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sábado, 30 de maio de 2026

Quando a Fé Enxerga as Promessas de Deus

Texto Bíblico: Deuteronômio 1.19–25

Uma das maiores e mais intensas batalhas da vida cristã não acontece ao nosso redor, nas esferas públicas ou nas pressões visíveis do mundo; ela acontece secretamente dentro de nós. É a batalha milenar entre a fé e a incredulidade.

Muitas vezes, em Sua soberana providência, Deus nos conduz com precisão até as portas de grandes oportunidades e desdobramentos espirituais, mas o medo paralisante nos impede de dar o passo seguinte. O Senhor abre caminhos outrora intransitáveis, concede promessas infalíveis e demonstra Sua fidelidade de modo tangível, mas o nosso coração vacila e treme diante da magnitude dos desafios.

O texto de Deuteronômio 1.19–25 reconta um dos momentos mais dramáticos e decisivos de toda a história de Israel. O povo eleito havia sido resgatado com braço forte do Egito, atravessado as agruras do deserto e chegado finalmente a Cades-Barneia, exatamente às portas da Terra Prometida.

A promessa estava diante de seus olhos. A terra descrita pelo Senhor era real, palpável e geográfica. A bênção estava a poucos metros de distância. No entanto, naquele exato momento de transição, surgiu uma pergunta crucial que testaria as estruturas daquela nação: Israel caminharia pela fé ou pela vista?

A resposta dada a essa pergunta definiria de forma implacável o destino teológico e histórico de toda uma geração. O mesmo, meus irmãos, acontece conosco hoje. Todos os dias, nas encruzilhadas da vida, somos chamados pelo Espírito Santo a decidir:

  • Entre a confiança pactual e o medo circunstancial;
  • Entre a fé que avança e a incredulidade que retrocede;
  • Entre a obediência resoluta e a hesitação pecaminosa.

Como bem declarou o reformador João Calvino:

“A incredulidade fecha os olhos para as promessas que Deus coloca diante de nós, tornando-nos cegos em meio à luz da Sua graça.”

Neste trecho de Deuteronômio, Moisés está exercendo o seu papel pastoral e profético ao recordar à nova geração os acontecimentos trágicos ocorridos aproximadamente quarenta anos antes. Ele reconta que Israel havia partido de Horebe (o Monte Sinai) e atravessado o que ele mesmo denomina de "grande e terrível deserto".

Durante todo esse trajeto hostil, Deus os havia conduzido de forma manifestamente sobrenatural: através da nuvem que os guiava de dia, do fogo que os aquecia e iluminava de noite, do maná que caía diariamente do céu e de Sua proteção constante contra as intempéries e inimigos.

Ao chegarem finalmente à fronteira de Cades-Barneia, Moisés agiu como o arauto de Deus e declarou com santa ousadia: “Chegados sois à região montanhosa dos amorreus, que o Senhor, nosso Deus, nos dá” (v. 20). A promessa estava materializada diante deles.

Entretanto, movido por uma prudência puramente humana e por uma ponta de desconfiança, o povo sugeriu uma estratégia: enviar espias para examinar a terra, mapear as cidades e descobrir o caminho a seguir. Doze homens de destaque foram enviados e, após inspecionarem o território, retornaram trazendo os frutos exuberantes da terra e confirmando: a terra é extraordinariamente boa.

O problema prático, portanto, nunca esteve na herança ou na promessa; o problema estava diagnosticado no coração incrédulo do povo. Os versículos 19 a 25 preparam o cenário teológico para a grave crise de fé que se desdobraria a seguir. Este texto revela princípios preciosos sobre como a fé reformada e bíblica deve responder às promessas soberanas de Deus.

Ao examinarmos com temor essa passagem, descobrimos quatro características fundamentais de uma fé que aprende a enxergar as promessas de Deus acima das circunstâncias e das ameaças deste mundo.

1. A Fé Reconhece a Mão de Deus na Jornada (v. 19)

“E partimos de Horebe, e caminhamos por todo aquele grande e terrível deserto que vistes, pelo caminho da montanha dos amorreus, como o Senhor nosso Deus nos ordenara; e chegamos a Cades-Barneia.”

Moisés começa o seu memorial relembrando o caminho percorrido. Ele não minimiza a realidade: o deserto foi difícil, árido, exaustivo e perigoso. Humanamente falando, era um ambiente de morte. No entanto, a teologia bíblica nos ensina que Israel não sobreviveu e chegou a Cades-Barneia por mero acaso, por sorte ou por força de sua própria liderança militar. O povo chegou ali porque a mão invisível e soberana de Deus os sustentou e os conduziu passo a passo.

Muitas vezes, meus irmãos, cometemos o erro espiritual de olhar para trás em nossa biografia e enxergar estritamente as dores, as perdas e as dificuldades do deserto da vida. A fé genuína, contudo, calça os óculos da providência divina e aprende a enxergar a fidelidade do Senhor em cada curva do caminho.

O deserto por onde você passou ou está passando hoje não é, de forma alguma, um sinal do abandono de Deus. Ao contrário, o deserto é a escola do Espírito Santo, o instrumento pedagógico pelo qual Deus esvazia o Seu povo de si mesmo para prepará-lo para receber a promessa.

Ilustração: Lembramo-nos da trajetória do patriarca José. Ele precisou ser lançado no poço, vendido como escravo por seus próprios irmãos e esquecido injustamente em uma masmorra egípcia antes de ser exaltado ao trono como governador. Décadas mais tarde, ao olhar retrospectivamente para a sua história, ele não manifestou amargura, mas declarou com profunda convicção pactual: “Deus me enviou adiante de vós... Não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus”. O que aos olhos humanos parecia um desastre completo, na teologia da aliança era a perfeita providência em marcha.

Aplicação Prática:

  • Entenda que Deus está trabalhando ativamente em sua vida, mesmo nos períodos de aparente silêncio e escassez.
  • Pare de interpretar o deserto como evidência de ausência divina; o Senhor está com você na fornalha e na provação.
  • Cultive a memória espiritual e reconheça que o seu passado é um rastro indelével da fidelidade do Senhor.

Como afirmou de maneira magnífica o pregador vitoriano Charles H. Spurgeon:

“A providência é a mão invisível de Deus conduzindo inteligentemente Seus filhos; mesmo quando não podemos rastrear a Sua mão, devemos confiar no Seu coração.”

