governo criou a Administração de Estado para Assuntos Religiosos, sob as ordens de seu Departamento de Trabalho da Frente Unida, para manter uma vigilância cuidadosa e um pequeno controle sobre os adeptos, estabelecendo-se efetivamente como o sumo sacerdote presidindo os assuntos internos das organizações religiosas. É exatamente isso o que o presidente chinês Xi Jinping está fazendo com respeito ao cristianismo. Na Conferência Nacional sobre Trabalho Religioso em Beijing, em abril deste ano, ele declarou que a religião deve adaptar-se à ordem social existente na China e aceitar a liderança do partido. Como um líder, Xi parece ligeiramente inseguro. Ele está desconfiado da sociedade civil e vê o cristianismo como uma ameaça: é a maior força na China fora o partido comunista.

Na China, o número de igrejas nos lares é três vezes maior do que o número de igrejas patrocinadas pelo governo. Contra as igrejas nos lares que se recusam a cooperar, o governo tem empreendido uma operação-limpeza na província oriental litorânea de Zhejiang, especialmente na cidade de Wenzhou, conhecida como a “Jesusalém da China”, onde quinze por cento da população é cristã. Em dois anos, mais de duas mil igrejas em Zhejiang foram demolidas, e aproximadamente duas mil cruzes foram removidas. A cena da cruz sendo removida de uma igreja na vila Ya, situada na cidade de Huzhou, em 7 de agosto de 2015, foi simbólica. Trabalhadores migrantes contratados por funcionários do governo capotaram o carro da paróquia, e então a polícia chegou. Eles arrastaram o pastor, intimidaram os paroquianos, isolaram o terreno da igreja e jogaram spray de pimenta nos manifestantes. Eles encheram a igreja de cães. Monges budistas e sacerdotes taoístas contratados por oficiais vieram para entoar e realizar rituais em frente à igreja. Muitas pessoas, incluindo o procurador da igreja, foram detidas e interrogadas.

Zhang Kai, um advogado de direitos humanos que estivera fornecendo suporte legal para igrejas na província de Zhejiang, foi levado sob custódia em 25 de agosto de 2015, o dia anterior em que ele devia encontrar-se com David Saperstein, embaixador itinerante para a liberdade religiosa internacional dos Estados Unidos. Seis meses depois, Zhang foi obrigado a ir para a televisão, declarando o seguinte: “Transgredi a lei, perturbei a paz e violei, pus em perigo a segurança nacional e violei a ética da minha categoria. Arrependo-me profundamente de minhas ações”. Emagrecido, com o corpo cruelmente encurvado pela tortura, ele ficou praticamente irreconhecível. Na China de Xi, a televisão substituiu os tribunais. Confissões televisionadas são a moda do dia. Infelizmente, a administração Obama senta-se e assiste, relutante em pressionar mais o governo chinês e exigir reforma.

Um documento interno do governo obtido pelo New York Times em maio de 2014 mostra que as demolições de igrejas são parte de uma campanha maior para reprimir a influência do cristianismo sobre o público. De acordo com a página da declaração de política provincial, a administração Xi quer pôr um fim aos sites religiosos “excessivos” e às atividades religiosas “excessivamente populares”, mas isso se refere a uma religião em particular – o cristianismo –, e um símbolo – a cruz. A estratégia é fácil de discernir: primeiro Wenzhou, depois o restante da China.

Entretanto, os cristãos chineses têm se recusado a entregar os pontos. Uma das frases que ouvi na maioria das vezes entre eles é: “Quanto maior a perseguição, maior o avivamento”. Para os cristãos dissidentes, as remoções da cruz e a demolição de igrejas são apenas o prelúdio em uma história que imita a Paixão e a Ressurreição de Cristo. Eles falam sobre como, durante a Revolução, a população cristã em Wenzhou, na verdade, cresceu muitas vezes.

