O TRONO CONSTRUÍDO SOBRE SANGUE
Texto: Juízes 9.1–57
Na madrugada de 17 de junho de 1972, cinco homens foram presos dentro do escritório do Comitê Nacional do Partido Democrata, no edifício Watergate, em Washington. Levavam equipamentos de escuta.
À primeira vista, parecia um episódio menor de espionagem
política — uma arrombamento desastrado que ocuparia os jornais por alguns dias
e seria esquecido.
As investigações revelaram outra coisa. Por trás daquele arrombamento havia uma rede de abuso de poder, pagamentos clandestinos, listas de inimigos, uso das agências do Estado contra adversários e uma operação sistemática de encobrimento.
O problema nunca foi a invasão de um prédio. O
problema era uma cultura de poder na qual pessoas inteligentes e competentes
haviam passado a acreditar que qualquer meio se justificava para preservar sua
posição.
Richard Nixon havia acabado de conquistar uma das maiores
vitórias eleitorais da história americana — venceu em quarenta e nove dos
cinquenta estados. Menos de dois anos depois, renunciou à presidência para
evitar o processo de impeachment.
Watergate tornou-se símbolo de uma verdade muito mais antiga
do que ele: quando a preservação do poder se torna o valor supremo, tudo o
mais passa a ser negociável — princípios, amizades, instituições, verdade e
pessoas.
Juízes 9 conta uma história ainda mais sombria, e conta sem
suavizar nada.
Abimeleque queria ser rei. Para isso, manipulou os parentes
de sua mãe, usou prata retirada do templo de um falso deus, contratou homens
sem escrúpulos e assassinou seus setenta irmãos sobre uma única pedra.
Depois, foi proclamado rei junto ao carvalho de Siquém.
E é fundamental notar tudo o que não aconteceu nesse
capítulo, especialmente porque estamos no livro de Juízes.
Não houve chamado de Deus. Não houve revestimento do
Espírito. Não houve clamor do povo oprimido por um inimigo estrangeiro. Não
houve libertação alguma.
Todos os juízes anteriores foram levantados pelo Senhor para libertar Israel de opressores externos. Abimeleque não libertou ninguém.
Ele
criou a própria crise, matou a própria família e transformou israelitas em
inimigos uns dos outros. Ele não é um juiz; é o primeiro tirano da história de
Israel — e o livro o registra como um aviso.
E o nome dele diz tudo: "Abimeleque" significa "meu pai é rei."
Lembre-se de onde viemos. Gideão recusou a coroa com a boca — "o Senhor vos dominará" — e depois viveu como rei: acumulou ouro, multiplicou mulheres, teve setenta filhos e fabricou um éfode que virou laço para toda a nação.
E deu a um filho, nascido de uma concubina em Siquém,
um nome que proclamava a realeza que ele dizia ter recusado.
Agora esse filho decide transformar a pretensão do pai em
projeto político.
O pecado de uma geração amadurece na seguinte.
Repare como cada peça que Gideão deixou no tabuleiro reaparece aqui. O ouro e o éfode prepararam uma cultura de idolatria. A concubina de Siquém gerou o homem que usaria os laços familiares para tomar o poder.
A prata que financia o massacre sai do templo de Baal-Berite, o mesmo
ídolo que Israel adotou logo depois do enterro de Gideão. E a ambiguidade do
pai tornou-se violência explícita no filho.
Juízes 9 nos mostra como a ambição desordenada destrói tudo
o que toca: a família, a verdade, a justiça, a amizade, a cidade — e, por
último, o próprio ambicioso.
Mas o capítulo não é apenas um estudo de caso sobre
corrupção política. Se fosse só isso, bastaria ler um jornal. Ele é, sobretudo,
uma afirmação da providência e da justiça de Deus.
Porque, durante um bom tempo, Abimeleque parece vencer. Os
irmãos estão mortos. Jotão está escondido nas montanhas. Siquém o apoia. Ele
reina três anos inteiros, e nada acontece.
E então Deus começa a agir — não com fogo do céu, mas por
dentro, fazendo a violência retornar sobre quem a praticou.
O capítulo termina com duas frases de interpretação
teológica que o narrador coloca deliberadamente ali para que ninguém entenda a
história como acaso:
"Assim, Deus fez tornar sobre Abimeleque o mal que ele
havia feito a seu pai, ao matar os seus setenta irmãos" (v. 56).
A mensagem central é esta:
O poder conquistado pelo pecado pode prosperar por algum
tempo, mas não escapará ao governo justo de Deus.
Juízes 9 só pode ser lido corretamente como continuação direta dos capítulos 6 a 8.
Deus levantou Gideão para libertar Israel dos midianitas.
Depois da vitória, o povo lhe ofereceu uma dinastia: "domina sobre nós,
assim tu como teu filho e o filho de teu filho" (8.22). Gideão
respondeu com a teologia correta: "não dominarei sobre vós [...] o
Senhor vos dominará" (8.23).
Mas suas ações desmentiram suas palavras. Acumulou vinte
quilos de ouro, fabricou o éfode que se tornou armadilha, tomou muitas
mulheres, teve setenta filhos e uma concubina em Siquém — cujo filho recebeu o
nome de Abimeleque.
Morto Gideão, Israel voltou aos baalins e estabeleceu
Baal-Berite, o "senhor da aliança", como seu deus.
É nesse ambiente que o capítulo 9 começa.
Abimeleque procura os parentes maternos em Siquém e
apresenta uma pergunta:
"Que é melhor: que setenta homens dominem sobre vós ou
que um só homem vos governe?"
O argumento é pura manipulação. Não há nenhuma indicação no
texto de que os setenta filhos de Gideão pretendessem governar coisa alguma.
Abimeleque inventou uma ameaça para se oferecer como solução.
Os cidadãos lhe entregam setenta siclos de prata do templo
de Baal-Berite. Com esse dinheiro, ele contrata homens levianos e mata seus
irmãos sobre uma pedra em Ofra. Apenas Jotão, o mais novo, escapa por ter se
escondido.
Abimeleque é então proclamado rei junto ao carvalho de
Siquém.
Mas Jotão aparece no alto do monte Gerizim e conta uma parábola. As árvores saem em busca de um rei. A oliveira, a figueira e a videira recusam abandonar sua produtividade para "pairar sobre as árvores".
Então convidam o espinheiro — que aceita imediatamente, oferece
uma sombra que não possui e ameaça consumir com fogo até os cedros do Líbano.
Jotão aplica a parábola diretamente: se agiram com
sinceridade, que se alegrem juntos; se não, que saia fogo de Abimeleque contra
Siquém e de Siquém contra Abimeleque. E foge.
Três anos depois, Deus suscita um espírito de aversão entre
Abimeleque e a cidade. Os siquemitas começam a assaltar viajantes nos montes,
minando a autoridade do rei. Aparece Gaal, filho de Ebede, que conquista a
confiança do povo durante uma festa no templo pagão e desafia Abimeleque
abertamente.
Zebul, o administrador da cidade, avisa Abimeleque
secretamente. Gaal é derrotado e expulso.
Então Abimeleque destrói Siquém, mata seus habitantes e
semeia sal sobre as ruínas. Os líderes se refugiam na fortaleza do templo de
El-Berite, e ele ateia fogo à estrutura: cerca de mil homens e mulheres morrem
queimados.
Em seguida marcha sobre Tebes. Os habitantes se refugiam
numa torre. Ele se aproxima da porta para incendiá-la — e uma mulher, do alto,
lança sobre sua cabeça a pedra superior de um moinho e lhe quebra o crânio.