2. A Fé se Apoia Categoricamente nas Promessas de Deus (vv. 20–21)

“Então eu vos disse: Chegados sois à montanha dos amorreus, que o Senhor nosso Deus nos dá. Eis que o Senhor teu Deus pôs esta terra diante de ti; sobe, possui-a, como te falou o Senhor Deus de vossos pais; não temas, e não te assustes.”

Observem com extrema atenção a natureza e a gramática da linguagem divina utilizada por Moisés: “o Senhor nosso Deus nos dá” e “pôs esta terra diante de ti”. O Senhor não utiliza uma linguagem de incerteza, dúvida ou probabilidade humana. Deus não diz: "Talvez, se vocês se esforçarem muito, vocês consigam conquistar". Ele afirma no presente e no perfeito: a terra já foi entregue por decreto soberano. A herança já estava garantida juridicamente pela palavra empenhada de Deus; a posse e a ocupação histórica eram apenas uma consequência da obediência.

A fé salvífica não depende daquilo que os olhos naturais conseguem contemplar, mas apoia-se unicamente naquilo que a boca de Deus declarou. O povo de Israel deveria olhar para as promessas transmitidas a Abraão, Isaque e Jacó e simplesmente marchar em obediência.

Quando colocamos as nossas circunstâncias acima das promessas de Deus, cometemos o pecado da idolatria visual. A fé reformada nos chama a vivermos pela Palavra e a andarmos pelo decreto de Deus, custe o que custar.

Ilustração: Consideremos o exemplo do pai da fé, Abraão. Quando Deus lhe prometeu que ele seria pai de uma multidão de nações, ele já era idoso e Sara era estéril. Humanamente e biologicamente falando, aquilo era uma impossibilidade absoluta. O apóstolo Paulo, em Romanos 4, registra o milagre: “Abraão, esperando contra esperança, creu... E não enfraqueceu na fé, nem considerou o seu próprio corpo amortecido... mas foi robustecido na fé, dando glória a Deus”. A promessa de Deus era infinitamente maior e mais real para ele do que as limitações de seu próprio corpo.

Aplicação Prática:

  • Lembre-se de que as promessas imutáveis da Escritura são infinitamente mais estáveis e confiáveis do que os seus sentimentos oscilantes ou as notícias do mundo.
  • A verdadeira obediência cristã não espera os obstáculos desaparecerem para começar a agir; ela avança baseada na autoridade de Quem ordenou.
  • Descanse na certeza de que Deus é perfeitamente poderoso para cumprir cada palavra que empenhou a seu respeito.

Como nos admoesta o pastor D. Martyn Lloyd-Jones:

“A fé consiste em recusar-se a olhar apenas para as circunstâncias; ela é o ato de apegar-se à Palavra de Deus apesar de tudo que pareça contradizê-la ao nosso redor.”

3. A Fé Não Ignora a Realidade, mas Interpreta a Realidade à Luz de Deus (vv. 22–24)

“Então todos vós vos chegastes a mim, e dissestes: Enviemos homens diante de nós, que nos espiem a terra... E este negócio pareceu-me bom aos meus olhos; e tomei de vós doze homens... E voltaram-se, e subiram à montanha, e chegaram até ao vale de Escol, e o espiaram.”

Os espias foram enviados de forma organizada. Eles caminharam pelo território inimigo, analisaram as defesas militares, inspecionaram a robustez das cidades fortificadas e trouxeram informações geográficas perfeitamente reais.

Precisamos entender um ponto crucial, meus irmãos: a fé bíblica nunca foi e nunca será sinônimo de alienação, cegueira ou negação da realidade. A fé cristã não ignora os fatos concretos, as dores reais ou o tamanho dos diagnósticos.

A grande e divisora questão espiritual nunca foi a existência ou não de obstáculos em Canaã. A questão central residia em: quem governa e soberanamente reina acima dos obstáculos? A incredulidade olha para os gigantes e diz: "Nós somos como gafanhotos diante deles". A fé olha para os mesmos gigantes e declara: "Eles são como pão para nós, porque o Senhor está conosco". A fé não nega a existência das muralhas; ela reconhece que o Deus Soberano joga muralhas ao chão com o sopro de Sua boca.

Ilustração: Pensem no épico embate entre Davi e o gigante Golias no vale de Elá. Todos os soldados do exército de Israel e o próprio rei Saul enxergavam exatamente o mesmo campo de batalha e o mesmo gigante de quase três metros de altura. No entanto, os soldados tomados de medo diziam: "Ele é grande demais, é impossível derrotá-lo". Davi, por sua vez, revestido de uma perspectiva teocêntrica e pactual, olhou para o mesmo filisteu e pensou: "Ele é grande demais, é impossível errar o alvo se eu marchar no nome do Senhor dos Exércitos". O gigante era o mesmo, mas a perspectiva mudou tudo.

Aplicação Prática:

  • Não adote uma postura de negação infantil diante dos problemas severos da sua vida, da sua saúde ou da sua família.
  • Todavia, ao constatar o tamanho do problema, recuse-se categoricamente a esquecer o tamanho, a glória e a majestade do seu Deus.
  • Aprenda a interpretar todas as crises e pressões históricas à luz da soberania absoluta do Senhor do Universo.

Como declarou de forma contundente o teólogo reformado R. C. Sproul:

“Não existe uma única molécula rebelde em todo o universo que esteja fora do controle soberano e do governo de Deus.”

4. A Fé Enxerga a Bondade de Deus Mesmo Antes da Posse (v. 25)

“E tomaram do fruto da terra nas suas mãos, e no-lo trouxeram, e nos deram a resposta, dizendo: Boa é a terra que nos dá o Senhor nosso Deus.”

Os doze espias retornaram ao acampamento trazendo em suas próprias mãos as provas materiais da fidelidade divina: cachos de uvas tão imensos que precisavam ser carregados em um madeiro por dois homens, além de romãs e figos extraordinários. As evidências eram incontestáveis: a terra era exatamente tão fértil e maravilhosa quanto Deus prometera no Egito. O povo recebeu em suas mãos uma amostra grátis, um penhor da bondade do Senhor.

A profunda e dolorosa tragédia que a história nos revela é que, mesmo diante de evidências tão claras da graça e do cumprimento das palavras de Deus, aquela geração escolheu deliberadamente endurecer o coração e entregar-se à murmuração e à incredulidade crônica no versículo seguinte.

