segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Cristianismo e Aborto

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A demanda por aborto não é exclusividade de um único país, mas é comum hoje a todo o mundo ocidental. De um lado, certamente, havemos de reconhecer – e é muito importante que se entenda – que políticas a favor da legalização do aborto têm sido cada vez mais impostas verticalmente, a partir de governantes que seguem agendas políticas conscientemente dentro do processo de subversão cultural do Ocidente; de outro lado, devemos reconhecer que tal demanda é apenas a consequência de um longo processo de entropia cultural do mundo outrora cristão. Falha quem resume o problema apenas ao primeiro aspecto, julgando que tudo não passa apenas de uma militância revolucionária em favor de modelos socialistas; nesse sentido, a igreja muito comumente falha ao negar que exista tal militância, entendendo o problema como exclusivamente cultural. Mas é fato que a agenda revolucionária tem o único propósito de forçar, de impulsionar os resultados desse descarrilamento intelectual e espiritual do Ocidente. Os revolucionários, de certa forma, querem acelerar o processo que muitos deles creem ser a consumação dos tempos do humanismo. A demanda por aborto não surgiu por coincidência: ela é fruto de uma cosmovisão. 

DEUS ESTÁ MORTO

Francis Schaeffer entendeu que a cosmovisão naturalista-materialista é incapaz de prover dignidade ao homem, ou mesmo de garantir o sonho iluminista de “direitos humanos”. Se Deus não existe, se o universo é movido por forças mecânicas impessoais, segue-se que não existe espaço para o indivíduo humano. O abandono de Deus significa também a desumanização do homem. Hoje, o homem não é mais Imago Dei; antes, ele é visto como um animal, um macaco com cérebro avantajado, ou, como no caso das teorias comportamentalistas dos psicanalistas, uma espécie de “máquina biológica”. A definição de vida e de humano perde-se nessa falta de padrão absoluto, e, por essa razão, vários abortistas desumanizam os bebês em gestação, tratando-os como “amontoados de células”. Cortá-los em pedaços com tesouras cirúrgicas acaba sendo como cortar uma laranja. 

Se há um grande evento que explique a demanda por aborto, é a “morte de Deus” percebida por Nietzsche. Ao contrário do que muitos conservadores costumam pensar, Nietzsche não “matou Deus”. Nietzsche jamais acharia que Deus realmente pode morrer, porque Deus não é físico ou mortal. O filósofo alemão simplesmente percebeu que Deus já estava “morto” para o homem de seu tempo: Deus, mesmo que exista, tornou-se irrelevante para o homem moderno. Isso necessariamente afeta todas as áreas da vida humana e o modo pelo qual o homem se relaciona com o próximo e com a própria realidade. 

Se o homem não presta contas a Deus e se nada no mundo funciona segundo um propósito por ele criado, é necessário reinterpretar todas as relações humanas.  Na melhor das hipóteses, o casamento em um mundo onde Deus não existe acaba tendo uma função “social” de educar crianças para a vida em “sociedade” – algo que o marxismo há muito deseja corrigir com a possibilidade da tutela das crianças pelo próprio Estado em creches, como hoje acontece na Coréia do Norte. Mas à medida em que a religião se tornou cada vez mais irreal para o homem moderno, o casamento deixou de ser um pacto entre um homem e uma mulher que tornar-se-iam uma só carne diante do Deus Triúno, passando a ser um contrato: “você me dá prazer e felicidade e eu te dou o mesmo”. Se você não está feliz no casamento, divorcie-se. Este é o conselho oferecido pela nossa cultura. O casamento torna-se um objeto de consumo. Necessariamente, o mesmo efeito estende-se a todas as relações sociais, incluindo a maternidade. Num mundo extasiado pelo entretenimento e pela busca do prazer momentâneo e nauseante, o casamento e a maternidade tornam-se pouco atrativos. Na verdade, tornam-se mesmo empecilhos indesejáveis para as fracas mentes jovens. 

Isso envolve também um outro efeito da morte de Deus: a insegurança sobre o futuro, a ausência de Providência divina. É por isso que alguns abortistas argumentam que um filho em determinado momento da vida pode atrapalhar os planos futuros, as realizações profissionais, etc. Isso significa, em parte, negar a Providência de Deus. Devemos nos perguntar – e incluímo-nos nesta pergunta também – se essa mesma mentalidade ateísta não está hoje presente em parte da cultura contraceptiva de muitas famílias cristãs. Será que essa cultura que demanda por aborto, por uma vida livre de responsabilidades e esforço, tem algum reflexo na igreja de Cristo?