Mortalmente ferido, Abimeleque chama o escudeiro e pede que
o mate, para que não digam que uma mulher o matou.
E assim se cumpriu a palavra de Jotão: o fogo saiu do
espinheiro e consumiu as árvores, e o fogo das árvores consumiu o espinheiro.
Uma observação necessária sobre a violência do capítulo
Juízes 9 é um dos capítulos mais violentos da Escritura, e
precisamos dizer três coisas antes de avançar.
Primeira: a Bíblia não narra esses fatos para
glorificar a brutalidade de Abimeleque. Ao contrário — a violência é
apresentada como evidência da degradação espiritual de Israel. O livro caminha
deliberadamente para o refrão final: "naqueles dias não havia rei em
Israel; cada um fazia o que achava mais reto".
Segunda: não devemos concluir que as ações de
Abimeleque foram ordenadas por Deus. Ele agiu por ambição, crueldade e
vingança, e é moralmente responsável por cada uma delas. Deus permaneceu
soberano sobre as consequências sem jamais ser autor do pecado.
Terceira: a igreja não recebe deste texto autorização
alguma para violência política ou religiosa. Somos chamados a proclamar o
evangelho, amar os inimigos, buscar justiça por meios legítimos e entregar a
vingança ao Senhor.
Quando o poder é buscado sem temor de Deus, transforma liderança em dominação, aliados em instrumentos e comunidades em campos de destruição; contudo, o Senhor permanece soberano e faz o mal praticado retornar sobre seus responsáveis.
Juízes 9 nos apresenta quatro verdades solenes sobre a ambição pecaminosa, a liderança corrompida e a justiça soberana de Deus.
1. A AMBIÇÃO SEM TEMOR DE DEUS USA PESSOAS COMO DEGRAUS
PARA CHEGAR AO PODER
"Abimeleque, filho de Jerubaal, foi-se a Siquém, aos
irmãos de sua mãe, e falou-lhes e a toda a geração da casa do pai de sua
mãe" (Jz 9.1).
1.1. A campanha começou pela manipulação dos laços
familiares
Abimeleque não procurou as tribos de Israel. Não consultou
os anciãos. Não buscou o sacerdote. Não perguntou a Deus.
Foi direto aos parentes de sua mãe, em Siquém — e pediu que
eles fizessem o trabalho de convencimento por ele, sussurrando aos ouvidos dos
cidadãos.
E a mensagem que mandou transmitir foi esta:
"Lembrai-vos também de que sou osso vosso e carne
vossa" (v. 2).
A expressão "osso e carne" é bíblica e forte. Adão
a usou ao ver Eva. As tribos a usaram ao reconhecer Davi como rei. Ela
significa pertencimento profundo, identidade compartilhada.
Mas observe o que Abimeleque não apresentou.
Não apresentou vocação divina — não disse "Deus me
chamou". Não apresentou serviço prestado — não podia apontar nenhuma
batalha travada por Israel. Não apresentou caráter — e sabia por quê.
Apresentou parentesco. Só isso. Eu sou um dos seus.
O tribalismo substituiu a justiça.
Os líderes de Siquém tinham diante de si uma tarefa simples:
avaliar o caráter daquele homem. Preferiram apoiar alguém do próprio grupo.
E isso não morreu em Siquém. Nós fazemos exatamente a mesma
conta quando apoiamos alguém não porque é justo, mas porque é nosso:
da mesma família; do mesmo grupo; da mesma região; do mesmo
partido; da mesma denominação; da mesma rede de relacionamentos; do mesmo
círculo de interesses.
Pertencer é uma realidade legítima — Deus nos fez seres de
vínculos. Mas o pertencimento nunca pode anular o discernimento moral.
No momento em que "é dos nossos" passa a ser argumento suficiente, a
justiça já foi entregue.
1.2. A falsa alternativa
"Que vos parece melhor: dominarem sobre vós setenta
homens [...] ou que um só homem vos domine?" (v. 2).
Analise essa pergunta com cuidado, porque ela é uma peça de
manipulação quase perfeita.
Primeiro, ela inventa um problema. O texto não dá nenhuma indicação de que os setenta filhos de Gideão pretendessem governar Siquém. Não há um único versículo sugerindo isso.
Abimeleque fabricou uma ameaça e depois
se ofereceu como proteção contra a ameaça que ele mesmo fabricou.
Segundo, ela reduz a realidade a duas opções — e ambas
favorecem quem fez a pergunta. Ou setenta tiranos, ou um só. Escolham.
E, terceiro, ela esconde deliberadamente a terceira
alternativa, que era a única correta e que o próprio pai dele havia enunciado: "o
Senhor vos dominará."
A manipulação quase sempre trabalha assim, também dentro das
igrejas:
"Ou você me apoia, ou está contra a obra de
Deus." "Ou aceita meu plano, ou quer ver o ministério
fracassar." "Ou concorda comigo, ou não ama a verdade."
"Ou fica calado, ou vai destruir a unidade."
Essas construções têm um único objetivo: impedir a avaliação
cuidadosa e transformar discordância legítima em deslealdade.
Guarde este critério, irmãos: líderes piedosos não temem
perguntas honestas. Quem precisa manipular as opções para conseguir apoio
já está dizendo, sem querer, que não confia nos próprios argumentos.
1.3. Siquém foi conquistada pelo interesse
"Inclinou-se o coração deles a seguir Abimeleque,
porque disseram: É nosso irmão" (v. 3).
Note o motivo declarado. Não "porque é justo". Não
"porque é temente a Deus". Não "porque servirá bem ao
povo".
"É nosso irmão."
Traduzindo do idioma da política: com ele no trono,
Siquém sobe. Eles enxergaram vantagem — uma cidade com um rei ligado a ela
por sangue teria influência sobre Israel.
O apoio deles não nasceu de fidelidade a Deus. Nasceu de
cálculo.
E aqui está uma lição que o capítulo inteiro vai desenvolver: um líder corrupto raramente se estabelece sozinho.
Ele
precisa de gente disposta a apoiá-lo em troca de benefícios, e disposta a não
fazer as perguntas óbvias.
A tirania nasce quando a ambição de um homem encontra a
cumplicidade de uma comunidade.
Por isso Jotão, mais adiante, não vai denunciar apenas
Abimeleque. Vai denunciar Siquém junto.
1.4. A idolatria financiou a violência
"Deram-lhe setenta siclos de prata, da casa de
Baal-Berite; com eles, Abimeleque alugou uns homens levianos e atrevidos, que o
seguiram" (v. 4).
Duas coisas neste versículo merecem atenção.
A primeira é a origem do dinheiro. Veio do tesouro do
templo. Ofertas religiosas financiaram um assassinato em massa. O que deveria
representar devoção tornou-se capital para o crime.
E veja como o texto amarra tudo: o ídolo que financia a
chacina se chama Baal-Berite, "senhor da aliança" — o falso
deus que Israel adotou no fim do capítulo anterior, no lugar do verdadeiro Deus
da aliança. A falsa adoração produziu, em uma única geração, um assassinato de
setenta irmãos.
Aquilo que adoramos molda inevitavelmente a maneira como
tratamos as pessoas:
Se adoramos o poder, pessoas viram degraus. Se adoramos o
dinheiro, pessoas viram mercadorias. Se adoramos a reputação, pessoas viram
plateia. Se adoramos o controle, pessoas viram ameaças. Se adoramos o prazer,
pessoas viram objetos.
Calvino descreveu o coração humano como fábrica permanente
de ídolos. E o que essa fábrica produz nunca fica guardado no coração — sai
para os relacionamentos, para a casa, para a empresa, para a igreja e para as
estruturas sociais.