Lamentavelmente, irmãos, muitas vezes agimos exatamente da mesma forma. O Senhor nos concede:

  • Respostas miraculosas de oração no passado;
  • Livramentos invisíveis e visíveis contra o mal;
  • Provisões diárias em nossa mesa e sustento na escassez;
  • Bênçãos espirituais indizíveis em Cristo Jesus.

Mesmo assim, basta surgir a primeira nuvem escura no horizonte para que o nosso coração pautado pela incredulidade comece a duvidar e a questionar o amor e o caráter de Deus.

Ilustração: Durante o seu pioneiro, doloroso e hercúleo ministério missionário nos campos da Índia, William Carey enfrentou oposição ferrenha, perda de filhos, doenças tropicais e o trágico incêndio de sua prensa tipográfica que destruiu anos de traduções da Bíblia. Em meio aos escombros e às lágrimas, Carey permaneceu inabalável e proferiu uma de suas frases mais famosas: “O futuro é tão brilhante e glorioso quanto as promessas infalíveis de Deus”. Ele conseguia contemplar a bondade do Senhor e a colheita das almas antes mesmo de ver os primeiros frutos convertidos.

Aplicação Prática:

  • Exercite a gratidão ativa e traga à memória as incontáveis evidências históricas de que Deus já foi bom e fiel para com você.
  • Não permita que o medo do amanhã ou a ansiedade do presente apaguem a memória bendita da graça que o sustentou até o dia de hoje.
  • Guarde no coração a certeza inabalável de que o nosso Deus permanece intrinsecamente bom, mesmo quando estamos cruzando o vale da sombra da morte.

Como nos lembra de forma tocante o teólogo John Piper:

“Deus está sempre realizando cerca de dez mil coisas em sua vida neste exato momento, e você provavelmente só consegue enxergar e compreender três ou quatro delas.”

CONCLUSÃO

O texto de Deuteronômio 1.19–25 se levanta diante da Igreja contemporânea como um solene e atualíssimo tratado sobre a dinâmica da fé pactual. Ele nos ensina de maneira definitiva que:

  1. Deus conduz de forma soberana e amorosa o Seu povo através das agruras do deserto;
  2. Deus cumpre fiel e infalivelmente cada uma das Suas promessas estabelecidas;
  3. Deus é infinitamente maior e mais poderoso do que quaisquer obstáculos ou gigantes históricos;
  4. E o Senhor revela a Sua bondade e o Seu favor continuamente aos Seus escolhidos.

Israel havia chegado, por pura graça, às portas da promessa. O deserto havia ficado para trás. A herança estava escancarada diante deles. Contudo, a questão principal e o grande drama daquele dia não residiam na força dos inimigos ou na altura das muralhas de Canaã; residiam unicamente no estado espiritual do coração do povo.

E hoje, a grande e divisora pergunta que ecoa deste púlpito em direção à sua vida continua sendo rigorosamente a mesma: Nós vamos confiar no caráter e na Palavra de Deus, ou vamos nos prostrar e nos render diante dos nossos medos?

Talvez você tenha entrado por essas portas hoje e se encontre posicionado exatamente diante de uma verdadeira "Cades-Barneia" espiritual em sua vida:

  • Diante de uma decisão crucial que exige renúncia e santidade;
  • Diante de um desafio familiar ou profissional que parece superior às suas forças;
  • Diante de uma clara promessa e direção da Palavra de Deus que exige que você deixe a zona de conforto;
  • Diante de uma porta aberta pelo Senhor que demanda um passo de coragem.

O Senhor da Aliança continua bradando ao seu coração por meio da Sua Palavra inspirada: “Sobe, possui a terra... não temas, e não te assustes”. Não permita, em hipótese alguma, que o medo circunstancial governe as suas decisões e domine a sua fé. Não permita que o pecado da incredulidade roube de você a alegria de desfrutar das promessas divinas.

Olhe firmemente para a pessoa de Cristo Jesus. Ele é a maior, a mais definitiva e a mais retumbante prova da fidelidade pactual de Deus para conosco. O argumento teológico do apóstolo Paulo em Romanos 8 é definitivo: “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes, o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele gratuitamente todas as coisas?”

Se Deus cumpriu a maior de todas as promessas, entregando o Seu Filho Unigênito na cruz do Calvário para nos resgatar da condenação do pecado, Ele certamente sustentará você em cada detalhe da sua caminhada e cumprirá todas as Suas promessas eternas.

Avança pela fé! Confie no Senhor com todo o seu entendimento! Marche na certeza absoluta de que a herança que Deus reservou para o Seu povo é maravilhosamente boa, porque o Deus Soberano que a prometeu é eternamente fiel.

“Boa é a terra que nos dá o Senhor nosso Deus.” (Deuteronômio 1.25)

Que o Senhor Deus nos conceda uma fé viva e operante. Amém!

Pr. Eli Vieira

 

Liderança Segundo o Coração de Deus: Compartilhando a Responsabilidade da Obra

 

Deuteronômio 1.9–18

Uma das maiores tentações na vida, no ministério e em nossas responsabilidades diárias é tentar carregar sozinhos aquilo que Deus, em Sua soberana sabedoria, planejou para ser compartilhado. Muitos líderes na igreja, no lar e na sociedade se esgotam e entram em colapso espiritual e emocional porque acreditam, erroneamente, que tudo depende deles. Muitos pais, pastores, presbíteros e líderes de ministério carregam pesos esmagadores que Deus nunca pretendeu que levassem de forma isolada.

O texto de Deuteronômio 1.9–18 nos apresenta um momento crucial e profundamente instrutivo na história do povo de Israel. O idoso profeta Moisés está relembrando a ocasião histórica em que reconheceu publicamente os seus limites e organizou líderes piedosos para ajudá-lo a conduzir a nação. O contexto original desse acontecimento encontra-se em Êxodo 18, quando Jetro, sogro de Moisés, percebeu que o legislador de Israel estava se sobrecarregando perigosamente ao tentar julgar sozinho todas as causas do povo.

A sabedoria de Deus se manifesta de forma poderosa quando Moisés compreende uma verdade eclesiológica e ministerial fundamental: a obra de Deus deve ser realizada por um povo preparado e por líderes devidamente capacitados. Este texto sagrado não trata apenas de uma mera organização administrativa ou de um organograma corporativo secular. Ele vai muito além, revelando princípios eternos sobre:

  • A liderança espiritual;
  • O serviço sacrificial;
  • A humildade ministerial;
  • A responsabilidade mútua;
  • E a justiça imparcial.