Semelhantemente, sem Deus, o Estado toma o papel de predestinador da vida humana. Se Deus não é predestinador, o Estado assume a função divina de conduzir a humanidade a um propósito preordenado. O controle populacional torna-se necessário e desejável. Se o mundo está superpopuloso, como advoga a teoria malthusiana, liberemos o aborto em nome de “um mundo melhor”. Sabe-se que a Planned Parenthood, recentemente envolvida num escândalo de venda de órgãos de bebês abortados nos EUA, foi criada por uma nazista cujo objetivo era controlar o crescimento populacional de negros nos EUA. Se Deus está morto, o homem é livre para ser o predestinador de si mesmo. 

LA LIBERTÉ

A Escritura testemunha que o desejo de ser livres de Deus tenta a humanidade há tempos: mais precisamente, desde o jardim do Éden. Em Gênesis 3, a serpente diz a Eva que Deus lhe proibira de comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal porque “Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus” (Gn 3:5). Esse é o conceito de liberdade da serpente: liberdade de Deus, para ser deuses para si mesmos. Eva e Adão desejaram ser deuses para si mesmos, descobrindo, sem Deus, o que era o bem e o mal. Mas a princípio, Eva precisou apartar-se da pressuposição de que o universo fora criado por Deus para uma possibilidade aprioristicamente antinomista: “é bom que eu seja livre para conhecer por mim mesma”. Eva lançou a determinação de Deus sobre a malignidade daquele ato para a esfera da mera “opinião”, crendo que os conceitos de bem e mal fossem ideias “platônicas” (anacronicamente falando) autoexistentes e independentes dEle. O desejo de ser livres de Deus foi herdado por toda a humanidade na depravação total que nos aborrece. Deus, sob esse ponto de vista, é o vilão, o tirano que tira do homem sua liberdade de autodeterminação. E a “morte de Deus”, no Ocidente, nada mais é do que a manifestação do pecado original em nossos tempos. 

Nessa tendência, a Nova Esquerda e alguns libertários estão unidos (nem todos os libertários são favoráveis ao aborto). Segundo o argumento de Murray Rothbard, em The Ethics of Liberty [A Ética da Liberdade], o feto deve ser visto

(1) como um invasor que a mulher tem o direito ou não de permitir a estadia dentro de si; (2) como incapaz de ser o agente de um "contrato" (sic), de forma que o aborto não seria uma quebra de contrato; (3) razão pela qual exigir que a gestação seja mantida significaria prender a mulher num contrato de escravidão; (4) e que o feto, mesmo que seja considerado humano, não pode ser mantido exceto pelo consentimento da mãe, porque nenhum ser humano tem o direito de ser "parasita" [sim, ele usa este termo] de outro, i.e., se um ser humano adulto não tem esse direito, então o bebê em gestação também não tem.

Rothbard, citando a professora Judith Thomson, chega a questionar a doutrina do "direito à vida", porque este pressuporia a obrigação de outrem prover o sustento para a vida de um indivíduo – virtualmente, todos –, e que ninguém tem essa obrigação absurda.

Esse famoso libertário, a despeito de suas opiniões corretas e úteis no campo econômico, dá ao indivíduo o tipo de liberdade que a serpente ofereceu a Eva. Por isso, com propriedade, afirmamos que sua proposta é diabólica. As relações pessoais são vistas em termos de "contratos", não de Pacto com Deus, imanentizando a soberania e oferecendo ao indivíduo uma experiência atomística. A soberania humana sobre o próprio corpo na verdade é secundária; e trata-se de um equívoco dos próprios conservadores a retirada das esferas da vida do Estado para concedê-las à propriedade privada, pois, agindo assim, continuamos dentro do espectro iluminista, já que as esferas – todas elas – pertencem antes a Deus. A relação familiar, verdadeiro dom divino, é um símbolo da própria Trindade e não é vista dentro do escopo do direito de propriedade privada, mas dentro de um propósito criacional do qual o homem, degenerado por sua natureza totalmente depravada, quer sempre se desfazer. 

