sábado, 10 de janeiro de 2015

A morte de Thomas Bilney

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Por JH Merle d'Aubigné


Thomas Bilney [1495-1531], cuja conversão havia começado na Reforma na Inglaterra, foi nas mãos de Deus o instrumento de conversão de Hugh Latimer. A história de sua vida de força e fraqueza, levado ao seu martírio em 1531, é eloquentemente registrado em A Reforma da Inglaterra (The Reformation in England), volumes 1 e 2 por JH Merle d'Aubigné. Estes volumes traçam a história da reforma de suas origens mais remotas até o fim do reinado de Henrique VIII. Escrito em um espírito evangélico animado, ambos são instrutivas e comoventes. O relato a seguir vem a partir do volume 2:

Alguns dos amigos de Bilney foram para Norwich para despedir-se dele: entre eles estava Matthew Parker, mais tarde arcebispo de Canterbury. Já era noite, e Bilney estava tomando sua última refeição. Em cima da mesa estavam alguns pratos frugais [cerveja fermentada], e em seu rosto irradiou a alegria que encheu sua alma. Estou surpreso, disse um de seus amigos, “que você possa comer tão alegremente”. - Eu só sigo o exemplo dos lavradores do país, respondeu Bilney, “que tem uma casa nas ruínas para morar, embora custem tanto, desde que eles possam mantê-la e assim faço agora com esta casa em ruínas do meu corpo”. Com estas palavras, ele se levantou da mesa e sentou-se perto de seus amigos, um dos quais lhe disse: “Amanhã o fogo vai fazer você sentir a sua fúria devoradora, mas o conforto do Espírito Santo de Deus irá resfriá-lo para o seu revigorar eterno”.

Bilney, parecendo refletir sobre o que havia sido dito, estendeu a mão para a lâmpada que ardia sobre a mesa e colocou o dedo na chama. “O que você está fazendo? exclamaram - “Nada”, ele respondeu: “Eu só estou testando minha carne; pois amanhã Deus deve queimar meu corpo inteiro no fogo. E ainda mantendo o dedo na chama, como se ele estivesse fazendo um experimento curioso”, ele continuou: “Eu sinto que o fogo pela ordem de Deus é naturalmente quente, mas ainda estou persuadido, pela Santa Palavra de Deus e na experiência dos mártires, que, quando as chamas me consumirem, eu não as sentirei”. Seja como for este restolho do meu corpo deve ser consumido por ela, uma dor por algum tempo que será seguida por alegria indizível. Ele, então, retirou seu dedo, a primeira articulação do que foi queimado. Ele acrescentou: “Quando tu andas pelo fogo, não serás queimado.” [em alusão a Isaías 43.2]. Estas palavras permaneceram impressas nos corações de alguns que ouviram, até o dia de sua morte, diz um cronista.

Além do portão da cidade - conhecido como o portão do Bispo - havia um vale, chamado de Pit 'Lollards (Poço dos Lolardos): ele foi cercado de terra no solo, formando uma espécie de anfiteatro. No sábado, dia 19 de agosto de 1531, um grupo de lanceiros veio buscar Bilney, que se encontrava no portão da prisão. A um de seus amigos aproximando-se e exortando-o a ser firme, Bilney respondeu: “Quando o marinheiro vai a bordo de seu navio e lança-se ao mar tempestuoso, ele é jogado para lá e para cá pelas ondas, mas a esperança de chegar a um refúgio de paz o faz suportar o perigo. Minha viagem está começando, mas seja qual forem às tempestades que irei enfrentar, sinto que meu navio, em breve chegará ao porto”.

Bilney passou pelas ruas de Norwich, no meio de uma densa multidão: seu comportamento era solene, suas feições calmas. Sua cabeça tinha sido raspada, e usava uma vestimenta de leigo. Dr. Warner, um de seus amigos, acompanhou-o, outro distribuía esmolas ao longo de todo o caminho. A procissão desceu ao poço dos Lolardos, enquanto os espectadores cobriam as encostas circundantes.

Ao chegar ao local de punição, Bilney caiu de joelhos e orou: e, em seguida, levantando-se, abraçou calorosamente a estaca e beijou-a. Voltando os olhos para o céu, em seguida repetiu o Credo dos Apóstolos, e quando ele confessou a encarnação e crucificação do Salvador, sua emoção foi tanta que até mesmo os espectadores ficaram comovidos. Recuperando-se, ele tirou sua vestimenta, e subiu ao monte, recitando o salmo cento e quarenta e três. Três vezes ele repetiu o segundo verso: “Não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não há justo nenhum vivente”. E depois acrescentou: “Eu estendo as minhas mãos a ti, a minha alma tem sede de ti.” Voltando para os policiais, ele disse: “Vocês estão prontos”? - “Sim”, foi à resposta. Bilney colocou-se contra o poste, e segurou a corrente em que ele estava amarrado. Seu amigo Warner, com os olhos cheios de lágrimas, deu uma última despedida. Bilney sorriu gentilmente para ele e disse: “Doutor, pasce gregem tuum”. [Doutor, alimente o seu rebanho], que quando o Senhor vier, Ele poderá achar você o servindo. Vários monges que tinham dado provas contra ele, percebendo a emoção dos espectadores, começaram a tremer, e sussurraram ao mártir: “Essas pessoas vão acreditar que somos a causa de sua morte, e vão reter as suas esmolas”. Ao que Bilney disse-lhes: “Boas pessoas, não fiquem com raiva destes homens, por minha causa, como se eles fossem os autores de minha morte, eles não são”. Ele sabia que a sua morte fazia parte da vontade de Deus. A tocha foi aplicada à pilha: o fogo ardeu por alguns minutos, e então de repente queimando ferozmente, o mártir foi ouvido pronunciando o nome de Jesus várias vezes, e às vezes a palavra 'Credo' ['Eu acredito']. Um vento forte que soprou as chamas de um lado para o outro prolongou sua agonia; três vezes elas pareciam se afastar dele, e três vezes elas voltaram, até que finalmente toda a pilha acendeu, e ele expirou. 