Mais profundamente, irmãos, este texto aponta para a pessoa de Cristo Jesus, o perfeito Líder que governa a Sua Igreja com graça e justiça através de servos chamados por Ele. Como bem afirmou o célebre reformador João Calvino:

“Nenhum homem possui sozinho todos os dons necessários para governar o povo de Deus.”

Para compreendermos a profundidade desta passagem, precisamos entender o milagre demográfico que ocorria ali. Israel havia crescido extraordinariamente no deserto. O versículo 10 registra de forma gloriosa a declaração de Moisés: "O Senhor vosso Deus já vos tem multiplicado". A promessa pactual feita séculos antes a Abraão, de que sua descendência seria como as estrelas do céu, estava sendo fielmente cumprida diante dos olhos de todos.

No entanto, o crescimento exponencial trouxe inevitavelmente novos e complexos desafios. Mais pessoas no acampamento significavam:

  • Mais necessidades diárias;
  • Mais conflitos interpessoais;
  • Mais demandas administrativas;
  • Mais responsabilidades pastorais.

Diante disso, Moisés percebeu a sua própria limitação humana. Ele não era onipresente nem onipotente; ele não poderia cuidar sozinho de uma nação inteira que já contava com centenas de milhares de almas. Diante dessa constatação, foram escolhidos homens que preenchiam três critérios essenciais estabelecidos no versículo 13: homens sábios, entendidos e experimentados. Esses homens auxiliariam diretamente Moisés no julgamento das causas difíceis e na administração cotidiana da comunidade. O texto bíblico nos ensina, portanto, que Deus usa lideranças humanas piedosas e estruturadas para cuidar e pastorear o Seu povo.

Ao examinarmos esse relato histórico e pactual de Deuteronômio, descobrimos cinco princípios fundamentais sobre a liderança e o serviço segundo o coração de Deus.

1. O Crescimento é Bênção de Deus, mas Traz Novas Responsabilidades (vv. 9–11)

"E eu vos falei no mesmo tempo, dizendo: Eu sozinho não poderei levar-vos. O Senhor vosso Deus já vos tem multiplicado..." (Dt 1.9-10)

Moisés inicia seu discurso reconhecendo com honestidade a sua limitação face ao crescimento do povo: "Eu sozinho não poderei levar-vos". Israel estava crescendo não por acaso ou por estratégias humanas, mas porque Deus estava cumprindo de forma soberana e milagrosa a Sua promessa pactual. O crescimento era a maior evidência da fidelidade divina no deserto.

Porém, o texto nos ensina uma lição prática: crescimento sem estrutura produz caos. Muitos líderes e igrejas desejam ardentemente o crescimento:

  • Na igreja local;
  • Na estrutura familiar;
  • Nos negócios e profissões;
  • Nos ministérios e departamentos.

No entanto, poucos estão dispostos ou preparados para assumir as pesadas responsabilidades que acompanham esse crescimento. Toda bênção concedida pelo Senhor traz consigo novas e legítimas demandas. Não existe privilégio na obra de Deus que venha desacompanhado de responsabilidade espiritual.

Lembramo-nos do que aconteceu com a igreja primitiva no livro de Atos, no capítulo 6. À medida que a igreja crescia rapidamente em Jerusalém, surgiram murmurações e problemas práticos relacionados à distribuição diária de alimentos às viúvas. A solução adotada pelos apóstolos não foi tentar frear ou impedir o crescimento, mas sim organizar melhor o ministério através da instituição dos diáconos, compartilhando a liderança.

Aplicação Prática:

  • O crescimento espiritual e ministerial exige de nós maturidade e prontidão.
  • Compreenda que quanto mais Deus confia a você — seja em dons, recursos ou pessoas —, maior será a sua responsabilidade diante d’Ele.
  • Não devemos apenas orar pedindo bênçãos e expansão; devemos clamar por sabedoria e capacidade espiritual para administrá-las com fidelidade.

Como bem advertiu o grande pregador britânico Charles H. Spurgeon:

“Deus nunca aumenta nossos privilégios sem também aumentar nossas responsabilidades.”

2. A Humildade Reconhece os Próprios Limites (vv. 9, 12)

"Como suportaria eu sozinho o vosso peso, e as vossas cargas, e as vossas contendas?" (Dt 1.12)

Moisés foi, sem dúvida, um dos maiores e mais influentes líderes de toda a história bíblica, um homem que falava com Deus face a face. Mesmo revestido de tanta autoridade, ele não teve vergonha de declarar abertamente: "Eu sozinho não poderei levar-vos". Que contraste chocante com a cultura moderna e com a mentalidade de liderança que impera em nossos dias. Vivemos em uma geração que idolatra a autossuficiência, o "superlíder" e o centralizador que finge nunca fraquejar.

Moisés, contudo, nos deixa um legado de profunda humildade. Ele reconhece sem rodeios:

  • As suas limitações humanas;
  • A sua fragilidade física e emocional;
  • A sua necessidade vital de ajuda e cooperação mútua.

Irmãos, os líderes mais perigosos na obra de Deus são exatamente aqueles que acreditam que sabem tudo, que podem tudo e que não precisam de ninguém para aconselhá-los ou ajudá-los.

Durante o seu frutífero e impactante ministério em Londres, o pastor D. Martyn Lloyd-Jones, apesar de ser um dos maiores pregadores e teólogos do século XX, frequentemente reunia-se e consultava outros pastores e líderes mais jovens. Ele entendia perfeitamente que nenhum homem detém o monopólio da sabedoria ou dos dons do Espírito Santo. A verdadeira maturidade espiritual reconhece a dependência mútua no corpo de Cristo.

Aplicação Prática:

  • Pare de tentar carregar sozinho em seus ombros o peso que Deus planejou para ser compartilhado com o corpo da igreja.
  • Entenda, de uma vez por todas, que pedir ajuda, delegar tarefas e confessar cansaço não são sinais de fraqueza, mas sim de sabedoria e maturidade.
  • O orgulho centralizador esgota o líder e paralisa a igreja, mas a humildade bíblica fortalece o ministério e gera cooperação.