A segunda coisa é a aritmética. Setenta siclos de
prata. Setenta irmãos.
Um siclo por vida.
O preço de cada filho de Gideão foi uma moeda de prata — e
isso ecoa desconfortavelmente adiante na Escritura, onde outra vida seria
avaliada em prata contada.
1.5. Os homens que ele contratou
O termo usado para descrever os seguidores contratados pode
ser traduzido como "levianos e atrevidos", "vazios e
temerários", "ociosos e imprudentes". São homens sem ocupação,
sem raízes e sem escrúpulos — disponíveis para quem pagar.
Abimeleque não procurou homens sábios. Não procurou
conselheiros. Procurou instrumentos.
E isso revela um princípio de discernimento muito útil: a
qualidade dos aliados de um líder diz muito sobre a qualidade do líder.
O líder inseguro se cerca de bajuladores. O líder corrupto prefere gente que executa ordens sem fazer perguntas.
O líder sábio busca
conselho, aceita prestação de contas e mantém por perto alguém que possa dizer
"não".
"Quem anda com os sábios será sábio, mas o companheiro
dos insensatos se tornará mau" (Pv 13.20).
Se você quer avaliar alguém, observe quem essa pessoa mantém
por perto — e, principalmente, se ainda existe alguém autorizado a corrigi-la.
1.6. Um trono construído sobre sangue
"Foi à casa de seu pai, em Ofra, e matou seus irmãos
[...] setenta homens, sobre uma pedra" (v. 5).
O detalhe da pedra única indica execução organizada,
deliberada, quase ritual. Não foi um confronto. Foi um abate.
E note para onde ele foi fazer isso: Ofra. A cidade
onde Gideão derrubou o altar de Baal. A cidade onde ele construiu o altar
chamado "O Senhor é Paz". A cidade onde depois instalou o éfode.
O lugar do altar da paz tornou-se o lugar do massacre da
família.
Abimeleque não olhou para aqueles homens e viu irmãos. Viu
concorrentes. E quando o poder se torna o bem supremo, todo aquele que possa
ameaçá-lo deixa automaticamente de ser pessoa e passa a ser obstáculo.
O pecado desumaniza em três etapas. Primeiro, o outro
deixa de ser irmão. Depois, torna-se rival. Finalmente, torna-se descartável.
Abimeleque conquistou o trono e destruiu sua própria família
para consegui-lo.
Grave isto: o sucesso que exige a destruição de pessoas
não é vitória. É tragédia com coroa.
1.7. Jotão escapou
"Porém Jotão, filho mais moço de Jerubaal, ficou,
porque se escondera" (v. 5).
Uma única frase, quase perdida no fim do versículo. E ela
muda todo o capítulo.
Abimeleque acreditou ter eliminado toda a oposição possível. Contou os corpos, coroou-se rei e foi dormir tranquilo.
Mas Deus havia
preservado uma voz — o mais novo, o menos ameaçador, o que ninguém procurou.
E é essa voz que vai anunciar, do alto de um monte,
exatamente o que aconteceria com Abimeleque e com Siquém — e que se cumprirá
letra por letra.
Tiranos conseguem silenciar muitas pessoas. Nunca
conseguem silenciar a verdade de Deus. Sempre sobra um Jotão.
Aplicações do primeiro ponto
- Examine
suas ambições. Você quer a posição para servir ou para ser visto?
- Não
use relacionamentos como instrumentos. Pessoas não são degraus para os
seus projetos.
- Rejeite
as falsas alternativas. Nem toda discordância é oposição à obra de
Deus.
- Avalie
líderes pelo caráter, não pelo pertencimento. "É dos nossos"
nunca substituiu integridade.
- Observe
de onde vêm os recursos e quem os sustenta. Meios corruptos não se
santificam por objetivos religiosos.
- Valorize
quem lhe diz a verdade. Bajuladores conduzem líderes ao precipício com
elogios.
- Nunca trate irmãos como concorrentes descartáveis. O Reino é de Cristo, não seu.
2. A PALAVRA DE DEUS DESMASCARA A LIDERANÇA QUE PROMETE
PROTEÇÃO E PRODUZ DESTRUIÇÃO
"Jotão foi e se pôs no cimo do monte Gerizim; e,
levantando a voz, clamou e disse-lhes: Ouvi-me, cidadãos de Siquém, e Deus vos
ouvirá a vós outros" (Jz 9.7).
2.1. Jotão falou de um lugar carregado de significado
Jotão não escolheu qualquer lugar. Subiu ao monte Gerizim
— e quem conhecia a história de Israel entendeu o recado antes mesmo da
primeira palavra.
Em Deuteronômio 27, Moisés determinou que, ao entrarem na
terra, seis tribos ficassem sobre o monte Gerizim para proclamar as bênçãos da
aliança, e seis sobre o monte Ebal para proclamar as maldições. Josué cumpriu
essa ordem exatamente ali, no vale entre os dois montes, com Siquém no meio.
Ou seja: aquele vale era o anfiteatro da aliança. Foi ali
que Israel disse "amém" às bênçãos e às maldições de Deus.
E agora, do monte das bênçãos, um jovem sozinho anuncia uma
maldição sobre a cidade que quebrou a aliança.
Siquém, aliás, tinha uma das histórias espirituais mais
densas de Israel:
Abraão construiu ali seu primeiro altar na terra prometida;
Jacó enterrou ali, debaixo de um carvalho, os deuses estrangeiros de sua
família; Josué renovou ali a aliança e ergueu uma pedra por testemunha, também
debaixo de um carvalho; e os ossos de José foram sepultados naquela região.
Agora, provavelmente debaixo do mesmo carvalho onde Jacó
enterrou ídolos e onde Josué chamou o povo a servir ao Senhor, um assassino é
coroado rei com prata de um templo de Baal.
Ter uma história espiritual não garante fidelidade
presente.
Uma igreja pode ter sido fundada por homens tementes a Deus e, três gerações depois, ter abandonado tudo o que eles criam.
Uma família pode
ter antepassados piedosos e perder inteiramente sua identidade espiritual. Um
cristão pode ter um passado de fervor e um presente de acomodação.
A memória deve produzir fidelidade — não orgulho, e muito
menos garantia.
2.2. As árvores produtivas recusaram o trono
A parábola de Jotão é a mais antiga que a literatura mundial
registra, e é uma obra-prima.
As árvores saem à procura de um rei. Vão primeiro à oliveira
— a mais valiosa das árvores de Israel, cujo azeite servia para a comida, para
a luz, para o remédio e para a unção sagrada.
E a oliveira responde: "Deixaria eu o meu óleo, que Deus e os homens em mim prezam, e iria pairar sobre as árvores?" (v. 9).
Guarde esse verbo: pairar. Não "servir",
não "cuidar" — pairar sobre as outras. É a palavra que a parábola
escolhe para descrever o que aquelas árvores estavam oferecendo.
Vão então à figueira, que recusa abandonar sua doçura e seus
bons frutos. E à videira, que recusa deixar o vinho que alegra a Deus e aos
homens.
Precisamos de cuidado interpretativo aqui. A parábola não ensina que toda liderança é indigna nem que aceitar responsabilidade é orgulho.
A Escritura apresenta a liderança como dom de Cristo à sua Igreja e afirma que
quem aspira ao episcopado deseja excelente obra. Moisés, Josué, Davi, Neemias e
Paulo lideraram.
O que a parábola diz é outra coisa: quem é genuinamente
frutífero não vive desesperado por uma posição que lhe permita pairar acima dos
outros. A oliveira já estava abençoando Israel; não precisava de coroa para
ter valor.