***
Fonte: Puritans Sermons
Tradução: César Augusto Vargas Américo
Divulgação: Bereianos


Sobre Thomas Bilney:

Thomas Bilney nasceu perto de Norwich em 1495. Ele era muito estudioso e, em Oxford, obteve o grau de doutor em leis em 1519 e foi ordenado sacerdote. Mas nem o estudo e nem sua ordenação lhe trouxe paz alguma. Ele estava tentando abençoar o descanso de sua alma através das boas obras, ir à missa, comungar, negando seus apetites e religião morta; porém nada funcionava.

Então, um dia ele abriu um exemplar do recém-traduzido Novo Testamento em grego, uma tradução proibida pela Igreja Católica. Se trancou em seu quarto e o primeiro versículo que lhe chamou atenção foi no primeiro capítulo da Primeira Carta do Apóstolo Paulo à Timóteo, onde escreve: "Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal." (v. 15)

Thomas Bilney percebeu que, se Jesus Cristo pode salvar alguém como Paulo que, antes era um bravo, violento, inimigo, assassino arrogante do evangelho, mesmo assim havia esperança para ele. A respeito desse momento assim escrito: "Esta sentença, através da instrução de Deus e trabalhando no meu interior... Fez animar o meu coração, sendo antes ferido com a culpa de meus pecados, e sendo quase em desespero; que mesmo imediatamente me pareceu até interiormente para sentir um conforto maravilhoso e com tranquilidade; de modo que meus ossos machucados saltaram de alegria!"

Bilney era um homem quieto, mas ele começou a orar para que outros possam vir a Cristo. Deus o usou para levar alguns dos professores de Oxford a Cristo, e muitos outros que seriam os grandes líderes da Reforma Inglesa - uma revolução que trouxe a tão necessária liberdade religiosa; quando ele compartilhou o evangelho que contou sua história pessoal e, muitas vezes apontou-lhes a 1a Timóteo 1.15, o versículo que mudou sua vida.

Ele foi preso por pregar o evangelho da salvação pela fé em Cristo, e seria queimado na fogueira por seu compromisso com Jesus, mas por esta altura já era tarde demais. Muitos tinham sido mudados e inspirados por seu testemunho. "As rodas da Reforma Inglesa estava rolando".

O testemunho de Paulo mudou a vida de Bilney. O testemunho de Bilney mudou a vida de muitos outros. Qual é o seu testemunho? Uma das melhores maneiras de compartilhar o evangelho é através da partilha de seu testemunho pessoal. Ela vai encorajar outros e dirão: "Se Deus pode mudar ele ou ela, sei que Ele pode me mudar também". Assim, humilhar-se. Seja transparente. Peça a Deus para ajudá-lo a ver a sí mesmo como um pecador, salvo e perdoado pela graça e de graça. Em seguida, abra a boca e comece a contar de como sua vida foi mudada e veja o que Deus fará.

Enquanto pregava em Ipswich em 28 de Maio de 1527, foi preso. E o mês de novembro seguinte foi levado perante Bispos do Tribunal de Westminster. Para Bilney foi dada uma escolha: a abjurar o que ele havia pregado ou morrer na fogueira. Curthbert Tunstall, bispo de Londres, que tinha o controle do processo, foi mais relutante para encontrar Bilney culpado, e tentou convencê-lo a se retratar. Durante dois dias, sob intensa pressão de Tunstall e amigos bem-intencionados, Bilney estava resoluto em suas convicções. Então, finalmente, em um estado confuso e cansado de espírito, ele se retratou, acreditando que seus amigos tem o melhor juízo. Ele argumentou que, se ele abjurou e salvou sua vida, ele ainda pode servir a Deus. Em 07 de Dezembro, foi Bilney desfilar na humilhação perante o Conselho de Bispos e levado de volta para a prisão a cumprir sua penitência.

Embora definhando na prisão, a mente de Bilney foi preenchido com remorso sobre a sua ação. Seu coração se afundou na escuridão e no desespero, como o escritor do Salmos 51, ele experimentou uma profunda prisão da alma. Por dois anos, Bilney habitou nas masmorras de St Paul's Cross, mais um prisioneiro de sua própria consciência do que da igreja. Foi só uma noite em 1531, quase um ano após o retorno à prisão de Cambridge que, em palavras de Latimer, ele tornou-se como uma ressurreição dos mortos. Bilney resolveu resgatar os anos perdidos e, como seu Mestre, disse aos seus amigos que ele iria "subir a Jerusalém e deve vê-los mais". Chegando em Norfolk, ele pregou com grande unção proclamando: "Essa doutrina, que uma vez eu falei é a verdade. Que meu exemplo sirva de lição a todos que me escutam". Sem medo, ele pregou o evangelho distribuindo Novos Testamentos e colocando expostos os erros de Roma.

Não demorou muito para Bilney ser preso, julgado em Norwich, e enviado a Londres para execução.


Extraído de: Protestantismo.com.br

Leia também outra biografia, disponível aqui! (em Inglês).
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