Na Igreja de Zengshan, vizinha a Wenzhou, vê-se membros colocando em prática o que aprenderam ao resistir à administração comunista: pedregulhos empilhados fora do portão principal para bloquear o acesso de veículos, panos pretos puxados sobre as barras de aço para evitar espionagem, arames farpados colocados no topo da cerca em voltar da igreja para dissuadir os invasores, câmeras instaladas em cada esquina para detectador intrusos, alto-falantes em caso de emergência, trancas na porta principal que conduz à cruz, uma equipe especial para proteger a cruz com seus próprios corpos se necessário for e contraespiões em vários agências governamentais. Mao pode ter inventado a “guerra do povo”, mas seu partido jamais imaginou que um dia tomaria uma dose do seu próprio veneno.

Desde o alvorecer do novo milênio, o cristianismo na China tem redirecionado seu crescimento em direção a aproximadamente uma centena de cidades por todo o país. Grupos de profissionais dinâmicos jovens e instruídos têm se reunido em igrejas urbanas, quebrando o estereótipo na psique de muitos chineses de cristãos como pessoas idosas, débeis, doente ou inválidos. Essas igrejas não podem se registrar no Ministério de Assuntos Civis e adquirir status legal, mas elas são o primeiro passo para os cristãos assumirem a liderança no desenvolvimento de uma sociedade independente do controle do governo. Elas têm sites, locais de reunião, cronogramas, listas de discussão, comunicados e inclusive publicações – que não podem ser vendidas, mas podem ser circuladas entre os membros da igreja.

As igrejas urbanas da China serão uma força importante em sua democratização, pois uma sociedade livre requer uma sociedade civil capaz de resistir à tirania e ao abuso de poder. Em primeiro lugar, entretanto, eles terão de remediar a noção equivocada, presente até mesmo entre alguns frequentadores de igrejas, de que a religião devia ser uma questão privada. O que se faz necessário é uma teologia política enfatizando a soberania da lei de Deus, em vez da separação entre igreja e estado.

O cristianismo transformou a minha maneira de me ver como um dissidente. Ao longo de décadas de envolvimento com o movimento democrático chinês, vi os assim chamados dissidentes pensar o mesmo, falar o mesmo e agir da mesma forma daqueles de quem eles supostamente discordavam. Os comunistas e dissidentes são, muitas vezes, espíritos afins. Também já vi ambições pessoais e lutas de poder separando amigos e colocando em oposição aqueles que deviam estar trabalhando juntos. Meus companheiros dissidentes depositam muita esperança na democracia, mas ela é tão-somente um método melhor de gestão pública e divisão de poderes – o mal menor, como disse Churchill. Se alguém não acredita em algo que não seja a democracia, esse tal não é melhor do que os comunistas, fazendo de um sistema político um deus.

Quando me tornei cristão, aprendi a reconhecer-me como um pecador. Ao fazer isso, desenvolvi uma sensibilidade para com o pecado que me ajuda a reconhecer o mal e a injustiça quando os vejo. Enquanto mostro a tirania do regime comunista, reflito sobre ela e julgo a mim mesmo. Essa obra interior de arrependimento pelos meus próprios pecados transformou minha luta contra o totalitarismo. Não estou mais simplesmente apontando as falhas do mundo. Também as reconheço em mim mesmo.

Lendo Calvino, o teólogo da depravação total e da predestinação, passei a considerá-lo como um Pai Fundador dos Estados Unidos mais importante do que o próprio George Washington. Eleições gerais, habeas corpus, liberdade de contrato, igualdade perante a lei, julgamento por júri, direito comum, livre mercado, liberdade de expressão e imprensa e liberdade religiosa – tudo isso é reforçado pelo legado de Calvino e pelo legado da Bíblia. Assim, tornei-me um liberal clássico ou, no linguajar americano de hoje, um conservador – algo raro entre meus pares chineses. Calvino, Locke, Burke, Tocqueville, von Mises e Hayek – todos são educativos para mim, embora alguns não sejam cristãos no sentido tradicional.