Jesus estabeleceu o mesmo princípio de forma direta:
"Quem quiser tornar-se grande entre vós será esse o que
vos sirva" (Mc 10.43).
E há uma aplicação libertadora nisso para muita gente nesta
igreja:
Sua identidade não depende de um cargo. Você pode servir sem
ter função oficial. Você pode frutificar sem visibilidade nenhuma. Você pode
glorificar a Deus em tarefas absolutamente comuns.
Quem conhece sua vocação não precisa viver mendigando
títulos.
2.3. O espinheiro aceitou na hora
"Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu
e reina sobre nós" (v. 14).
O espinheiro — em hebraico, o atad — era um arbusto
baixo e espinhoso do deserto. Não dava azeite, nem figo, nem uva. Não servia
para comer, não servia para construir. Era rasteiro, incômodo, e tão seco que
pegava fogo com facilidade.
Ele foi o último a ser convidado. E foi o único que aceitou
imediatamente, sem hesitar um instante.
A figura é Abimeleque.
Aquele que menos tinha a oferecer era o mais ansioso para
governar.
E aqui está um princípio de discernimento que vale para toda escolha de liderança, na igreja e fora dela: ambição e competência não são a mesma coisa.
O fato de alguém desejar intensamente uma posição não significa
nem de longe que esteja preparado para ocupá-la.
Muitas vezes, quem mais persegue o poder é exatamente quem
menos deveria recebê-lo — e a ansiedade pela posição é, ela mesma, o primeiro
sinal de alerta.
2.4. Ele ofereceu uma sombra que não tinha
"Se, deveras, me ungis rei sobre vós, vinde e
refugiai-vos debaixo de minha sombra" (v. 15).
Aqui a parábola se torna quase cômica — e profundamente
amarga.
Um arbusto espinhoso, rasteiro, convidando oliveiras,
figueiras, videiras e cedros do Líbano a se abrigarem debaixo de sua sombra.
Ninguém se abriga debaixo de um espinheiro. Quem chega perto sai ferido.
A promessa era vazia por natureza. Não era exagero; era
impossibilidade.
Abimeleque se apresentava como protetor de Siquém e não
tinha caráter para proteger ninguém.
E é assim que a liderança tirânica se apresenta, sempre com
o mesmo vocabulário:
"Entreguem-me a autoridade e eu resolvo tudo."
"Não questionem minhas decisões, e eu preservo a unidade." "Permaneçam
leais a mim e vocês estarão seguros."
A verdadeira liderança não exige confiança cega. Ela presta
contas, admite limites e aponta para além de si mesma.
Porque só existe um refúgio absoluto:
"O Senhor é o meu rochedo, a minha cidadela, o meu
libertador" (Sl 18.2).
Todo líder humano é limitado, falível e permanentemente
submetido à Palavra. Quem promete ser mais do que isso está prometendo sombra
de espinheiro.
2.5. A sombra prometida virou fogo
"Mas, se não, saia fogo do espinheiro e consuma os
cedros do Líbano" (v. 15).
Repare na sequência dentro de um único versículo: primeiro
sombra, depois fogo.
Essa é a trajetória exata da tirania. Ela começa prometendo
proteção. Depois exige lealdade absoluta. E termina ameaçando quem não se
submete.
E há uma ironia na imagem: um espinheiro não pode dar sombra a ninguém, mas pode, sim, incendiar tudo. Ele é inútil para abrigar e perfeito para queimar.
Uma única fagulha num arbusto seco no verão consome a montanha
inteira — inclusive os cedros do Líbano, as árvores mais altas e mais nobres do
mundo antigo.
O que ele não podia sustentar, podia destruir.
E aprenda a lição sobre as alianças de conveniência: elas
duram exatamente enquanto são úteis. Os mesmos homens que financiaram
Abimeleque seriam queimados por ele; a mesma cidade que o coroou se rebelaria
contra ele.
Quando os interesses mudam, os aliados de ontem viram
inimigos de hoje. Só há um tipo de vínculo que sobrevive à mudança de
interesses: aquele fundado na verdade e no amor.
2.6. Jotão confrontou também os apoiadores
"Agora, pois, se deveras e sinceramente procedestes,
proclamando Abimeleque rei [...] alegrai-vos com Abimeleque" (vv. 16,19).
A linguagem é ironia pura. Se vocês agiram bem — então
sejam felizes juntos. Ele sabe muito bem que não agiram.
E Jotão faz uma coisa que precisamos notar: ele lembra a
dívida da cidade com o pai dele.
"Meu pai pelejou por vós, arriscou a vida e vos livrou
das mãos dos midianitas" (v. 17).
Gideão arriscou a vida por aquela gente. E a retribuição de
Siquém foi financiar o assassinato de seus setenta filhos com prata de um
templo pagão.
Isso é ingratidão levada às últimas consequências — e é
exatamente o que o capítulo anterior já havia anunciado: "nem usaram de
benevolência com a casa de Jerubaal" (8.35).
Mas o ponto central é este: Jotão não denunciou apenas o
tirano. Denunciou a comunidade que o produziu.
Siquém não era vítima inocente de um usurpador. Siquém
pagou. Siquém coroou. Siquém sabia.
E isso vale para nós. Lideranças corrompidas quase nunca se
sustentam sozinhas — elas são sustentadas por sistemas, grupos e comunidades
dispostos a trocar princípios por benefícios, e por muita gente boa que
preferiu não olhar.
O silêncio conveniente também tem consequências.
2.7. A palavra que ficou de pé
"Saia fogo de Abimeleque e consuma os cidadãos de
Siquém [...] e saia fogo dos cidadãos [...] e consuma Abimeleque" (v. 20).
O pecado que os uniu seria exatamente aquilo que os
destruiria. O sangue derramado para erguer o trono continuaria clamando do
chão.
E então o versículo seguinte diz simplesmente que Jotão
fugiu para Beer e ficou lá, com medo do irmão.
Pare e olhe para essa cena. Um jovem sozinho, sem exército,
sem aliados, sem cidade, gritando de cima de um monte para uma multidão que
acabara de coroar o assassino de sua família — e depois correndo para salvar a
vida.
Do ponto de vista humano, foi um fracasso completo. Ninguém
se converteu. Ninguém depôs Abimeleque. Nada mudou naquele dia.
Mas a palavra dele ficou de pé, porque correspondia à
justiça de Deus. E o narrador faz questão de dizer, trinta e seis versículos
depois, que tudo aconteceu exatamente como ele disse: "veio sobre eles
a maldição de Jotão" (v. 57).
Durante o regime nazista, Dietrich Bonhoeffer alertou a igreja alemã sobre o perigo de submeter sua identidade e sua mensagem ao projeto de poder do Estado. Muitos preferiram a segurança institucional e a aprovação pública; a maioria das igrejas simplesmente se acomodou.
Bonhoeffer insistiu que a Igreja pertence a Cristo e não pode
entregar ao governante a lealdade que só ao Senhor pertence. Pagou com a vida,
poucas semanas antes do fim da guerra.
Seu testemunho lembra o de Jotão: em tempos de idolatria
política, dizer a verdade parece fraqueza e ineficácia. Mas o silêncio dá
sombra a espinheiros — e espinheiros sempre terminam em fogo.
Aplicações do segundo ponto
- Não
troque produtividade por posição. Continue frutificando onde Deus o
plantou.
- Desconfie
de quem promete proteção absoluta. Só Deus é refúgio perfeito.
- Avalie
o caráter antes de conceder autoridade. Ambição nunca foi prova de
vocação.