3. Deus Procura Líderes de Caráter e Sabedoria (vv. 13–15)

"Tomai homens sábios, e entendidos, e experimentados entre as vossas tribos, para que os ponha por vossos chefes." (Dt 1.13)

Prestem atenção à ordem clara que Moisés dá ao povo ao estabelecer os critérios de seleção: "Tomai homens sábios, entendidos e experimentados". Observem bem, meus irmãos, quais foram os critérios ordenados pelo Senhor. Deus não exigiu:

  • Riqueza ou status social;
  • Influência política;
  • Popularidade ou carisma natural.

Os critérios divinos foram espirituais e morais: sabedoria bíblica, discernimento espiritual e maturidade testada pelo tempo. As Escrituras Sagradas sempre priorizam o caráter acima da mera capacidade técnica. Capacidade sem caráter produz destruição e escândalo no Reino de Deus. Enquanto a capacidade técnica pode ser desenvolvida com treino, a falta de caráter destrói a obra. Liderança sem integridade é um perigo terrível para o rebanho.

Conta-se a história de um empresário cristão reformado que, ao selecionar funcionários para cargos de alta confiança em sua empresa, priorizava a integridade moral em vez de currículos acadêmicos pomposos. Quando questionado sobre sua escolha, ele respondia com sabedoria pactual: "É infinitamente mais fácil ensinar uma habilidade técnica a um homem honesto do que ensinar caráter a um homem desonesto". O mesmíssimo princípio aplica-se, com muito mais gravidade, à liderança da igreja do Senhor.

Aplicação Prática:

  • Busque crescer em sabedoria e no temor do Senhor, antes de buscar posições ou títulos.
  • Lembre-se de que, diante de Deus, o seu caráter secreto importa muito mais do que a sua aparência pública ou o seu desempenho na plataforma.
  • A liderança cristã legítima é medida pelo serviço humilde, e nunca pelo status de uma posição eclesiástica.

Como asseverou com precisão o teólogo puritano John Owen:

“A santidade é a maior e mais indispensável qualificação para qualquer serviço no Reino de Deus.”

4. A Justiça Deve Refletir o Caráter de Deus (vv. 16–18)

"E no mesmo tempo ordenei a vossos juízes, dizendo: Ouvireis entre vossos irmãos, e julgareis justamente... Não conhecereis pessoas em juízo; ouvireis assim o pequeno como o grande... porque o juízo é de Deus." (Dt 1.16-17)

Moisés instrui solenemente os novos juízes sobre a seriedade do encargo: "Ouvireis entre vossos irmãos e julgareis justamente". A liderança no meio do povo da aliança nunca pode ser guiada por favoritismo, nepotismo ou interesses pessoais. O Deus da Aliança exige do Seu povo:

  • Imparcialidade absoluta;
  • Verdade inegociável;
  • Justiça prática.

O versículo 17 traz uma afirmação teológica impactante: "O juízo é de Deus". Que princípio extraordinário e solene! Todo líder cristão, seja um pastor, um presbítero, um diácono ou um pai de família, deve viver sob o constante temor de que prestará contas estritas ao Senhor pelo modo como lidera e julga. A justiça exercida pelos homens deve ser um reflexo fiel da justiça e da santidade do próprio Deus.

Durante o período da Reforma Protestante do século XVI, muitos magistrados e juízes convertidos às doutrinas da graça enfrentaram pressões absurdas para favorecer nobres influentes e amigos ricos em litígios judiciais. Os reformadores, como Calvino e Knox, insistiam implacavelmente do púlpito que a lei e a justiça deveriam ser aplicadas com perfeita igualdade a todos, pois o Deus Soberano não faz acepção de pessoas.

Aplicação Prática:

  • Trate todas as pessoas com igualdade e profunda imparcialidade, rejeitando toda forma de fofoca, acepção e favoritismo em sua vida.
  • Que as suas decisões diárias sejam governadas unicamente pela verdade das Escrituras, e nunca pela conveniência do momento.
  • Viva sabendo que o temor de Deus deve ser o árbitro de todas as escolhas que você fizer.

Como bem nos lembra o teólogo contemporâneo R. C. Sproul:

“A justiça é uma expressão direta e imutável do caráter santo de Deus.”

5. Cristo é o Líder Perfeito do Povo de Deus

(Ponto de Transição Cristocêntrica)

Meus irmãos, embora este texto de Deuteronômio destaque e organize a liderança humana e as suas estruturas necessárias, ele serve primariamente como um vetor que aponta para uma realidade muito maior e celestial. Moisés, por causa de sua fraqueza, finitude e limitação humana, precisou desesperadamente dividir as suas responsabilidades e clamar por ajudadores.

Cristo Jesus, no entanto, não possui limites. Jesus é o Líder perfeito e absolutamente autossuficiente da Sua Igreja. Ele cumpre de forma plena, cabal e perfeita o tríplice múnus:

  • Ele é o nosso perfeito Profeta, que nos revela perfeitamente a vontade do Pai;
  • Ele é o nosso perfeito Sacerdote, que intercede continuamente por nós e ofereceu a Si mesmo como sacrifício;
  • Ele é o nosso perfeito Rei, que governa e defende o Seu povo sem jamais falhar ou se cansar.

O Senhor Jesus conhece com precisão cirúrgica cada necessidade nossa, cada luta secreta do nosso coração e cada fraqueza da Sua Igreja. Aquilo que Moisés ou qualquer outro líder humano jamais seria capaz de fazer sozinho, Cristo realiza de forma absoluta e graciosa. Ele é o Supremo Pastor e Bispo das nossas almas.

Como bem declarou o pastor John Piper:

“Toda liderança cristã saudável e legítima existe unicamente para uma coisa: apontar para o verdadeiro, soberano e supremo Líder: Jesus Cristo.”

CONCLUSÃO

Ao olharmos para o espelho de Deuteronômio 1.9–18, o Espírito Santo nos constrange a aprender lições imperecíveis para a nossa caminhada pactual. Aprendemos aqui que:

  • O crescimento saudável na obra do Senhor exige responsabilidade e maturidade de todos;
  • A verdadeira humildade consiste em reconhecer os nossos próprios limites humanos;
  • Deus não busca os mais populares, mas procura líderes que andem em caráter e sabedoria;
  • A nossa justiça e tratamento com o próximo devem refletir o caráter santo do Senhor;
  • E Cristo Jesus é, e sempre será, o Líder perfeito e inabalável do Seu povo comprado.