Contudo, nenhuma influência tem sido maior sobre mim do que a de Dietrich Bonhoeffer. Seu alerta de que “Um estado que ameaça a proclamação da mensagem cristã nega a si mesmo” tornou-se um lema para os cristãos da China, sobre os quais ele exerceu uma grande influência. Seu foco no gemeisames Leben ou “vida juntos” (o que significa que os cristãos formam uma comunidade mais coesa, como se fosse de um único organismo vivo) tem ressoado pela China. É óbvio que Deus tem um relacionamento pessoal com cada um de nós, mas é o fato de que amamos uns aos outros, ajudamos uns aos outros e oramos uns pelos outros que nos torna possível completar a nossa peregrinação. Desde que me tornei cristão, não deixei a igreja, na China ou nos Estados Unidos. O cristão está para a igreja assim como o ramo está para a árvore. Ele não enfraquecerá enquanto for parte de uma árvore.

Os cristãos chineses também veem em Bonhoeffer um homem que ousou promover uma guerra entre uma formiga e um elefante. Ele encontrou sabedoria e coragem em Jesus, entendendo que ele existe pelos outros, e aqueles que o seguem deviam fazer o mesmo. Bonhoeffer não se esquivou de denunciar a covardia e colaboracionismo da Deutsche Christen [Cristãos Alemães], as igrejas que aquiesceram ao controle nazista. Ele expôs a razão por trás do fracasso delas em resistir: graça barata. “Graça barata é a pregação do perdão sem a exigência do arrependimento, do batismo sem a disciplina eclesiástica, da comunhão sem a confissão e da absolvição sem a confissão pessoal”, escreveu ele em The Cost of Discipleship [O Custo do discipulado]. A graça barata torna a fé sem gravidade e impotente. A verdadeira graça capacita-nos a encarar nosso pecado e lutar contra ele. Ou a reconhecer e combater a injustiça social. O regime comunista chinês está rumando para o fascismo. Quão oportunos são o pensamento e práxis de Bonhoeffer para os chineses hoje! Nós, também, devemos nos conscientizar da graça barata, que nos conduz à servidão a Mamon, o instrumento de sedução normalmente usado para subornar as nossas consciências.

Bonhoeffer também percebeu que o Nazismo tem suas raízes na deslealdade do homem a Deus e seu culto de si mesmo. O mesmo poderia ser dito do Comunismo. Solzhentsyn chamou o ateísmo de a peça central do Comunismo, e uma aversão a Deus a principal força motora por trás do pensamento marxista. Destruir o regime comunista não resolverá todos os problemas da China. Os chineses precisam experimentar uma profunda transformação espiritual a fim de restaurar a liberdade e dignidade que Deus lhes conferiu quando os criou à Sua imagem. O caminho a seguir exige que desviemos os olhos de nós e nos voltemos para o divino.

Embora a China comunista seja uma sociedade totalitária, os cristãos podem aprender e exercer um estilo de vida democrático na igreja, e então atuar como um fermento na sociedade. Por exemplo, até agora os chineses não têm direitos de voto legítimo, mas os congregados podem eleger seus próprios membros do conselho e líderes administrativos. Para aqueles que não têm experiência em campanha eleitoral e eleição de cargos, as igrejas são um celeiro de atividade cívica. Muitas dessas igrejas são presbiterianas e calvinistas, a mesma tradição que desempenhou um papel central no surgimento da democracia no Ocidente.

As igrejas já estão envolvidas em obras de caridade, educação, cultura e outros setores públicos, ampliando ainda mais o espaço público da China. Por exemplo, na esteira do terremoto de Sichuan, em 2008, centenas de igrejas rapidamente criaram a associação voluntária China Christian Action Love para prestar socorro, o que muitas vítimas de desastres elogiaram como superando os esforços do governo em termos de velocidade e constância. Além disso, algumas igrejas fundaram escolas para os filhos de seus membros como uma alternativa ao currículo estatista das escolas públicas. Através das igrejas, os cristãos chineses estão se tornando agentes ativos na sociedade, em vez de indivíduos passivos controlados pelo governo.

Eu não somente testemunhei, mas também posso comprovar este avivamento. Minha esposa, Liu Min, foi batizada e tornou-se cristã em Beijing, em 2001. Em pouco tempo ela organizou um pequeno grupo de estudo bíblico em casa com três casais.