- Não
confunda unidade com submissão cega. A unidade cristã está submetida à
verdade.
- Reconheça
a responsabilidade de quem sustenta lideranças abusivas. Conveniência
e silêncio também produzem consequências.
- Tenha
a coragem de Jotão. A verdade permanece de pé mesmo quando a voz que a
disse precisa fugir.
3. DEUS GOVERNA AS CONSEQUÊNCIAS DO PECADO E FAZ AS
ALIANÇAS CORRUPTAS SE DESTRUÍREM
"Havendo, pois, Abimeleque dominado três anos sobre
Israel, suscitou Deus um espírito de aversão entre Abimeleque e os cidadãos de
Siquém" (Jz 9.22–23).
3.1. Três anos de aparente impunidade
Antes de falarmos do juízo, precisamos falar da demora.
Abimeleque matou setenta irmãos, comprou uma cidade, foi
coroado rei — e nada aconteceu. Nenhum raio. Nenhuma praga. Nenhum profeta
batendo à porta do palácio. Jotão fugiu e sumiu da narrativa. Os assassinos
contratados foram para casa com a prata no bolso.
E ele governou três anos.
Para quem está debaixo da injustiça, três anos são uma
eternidade. É tempo suficiente para que uma pessoa comece a duvidar seriamente
de que Deus vê alguma coisa.
Foi essa exatamente a crise do salmista em Salmo 73. Ele
olhou para a prosperidade dos ímpios — saudáveis, tranquilos, ricos,
arrogantes, sem os problemas dos outros homens — e confessou que seus pés quase
resvalaram. Quase perdeu a fé olhando para gente má que ia bem.
E o que restaurou sua sanidade não foi um argumento novo.
Foi um lugar: "até que entrei no santuário de Deus; então, entendi o
fim deles."
Ele mudou o ponto de observação. Parou de medir a história
pelo relógio de hoje e passou a considerá-la do ponto de vista do fim.
A demora da justiça não é ausência de justiça. É
paciência de Deus, é tempo de arrependimento — e, para quem não se arrepende, é
apenas o intervalo antes da conta.
3.2. Deus enviou um espírito de aversão
"Suscitou Deus um espírito de aversão entre Abimeleque
e os cidadãos de Siquém."
Essa é uma expressão difícil, e precisamos tratá-la com
cuidado teológico.
Não estamos diante de um Deus que injeta maldade em corações
inocentes. Abimeleque e Siquém já estavam inteiramente comprometidos com
ambição, idolatria e assassinato; a desconfiança mútua já era parte da natureza
daquela aliança, porque uma aliança nascida de conveniência sempre traz dentro
de si a semente da traição.
O que Deus fez foi retirar as restrições e
entregá-los ao que eles mesmos haviam escolhido.
Esse é um dos aspectos mais solenes do juízo divino, e
Romanos 1 o repete três vezes com a mesma fórmula: "Deus os
entregou." Entregou-os às concupiscências, às paixões, a uma
disposição mental reprovável.
Ou seja: uma das formas mais terríveis do juízo de Deus é
ele permitir que a pessoa siga exatamente o caminho que escolheu e colha
exatamente o que plantou.
Quando Deus deixa de segurar alguém, esse alguém descobre
para onde estava indo.
3.3. O sangue não havia sido esquecido
"Para que a violência praticada contra os setenta
filhos de Jerubaal [...] viesse, e o sangue deles caísse sobre Abimeleque [...]
e sobre os cidadãos de Siquém" (v. 24).
Três anos depois, o narrador informa qual era o propósito de
tudo aquilo — e o propósito tem nome, sobrenome e número: os setenta filhos de
Jerubaal.
Deus não havia esquecido nem um deles.
A Escritura sempre apresenta Deus como aquele que ouve o
sangue clamando do chão — foi assim desde Abel. Ele vê crimes que nenhuma
testemunha viu, ouve o clamor dos oprimidos e jamais trata a violência como
estatística.
Tribunais humanos falham. Testemunhas são compradas ou
ameaçadas. Documentos desaparecem. Processos prescrevem. Criminosos morrem
respeitados.
Mas nada, absolutamente nada, escapa ao conhecimento de
Deus.
Isso deve produzir duas reações opostas em dois tipos de
pessoa: temor em quem pratica a injustiça, e consolo em quem a
sofre.
Se você foi lesado por alguém que nunca respondeu por isso,
ouça: não foi esquecido. Deus tem uma memória perfeita e uma justiça sem
falhas.
3.4. Os aliados traíram o líder que escolheram
O primeiro movimento do juízo é quase banal: os cidadãos de
Siquém começam a pôr emboscadas nos montes e a roubar quem passa.
Parece um detalhe menor, mas é economicamente devastador —
Siquém ficava numa rota comercial. Assaltar viajantes significava estrangular o
comércio e desmoralizar o rei que deveria garantir a segurança das estradas.
Ou seja: os mesmos homens que pagaram para colocá-lo no
trono começaram a sabotá-lo.
Não é surpresa nenhuma. A aliança foi construída sobre
oportunismo, e o oportunismo tem lealdade de prazo curto.
Quem conquista seguidores alimentando interesses nunca
produz fidelidade fundada em princípios. Ele produz uma clientela — e
clientes trocam de fornecedor.
Um relacionamento sustentado apenas por conveniência não
resiste à primeira mudança de circunstâncias. Isso vale para política, para
negócios, para ministérios e para amizades.
A ambição une temporariamente. Só a verdade e o amor
produzem comunhão que dura.
3.5. Gaal explorou a insatisfação
Aparece então Gaal, filho de Ebede, com seus irmãos. Ele se
instala na cidade, ganha a confiança dos moradores e, durante uma festa da
vindima realizada no templo do ídolo — comendo, bebendo e amaldiçoando
Abimeleque —, faz seu discurso:
"Quem é Abimeleque, e quem é Siquém, para que o
sirvamos?" (v. 28).
Observe o quadro completo: uma festa religiosa pagã, vinho,
e um golpe sendo articulado no meio da celebração.
E observe o que falta no discurso de Gaal, exatamente como
faltava no de Abimeleque: nenhuma menção a Deus. Nenhum chamado. Nenhuma
preocupação com justiça. É apenas mais um ambicioso oferecendo-se para
substituir o ambicioso anterior.
Um espinheiro tentando desbancar outro espinheiro.
E aqui está uma lição política e eclesiástica
importantíssima: trocar a pessoa sem transformar os princípios não resolve
nada. Uma comunidade pode arrancar um espinheiro e plantar outro no mesmo
buraco, com grande entusiasmo e sensação de renovação.
Reforma verdadeira exige outra coisa: arrependimento,
retorno à Palavra, justiça, prestação de contas e mudança real de valores. Sem
isso, o que muda é apenas o nome de quem está no trono.
3.6. A boca de Gaal e as pernas de Gaal
Gaal foi corajoso na festa:
"Multiplica o teu exército e sai" (v. 29).
Fácil dizer isso cercado de gente que concorda, com vinho na
mesa e nenhum inimigo à vista.
Na manhã seguinte, porém, ele está sentado à porta da cidade
e vê algo descendo dos montes. Diz a Zebul: "vem gente descendo dos
altos". E Zebul — que já havia denunciado tudo a Abimeleque secretamente —
responde com deboche: "são as sombras dos montes que você está vendo como
se fossem homens".
Deixa Gaal falar mais um pouco. Deixa a dúvida crescer. E
então, quando não há mais como negar, solta a frase:
"Onde está, agora, a tua boca, com que dizias: Quem é
Abimeleque, para que o sirvamos?" (v. 38).
