sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Podemos Perder a Salvação em Cristo?

Hebreus 6.4-8


Uma pessoa me perguntou se Hebreus 6.4-6 anularia a possibilidade de algum ex-cristão arrependido voltar a trilhar os caminhos do Senhor? A dúvida era: “A quem este trecho se refere?”. Uma outra questão, que surge com este texto, é a possibilidade de perda da salvação. Certamente já ouvimos muitas pessoas afirmarem que podemos perde-la. Na realidade, alguns chamam a certeza da salvação, “o orgulho dos Crentes”.

Essa noção está presente em algumas denominações de orientação teológica arminiana. Vários valorizam a manutenção de uma insegurança por “necessidade de preservar a vida cristã”.  Em meu entendimento, e assim ensina a teologia da Reforma, isso representa uma falta de compreensão do que a Bíblia ensina sobre a doutrina da salvação. No entanto, alguns reformados se surpreendem quando ouvem que a Confissão de Fé de Westminster apresenta a “certeza da salvação” como sendo algo adicional e não essencial à essência da fé real (CFW, Cap. 18, 3 e Catecismo Maior, Perguntas 81 e 172 do Catecismo Maior da CFW). A questão, então, não é se existe ou não “a certeza subjetiva”, ou pessoal, mas se o verdadeiramente salvo pode perder essa salvação. Afinal, um dos pontos principais da teologia bíblica, e da Reforma, é a Perseverança dos Santos.

Textos como Hb 6.4-6 podem nos deixar um pouco confusos, se forem estudados superficialmente, fora do contexto geral da Palavra de Deus. Precisamos, portanto, procurar entender algumas passagens bíblicas que parecem ir em sentido contrário à doutrina da Perseverança dos Santos.

1.     Duas passagens difíceis: Hebreus 6.4-6 e 2 Pedro 2.20-22 são dois trechos de difícil compreensão, mas analisemos cada um deles.

Alguns “provam o dom celestial” e caem, nos diz Hb 6.4-6: (4) É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, (5) e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro,(6) e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.

Alguns “escapam” do mundo, “conhecem”, mas voltam ao erro, nos diz 2 Pe 2.20-22: (20)  Portanto, se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, tornou-se o seu último estado pior que o primeiro. (21) Pois melhor lhes fora nunca tivessem conhecido o caminho da justiça do que, após conhecê-lo, volverem para trás, apartando-se do santo mandamento que lhes fora dado. (22) Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal.

2.     As Exposição de João sobre o assunto – Precisamos estar cientes da exposição sobre a salvação que o apóstolo João faz no capítulo 10.26-28, do seu Evangelho e em suas três cartas universais, antes de abordar estes versos difíceis.

O Espírito Santo moveu João a registrar nesse trecho (João 10.26-28) o fundamento da doutrina da Perseverança dos Santos - “Ninguém as arrebatará”(26) Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. (27) As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. (28) Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Somos seguros nas mãos de Cristo não por nosso próprio poder, mas pelo poder de Deus. Salvação não é apenas um ato de vontade nossa, mas a vontade é um reflexo e resposta à obra de Cristo na Cruz; de sua vitória sobre a morte, na ressurreição; e ao chamado eficaz do Espírito Santo em nossos corações.

Na sua primeira carta, João deixa claro que existem pessoas agregadas ao povo de Deus, mas que nunca fizeram parte dos verdadeiramente salvos pelo poder de Cristo. “Saíram de nós, mas não eram dos nossos”, diz ele. Em 1 João 2.18-20, temos(18) Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também, agora, muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora. (19) Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos. (20) E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento.

Em sua segunda carta João fala daqueles que não se prendem à doutrina de Cristo. Ele se referia à pessoa que “ultrapassa a doutrina” e diz que esse não tem Deus. Em 2 Jo 9, ele escreve: Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho. Entendemos que esse “ultrapassar” é o mesmo curso abordado por Paulo em Gálatas 1.8. Significa “ir além”, pregar um “outro evangelho”. A esses Paulo reserva palavras duras. Mesmo estando no meio do Povo de Deus, Paulo alerta seus leitores contra eles, e conclui que qualquer um que “...vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema”. Ou seja, seja amaldiçoado aquele que ultrapassa a doutrina.

