A história oferece diversos exemplos de como a fé cristã
influenciou profundamente a transformação de nações e cidades, moldando seus
valores, instituições e cultura. Este capítulo examinará três casos notáveis: a
Escócia, a Suíça e a Coreia do Sul, destacando como o cristianismo contribuiu
para a formação de suas identidades e para o seu desenvolvimento social,
político e econômico.
12.1
A Escócia: O Presbiterianismo e a Formação da Nação
- A Reforma Escocesa do século XVI, liderada por John Knox, teve um impacto
profundo na história e na cultura da
Escócia. O presbiterianismo, com sua ênfase
na soberania de Deus, na autoridade das Escrituras e no governo representativo
da igreja, moldou não apenas a vida religiosa, mas também a estrutura social e
política do país.
A influência do presbiterianismo pode ser vista na
valorização da educação, na criação de um sistema educacional público e
acessível, e no desenvolvimento de uma forte ética do trabalho, que contribuiu
para o desenvolvimento econômico da Escócia. Além disso, os princípios
presbiterianos influenciaram o desenvolvimento do sistema legal e político
escocês, que se caracterizou por sua ênfase na justiça, na igualdade e na
limitação do poder do Estado.
O historiador Thomas M. Devine, em sua obra The Scottish
Nation: A History, 1700–2000, destaca a centralidade do presbiterianismo na
formação da identidade escocesa:
O presbiterianismo
não foi apenas uma força religiosa na Escócia, mas também um fator crucial na
formação de sua identidade nacional e no desenvolvimento de suas instituições.
A ênfase na educação, na ética do trabalho e no governo representativo moldou
profundamente a sociedade escocesa e contribuiu para o seu sucesso nos séculos
seguintes" (DEVINE, 1999, p. 45).
Além disso, a influência do presbiterianismo na Escócia
pode ser vista na ênfase dada à responsabilidade social e ao cuidado com os
pobres. A igreja presbiteriana desempenhou um papel ativo na criação de
instituições de caridade e no
desenvolvimento de políticas sociais que visavam aliviar a pobreza e promover
o bem-estar social.
W.
Stanford Reid, em Trumpeter of God: A Biography of John Knox, sublinha o
impacto de Knox na educação popular:
Knox e os
reformadores escoceses tinham uma visão radical para a educação, propondo uma
escola em cada paróquia para garantir que todos, ricos e pobres, meninos e meninas, pudessem ler a
Bíblia por si mesmos. Essa visão lançou as bases para o sistema educacional
universal que se tornaria uma marca registrada da Escócia" (REID, 1974, p.
270).
Essa dedicação à educação e ao bem-estar social
demonstrou a aplicação prática de uma fé que buscava transformar a sociedade em
todas as suas dimensões. James Kirk, em Patterns of Reform: Continuity and
Change in the Reformation Kirk, também aponta para a visão abrangente dos
reformadores escoceses:
A Reforma na Escócia
não foi meramente uma mudança de doutrina, mas uma reordenação completa da
sociedade, com a igreja assumindo um papel central
na educação, no cuidado
social e na moral pública, buscando a transformação de toda a nação sob a
Palavra de Deus" (KIRK, 1989, p. 300).
12.2
A Suíça: A Reforma e a Gênese da Democracia Moderna
- A Reforma Suíça, liderada por Ulrico Zwinglio em Zurique e João Calvino em
Genebra, teve um impacto duradouro não apenas na história da igreja, mas também
no desenvolvimento do pensamento político e social ocidental. A ênfase
reformada na soberania de Deus, na lei e no pacto influenciou o desenvolvimento
de instituições políticas caracterizadas pelo governo limitado, pela separação
de poderes e pela proteção dos direitos individuais.
Em Genebra, Calvino estabeleceu uma república que serviu
de modelo para o desenvolvimento de outras comunidades reformadas na Europa e
na América do Norte. A ética do trabalho calvinista, com sua ênfase na
diligência, na frugalidade e no reinvestimento, contribuiu para o
desenvolvimento econômico da Suíça e para o surgimento do capitalismo moderno.
Além disso, a tradição reformada suíça valorizou a educação, a alfabetização
e o engajamento cívico, lançando as bases para o desenvolvimento de uma
sociedade civil forte e participativa.
O historiador William G. Naphy, em seu livro Calvin and
Geneva, argumenta que a influência de Calvino em Genebra foi fundamental para o
desenvolvimento da democracia moderna:
A experiência de Genebra sob
a liderança de Calvino demonstrou a viabilidade de uma forma de governo que
combinava princípios bíblicos com ideias políticas inovadoras. A ênfase na lei,
no pacto e na participação cidadã lançou as bases para o desenvolvimento da
democracia moderna e influenciou o pensamento político em toda a Europa e
além" (NAPHY, 2007, p. 189).
A Suíça, com sua tradição de autonomia local e governo
representativo, tornou-se um exemplo de sucesso
de como os princípios cristãos podem informar a organização política e social
de uma nação. A ética protestante do trabalho, com sua ênfase na diligência, na
honestidade e na responsabilidade, também contribuiu para o desenvolvimento
econômico da Suíça, que se tornou um centro financeiro e comercial de
importância global. Max Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo, embora controverso, popularizou a ideia da ligação entre a ética
calvinista e o desenvolvimento econômico:
A ética
ascética protestante, especialmente o calvinismo, com sua ênfase na vocação, na diligência e
na poupança, criou um 'espírito' que
foi altamente favorável ao desenvolvimento do capitalismo moderno" (WEBER,
2004, p. 120).