Onde está agora a sua boca?
É uma das perguntas mais úteis da Escritura, e todos
deveríamos aplicá-la a nós mesmos de vez em quando.
O orgulho fala primeiro e calcula depois. Faz
promessas grandes na festa e desaparece na batalha. É fácil ser corajoso quando
o custo é hipotético.
Jesus ensinou o contrário: quem vai construir uma torre
calcula primeiro se tem com que acabá-la; quem vai à guerra examina antes se
pode enfrentar com dez mil quem vem com vinte mil.
A sabedoria conta o custo antes de abrir a boca.
3.7. Uma cidade onde ninguém pode descansar
Repare no elenco desta parte do capítulo: Abimeleque usa
Zebul; Zebul trai Gaal; Gaal usa a insatisfação do povo; o povo usa todos eles.
Não há uma única relação de confiança em Siquém. Nenhum
vínculo verdadeiro. Nenhuma palavra que valha. Nenhum temor de Deus em lugar
algum.
Todos estão apenas manobrando por posição.
E é isso que o pecado faz com uma comunidade: produz um
ambiente em que ninguém consegue descansar.
Onde não há verdade, todos suspeitam. Onde não há
fidelidade, todos se preparam para a traição. Onde o poder é supremo, toda
amizade é provisória e todo aliado é temporário.
Se você já esteve num ambiente assim — uma empresa, uma
família, e Deus nos livre, uma igreja — sabe o cansaço que isso produz. É
exaustivo viver onde nada é o que parece.
E é por isso que a comunidade cristã, quando funciona, é um
oásis: ali as pessoas podem baixar a guarda, porque não estão competindo pelo
mesmo trono.
Aplicações do terceiro ponto
- Não
confunda demora com aprovação. Deus tem o seu tempo, e ele não é o
nosso.
- Lembre-se
de que o sangue clama. Pecados não confessados continuam produzindo
consequências.
- Não
construa alianças apenas sobre conveniência. Interesses mudam;
princípios permanecem.
- Não
espere reforma trocando apenas as pessoas. Sem mudança de valores, o
próximo será outro espinheiro.
- Calcule
o custo antes das grandes declarações. "Onde está agora a tua
boca?" é uma pergunta que chega para todos.
- Cultive
ambientes de verdade e prestação de contas. Onde há manipulação, a
confiança morre.
- Descanse
na justiça de Deus. Ele alcança o que nenhum tribunal humano alcança.
4. O MAL PRATICADO CONTRA OS OUTROS FINALMENTE RETORNA
SOBRE QUEM O PRATICOU
"Assim, Deus fez tornar sobre Abimeleque o mal que ele
havia feito a seu pai, ao matar os seus setenta irmãos" (Jz 9.56).
4.1. Ele destruiu a cidade que o coroou
Derrotado Gaal e expulso da cidade, Abimeleque não se deu
por satisfeito.
No dia seguinte, dividiu seus homens em três companhias,
emboscou o povo que saía para o campo, tomou a cidade, matou seus habitantes,
derrubou os muros e semeou sal sobre as ruínas — um gesto simbólico de
amaldiçoamento definitivo, declarando que ali nada mais deveria crescer.
A cidade que lhe deu a prata, que lhe deu a coroa, que o
chamou de "nosso irmão", foi arrasada pelas mãos dele.
Jotão havia dito: "saia fogo de Abimeleque e consuma
os cidadãos de Siquém." Cumpriu-se ao pé da letra.
E aprenda a lição, porque ela custa caro: o líder que
promete proteção sem ter caráter costuma se tornar o maior perigo justamente
para quem o apoiou.
Abimeleque nunca amou Siquém. Amava o poder que Siquém lhe
dava. E, no instante em que a cidade deixou de servi-lo, ela se tornou
descartável — exatamente como seus irmãos haviam sido.
Quem usa pessoas não faz exceção para aliados. Faz apenas
uma fila.
4.2. O templo não protegeu ninguém
Os líderes da Torre de Siquém correram para a fortaleza do
templo de El-Berite — outro nome do mesmo ídolo, "deus da
aliança".
Provavelmente acreditavam que ali estariam seguros. Era o
lugar mais fortificado da cidade e, além disso, era sagrado. Alguém ousaria
queimar um templo?
Aqui o narrador fecha um círculo cruel. Foi do templo de Baal-Berite que saiu a prata para financiar Abimeleque.
Agora é no templo do
mesmo deus que os financiadores procuram abrigo — e Abimeleque, com um machado,
corta ramos de árvore no monte Zalmom, coloca-os sobre a fortaleza e ateia
fogo.
Cerca de mil homens e mulheres morrem queimados.
O deus que financiou a violência não conseguiu proteger
seus adoradores dela.
A sombra do espinheiro tornou-se fogo, exatamente como Jotão
anunciou.
Os ídolos sempre falham no momento decisivo — e é sempre no
momento decisivo que descobrimos em que estávamos confiando:
o dinheiro não compra paz com Deus; o poder não impede a
morte; a reputação não limpa a consciência; a religião falsa não oferece
refúgio nenhum no dia do juízo.
Só há um abrigo seguro, e o nome dele é o Senhor.
4.3. O sucesso tornou Abimeleque imprudente
De Siquém, Abimeleque marcha sobre Tebes. Toma a cidade
rapidamente. Os habitantes se refugiam numa torre forte no meio da cidade e
trancam a porta atrás de si.
E o texto diz que Abimeleque se aproximou da torre
"para lhe meter fogo".
Repare: é exatamente a mesma tática. Funcionara três
dias antes contra mil pessoas. Por que não funcionaria de novo?
E é aí que ele erra. Para atear fogo à porta, precisava
chegar perto — perto o suficiente para ficar debaixo do parapeito, onde
qualquer defensor no alto podia alcançá-lo.
O sucesso repetido produz uma sensação de invulnerabilidade
que embota o discernimento:
"já fiz isso antes." "sempre
funcionou." "ninguém nunca me deteve."
Essas três frases já destruíram muita gente competente. Elas
fazem com que paremos de avaliar riscos justamente na hora em que o risco muda.
Abimeleque chegou perto demais.
4.4. Uma mulher sem nome derrubou o rei
"Porém certa mulher lançou uma pedra superior de moinho
sobre a cabeça de Abimeleque e lhe quebrou o crânio" (v. 53).
Deixe a cena inteira aparecer, porque cada detalhe é
intencional.
O homem que matou setenta irmãos sobre uma pedra foi
morto por uma pedra.
O rei que buscou construir um grande nome foi derrubado por
uma mulher cujo nome o texto se recusa a registrar.
E a arma? A pedra superior do moinho — a peça de cima, a
mais leve, a que uma mulher manejava todos os dias para moer o grão da família.
Não era arma de guerra. Era utensílio de cozinha.
O homem forte, o mercenário profissional, o incendiário de
mil pessoas, foi liquidado por uma dona de casa anônima com o instrumento mais
doméstico que existia.
Isso não é ironia literária. É teologia.
Deus não precisa de instrumentos impressionantes para
derrubar pretensões humanas.
Faraó foi confrontado por um pastor com um cajado. Sísera
morreu dormindo dentro de uma tenda, com uma estaca na cabeça. Golias caiu
diante de um menino com uma funda. Midiã fugiu diante de trezentos homens com
trombetas e cântaros. E Abimeleque morreu debaixo de uma pedra de moinho.
"Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes
concede a sua graça" (Tg 4.6).
4.5. Preocupado com a reputação até o último suspiro
"Chamou logo ao moço, seu escudeiro, e lhe disse:
Desembainha a tua espada e mata-me, para que não se diga de mim: Mulher o
matou" (v. 54).