A obra de Deus na Terra não depende e nunca dependerá do braço ou do carisma de um único homem. Ela depende exclusivamente do Deus Todo-Poderoso que, em Sua graça soberana, chama, capacita, sustenta e preserva os Seus servos na jornada do deserto rumo à glória eterna.

Como nos conforta de forma maravilhosa o Catecismo Maior de Westminster, na sua primeira e fundamental resposta:

“O fim principal do homem é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre.”

Nós glorificamos ao Senhor quando servimos ao Seu povo com desprendimento, quando lideramos com integridade e quando não tentamos roubar para nós a centralidade que pertence única e exclusivamente a Ele.

Meus irmãos, talvez você tenha entrado por essas portas hoje exausto, tentando carregar sozinho em seus ombros pesos, problemas familiares, fardos ministeriais ou culpas que Deus deseja que você compartilhe e deposite aos pés da cruz.

Talvez o Senhor Deus esteja chamando você hoje para despertar da letargia e assumir com mais fidelidade e responsabilidade o seu papel de servo na edificação do corpo da igreja. Ou talvez o Senhor esteja trabalhando pacientemente o seu caráter no anonimato do deserto, antes de expandir a sua área de influência no Reino.

Lembre-se hoje destas três verdades eternas:

  1. A obra pertence a Ele!
  2. Os dons procedem d’Ele!
  3. A força vem d’Ele!

Portanto, toda a glória, o louvor e a adoração devem voltar única e exclusivamente para Ele! Tire os olhos de suas próprias limitações, olhe firmemente para Cristo Jesus, o Supremo Pastor, e sirva-O com profunda humildade e renovada alegria.

"Porque o juízo é de Deus." (Deuteronômio 1.17)

Que o Senhor da Aliança nos abençoe e nos guie. Amém!

Pr. Eli Vieira

 

O Chamado Pactual: Rompendo a Estagnação para Possuir a Promessa

Deuteronômio 1.1–8

Meus amados irmãos, a história da redenção é, fundamentalmente, a história de um Deus que faz alianças e conduz soberanamente o Seu povo ao cumprimento de Suas promessas. Desde Abraão até a consumação em Cristo, vemos o Senhor chamando homens e mulheres a caminharem por uma fé viva, confiando não em suas próprias forças ou capacidades humanas, mas na fidelidade inabalável daquele que prometeu.

O livro de Deuteronômio se inicia com o povo de Israel posicionado estrategicamente às portas da Terra Prometida. Quarenta anos trágicos haviam se passado desde a espetacular saída do Egito. Uma geração inteira havia tombado e morrido no deserto por causa da incredulidade e da dureza de coração. Agora, uma nova geração se erguia e estava diante da oportunidade soberana de entrar na herança prometida por Deus.

O cenário que se descortina diante de nós é profundamente simbólico. Israel está posicionado exatamente em um ponto de transição:

  • Entre o passado de fracassos e o futuro de conquistas;
  • Entre a secura do deserto e a fertilidade de Canaã;
  • Entre a severidade da disciplina e a doçura da promessa.

O povo precisava compreender, de uma vez por todas, que a aliança de Deus permanecia firme e inalterada, apesar das terríveis falhas humanas. É nesse contexto que o Senhor quebra o silêncio e declara categoricamente: “Tendes estado bastante tempo neste monte”. Era um ultimato divino; um chamado urgente para romper com a estagnação. Era hora de levantar acampamento, marchar e possuir aquilo que Deus, em Sua soberania, já havia determinado.

Quantos cristãos vivem hoje em um verdadeiro "Horebe espiritual"? Eles não voltaram totalmente para o Egito do mundo, mas também se recusam a avançar para a Canaã da maturidade cristã. Vivem paralisados e presos:

  • Ao medo do desconhecido;
  • À culpa por erros passados;
  • Ao conformismo com uma vida espiritual morna;
  • Ou à pura incredulidade prática.

Este texto bíblico confronta a nossa letargia e nos mostra que o Deus da aliança continua desafiando o Seu povo a avançar pela fé. Como bem afirmou o reformador João Calvino:

"A fé verdadeira descansa nas promessas de Deus e segue adiante, ainda que não veja o caminho completo."

O livro de Deuteronômio consiste, essencialmente, no último grande discurso teológico e pastoral de Moisés. O próprio nome do livro significa "segunda lei", não porque Deus estivesse inaugurando um mandamento inédito, mas porque a aliança firmada no Sinai precisava ser urgentemente renovada e aplicada ao coração daquela nova geração de israelitas que herdaria a terra.

Os versículos 1 a 5 estabelecem com precisão o contexto histórico e geográfico. Moisés está com o povo nas campinas de Moabe, d’aquém do rio Jordão. No entanto, o versículo 2 nos traz uma das notas geográficas mais melancólicas de toda a Escritura: a jornada do Monte Sinai (Horebe) até a fronteira de Cades-Barneia poderia ser feita em apenas onze dias. Entretanto, por causa da desobediência e da rebeldia, o povo levou quarenta anos vagando em círculos.

A grande tragédia que o texto denuncia não foi a distância geográfica, mas sim a imensa distância espiritual entre o coração de Israel e o seu Senhor.

Por isso, nos versículos 6 a 8, Deus intervém na história e relembra Sua ordem irrevogável: eles deveriam levantar o acampamento, marchar em direção às regiões habitadas pelos inimigos e tomar posse da terra. O texto enfatiza de forma cirúrgica que a posse de Canaã não dependeria do poder militar de Israel, mas sim da fidelidade do Deus que jurou o pacto a Abraão, Isaque e Jacó.

Ao examinarmos esse chamado pactual de Deus a Israel, descobrimos quatro princípios fundamentais que devem orientar a caminhada e o crescimento da Igreja em nossos dias.

1. A ESTAGNAÇÃO ESPIRITUAL É INCOMPATÍVEL COM O PROPÓSITO DE DEUS (V. 6)

"O Senhor, nosso Deus, nos falou em Horebe, dizendo: Bastante vos é o terdes habitado neste monte."

O Monte Sinai (Horebe) havia sido o palco de experiências espirituais extraordinárias. Ali Israel testemunhou o sobrenatural de forma densa: recebeu as Tábuas da Lei, contemplou a glória fulgurante de Deus, ouviu a Sua voz como trovão e firmou solenemente o pacto pactual.