Com relação à liberdade, é preciso ter em mente que as pessoas nem sempre se referem à mesma coisa quando se valem do termo. Como R. J. Rushdoony ensina em Roots of Reconstruction [Raízes da Reconstrução], o conceito de liberdade no Ocidente sofreu severas mudanças desde a Idade Média. Para Anselmo, a liberdade do homem consistia em liberdade para praticar o bem. O conceito cristão de liberdade na esfera das relações públicas era basicamente a de liberdade religiosa contra o Estado, resultado de um longo processo histórico de conflitos entre a igreja, príncipes e imperadores. Com o Renascimento, o Iluminismo e a Revolução Francesa, chegando até a Revolução Russa, cada vez mais a liberdade transformou-se numa liberdade contra Deus. Primeiramente, o homem deveria conformar-se com a natureza; e, por sua vez, a moral cristã, sendo “sobrenatural”, tornou-se logo um elemento estranho indigno de influenciar as decisões dos indivíduos e sociedades. Sem reconhecer a doutrina do pecado original, todos os desejos humanos começaram a ser vistos como “naturais”. Um dos primeiros a perceber isso, segundo Rushdoony, foi o Marquês de Sade. Depois dele, Max Stirner zombaria dos homens de seu tempo que, rejeitando a existência de Deus, ainda apegavam-se a qualquer ideia de lei moral. Stirner acusava-os de serem “cristãos enrustidos”. A única consequência lógica para a morte de Deus, então, seria a anarquia. Nietzsche percebeu o mesmo e sonhou com o seu super-homem (Übermensch), além do bem e do mal. Para Nietzsche, o cristianismo era o verdadeiro niilismo, que negava ao homem o desejo de “viver”, segundo sua vontade de poder. Novamente, entendam, Nietzsche inicia sua jornada com o desejo de “vida”. Para o cristianismo, a ideia de pecado aprisionava o homem, visto que a felicidade neste mundo configurar-se-ia como uma impossibilidade, devendo, antes, ser esperada somente no próximo mundo. Os reflexos de sua obra estão presentes em todas as artes no sécuo XX: na literatura, na pintura, no cinema e, como diz Rookmaaker, até mesmo no jazz e em seus descendentes musicais. Esse impulso por uma vida acima do bem e do mal enraizou-se na mentalidade ocidental.

L’ÉGALITÉ

A modernidade, como já temos visto, segue a lógica da emancipação. Albert Camus, em O Homem Revoltado, entende que os revolucionários franceses mataram o Rei Luís XVI como uma forma de matar o próprio Deus, porque a autoridade do rei provinha – segundo as doutrinas esposadas – de um direito divino. Luís XVI não era um tirano caricato, mas, nas palavras do mesmo Camus, um homem fraco e bondoso, que tinha o livro Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, como leitura pessoal. O absurdista francês escreveu que “o julgamento do rei é o ponto de partida de nossa história contemporânea. Ele simboliza a dessacralização dessa história e a desencarnação do Deus cristão”. E como cristãos, sabemos que as autoridades instituídas, todas elas, são levantadas por Deus. Matar Deus significa iniciar também uma crise de autoridade. Na perspectiva dos revolucionários, o rei – como o Deus cristão com sua lei sobrenatural – era um usurpador do poder do povo.

A democracia liberal surge, portanto, envolta nessa grande crise de autoridade, na qual Deus foi “morto”. Deus foi sacrificado para que “o povo” ficasse com sua divindade. O igualitarismo radical requer o fim de toda a autoridade, e aquela é a única justiça que o homem sem Deus idealizou. Novamente, voltemos nossos olhos para Adão e Eva no Éden: seu desejo era igualdade com Deus. Adão e Eva precisaram negar a autoridade de Deus em favor de seu desejo por divindade.

Depois da muito justa abolição da escravidão – não pouco impulsionada por pregadores como John Wesley e o próprio Charles Spurgeon, já que ela ia de encontro à lei de Deus, e, afinal, concretizada pelo cristão William Wilberforce, na Inglaterra  –, os emancipadores seguiram seu curso contra todas as relações sociais que funcionam com qualquer autoridade: a mulher deve ser emancipada do homem; o jovem, do ancião; o trabalhador, do empregador; e assim por diante. Se não há igualdade absoluta, não há liberdade verdadeira, mas opressão. 