Este é o versículo mais revelador do capítulo inteiro.
O homem está morrendo. O crânio quebrado. Restam-lhe
segundos. E qual é a sua última preocupação nesta terra?
O que vão dizer dele.
Ele poderia clamar por misericórdia. Poderia reconhecer o
mal que fez. Poderia lembrar-se dos setenta rostos. Poderia se voltar para o
Deus de seu pai.
Em vez disso, tenta administrar a versão oficial da própria
morte.
A vida inteira governada pelo desejo de construir um nome
termina com um esforço patético para controlar a narrativa — e ele nem isso
conseguiu.
Porque, cerca de trezentos anos depois, quando Joabe
precisou explicar a Davi por que um soldado havia morrido perto demais de um
muro, ele usou um exemplo que todo israelita conhecia de cor:
"Quem feriu a Abimeleque? Não lançou dele uma mulher um
pedaço de mó de cima do muro?" (2Sm 11.21).
Foi exatamente assim que ele entrou para a história.
Gerações depois, era essa a única coisa que se lembrava dele.
Não controlamos o que dirão de nós. Deveríamos nos ocupar
com o que Deus dirá.
4.6. Morto o líder, o projeto acabou
"Vendo, pois, os homens de Israel que Abimeleque era já
morto, foram-se, cada um para sua casa" (v. 55).
Nenhum sucessor. Nenhuma continuidade. Nenhum luto
registrado. Nenhum monumento. Cada um simplesmente foi para casa.
O reino de Abimeleque durou o tempo exato do batimento
cardíaco de Abimeleque, porque nunca teve propósito maior do que a ambição de
um homem.
Movimentos construídos ao redor de uma personalidade entram
em colapso quando a personalidade some. É uma lei quase física.
E há aqui uma advertência para a igreja: quando um
ministério depende inteiramente de um nome, ele já tem prazo de validade
marcado.
Pastores morrem, e Cristo permanece. Líderes se aposentam, e
o evangelho continua. Gerações passam, e a Palavra do Senhor permanece para
sempre.
A Igreja não pode ser construída em torno de celebridades.
Seu único fundamento é Jesus Cristo.
4.7. Deus fez tornar o mal
O capítulo se recusa a terminar como reportagem. Ele termina
com interpretação teológica, e ela é explícita:
"Assim, Deus fez tornar sobre Abimeleque o mal que ele
havia feito a seu pai." "E também todo o mal dos homens de Siquém,
Deus o fez cair sobre a cabeça deles" (vv. 56–57).
Não foi acaso. Não foi jogo político que deu errado. Não foi
azar de um comandante imprudente.
Foi Deus. Do começo ao fim.
E note que ninguém escapou: nem o tirano, nem os que o
financiaram. O narrador é cuidadoso em distribuir a responsabilidade exatamente
onde ela cabia.
"Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo
que o homem semear, isso também ceifará" (Gl 6.7).
Abimeleque semeou violência e colheu violência. Siquém
financiou fogo e foi consumida pelo fogo.
Uma ressalva honesta, porém, é necessária, para que ninguém saia daqui com uma teologia simplista: nem toda pessoa colhe nesta vida, de forma visível, aquilo que semeou.
Muitos ímpios morrem prósperos e
respeitados. Foi essa constatação que quase derrubou o salmista do Salmo 73, e
a Escritura não esconde isso.
É justamente por isso que existe um juízo final. A justiça
de Deus não se esgota nos limites da história.
Mas o que Juízes 9 garante é isto: ninguém escapa. Nem
aqui, nem lá.
Aplicações do quarto ponto
- Não
construa nada com métodos que não suportariam a luz. Resultado bom não
santifica meio ruim.
- Não
procure segurança em falsos refúgios. Templos de ídolos pegam fogo.
- Vigie
especialmente depois do sucesso. A vitória repetida produz
imprudência.
- Não
viva escravo da reputação. Preocupe-se com o veredito de Deus, não com
o comentário dos homens.
- Não
construa ministério em torno de uma personalidade. Só Cristo sustenta
o que edifica.
- Não
busque vingança. A justiça pertence ao Senhor, e ele não falha.
- Arrependa-se
enquanto há tempo. Não chegue ao último minuto tentando salvar a
imagem.
APLICAÇÕES GERAIS
1. Para a vida pessoal
Antes de olharmos para tiranos históricos, olhemos para
dentro. Existe um pequeno Abimeleque em qualquer coração que aprende a usar
pessoas para chegar aonde quer.
Pergunte com honestidade:
Como eu reajo quando alguém ameaça meus planos? Preciso
controlar todas as decisões ao meu redor? Enxergo colaboradores como irmãos ou
como recursos? Minha ambição está submetida à vontade de Deus ou apenas
maquiada com linguagem espiritual? Eu conseguiria servir sem título, sem
reconhecimento e sem que ninguém soubesse?
A ambição pecaminosa raramente começa com o desejo de um
trono. Começa com a necessidade de ter sempre razão, de receber atenção e de
controlar o ambiente.
2. Para as famílias
Gideão deixou um legado ambíguo. Abimeleque levou essa
ambiguidade à conclusão lógica.
Pais, entendam: vocês não estão apenas criando filhos. Estão
formando uma cultura familiar, e ela será herdada.
Os filhos observam como usamos a autoridade, como tratamos
quem discorda, como falamos das pessoas ausentes, como administramos o
dinheiro, como reagimos à frustração — e, sobretudo, se a nossa confissão
corresponde à nossa prática.
Não adianta dizer "o Senhor governa esta casa"
enquanto a casa é conduzida pelo autoritarismo, pelo orgulho ou pela ausência
de perdão. As crianças aprendem o segundo, não o primeiro.
3. Para a liderança da igreja
A liderança cristã não é trono. É serviço — e o Novo
Testamento é explícito ao ponto de ser desconfortável:
"Não como dominadores dos que vos foram confiados,
antes, tornando-vos modelos do rebanho" (1Pe 5.3).
Líderes saudáveis prestam contas, recebem correção, formam
sucessores, não manipulam, não ameaçam, não confundem a própria vontade com a
vontade de Deus e não constroem a obra ao redor do próprio nome.
E o teste mais simples é este: ainda existe alguém que
possa dizer "não" a você e ser ouvido? Se não existe, o problema
já começou.
4. Para a escolha de líderes
Não escolha com base em carisma, eloquência, parentesco,
popularidade, promessas grandiosas, pertencimento ao grupo ou capacidade de
mobilizar multidões.
Avalie caráter, fidelidade bíblica, humildade, domínio
próprio, vida familiar, disposição para servir sem holofote e — talvez o mais
revelador de todos — capacidade de receber correção.
Espinheiros aprendem a falar como cedros. É pelos frutos, e
pelo tempo, que se revelam.
5. Para a igreja diante da política
A igreja não pode entregar sua esperança messiânica a nenhum
líder político.
Governantes têm vocação legítima, e a Escritura manda orar
por eles, honrá-los e cobrá-los segundo a justiça. Mas nenhum deles é salvador,
e nenhum deles pode receber o tipo de lealdade que só a Cristo pertence.
Quando a igreja trata uma personalidade política como
refúgio absoluto, ela está chamando a sombra do espinheiro de proteção divina —
e a história já mostrou onde isso termina.
Devemos orar pelas autoridades, buscar o bem da cidade e
participar responsavelmente da vida pública. Mas a nossa confiança final tem um
só endereço.
6. Para quem sofreu injustiça
Jotão não tinha exército. Falou a verdade, fugiu e esperou.