Benedict E. W. L. B. Spinoza, embora não um reformado,
em seu Tratado Teológico-Político, ao discutir a liberdade de pensamento na
Holanda, indiretamente aponta para um ambiente influenciado por princípios
reformados que valorizavam a liberdade de consciência e a tolerância, elementos
cruciais para o desenvolvimento democrático:
A experiência
holandesa demonstra que a liberdade de filosofar e de expressar opiniões, longe
de perturbar a paz da república, é essencial para a sua prosperidade e para o
avanço da piedade e da moralidade. Isso se alinha com a busca por uma sociedade
onde a razão e a fé possam coexistir em harmonia" (SPINOZA, 2004, p. 195).
12.3
A Coreia do Sul: O Cristianismo e a Transformação de
uma Nação - A história da Coreia do Sul
no século XX é um exemplo notável de como o cristianismo pode desempenhar um
papel transformador em uma nação. No início do século, o cristianismo era uma
religião minoritária na Coreia, mas cresceu de forma explosiva nas décadas
seguintes, influenciando profundamente a sociedade coreana.
O cristianismo desempenhou um papel crucial na luta pela
independência da Coreia do domínio japonês, com muitos líderes cristãos
envolvidos no movimento de resistência. Após a Guerra da Coreia, a igreja
coreana desempenhou um papel fundamental na reconstrução do país, oferecendo
ajuda humanitária, educação e apoio espiritual a uma população traumatizada e
empobrecida.
Além disso, o cristianismo contribuiu para o
desenvolvimento econômico da Coreia do Sul, com muitos
cristãos envolvidos em negócios e empreendimentos que adotaram uma ética de trabalho diligente e honesta. A ênfase
cristã na educação e no desenvolvimento pessoal também ajudou a impulsionar o
crescimento intelectual e cultural do país. Hoje, a Coreia do Sul é um dos
países mais cristãos da Ásia e um exemplo de sucesso econômico e social.
O sociólogo David Yong-Gi Cho, em seu livro Successful
Church Growth, observa o impacto transformador do cristianismo na Coreia do
Sul:
O crescimento
explosivo da igreja coreana no século XX foi um fator crucial na transformação
da Coreia do Sul. O cristianismo não apenas ofereceu esperança e consolo a um
povo sofrido, mas também desempenhou um papel fundamental na promoção da
educação, no desenvolvimento econômico e na construção de uma sociedade mais
justa e compassiva" (CHO, 1981, p. 98).
A influência do cristianismo na Coreia do Sul pode ser
vista em diversos aspectos da sociedade, desde a ênfase na educação e no serviço
social até a promoção da democracia e dos direitos humanos. A
igreja coreana tem sido uma voz profética em questões de justiça social e tem
desempenhado um papel ativo na defesa dos marginalizados e oprimidos. Bong-ho
Son, em Christianity and Korean Society, destaca a contribuição da igreja para
a democratização:
A igreja coreana,
especialmente durante os períodos de ditadura, serviu como um refúgio para a
dissidência e um catalisador para o movimento democrático. Seus líderes e
membros estiveram na vanguarda da luta pelos direitos humanos e pela liberdade
política" (SON, 2005, p. 150).
Daniel J. Lee, em Korean Christianity and the Rise of
the New Asia, explora a interconexão entre a fé e o desenvolvimento:
O cristianismo na
Coreia do Sul não foi apenas um fenômeno religioso, mas uma força social e
cultural que impulsionou a modernização, a educação
e o desenvolvimento econômico. A ética protestante do trabalho e o
compromisso com a educação foram fatores chave para o 'milagre do rio
Han'" (LEE, 2013, p. 88).
Eun-Sik Yang, em The Korean Pentecost: The Great Revival of 1907, descreve o impacto
espiritual que precedeu e impulsionou as mudanças sociais:
O Grande Avivamento
de 1907 não foi apenas um evento espiritual, mas teve profundas implicações
sociais e culturais. Ele gerou um fervor missionário e um compromisso com a
educação e o serviço social que foram cruciais para a transformação da Coreia
do Sul no século XX" (YANG, 2007, p. 120).
Os exemplos da Escócia, da Suíça e da Coreia do Sul
demonstram o poder transformador do cristianismo na história das nações. Em cada caso, a fé cristã, com seus
princípios e valores distintos, desempenhou um
papel crucial na formação da identidade nacional, no desenvolvimento das
instituições políticas e sociais e na promoção do desenvolvimento econômico e
cultural. Esses exemplos nos lembram do potencial da igreja para ser uma força
para o bem no mundo, influenciando a sociedade de forma positiva e duradoura.
Referências:
1-CHO, David Yong-Gi.
Successful Church Growth.
South Plainfield, NJ: Bridge Publishing, 1981.
2-DEVINE, T. M. The Scottish
Nation: A History,
1700–2000. New York: Viking, 1999.
3-KIRK, James. Patterns of Reform: Continuity and
Change in the Reformation Kirk. Edinburgh: T&T Clark, 1989.
4-LEE, Daniel J. Korean
Christianity and the Rise of the
New Asia: From the Great Revival to the Twenty-First Century. Lanham,
MD: Lexington Books, 2013.
5-NAPHY, William G. Calvin and Geneva. Stroud, UK:
Tempus, 2007.
6-REID, W. Stanford. Trumpeter of God: A Biography of
John Knox. New York: Charles Scribner's Sons, 1974.
7-SON, Bong-ho. Christianity and Korean Society.
Seoul: Seoul National University Press, 2005.
8-SPINOZA, Benedictus de. Tratado Teológico-Político.
Tradução de Diogo Pires Aurélio. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.
9-WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo. Tradução de José Marcos
Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.
10-YANG, Eun-Sik. The Korean Pentecost: The Great
Revival of 1907. Seoul: Presbyterian College and Theological Seminary Press,
2007.
Texto extraído do Livro O CRISTÃO NO MUNDO DE DEUS de Eli Vieira