Mas a igualdade absoluta, em si mesma, não passa de uma abstração. O cristianismo, que influenciou o liberalismo original, estabelece, como percebeu Abraham Kuyper, uma igualdade diante de Deus e o regime das leis. Trata-se apenas de um aspecto. No Antigo Testamento, os homens tinham uma quantidade maior de penalidades do que as mulheres em virtude de sua responsabilidade maior. As Escrituras reconhecem a diferença entre os sexos, embora de forma bem diferente do chauvinismo iluminista. A tentativa de igualar homens e mulheres em todos os aspectos acaba tornando-se uma luta contra a própria realidade. E, nesse ponto, a luta revolucionária assume um caráter mais explicitamente herético, deixando à mostra seu ancestral: o gnosticismo.

GNOSTICISMO

Um aspecto que devemos enfatizar na questão do aborto é sua proximidade cada vez maior do gnosticismo. Uma das diferenças entre homens e mulheres está justamente na maternidade. A maternidade impede uma “igualdade radical”: mães têm licença maternidade, acabam tendo que sacrificar tarefas ou estudos para cuidar dos bebês nos primeiros meses ou anos. A busca por “igualdade”, portanto, passa por uma negação da própria biologia, das relações familiares e dos desejos maternais inatos, vistos como inferiores, escravizadores e malignos. Para muitas mulheres, o aborto é uma questão de liberdade: sobre o próprio corpo; sobre o mundo da necessidade (da obrigação maternal) para com o filho e a consequente necessidade do casamento. No fim das contas, a liberdade exigida pelas feministas torna-se uma luta contra a realidade criada por Deus: a realidade é má e a biologia é um fator desfavorável à mulher, como se ambas (a realidade e a biologia) tivessem sido criadas por um deus maligno. As semelhanças dessa mentalidade com o gnosticismo original não são poucas, tampouco são coincidências. Necessariamente, o movimento feminista se lança numa luta por androginia, a fim de retirar das mulheres a identidade materna; e os gnósticos, por seu turno, como vê-se no Evangelho de Tomé, defendiam a androginia como um ideal do asceta e criam num deus andrógino. De semelhante modo, os cátaros, que tinham um forte viés gnóstico, eram avessos à procriação. Portanto, os cristãos estão lidando com um problema, sobretudo, de natureza espiritual.

A associação entre feminismo e gnosticismo está muito além do que a da mera aparência. Os teólogos liberais têm confessadamente buscado fontes gnósticas em sua reinvenção do cristianismo. A teologia feminista por trás da ordenação de mulheres tem colocado os apócrifos como fonte de autoridade e retalhado o Antigo Testamento, também a exemplo dos primeiros gnósticos. 

A luta pela legalização do aborto e por liberdade absoluta nada mais é do que o efeito do pecado original nos nossos tempos. Essa luta é sobretudo uma luta contra Deus e sua Lei. Uma revolta primordial que diz respeito ao que há de mais básico no coração.

CRISTIANISMO E O ABORTO

R. J. Rushdoony, em O Ateísmo da Igreja Primitiva, descreve brevemente sobre a luta dos primeiros cristãos contra o aborto praticado no Império Romano como uma de suas grandes batalhas. “Os cristãos”, diz ele, “criaram o hábito de ir imediatamente aos locais em que os bebês eram abandonados – para serem devorados por cães ferozes, como disse Tertuliano – para recolherem esses recém-nascidos e distribuí-los entre as famílias”. O teólogo afirma ainda que a vitória contra o aborto foi a primeira grande vitória do cristianismo. O aborto era a segunda questão mais importante da igreja, abaixo somente da disputa entre a soberania de Cristo e a soberania do imperador.

Precisamos ter em mente que a legislação que pune o aborto no Ocidente é única na história da humanidade. Rushdoony, em suas aulas, reiterava como todos os povos, embora tivessem algumas proibições à prática, não opunham-se a elas em princípio. Quando os inimigos de Cristo forçam a aprovação de leis pró-aborto, eles estão atacando uma bandeira tipicamente cristã.