E a justiça não veio no dia seguinte — veio três anos depois.
Talvez alguém tenha mentido sobre você. Talvez tenham usado
autoridade para prejudicá-lo. Talvez o prejuízo nunca tenha sido reconhecido
por ninguém.
Use os meios legítimos: procure as autoridades competentes,
busque apoio seguro, não se cale por medo quando falar é o certo.
E, ao mesmo tempo, não deixe a vingança governar seu coração
— porque ela cobra um preço alto de quem a hospeda, e nunca entrega o que
promete.
Deus vê. Deus conhece. Deus julgará com perfeição.
CRISTO NO TEXTO: O REI INTEIRAMENTE DIFERENTE DE
ABIMELEQUE
Juízes 9 deixa no leitor um desejo muito específico: o
desejo de um rei que não seja espinheiro.
Israel precisava de um Rei que não conquistasse o trono
derramando o sangue dos irmãos, que não usasse pessoas como instrumentos e que
não prometesse uma sombra que não pudesse oferecer.
Esse Rei é Jesus Cristo — e o contraste é ponto por ponto.
1. Abimeleque matou os irmãos para conquistar o trono;
Jesus morreu para transformar inimigos em irmãos. Abimeleque sacrificou
setenta vidas em benefício próprio. Jesus sacrificou a si mesmo em benefício
dos outros — e, ao ressuscitar, chamou de irmãos exatamente aqueles que o
haviam abandonado: "nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida
por nós" (1Jo 3.16).
2. Abimeleque foi financiado por um templo idólatra;
Jesus recusou o atalho da idolatria. Satanás ofereceu a Cristo todos os
reinos do mundo e sua glória, por um único ato de adoração. Era o mesmo negócio
que Abimeleque fechou em Siquém, em escala infinitamente maior. E Cristo
respondeu: "ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto"
(Mt 4.10). Ele preferiu chegar ao trono pela cruz a chegar por um atalho.
3. Abimeleque prometeu sombra sem possuí-la; Jesus é
refúgio verdadeiro. O espinheiro disse "refugiai-vos debaixo de minha
sombra" e depois queimou aqueles que confiaram nele. Cristo diz: "vinde
a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei"
(Mt 11.28) — e cumpre. Sua promessa não é retórica de campanha; é a oferta de
alguém que pode e quer sustentar quem vem.
4. Abimeleque produziu fogo; Jesus suportou o fogo do
juízo no lugar do seu povo. O fogo que sai do espinheiro consome os outros.
O juízo que Cristo enfrentou, ele o recebeu sobre si — no lugar de pecadores
ambiciosos, manipuladores e idólatras como nós.
5. Abimeleque tentou preservar a reputação na morte;
Jesus aceitou a vergonha da cruz. O último gesto de Abimeleque foi tentar
controlar a versão da própria morte. Cristo "a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente até à morte e morte de cruz" (Fp 2.8) — a morte
mais desonrosa que o mundo antigo conhecia, reservada a escravos e criminosos.
Ele não protegeu a imagem; entregou-a, para salvar o seu povo.
6. O reino de Abimeleque acabou quando ele morreu; o
Reino de Cristo foi confirmado pela ressurreição. Abimeleque morreu e cada
um foi para sua casa. Jesus morreu, ressuscitou ao terceiro dia e enviou seus
discípulos a todas as nações. Seu Reino não depende da duração de uma vida
humana, porque ele vive para sempre.
7. Abimeleque tomou o poder; Jesus recebeu do Pai toda a
autoridade. Um subiu ao trono por conta própria, sobre uma pedra
ensanguentada. O outro ouviu do Pai, depois da obediência até a morte: "toda
a autoridade me foi dada no céu e na terra" (Mt 28.18). E seu governo
é justo, santo, misericordioso e eterno.
CONCLUSÃO
Olhe como este capítulo abre e como ele fecha.
Começa com um homem perguntando: "não é melhor que
um só homem vos domine?" Termina com esse homem morto ao pé de uma
torre, pedindo que o matem depressa.
Começa com prata retirada do templo de Baal. Termina com o
templo do mesmo ídolo em chamas, com mil pessoas dentro.
Começa com setenta irmãos mortos sobre uma pedra. Termina
com uma pedra quebrando o crânio do assassino.
Começa com Siquém coroando Abimeleque. Termina com
Abimeleque arrasando Siquém e semeando sal sobre as ruínas.
Começa com o espinheiro prometendo sombra. Termina com o
fogo consumindo o espinheiro e as árvores juntos.
O capítulo inteiro proclama uma coisa: Deus não é
indiferente ao pecado.
O trono de Abimeleque pareceu firme por três anos. Mas
estava assentado sobre sangue, e o poder conquistado pela injustiça carrega
dentro de si a semente exata da própria destruição.
Antes, porém, de apontarmos o dedo para Abimeleque — o que é
fácil e confortável, porque ele está bem longe de nós —, examinemos o coração.
Toda vez que usamos alguém como instrumento para chegar aonde queremos, a lógica de Abimeleque está operando. Toda vez que criamos falsas alternativas para manipular uma decisão, a lógica de Abimeleque está operando.
Toda vez que confundimos liderança com domínio, a lógica de
Abimeleque está operando. E toda vez que preferimos um espinheiro conveniente à
verdade incômoda de Deus, a lógica de Siquém está operando.
Por isso, nossa necessidade mais profunda não é apenas de
líderes melhores. É de um coração transformado e de um Rei perfeito.
E esse Rei existe.
Ele não mata irmãos para conquistar um trono; entrega a vida para adotar pecadores como irmãos. Ele não explora o povo; serve o povo. Ele não oferece sombra falsa; é o nosso verdadeiro refúgio. Ele não reina por manipulação; reina em justiça, graça e verdade.
Meu irmão, minha irmã, responda diante de Deus:
Que ambição está governando o seu coração hoje? Você tem
servido pessoas ou usado pessoas? Sua liderança — em casa, no trabalho, na
igreja — produz fruto ou apenas exige posição? Você apoia alguém pelo caráter
dessa pessoa ou apenas porque ela é "dos seus"? Há algum método que
você tem justificado em nome de bons resultados? Você está mais preocupado com
o que Deus pensa ou com o que os outros vão dizer? Existe alguma ferida antiga
alimentando um desejo de acerto de contas?
Hoje o Senhor nos chama ao arrependimento.
Desça do trono que o orgulho construiu. Pare de usar pessoas
como degraus. Recuse a sombra falsa dos espinheiros. Não confie em alianças
sustentadas apenas por conveniência. Submeta suas ambições ao governo de
Cristo.
E se você nunca se rendeu a ele, veja onde termina o caminho de quem tenta ser o próprio rei: um homem sozinho, ao pé de uma torre, com o crânio quebrado, tentando salvar a reputação em vez de salvar a alma.
Não vá
até o fim desse caminho. Há um Rei que morreu pelos rebeldes, e ele recebe hoje
todo aquele que vem.
Oremos:
"Senhor, sonda o meu coração e livra-me da ambição
egoísta. Ensina-me a servir sem manipular, a liderar sem dominar e a trabalhar
sem buscar a minha própria glória. Dá-me discernimento para reconhecer os
falsos líderes e coragem para permanecer fiel à verdade. Governa a minha vida
por meio de Jesus Cristo. Amém."
O fogo de Abimeleque destruiu Siquém. O amor de Cristo
edifica a sua Igreja.
O reino do espinheiro durou três anos e terminou debaixo de
uma pedra de moinho. O Reino de Jesus jamais terá fim.
"O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos" (Ap 11.15). Amém.
Pr. Eli Vieira Filho

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