Mas o Sinai nunca foi planejado por Deus para ser o destino final daquela jornada; ele era apenas uma etapa de preparação. Existe um perigo espiritual sutil e mortal em transformarmos bênçãos e experiências passadas em monumentos de acomodação e moradia permanente. O povo havia se acostumado ao conforto do lugar da revelação, mas Deus os estava impulsionando para o lugar da missão.

Muitos crentes hoje vivem exclusivamente de arqueologia espiritual, alimentando-se apenas das lembranças de:

  • Um congresso marcante na juventude;
  • Um retiro de oração de anos atrás;
  • Um avivamento do qual participaram no passado;
  • Ou uma experiência emocional antiga.

Deus não aceita uma igreja que vive apenas de memórias saudosistas; Ele exige progresso e amadurecimento espiritual diário.

William Carey, amplamente conhecido como o pai das missões modernas, ao apresentar o desafio missionário aos pastores de sua época, ouviu de um líder a seguinte repreensão: "Jovem, sente-se! Se Deus quiser converter os pagãos, Ele fará isso sem a sua ajuda ou a minha". Carey, fundamentado na Escritura, recusou-se categoricamente a permanecer parado na inércia. Ele compreendeu que a soberania de Deus não anula a responsabilidade humana e que a fé verdadeira avança corajosamente em direção aos propósitos globais do Senhor.

Aplicação Prática:

  • Não tente viver hoje das vitórias obtidas no ano passado.
  • Não transforme experiências espirituais legítimas em desculpas para a preguiça e o comodismo atual.
  • Entenda que o crescimento saudável exige movimento, arrependimento e ação. Deus está chamando você para crescer continuamente.

Como bem escreveu o pastor reformado D. Martyn Lloyd-Jones:

"O maior inimigo do crescimento espiritual é a satisfação consigo mesmo."

2. O POVO DA ALIANÇA DEVE CAMINHAR PELA FÉ E NÃO PELA COMODIDADE (V. 7)

"Voltai-vos e parti; ide à montanha dos amorreus, e a todos os seus vizinhos..."

A ordem do Senhor é direta, cortante e prática: "Voltai-vos e parti". Partir implica, necessariamente, abandonar toda segurança aparente e geográfica. Significa desarmar as tendas do comodismo e confiar na providência invisível de Deus para dar o próximo passo. Israel precisava deixar o acampamento conhecido e marchar em direção a territórios desconhecidos e habitados por inimigos ferozes.

A fé bíblica genuína nunca é estática; ela envolve movimento focado na Palavra.

  • Abraão obedeceu e saiu de sua terra sem saber para onde ia.
  • Moisés abandonou os tesouros e os palácios do Egito.
  • Os discípulos deixaram suas redes de pesca imediatamente na praia.

A fé que salva e transforma é uma fé que marcha.

Quando o apóstolo Pedro recebeu a ordem de Jesus e saiu do barco para caminhar sobre as águas agitadas, ele descobriu uma verdade teológica viva: a sua segurança real não residia na estrutura de madeira do barco, mas sim na palavra imperativa de Cristo que dissera: "Vem".

Aplicação Prática:

  • Deus frequentemente nos tirará da nossa zona de conforto para que possamos experimentar o Seu poder de forma mais profunda.
  • A obediência fiel exige confiança irrestrita na soberania divina.
  • A nossa fé não cresce na estufa da apatia, mas sim quando caminhamos no campo de batalha do dia a dia. O cristão autêntico não foi vocacionado para viver instalado na mediocridade.

3. AS PROMESSAS DE DEUS DEVEM GOVERNAR A NOSSA JORNADA (V. 8A)

"Eis que tenho posto esta terra diante de vós; entrai e possuí..."

Prestem atenção à linguagem utilizada pelo Senhor Deus: "Eis que tenho posto esta terra diante de vós". Gramaticalmente, Deus fala de uma herança futura como algo que já foi plenamente executado e entregue no presente. Na soberana mente de Deus, a promessa antecede e garante a posse definitiva. As fortalezas de Canaã ainda não haviam sido sitiadas ou conquistadas militarmente, mas a vitória já estava assegurada pela Palavra empenhada do Senhor.

Este é um dos pilares mais preciosos da Teologia Reformada: Deus cumpre infalivelmente tudo aquilo que decreta e promete. A certeza absoluta da vitória do povo de Israel não repousava:

  • Na robustez do seu próprio exército;
  • Na inteligência de suas estratégias humanas;
  • Ou em suas supostas capacidades e méritos.

A certeza deles estava unicamente na Palavra empenhada pelo Senhor dos Exércitos.

Durante uma violentíssima tempestade que assolava o Oceano Atlântico, um tripulante assustado perguntou ao destemido reformador escocês John Knox se ele não tinha medo de morrer naquele naufrágio. Knox, olhando firmemente para as ondas, respondeu com convicção: "Meu destino eterno está firmemente nas mãos de Deus. Nenhuma onda neste mundo pode frustrar os Seus decretos eternos".

Aplicação Prática:

  • Aprenda a guiar a sua vida pelas promessas eternas das Escrituras, e não pelas circunstâncias mutáveis do seu dia a dia.
  • A Palavra inspirada de Deus é infinitamente mais segura e estável do que as suas emoções ou os seus sentimentos oscilantes.
  • A fé reformada descansa na fidelidade absoluta daquele que começou a boa obra e há de completá-la. Deus jamais falha.

Como nos assevera o célebre pregador Charles H. Spurgeon:

"As promessas de Deus nunca foram feitas para falhar; elas são cheques assinados pelo próprio punho do Rei, prontos para serem descontados no banco da fé."

4. O FUNDAMENTO DA NOSSA ESPERANÇA É A FIDELIDADE DA ALIANÇA (V. 8B)

"...a terra que o Senhor jurou a vossos pais, Abraão, Isaque e Jacó, que a daria a eles e à sua semente depois deles."

Neste ponto crucial, Moisés conduz cirurgicamente a mente daquela nova geração de volta às raízes históricas da Aliança Abraâmica. A razão teológica pela qual a Terra Prometida ainda estava disponível e aberta para eles — mesmo após quarenta anos de pecados e murmurações no deserto — não era a bondade intrínseca, o merecimento ou a justiça de Israel. A única razão era a fidelidade incondicional de Deus ao Seu pacto.