Dois anos mais tarde, o Espírito Santo fez amizade comigo e me permitiu confessar meus pecados. O Senhor me deu a chance de arrepender-me e aceitou-me como seu servo humilde. Fui batizado na véspera de Natal. Nosso grupo de estudo bíblico tornou-se uma arca. Na medida em que advogados de direitos humanos, escritores independentes, jornalistas e sobreviventes de Tiananmen juntaram-se a nós a bordo de nossa embarcação, nossa comunidade de fé também se tornou um espinho para o regime. Meu querido amigo Liu Xiaobo, o corajoso ativista dos direitos humanos, era um amigo da igreja e expressou seu apoio a nós escrevendo quando fomos acossados pelo governo.

Na noite de 10 de dezembro de 2010, enquanto a cerimônia do Prêmio Nobel da Paz em homenagem a Liu estava acontecendo em Oslo, fui sequestrado pela polícia secreta e conduzido para os subúrbios de Beijing. Eles me bateram e torturaram por horas, quebrando meus dedos um por um. Apaguei e fui levado a um hospital. Um hospital em Changping, um subúrbio de Beijing, recusou me aceitar, dizendo que eu “não tinha mais jeito”. Então eu fui levado a um hospital em Beijing. Minha vida foi salva. Por dias, minha esposa estava em prisão domiciliar em não sabia do meu paradeiro, nem mesmo se eu estava vivo. Ela foi acometida de uma sensação ruim e não conseguia comer ou dormir. Em poucos dias, maior parte do seu cabelo caiu. Antes de perder a consciência, orei: “Senhor, se tu me aceitas, então faz de mim um mártir. Não sou digno disso, mas estou disposto”. Nesse momento, ouvi claramente a sua voz: “Tão certo como eu vivo, nenhum fio da tua cabeça cairá no chão”. E: “Não temais por aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma”. Deus me deixou vivo, pois tem grandes planos para mim. Em 11 de janeiro de 2012, assim como fez aos israelitas no Egito, Deus tirou minha família da China para a capital dos Estados Unidos da América.

A polícia secreta me advertira: você é o número um da lista de “duas centenas de intelectuais para enterrar vivo” criada por Zhou Yongkang, então secretário da Comissão Central de Assuntos Políticos e Legais. Quem teria imaginado que hoje eu estaria escrevendo, orando e respirando desimpedidamente, achando-me em solo livre, enquanto Zhou, outrora apelidado de “czar de segurança” da China, seria condenado a viver na prisão por corrupção por seus inimigos políticos? Nos planos de Deus, os tiranos contam pouco. Como disse Maria em seu grande hino de louvor, o Magnificat, ele “agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos soberbos. Derribou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lucas 1.51-52).

Em 2013, minha esposa atendeu ao chamado do Senhor e tornou-se pregadora em tempo integral na Harvest Chinese Christian Church, nos arredores de Washington, DC[1]. Como parte do ministério, sirvo como professor de escola dominical e conduzo estudo bíblico. Eu até cozinho para meus amados irmãos e irmãs. Deus faz com que eu maneje uma caneta em uma mão e uma espátula na outra. Nem todos em minha congregação leram meus livros, mas todos experimentaram da minha comida – e com muitos elogios!

Deus me deixou viver para testemunhar e testificar dele através da escrita. E pelos 1,4 bilhões de almas de minha terra natal, eu continuarei. Faço-o com grande expectativa. Uma fé crescente em Cristo, fortalecida pelos vínculos do companheirismo na vida da igreja, está soprando vida nova em meu país. Nem a mão mortal do Comunismo, nem a imitação cínica do Confucionismo, nem o capitalismo, nem a democracia ou qualquer coisa terrena determinará o destino da minha terra. O cristianismo é o futuro da China

[1] A perspectiva do articulista não representa a posição do Voltemos ao Evangelho no tocante à ordenação feminina. Para maiores esclarecimentos quanto a isso, clique aqui. (Nota do Tradutor.)
Por: Yu Jie. © 2016 First Things. Original: Chinas christian future

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Traduzido por Leonardo Bruno Galdino no Ministério Fiel via Voltemos ao evangelho

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