AGENDA REVOLUCIONÁRIA

João Calvino disse que o verdadeiro pastor “tem duas vozes: uma para chamar as ovelhas e outra para espantar os lobos devoradores.” O cristão não pode fingir que essas ideias têm se espalhado por todo o Ocidente por acidente. Há uma estrutura comprometida com esse processo. O ministro do Supremo Tribunal Luís Roberto Barroso tem ligações com George Soros, recentemente denunciado por todo o mundo por financiar grupos de esquerda e influenciar políticas de seu interesse. A educação pública tem sido, há muito tempo, a maior arma na difusão da religião do homem caído. Paralelamente, as artes têm servido como ponta de lança, ocupando uma esfera onde os cristãos não têm influência, defeito denunciado por Schaeffer e Rookmaaker. Cientistas e médicos como o dr. Drauzio Varela, que por vezes parece mais preocupado em envolver-se com questões éticas do que as que são de sua especialidade, têm sempre apelado ao esquema fato-valordenunciado por Nancy Pearcey, em A Verdade Absoluta. Eles julgam-se mais neutros, cobram-nos autoridade, mas quando dizem que o aborto é questão de “saúde pública”, ou que o aborto deve ser legalizado para o “bem” das mulheres que abortam clandestinamente, além de incorrerem em falácias grosseiríssimas, apelam eles mesmos conceitos de bem e mal que sua cosmovisão simplesmente não suporta! Se Deus não existe, não há bem algum em ajudar ou prejudicar quem pratica o aborto. Tal é sua inconsistência e sua falsa piedade!

Os valores religiosos e cristãos são deixados fora do debate como subjetivos, particulares, sem legitimidade nas questões “éticas” dos nossos tempos. E os cristãos historicamente são corresponsáveis por isso – desde que, pela ascensão do pietismo, nos acomodamos na zona de conforto da “tolerância estatal” de nossa própria existência como um departamento de Estado encarregado de criar não bons cristãos, mas cidadãos obedientes ao deus-Estado – por termos abandonado aquela vocação puritana que tanto influenciou os EUA e que até hoje serve como contrapeso aos abusos do estatismo. Nossos países estão secularizados; nossas universidades, humanistas. 

Cornelius Van Til ressaltou a importância de educadores cristãos para enfrentarmos as presunções humanistas e trazer o cristianismo de volta à batalha. O homem ocidental está confuso, perdido por falsos messias, cego para o próprio pecado. Sobre a modernidade, é elucidativo o comentário de Guilherme Groen Van Prinsterer, intelectual e estadista holandês, que influenciou Abraham Kuyper, no livro “Incredulidade e Revolução”, de 1845.

Para podermos medir o peso real da influência fatal deste século [século XVIII], devemos ter presente que o que ele fez foi converter o bem em mal. Me refiro a seu programa em favor da 'justiça', da 'liberdade', da 'tolerância', da 'humanidade' e da 'moralidade'. A princípio esta era se vestiu com estas ideias, assim como Satanás pode se disfarçar de anjo de luz. Estas ideias não foram cultivadas em seu próprio campo, mas em terreno cristão. Uma vez que a ortodoxia não foi capaz de preservar sua rica herança, caiu nas mãos dos filósofos, e o que eles fizeram com ela? Apesar de toda a jactância deles, estes tesouros arruinaram-se sob sua administração, coisa que não deve assombrar-nos. Querer reter as conclusões, abandonando as primeiras premissas; reter as águas enquanto tapam a fonte. Querer desfrutar da sombra, enquanto cortam os galhos da árvore. É de esperar-se que plantas que cresceram às margens da correnteza do evangelho se sequem se as transplantarmos para a terra seca. Pior ainda, em um terreno venenoso como o do ateísmo, as plantas se converteram em vegetais que, embaixo de suas cores brilhantes e doces fragrâncias, escondem toxinas mortais. As ideias de liberdade, tolerância, etc. – palavras mágicas que o homem pensou resumir como cume da sabedoria e da felicidade – foram destruídas, desmoronando como meras palavras. De tal forma que não apenas não se cumpriram as promessas, mas que ocorreu exatamente o contrário. A injustiça suplantou a justiça; a coerção, a liberdade; a perseguição, tolerância; a barbárie, a humanidade; e a decadência, a moralidade.

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Autor: Antonio Vitor
Divulgação: Bereianos

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