A geração anterior falhou miseravelmente e pereceu , mas o pacto do Senhor permaneceu inabalável. Isso nos aponta para o coração do Evangelho: a nossa salvação e preservação não dependem da nossa fidelidade instável, mas sim da fidelidade imutável de Deus. Todas as promessas da antiga aliança encontram o seu cumprimento perfeito, definitivo e cabal na pessoa e na obra de Jesus Cristo. Ele é:

  • O verdadeiro Descendente de Abraão;
  • O Mediador perfeito de uma Nova e Eterna Aliança;
  • O fiador e garantidor de todas as nossas promessas eternas.

Como bem sintetizou o teólogo holandês Herman Bavinck:

"Toda a história da redenção é a revelação progressiva da fidelidade pactual de Deus."

Aplicação Prática:

  • O Senhor Deus jamais se esquece das promessas que selou com o Seu povo.
  • O nosso Deus permanece perfeitamente fiel mesmo quando nós cambaleamos e nos mostramos fracos na caminhada.
  • A nossa segurança eterna e a nossa esperança de vitória sobre o pecado não estão ancoradas em nossas performances espirituais, mas sim nos méritos de Cristo Jesus cravados na cruz do Calvário.

CONCLUSÃO

Meus amados irmãos e irmãs, o texto de Deuteronômio 1.1–8 funciona como um espelho para a Igreja contemporânea. Ele é um forte e urgente chamado divino para abandonarmos de vez a estagnação espiritual e avançarmos decididamente rumo à plenitude da promessa. Israel precisava aprender, de forma definitiva, que:

  • O Sinai (Horebe) não era o destino final da sua jornada;
  • O deserto não representava o propósito de Deus para as suas vidas;
  • A herança prometida continuava estendida diante deles;
  • O Deus da Aliança permanecia rigorosamente fiel e no trono.

O mesmíssimo Deus fala poderosamente ao seu coração nesta manhã: “Tendes estado bastante tempo neste monte”. Talvez o monte onde você se assentou e se acomodou seja:

  • O monte da acomodação espiritual e do formalismo religioso;
  • O monte do medo crônico e da paralisia diante dos problemas;
  • O monte da incredulidade que nos impede de evangelizar e servir;
  • Ou o monte da culpa por pecados que Cristo já pagou na cruz.

O Senhor da glória chama a Sua Igreja para marchar e avançar. Não porque sejamos intrinsecamente fortes ou capazes, mas porque a Aliança de Deus é eterna, e as portas do inferno jamais prevalecerão contra a Sua Igreja marchante.

Como nos conforta e admoesta de forma magistral o Catecismo Maior de Westminster, em sua emblemática resposta à primeira pergunta:

"O fim principal do homem é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre."

Nós não glorificamos ao Senhor quando permanecemos parados, murmurando e andando em círculos no deserto da nossa incredulidade. Nós O glorificamos de fato quando ouvimos com temor a Sua Palavra, cremos na fidelidade do Seu pacto, arrumamos as nossas bagagens espirituais e marchamos ousadamente para conquistar o território que Ele nos ordenou possuir, unicamente para a Sua própria glória!

Você tem vivido aquém das ricas promessas que Deus estabeleceu em Sua Palavra? Existe alguma área específica da sua vida — familiar, profissional, ministerial ou pessoal — na qual você simplesmente aceitou a estagnação e parou de crescer?

Hoje, o Espírito Santo exorta você a desviar os olhos das areias desérticas deste mundo e a olhar firmemente para Cristo Jesus, o Autor e Consumador da nossa fé, o Mediador da Nova Aliança.

  • Levante-se do comodismo!
  • Confie na fidelidade pactual!
  • Obedeça à Palavra do Senhor!
  • Avance em santidade e missão!

Pois o mesmo Deus soberano que arrancou Israel do deserto para possuir Canaã continua capacitando e conduzindo o Seu povo eleito hoje para viver pela fé e desfrutar da plenitude de Suas promessas eternas.

"Eis que tenho posto esta terra diante de vós; entrai e possuí-a." (Deuteronômio 1.8)

Que o Senhor Deus da Aliança aplique esta verdade ao coração de Sua Igreja. Amém!

Pr. Eli Vieira

 

Número de abortos atinge recorde na Escócia; mais de 18 mil bebês foram mortos em 2025


Imagem ilustrativa. (Foto: Unsplash/Elen Sher).

A quantidade de interrupções de gravidez continua crescendo a cada ano no país, onde o aborto é permitido até o 6° mês por qualquer motivo.

A Escócia registrou mais um recorde histórico no número de abortos em 2025. Segundo dados divulgados recentemente pela Public Health Scotland, 18.783 abortos foram realizados no ano passado.

O número representa um aumento de 55% em relação ao ano de 2016, quando 12.135 gestações foram interrompidas.

Em 2025, a taxa de aborto entre mulheres de 15 a 44 anos foi de 17,6 por 1.000, maior que a taxa de 2016 que foi de 11,9.

Um dos fatores que contribuíram para o recorde no número de abortos na Escócia foi o aumento da prática do aborto domiciliar, onde mulheres podem adquirir pílulas abortivas sem precisar passar por uma consulta presencial.

Leis de aborto mais extremas do mundo

Medidas pró-aborto avançaram no país nos últimos anos. Através de revisão da lei do aborto, o ex-primeiro-ministro Humza Yousaf, recomendou que o aborto fosse permitido por qualquer motivo até as 24 semanas.

A organização pró-vida Right to Life UK criticou a ação e alertou que se a recomendação fosse implementada, a Escócia teria "uma das leis de aborto mais extremas do mundo".

A Right to Life UK ainda destacou que as leis de “zona de acesso seguro” do aborto na Escócia são mais extremas do que na Inglaterra.

Em setembro de 2024, a Escócia implementou a Lei de Serviços de Aborto (Zonas de Acesso Seguro), determinando “zonas de proteção” obrigatórias de 200 metros ao redor das clínicas de aborto – a maior distância mínima já adotada globalmente para esse tipo de área.

Essas zonas proíbem qualquer tipo de protesto ou interação com mulheres que buscam serviços de aborto, incluindo orações silenciosas, exibição de cartazes e conversas audíveis, mesmo em residências particulares ou nas proximidades de igrejas dentro dos limites estabelecidos.

Indivíduos condenados por violação podem receber uma multa de até £ 10.000 (cerca de R$ 76.300) por infrações sumárias ou enfrentar uma penalidade financeira ilimitada após a acusação.

A legislação autoriza o governo escocês a expandir ainda mais as zonas de proteção, conforme sua decisão.



Fonte: Guiame, com informações de Christian Today

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