Na terceira carta, João chama atenção para o fato de que uma vida realmente transformada, realmente salva, não permanece no pecado. Aqueles que dizem ser salvos, mas não demonstram transformação de vida (e, infelizmente, sempre existem esses no meio do Povo de Deus), nunca viram a Deus. Em 3 João 11, ele fala dessa permanência na prática do mal:  Amado, não imites o que é mau, senão o que é bom. Aquele que pratica o bem procede de Deus; aquele que pratica o mal jamais viu a Deus.

3.     O contexto das passagens difíceis. Mas voltemos às nossas passagens difíceis, agora examinando o contexto imediato no qual elas são encontradas.

Hebreus 6.4-6, não pode ser lido isolado dos versos 7 e 8. Estes versos dizem: (7) Porque a terra que absorve a chuva que freqüentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus;(8) mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.

Vemos nesses dois versos a harmonia do texto em Hebreus, com a parábola do semeador, encontrada em Mateus 13.18-23. O v. 22 é de especial importância. O trecho, em Hebreus, não está falando dos verdadeiramente salvos, mas dos semeados em espinhos. Eles recebem a chuva, igual à que cai na terra fértil, ou seja, “provam o dom”, no sentido de que são participantes das bênçãos, mas são sufocados pelos cuidados do mundo. Muitos aparentam seguir o evangelho; fazem parte dos ajuntamentos e atividades das igrejas; mas o coração não está regenerado. O texto em Hebreus não fala em “perda da salvação”, nem em impossibilidade de um crente cair em pecado e não ter condição de se arrepender, mas daqueles que demonstram, ao longo do tempo, que nunca foram convertidos.

Semelhantemente, 2 Pe 2.20-22, deve ser lido a partir do verso 9. Os que “escapam” do mundo conhecem, mas voltam ao erro, são contrastados com os “piedosos”. O texto de Pedro diz: (9)Porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar sob castigo os injustos, para o dia do juízo; (10) especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas paixões e menosprezam qualquer governo. Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores, (11) ao passo que anjos, embora maiores em força e poder, não proferem contra elas juízo infamante na presença do Senhor. (12) Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente feitos para presa e destruição, falando mal daquilo em que são ignorantes, na sua destruição também hão de ser destruídos, (13) recebendo injustiça por salário da injustiça que praticam. Considerando como prazer a sua luxúria carnal em pleno dia, quais nódoas e deformidades, eles se regalam nas suas próprias mistificações, enquanto banqueteiam junto convosco; (14) tendo os olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado, engodando almas inconstantes, tendo coração exercitado na avareza, filhos malditos; (15) abandonando o reto caminho, se extraviaram, seguindo pelo caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça (16) (recebeu, porém, castigo da sua transgressão, a saber, um mudo animal de carga, falando com voz humana, refreou a insensatez do profeta). (17) Esses tais são como fonte sem água, como névoas impelidas por temporal. Para eles está reservada a negridão das trevas;(18) porquanto, proferindo palavras jactanciosas de vaidade, engodam com paixões carnais, por suas libertinagens, aqueles que estavam prestes a fugir dos que andam no erro, (19) prometendo-lhes liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor.

O trecho claramente fala de ímpios. Eles conheceram o caminho da justiça, porque aderiram fisicamente à igreja, relacionaram-se com o Povo de Deus, ouviram incontáveis exposições da Palavra. No entanto, em seu espírito e em suas obras, nunca experimentaram conversão. Por isso, nos versos 20 a 22, eles são comparados a porcos que voltam ao vômito. Viviam em um clima limpo, eivado de ensinamentos proveitosos à vida. Levam sobre si a condenação de rejeitarem a tudo isso e ao Senhor da Glória.

Conclusão:
A Palavra de Deus deixa claro, em muitas passagens, que somos salvos para sempre. Por isso Paulo ensina em Romanos que Aquele que iniciou a obra em nós é poderoso para completá-la (Filipenses 1.6). Obviamente, isso não é encorajamento para o pecado, mas motivo de ações de graças – somos salvos pelo poder de Deus e preservados por este  mesmo poder, não por nossas frágeis forças.

Os dois trechos que examinamos ainda que difíceis, são entendidos pelas explicações de João e pelo contexto imediato das passagens. Devemos confiar no preservador da nossa salvação e nunca devemos nos abalar ou permitir que dúvidas sejam colocadas em nossa cabeça.


Solano Portela
Fonte: O Tempora, O Mores

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...